Pais por acaso

88 Jacob- Em terra



O som constante das hélices preenchia tudo ao meu redor, mas era a tensão no meu peito que realmente fazia barulho.

A fumaça densa no horizonte misturava-se com as nuvens pesadas que cobriam o céu. Nenhuma torre visível. Nenhum sinal. Nada além de uma imensidão de vegetação fechada. A comunicação com a base tinha caído havia quase vinte minutos, e agora, para piorar, o painel emitia um aviso vermelho — nível crítico de combustível.

Droga.

— Doutor, o que tá acontecendo? — Jason, um dos enfermeiros, perguntou atrás de mim. A voz dele estava tensa, os olhos fixos na maca do paciente entre nós.

— Vamos ter que pousar — respondi, firme. — Não tem mais como seguir.

Meus olhos escaneavam o solo, buscando qualquer abertura, qualquer espaço que fosse maior do que um campo l... mas não havia nada assim. Só árvores, arbustos e rochas.

Até que vi. Uma clareira.

Estreita. Perigosa. Mas era a única chance.

— Segurem-se — avisei, puxando o manche com cuidado. — Vai ser um pouso difícil.

Tentei manter a mão firme, o controle do helicóptero era delicado demais para qualquer erro. O vento forte jogava o aparelho de um lado pro outro. O bico da aeronave balançou e senti o metal vibrar sob os meus pés.

— Vamos lá, vamos lá…

Apertei os dentes, manobrando com precisão, tentando posicionar o helicóptero exatamente no centro da clareira. Mas uma rajada lateral me pegou desprevenido. Uma das hélices laterais bateu no galho de uma árvore grossa.

O impacto foi seco. A estrutura sacudiu com força. Tive apenas segundos para me inclinar, Jason se jogou cobrindo o corpo do paciente com seu próprio e tentando proteger Sophia do lado oposto.

O barulho de vidro estilhaçando cortou o ar. Senti uma ardência quente percorrer o lado direito do meu rosto e uma dor aguda no ombro esquerdo.

O helicóptero parou. Inclinado, mas inteiro.

— Estão bem? — perguntei ofegante, com a voz rouca de fumaça.

Jason assentiu com os olhos arregalados. Sophia estava em choque, mas consciente. O paciente? Ainda com sinais vitais, graças a Deus.

Soltei o cinto, cambaleando enquanto tocava meu rosto. Os dedos voltaram sujos de sangue, e meu ombro gritava de dor. Estilhaços.

Mas estávamos vivos.

— Fiquem comigo — sussurrei. — Vamos sair dessa.

Mesmo com a dor latejando, uma só coisa ocupava minha mente:

Nessie. Serena. Joseph.

Eu precisava voltar pra eles. A qualquer custo.


Não sei quanto tempo caminhamos pela floresta. A única coisa que eu sabia era que não podíamos parar. Cada passo era uma luta contra a dor no ombro, o rosto latejando por causa dos estilhaços, o corpo todo exausto. O paciente ainda respirava, graças a Jason e Ana, que se revezavam comigo para mantê-lo estável em uma maca improvisada.

Finalmente, depois de horas, a vegetação começou a se abrir. Avistamos um trecho de asfalto à frente, a velha SR-18, entre Seattle e North Bend. Do outro lado da estrada, havia uma loja de conveniência com uma placa neon piscando: “OPEN 24 HOURS”.

Meus joelhos quase cederam.

O dono da loja, um homem de meia-idade com cara de poucos amigos e muitas histórias, correu até nós assim que nos viu sair da mata, completamente cobertos de lama e fuligem.

— Meu Deus! O que aconteceu com vocês?

— Queda de helicóptero. Precisamos de socorro... — murmurei, a voz rouca.

Ele não hesitou. Nos ajudou a entrar, buscou toalhas, ofereceu água e, sem perder tempo, ligou para os serviços de emergência.

Sentei na calçada, encostado na parede da loja. Meu braço latejava. O som das sirenes se aproximando parecia um alívio distante.

Quando os veículos finalmente chegaram, me senti desabar de vez. Uma ambulância parou bruscamente, e de dentro dela saltou um rosto conhecido. Seth.

— Pai! — ele correu até mim, os olhos arregalados, a respiração ofegante.

