Pais por acaso

75 Jacob - Crise Nervosa


Sentar naquela lanchonete do hospital sempre me trazia lembranças. De plantões longos, de conversas rápidas entre uma cirurgia e outra, de cafés frios... e de decisões importantes. Mas, naquela tarde, sentar ali com Olivia parecia mais um respiro. Um daqueles momentos em que a gente tenta desacelerar o coração depois de uma tempestade.

Ela pegou dois cafés, um deles com pouco açúcar, como sempre preferiu, e sentou-se à minha frente.

— Obrigado por vir até aqui comigo — falei, soltando o ar devagar. — Eu precisava... clarear as ideias depois do que aconteceu no corredor.

Olivia me olhou com aquele olhar paciente e maduro que sempre admirei nela. Não era só uma boa médica. Era uma boa mulher. Boa amiga. Boa em ouvir.

— Quer conversar sobre isso? — Ela perguntou.

Assenti e encostei as costas na cadeira, olhando para a xícara de café fumegante.

— Eu nunca falei disso com ninguém aqui. Mas talvez você mereça saber.

Ela apenas aguardou, sem pressão, e então comecei.

— Elizabeth e eu... foi uma única noite. A gente nem era exatamente próximo. Jovens, inconsequentes. Ela engravidou, mas eu não soube. Na época, ela simplesmente sumiu. E quando voltou... já era tarde. Ela tinha dado a criança para a adoção. Disse que foi a melhor decisão que pôde tomar. Eu só descobri a existência do Josh agora, quase quinze anos depois. Ele apareceu... e era meu filho.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, encarando Olivia, esperando alguma reação. Ela apenas assentiu devagar.

— Isso explica muita coisa... inclusive a raiva que ela carrega — disse, pensativa. — Mas Jacob... talvez Elizabeth esteja doente.

Franzi a testa, um frio repentino correndo pela espinha.

— Como assim?

Ela hesitou, os olhos buscando os meus, como se ponderasse se devia ou não me contar. E então disse:

— Eu nunca quis preocupar você. E, naquela época, achei que podia ser um erro ou um acidente. Mas... quando a Renesmee estava na UTI, eu flagrei Elizabeth em atitudes suspeitas. Ela andava pelos corredores sem permissão, ficava tempo demais na sala de equipamentos... uma vez, vi o tubo de oxigênio da Renesmee desconectado. Pensei em relatar, mas... ela alegou que estava tentando ajudar, que foi sem querer. E eu... deixei passar.

O café amargou na minha boca de repente. Um aperto no peito. Medo.

— Você tá dizendo... que a Elizabeth pode ter tentado machucar a Nessie?

— Eu não tenho provas. Mas agora, vendo o comportamento dela, sua instabilidade... eu não consigo mais ignorar o que vi. Jacob, ela precisa de ajuda médica. Psiquiátrica. E você precisa tomar cuidado. Principalmente agora... com Serena.

Meu instinto protetor se acendeu com força. Serena. Minha filha tão pequena... vulnerável. E Nessie... meu amor, que já passou por tanta coisa. Só de imaginar qualquer ameaça à elas... meu sangue ferveu.

— Obrigado por me contar isso — murmurei, com a voz mais grave do que esperava. — Eu juro que vou cuidar disso.

Olivia assentiu, e em seguida olhou o relógio com um pequeno suspiro.

— Eu preciso ir. Viajo amanhã bem cedo e ainda tenho mil coisas pra resolver. Mas... queria te ver antes de ir.


— Ouvi sobre sua promoção — sorri de leve. — Vai fazer falta aqui, doutora. Mas merece cada segundo do que conquistou.

Ela se levantou, e nos abraçamos com carinho. Era um abraço de despedida, mas também de respeito. De amizade verdadeira.

— Cuida da sua família, Jake. E cuida de você também.

— Sempre. Boa sorte, Liv. Vai brilhar onde for.

Vi ela se afastar pelo corredor e desaparecer entre as portas automáticas. Sentei de novo, sem pressa, deixando o silêncio me acompanhar.

Olhei a xícara meio vazia e tomei o restante do café, agora morno.

As palavras de Olivia ecoavam como trovões na minha mente.

Elizabeth. Serena. Renesmee.

Algo estava fora do lugar, e eu precisava fazer algo antes que fosse tarde demais.

Deixei o copo de café sobre a bandeja e saí da lanchonete com o coração mais pesado do que quando entrei. O corredor do hospital estava calmo naquela hora da tarde, mas minha mente parecia barulhenta demais para perceber qualquer silêncio.

Eu sabia o que precisava fazer.

Subi até o último andar e segui direto para o escritório de Carlisle. A porta entreaberta permitia ver seu rosto calmo, atento a um relatório sobre algum paciente. Bati levemente antes de entrar.


— Jacob! — ele sorriu, levantando os olhos. — Que surpresa boa. Senta, por favor.

Fechei a porta atrás de mim e caminhei até uma das cadeiras diante de sua mesa. Respirei fundo, tentando disfarçar o nervosismo, mas Carlisle sempre foi bom em perceber mais do que a gente dizia.

— E então... como está a nossa Serena? — ele perguntou com um brilho nos olhos. — A bisneta mais linda que alguém poderia pedir.

Sorri, mesmo tenso. Só de ouvir o nome dela, meu coração já ficava mais leve.

— Ela tá ótima. Crescendo rápido, sorrindo cada vez mais. Nessie é uma mãe incrível, mesmo cansada. — Passei a mão pela nuca. — Mas, Carlisle... eu não vim só pra falar da Serena.

