Pais por acaso

82 Jacob -Deveres


Já se passaram três meses desde o último sinal da Elizabeth. Nenhum rastro, nenhum telefonema, nenhum rumor. E parte de mim ainda permanecia em alerta — como um instinto que não adormece por completo. Mas naquele dia, eu escolhi respirar fundo e aproveitar o momento. Porque era um dia especial.

Serena completava seis meses. Seis meses desde que aquele pedacinho de gente chegou para virar meu mundo do avesso — no melhor dos sentidos. E o pequeno Ethan fazia três meses de vida, trazendo com ele uma calmaria em Seth que eu nunca imaginei ver naquele garoto agitado.

Fizemos uma pequena comemoração no jardim dos Cullen. Esme tinha decorado tudo com flores claras, balões coloridos e uma mesa recheada de quitutes que nem eu resisti beliscar antes da hora. Serena usava um vestidinho florido com uma tiarinha minúscula na cabeça, e Ethan… bem, o molequinho parecia mais esperto a cada dia. Leah, orgulhosa, o carregava de um lado pro outro, e Seth, com uma fralda no ombro, uma mamadeira na mão e um sorriso bobo na cara, parecia finalmente ter entendido o que era ser homem de verdade.

— Você está indo bem, Seth — falei, me aproximando enquanto ele ajeitava o body de Ethan.

— Tentando, né. Ser pai dá mais medo do que enfrentar uma cirurgia pela primeira vez.

— Mas você está fazendo melhor do que eu fiz… no começo, pelo menos.

Ele ergueu os olhos e sorriu daquele jeito sincero.

— Você foi um grande pai, Jake. Do seu jeito meio bruto e atrapalhado, mas foi. E ainda é.

Fiquei em silêncio por um instante antes de puxá-lo para um abraço apertado. Seth havia se tornado um grande homem, sem magoas do passado.

— Obrigado, filho.

Nos afastamos quando ouvimos o riso de Serena vindo do outro lado do jardim. E foi aí que percebi.

Renesmee estava sussurrando algo com Bella e minha irmã Rachel, as três encostadas perto da varanda. Cochichos, risadinhas abafadas. Quando me aproximei, Rachel até tentou disfarçar olhando para o céu. Bella mordeu os lábios e mexeu na xícara de chá como se fosse a coisa mais interessante do mundo. E Nessie… bem, Nessie só sorriu com aquele ar de mistério.

— E aí? O que vocês tanto escondem por aqui? — Perguntei, estreitando os olhos.

— Coisas de mulher — ela respondeu, levantando a sobrancelha com charme.

— Isso não me convence. Aliás, tem umas semanas que você vive saindo de fininho sem dizer para onde vai.

— Uau, agora temos um detetive na casa — ela riu, passando os braços ao redor do meu pescoço.

— Eu sou como um lobo, lembra? Eu farejo segredos.

— E eu sou sua esposa. Sei exatamente como te distrair.

— Falando em esposa, Serena tem 6 meses, você vai retornar à residência em breve e meu pedido nunca foi respondido...

Ela se ergueu na ponta dos pés e me beijou, daquele jeito doce que fazia meus neurônios se desligarem por alguns segundos. Quase funcionou.

— Está fugindo da pergunta — murmurei contra os lábios dela.

Ela riu de novo, me dando um último selinho antes de se afastar.


— Depois a gente conversa. Agora preciso ver nossa princesa, ela está com a Esme e a Sarah.

E saiu, me deixando ali com aquele misto de desconfiança e encanto. Porque, por mais que minha bonequinha fosse cheia de segredos, ela também era cheia de amor. E no fundo… eu sabia que, se tivesse algo importante, ela me contaria. Eventualmente.

Mas até lá… eu manteria os sentidos atentos. Porque quando Renesmee começa a sussurrar com Bella e Rachel… é sinal de que alguma coisa grande está por vir.


Serena já tinha completado sete meses. Sete meses de puro amor, noites mal dormidas e fraldas sem fim. Mas também de sorrisos desdentados, descobertas diárias e aquele sentimento absurdo de que o tempo estava voando.

Para dar conta de tudo — principalmente agora que Renesmee estava voltando a trabalhar em meio período no hospital — decidimos contratar ajuda. Molly, a babá, era uma enfermeira pediátrica experiente, calma, paciente, e com um jeito doce que conquistava qualquer criança. E para o restante da casa, contratamos Ana, uma empregada gentil e discreta, que mantinha o lar em ordem mesmo nos nossos dias mais caóticos.

Naquele dia, eu estava no meio de uma reunião importante com um grupo de médicos. Apresentávamos uma nova proposta para o setor de cirurgias pediátricas e, mesmo gostando do que faziam, alguns deles tinham egos do tamanho de um elefante.

Meu celular vibrou pela terceira vez. Era Molly. Suspirei, pedi licença e atendi, discretamente, enquanto um dos médicos explicava algo sobre os novos equipamentos.

— Sr. Black, desculpe interromper — Molly começou, com a voz contida — mas a senhora Black me ligou vinte vezes nas últimas duas horas. E agora... está me ligando de novo. Posso colocá-la na chamada?

Fechei os olhos por um segundo e tentei não rir. As vezes não eram só as crianças que eram bebês... mas suas mães, às vezes, voltavam a ser.

— Claro, Molly. Coloca, sim.