— Seth... — sussurrei, com um pequeno sorriso. — Você tá aqui...

Ele ajoelhou na minha frente, me examinando de cima a baixo, quase sem acreditar.

— Meu Deus... você tá vivo...

— Tô aqui, filho... Tô inteiro, mais ou menos — tentei brincar, mas a dor me fez estremecer. — E a Nessie? Onde ela tá?

Seth desviou o olhar por um instante, respirando fundo antes de responder:

— Ela tá desesperada, pai. Quando soube que o helicóptero caiu... ela quase não aguentou.

Fechei os olhos por um momento, sentindo meu peito apertar.

— Preciso falar com ela... preciso ver ela...

— Vamos te levar pro hospital primeiro. Depois você fala com ela, tá bom? Ela só precisa saber que você tá bem.

Assenti com um leve movimento da cabeça.

Os paramédicos se aproximaram e começaram os primeiros socorros. Imobilizaram meu braço, limparam os ferimentos no rosto e me colocaram com cuidado na ambulância. Enquanto o motor roncava e a sirene ganhava força, me deitei na maca, com os olhos presos ao teto.

Eu só queria chegar logo...

Só queria ver Renesmee e meus filhos.

E entender por que, mesmo com o corpo salvo... o coração ainda estava em pedaços.


A ambulância mal parou e já havia uma multidão de repórteres na entrada do hospital. Flashes, vozes gritando meu nome, perguntas sendo atiradas como pedras:

— Dr. Black, o que aconteceu no helicóptero?

— Você salvou os pacientes?

— Como está se sentindo?

O som das câmeras estalava como tiros em meus ouvidos. Tudo o que eu queria era silêncio. Paz. E ver o rosto da minha mulher.

Fui levado direto para a emergência, os profissionais me guiando com firmeza pelos corredores. O hospital estava lotado. Alguns olhavam para mim com admiração, outros com pena. Eu apenas olhava para frente, tentando manter a mente longe da dor no ombro e da ardência no rosto.

Depois de exames rápidos, limpeza dos ferimentos e um curativo no supercílio, fui transferido para uma enfermaria mais tranquila. Me sentei na maca, com o braço enfaixado e a cabeça latejando. Fechei os olhos por alguns segundos, respirando fundo.

Foi quando a porta se abriu e Seth entrou, vestindo seu jaleco com o crachá pendurado e uma prancheta nas mãos.

— Sr. Jacob Black... — disse ele, com um sorriso contido no canto da boca. — Diagnóstico: luxação no ombro esquerdo, três escoriações leves, e teimosia crônica.

Ri baixinho e balancei a cabeça.

— Orgulho do pai. Você tá mandando bem, doc.

Ele sorriu de verdade dessa vez, mas não disse nada. Apenas se aproximou, conferiu meu curativo como se fosse um médico experiente — e de certa forma, já era.

— Preciso ligar pra Nessie... ela deve estar fora de si.

Antes que pudesse alcançar meu celular, a porta se abriu novamente. Dessa vez, com passos firmes e um semblante sério, Carlisle entrou na enfermaria. Vestia o jaleco branco, mas o olhar dele era o de um pai que acabara de reencontrar um filho.

— Jacob... — disse ele, com alívio. — Graças a Deus você está bem.

— Doutor... — tentei me levantar, mas ele fez um gesto com a mão.

— Fica sentado. Já deu trabalho demais por hoje. — Seu tom era calmo, porém firme. Ele se aproximou e colocou a mão em meu ombro bom. — Você deu um susto em todos nós. Mas também foi um herói, Jacob. A equipe que estava com você falou o tempo todo do sangue frio, da precisão... do sacrifício. Você salvou vidas hoje.

Baixei a cabeça, tentando não me emocionar. Eu só fiz o que tinha que ser feito.

— E Nessie? — perguntei, sentindo um aperto no peito. — Eu preciso vê-la.

Carlisle hesitou. Seth baixou o olhar. O silêncio durou segundos que pareceram horas.

— Jacob... — Carlisle finalmente disse, se sentando à beira da maca. — Tem algo que você precisa saber.

Meu corpo enrijeceu.

—Enquato estava no helicóptero... houve uma movimentação. Elizabeth apareceu. E... ela sequestrou a Serena e o Joseph.