Seu semblante se tornou mais sério. Ele encostou-se na cadeira e me olhou com atenção.

— O que aconteceu?

Apertei as mãos entre os joelhos, tentando organizar as palavras. Mas não havia muito como suavizar o que eu precisava dizer.

— É sobre a Elizabeth. Eu... acho que ela pode estar representando um risco pra Nessie. E pra Serena também.

Carlisle franziu levemente a testa, mas não disse nada. Me incentivou com o olhar a continuar.

— Olivia me contou algo hoje que me deixou perturbado. Durante o tempo em que a Nessie esteve na UTI... ela viu Elizabeth em situações estranhas. Mexendo em equipamentos, andando onde não deveria. Uma vez, o tubo de oxigênio da Nessie foi desconectado. Ela tentou usar Joseph para atingir Renesmee e nossa relação , os ataques não estão se resumindo a mim.


Carlisle levou a mão ao queixo, pensativo. Seu olhar estava distante, analisando os fatos com a frieza de um médico e o cuidado de um patriarca.

— Jacob, isso é sério. Muito sério. E o que você está me dizendo... tem sinais que não podemos ignorar.

Assenti, firme.

— Eu não vou esperar que algo aconteça. Eu jurei proteger a Nessie e nossa filha. E se Elizabeth estiver instável, precisamos agir.

Ele se levantou da cadeira devagar, caminhando até a janela, os braços cruzados atrás das costas.

— Eu sempre soube que a Elizabeth carregava mágoas, dores antigas. Mas... se ela representa perigo à família, precisamos intervir.

Virou-se de volta para mim.

— Eu vou conversar com Esme. Ela sempre teve uma sensibilidade única para lidar com esse tipo de situação... e talvez, com calma, possamos convencê-la a buscar ajuda. Mas... se ela não aceitar, teremos que tomar providências mais firmes. Pela segurança de todos.

Assenti, sentindo o peso da conversa, mas também um certo alívio por ter alguém como Carlisle ao meu lado.

— Obrigado, Carlisle. Eu não sei o que faria sem vocês.

Ele colocou a mão sobre meu ombro, com aquele olhar calmo que sempre me trouxe confiança.

— Você já faz muito, Jacob. Está sendo um pai extraordinário. E agora, também... um avô. — Sorriu com carinho. — Vamos enfrentar isso juntos.

Saí dali mais firme. O medo ainda estava presente, sim. Mas agora... eu tinha um plano.

Narração de Jacob:


Quando empurrei a porta do apartamento, com as sacolas de fraldas e produtos para bebê balançando em minhas mãos, senti o peso do dia sobre meus ombros. A rotina no hospital, a conversa com Carlisle, tudo ainda martelando na minha cabeça. Mas o que mais me preocupava era a sensação de que alguma coisa estava errada desde o momento que liguei para casa e Bella não parecia tão animada quanto de costume.

Encontrei Bella na sala, balançando Serena no carrinho com um olhar tenso. Quando me viu, soltou um suspiro aliviado.

— Que bom que você chegou — disse rapidamente. — Nessie está no banheiro há quase uma hora... estou começando a ficar preocupada.

Meu coração acelerou no mesmo instante. Larguei as sacolas no chão e fui direto para o quarto. Chamei o nome dela baixinho, bati na porta e, ao ouvir os soluços abafados, entrei.

A cena me partiu o coração.

Ela estava encolhida no canto do boxe, o rosto inchado de tanto chorar, os olhos perdidos. Nem pareceu me ver de imediato. Me aproximei com calma, peguei o roupão pendurado e a envolvi, falando com a voz mais suave que consegui reunir.

— Ei, meu amor... vem cá. Vem pra mim.

Ela não resistiu, só caiu nos meus braços e desabou, o choro vindo em ondas, descontrolado. Peguei-a no colo, sentindo o quanto estava frágil, leve demais. Sentei com ela na cama, mantendo-a protegida, minha camisa encharcada pelas lágrimas dela.

Bella apareceu na porta, os olhos cheios de preocupação.


— O Josh chegou e deixou Serena comigo... ela tá bem. Eu achei melhor vir ajudar você — disse, sentando-se ao nosso lado.

Nessie apenas chorava. Não conseguia falar, não conseguia reagir. Era como se todo o peso do mundo tivesse desabado sobre ela. Bella me olhou, a expressão séria.

— Jacob, isso pode ser uma crise nervosa. O puerpério... os hormônios, a exaustão... tudo misturado. Ela precisa descansar, mas também precisa de apoio.

Assenti e me levantei devagar, deitando Renesmee sobre a cama com cuidado. Bella ficou ao lado dela, segurando sua mão enquanto eu vasculhava a gaveta de remédios no banheiro. Peguei um calmante leve, o mesmo que Olivia havia deixado recomendado, caso fosse necessário.

Voltei com um copo d'água e Bella me ajudou a fazer Renesmee tomar o comprimido. Ela ainda soluçava baixinho, mas seus olhos começaram a pesar.

Me sentei ao lado dela, acariciando seu cabelo com delicadeza, e sussurrei:

— Eu tô aqui, meu amor. Vai ficar tudo bem. Você não está sozinha.

Com o tempo, o corpo dela relaxou, o choro cessou e ela adormeceu aos poucos, os dedos ainda entrelaçados aos meus.

Fiquei ali em silêncio, observando seu rosto tranquilo enquanto dormia, e pensei em tudo que estava por vir. Eu precisava ser mais do que marido e pai. Eu precisava ser o chão dela quando tudo parecesse ruir.

E por ela, eu seria.

E mais do que nunca, eu precisava proteger o que mais amava neste mundo.