Segundos depois, a voz da Nessie surgiu, ansiosa e um pouco acelerada:

— Molly? Oi! A Serena dormiu? Ela tomou o suco? E o narizinho dela, ainda tá escorrendo? E a fralda…? —

— Nessie — interrompi com um sorriso no rosto. — Calma, amor. Tá tudo bem, tá? Eu tô aqui.

Houve um silêncio breve e, do outro lado, ouvi ela suspirar.

— Eu sei… é só que eu tô com saudade dela. E você sabe… eu...

— Eu sei, meu amor. — Olhei em volta e notei os colegas me observando e tentando esconder o riso. Levantei uma das mãos, pedindo licença enquanto me retirava da sala. — Molly, pode nos deixar um minutinho?

Molly deu uma risadinha.

— Claro, Sr. Black. Já volto a brincar com a princesa — disse com leveza antes de encerrar a chamada.

Fiquei ali, no corredor, encostado à parede, sorrindo pro celular.

— Você precisa confiar nela, Nessie. A Molly é ótima. Tem anos de experiência e adora a Serena. E a nossa filha está bem, está feliz. Você também precisa respirar um pouco, cuidar de você.


— É que… ninguém cuida como eu — ela murmurou, manhosa.

— Malcriada — brinquei, rindo.

— Te amo, seu chato — Ela respondeu, mais calma agora.

— Também te amo. Agora, respira fundo e vai tomar um café. A Serena vai continuar perfeita quando você voltar para casa, prometo.

A ligação terminou com um sorrisinho tímido da minha parte.

— Problemas em casa? — Ouvi a voz suave da doutora Gabriela Hale, uma das médicas mais respeitadas do nosso quadro.

Me virei, ainda sorrindo.

— Não. Nunca é problema se tratando da Nessie. É só… amor demais.

Ela deu uma risadinha simpática, meneando a cabeça.

— Então espero que seja contagioso. O mundo anda precisando disso.

Concordei, ajeitando o jaleco, e juntos voltamos para a sala de reuniões. Mas, por dentro, meu coração já estava contando os minutos para voltar para casa e ver minha pequena família de novo.




O som das sirenes se intensificava na emergência. O corredor parecia mais apertado, tomado por vozes, passos apressados e o chiado dos aparelhos sendo transportados com urgência. Caminhava entre os enfermeiros e médicos quando ouvi a voz da nova chefe da enfermaria, Lisa Morin, conversando com um residente:

— Precisamos chamar os enfermeiros de folga. Todos. Já.

Parei imediatamente.

— Lisa, o que aconteceu?

Ela se virou para mim, o rosto tenso, os olhos preocupados.

— Acidente em North Bend. Uma van perdeu o controle, bateu num caminhão de transporte de combustível. Começou um incêndio que se alastrou rápido pela floresta. Várias casas atingidas, muitas famílias feridas, algumas ainda presas. Estão trazendo os casos mais graves para cá.

Senti o sangue gelar. North Bend era perto… muito perto do nosso bairro.

— Lisa, me dá um segundo. — Peguei o celular no bolso e disquei imediatamente o número de Molly.

— Senhor Black? — Atendeu, com a voz tensa.

— Molly, quero que você, a Ana e o Joseph peguem as crianças e vão agora mesmo para a casa dos Cullen. Não quero vocês no bairro, ouviu? Houve um acidente sério em North Bend e o incêndio está se espalhando. O ar pode piorar rápido.

— Sim, senhor. Já estamos sentindo a fumaça daqui. Vou sair agora com a Serena. A senhora Renesmee já foi avisada?

— Vou falar com ela agora. Vai com calma, mas não demora. Obrigado, Molly.

Desliguei, e antes mesmo de procurar a Nessie, o nome dela apareceu na tela.

— Jake! — A voz dela tremia. — Acabei de saber do acidente. Tô indo pra casa!

— Amor, calma. Já pedi pra Molly, Ana e Joseph irem para casa dos seus pais. Eles já tão a caminho com as crianças. Serena está bem.

Houve um suspiro audível de alívio do outro lado da linha.

— Graças a Deus… Eu vou pra lá também. Não consigo ficar parada aqui, Jake.

— Tudo bem, mas vai com cuidado, tá? As estradas podem estar bloqueadas. Assim que você chegar lá, me manda uma mensagem.

— Pode deixar. Mas promete que vai se cuidar também. Promete para mim, Jacob.

Sorri, mesmo com o peso da situação.

— Prometo. Vai tranquila, amor. A gente vai se falar logo.

Desliguei e virei-me para voltar à sala da emergência, quando Gabriela apareceu com a prancheta na mão e os olhos mais firmes do que nunca.

— Jacob, temos feridos isolados no alto da trilha de Twin Falls. A ambulância não consegue subir com segurança. Precisamos mandar um médico de helicóptero.

— Eu vou — respondi sem hesitar.

— Tem certeza? É instável. Só um piloto experiente vai subir lá e temos Helicópteros mas todos os pilotos estão no ar. — Gabriela me fitava, séria.

— Eu já pilotei em situações piores, confia em mim. — Peguei o crachá de acesso à ala de transporte aéreo. — Só preciso da autorização certo e dos equipamentos médicas. Me mostra onde.

Ela assentiu e começou a andar ao meu lado, passando os detalhes. A adrenalina já corria no meu sangue, mas o que mais me movia naquele momento era a certeza de que, se eu estivesse do outro lado, alguém como eu cumpriria seu dever.

E isso era tudo o que importava.