Senti o chão desaparecer. Minha respiração falhou.

— O... o quê? — minha voz saiu rouca, sufocada. — Não... isso não...

— Ela usou o carro da Leah Clearwater. Molly e Anna foram rendidas. Leah foi encontrada desacordada, está no hospital agora. Mas as crianças... ainda não temos notícias. A polícia está mobilizada. Todos estamos.

Meu coração batia descompassado. A dor no ombro virou nada comparado à que explodia dentro de mim.

— Meu Deus... — sussurrei. — A Serena... o Joseph... a Nessie...

Carlisle segurou meu braço com firmeza.

— Vamos trazê-los de volta, Jacob. E você precisa estar forte. Ela precisa de você. Todos nós precisamos.

Fechei os olhos. E pela primeira vez, desde que saí daquela floresta... me permiti chorar.


A casa de Carlisle nunca pareceu tão distante quanto naquele trajeto. Cada curva do carro me trazia à tona a imagem da Serena... do Joseph. O choro da Nessie ecoava na minha mente mesmo sem tê-lo escutado. O mundo parecia pesado demais.

Quando desci do carro, o coração disparou. A porta da frente se abriu antes mesmo que eu pudesse bater.

— Jake! — Bella correu até mim como uma avalanche de emoção. Me abraçou forte, os braços trêmulos em volta do meu pescoço. — Meu Deus, você está vivo... você está aqui...

Senti seu choro se desfazer contra meu ombro e apenas retribuí o abraço com o braço bom.

Edward veio logo atrás. O vi respirar fundo antes de me puxar para um abraço apertado, como se dissesse sem palavras que tudo poderia ter sido diferente — e que ele estava aliviado por não ser.

— Você deu um susto em todo mundo, irmão. — ele murmurou.

Esme surgiu ao lado deles com os olhos marejados. Ela acariciou meu rosto, com aquele jeito maternal que sempre teve.

— Você é parte da nossa família, Jacob. Não desapareça mais assim.

Assenti, engolindo em seco. Meus olhos vasculharam a casa até se fixarem nos uniformes azul-marinho dos policiais. Havia tensão no ar. Papéis espalhados pela mesa. Mapas. Telas com câmeras. Um caos controlado.

— Já encontraram ela? Elizabeth? — perguntei, sentindo meu tom endurecer.

Um dos homens se aproximou e se apresentou:

— Detetive Marcus Allen, senhor Black. Somos da central de operações emergenciais de Seattle. Todas as saídas da cidade foram bloqueadas desde o desaparecimento. Estamos recolhendo as gravações das câmeras de segurança da cidade e de rodovias, além de interrogar qualquer pessoa que tenha passado por postos de gasolina, pedágios, estradas vicinais...

— E até agora?

— Nada concreto ainda, senhor. Mas o tempo está a nosso favor nesse momento.

Balancei a cabeça com um suspiro frustrado. Nada era rápido o suficiente quando se tratava dos meus filhos.

— E a Nessie? — minha voz saiu mais baixa, trêmula. — Onde ela está?

Bella respirou fundo.

— Ela precisou ser sedada... estava em completo desespero. Está no quarto dela desde que recebeu a notícia.

Eu não esperei por mais palavras. Subi as escadas ignorando o cansaço no corpo, a dor latejante no ombro, os pontos na testa. Tudo parecia insignificante perto do que realmente doía.

Empurrei a porta do quarto com delicadeza. Estava escuro, com as cortinas fechadas. O único som era a respiração lenta e profunda dela.

Nessie.

Minha pequena.

Deitada, os cabelos espalhados no travesseiro como uma coroa desfeita. O rosto molhado pelas lágrimas que já havia derramado. Pálida. Vulnerável. Quebrada.

Me aproximei devagar, o chão rangendo sob meus pés. Me sentei ao lado dela na cama e toquei sua mão com a ponta dos dedos. Ela estava quente.

Inclinei-me e encostei os lábios em sua testa.

— Eu voltei, amor... — sussurrei. — E vou trazer nossos filhos de volta. Eu prometo.

Apertei a mão dela com cuidado. E pela primeira vez em horas... respirei fundo. Porque mesmo com a dor, mesmo com o medo... eu estava em casa. E enquanto estivéssemos juntos, havia força.