Painting With Love
1 Capítulo Único
Para as outras pessoas, Rachel era uma artista. Seus quadros expressavam sentimentos. Suas músicas tocavam a alma. Rachel era desse tipo de artista que fazia arte de verdade, e não só jogava tinta na tela ou escrevia palavras aleatórias numa folha. Sua tinta era a alma.
Mas seus pais não viam-na como uma artista, mas sim como uma louca compulsiva por tinta.
Seu pai não apoiava a ideia de internar a filha, mas um dia ela resolveu "brincar com fogo" e ele concluiu que a internação era necessária.
— Eu não acho que isso seja necessário. Os únicos loucos aqui são vocês dois. – protestou a garota enquanto se despedia dos pais.
— É para o seu bem, querida. – mentiu a mãe. Ela ansiava em se afastar da garota, pois começara a sentir medo da própria filha.
— Iremos nos ver todos os fins de semana, não será tão ruim.
— Não quero ver vocês. Só não queria ficar aqui. Não tem tintas. Nem pincéis. Nem vida. Só loucos cantando.
— Cantando? – indagou sua mãe. Para a senhora, tudo o que se ouvia eram gritos dos esquizofrênico e lunáticos que ficavam na clínica.
— É, cantando. Mas a senhora é normal demais para entender. – falou a garota dando as costas para os pais.
— Onde foi que nós erramos? – perguntou ao marido enquanto a filha se afastava.
Rachel se sentia trancada em uma caixa branca. Tudo era branco. As paredes, o teto, os móveis, as roupas das enfermeiras, tudo. Menos uma pessoa. Aquela pessoa era colorida. Não só fisicamente. Rachel podia sentir que sua alma era pura arte.
Era a manhã do décimo terceiro dia. Rachel acordou cedinho para poder admirar a luz dourada que o sol lançava sobre o chão branco do quarto. Aproximou-se da janela, na esperança de que pudesse pegar um pouco daquela luz, um pouco daquela cor.
— Você não pode pegar o sol. — falou sua colega de quarto, a garota-cor.
— Mas posso senti-lo. Venha até aqui.
A garota se levantou e foi até Rachel, mas fora do alcance da luz do sol.
— Dê sua mão.
A garota-cor assim o fez e pode sentir o calor aquecer sua mão. Rachel foi puxando-a cada vez mais, até que somente um de seus braços ainda estivesse nas sombras.
— Por que você gosta tanto da luz?
— Porque tem cor.
— Hematomas contam como cor?
— Contam.
— Então eu tenho cor.
— Mesmo sem os hematomas, você ainda teria cor. A escuridão de seus cabelos é diferente da do seus olhos. Quando estão na luz, são diferentes também. E tem tinta dentro de você também.
— Meu sangue?
— Sua alma.
As duas se calaram por um tempo, pensando sobre o que haviam conversado. Depois de um tempo, a garota perguntou:
— A alma pode ser usada como tinta?
Rachel pensou por um instante, era uma pergunta complexa.
— Pode. Os quadros mais bonitos são os que são pintados com tinta da alma. A tinta vem da alma quando pintamos nossos sentimentos.
— Como quando choramos ao ouvir alguma música, mesmo quando não sabemos a letra. É porque a ouvimos com a alma, não é?
— Exatamente isso. Sinto falta de pintar... Posso pintar você?
— Mas não temos papel e nem lápis.
— Você será a minha tela.
As duas saíram do quarto e foram para o pátio, que era rodeado de flores, a única cor daquele lugar.
— Sente-se ao sol. Vou pegar algumas flores.
— Posso pegar também?
— Claro, as flores são suas também. Mas pegue apenas as que já caíram.
— Se você usar elas para me pintar, será como um funeral florido, onde eu serei o caixão.
— Não. Será como um registro da existência delas, assim como o brilho das estrelas, que continua existindo mesmo quando elas morrem. Mesmo mortas, as flores iram trazer beleza. Você será onde elas repousaram, mas não um caixão.
— Suas palavras são arte.
— Tudo o que vem da alma é arte.
Assim, elas ajuntaram violetas, rosas vermelhas e rosas, azaleias e outras flores de cores fortes.
— Você gosta de pintar?
— Não sei...
Rachel parou o que estava fazendo e virou o rosto para olhá-la. Como alguém podia não saber se gostava ou não de algo?
— Nunca pintei nada com tinta. Se sobrar, posso pintar também?
— É claro que pode. Acho que deveríamos pintar juntas. O que acha?
— É uma ideia boa. Vamos precisar de mais flores, certo? – Rachel assentiu. Podia sentir os funcionários da clínica vigiando-as, mas não ligava. O que há de errado em pintar?
Várias flores depois, as duas voltaram para o quarto. Só então Rachel percebeu que pouco sabia sobre a garota-cor, não sabia nem sequer o seu nome.
— Por que você veio para cá?
— Eu não sei. Me drogaram tanto que eu esqueci tudo o que aconteceu antes daqui. E você?
— Meus pais me acham louca, por causa do meu vício em tintas. Mas aqui tem uma coisa boa.
— O quê?
— Você. É legal ter alguém tão cheia de cor como você por perto.
A garota-cor desviou o olhar e sorriu timidamente, porém feliz.
— Você tem cara de Reyna. – falou Rachel.
— Por quê?
— Eu não tenho a menor ideia.
Depois de entrarem no quarto, Rachel começou a improvisar a tinta. Em cima do piso, amassou-as até que um líquido colorido se criasse.
— Posso fazer um desenho em você primeiro? – perguntou Reyna.
Rachel assentiu e observou enquanto a outra pegava uma flor ainda inteira, passava um líquido roxo forte sobre a mesma e a pressionava sobre o seu antebraço, deixando a impressão de uma flor. Rachel fez o mesmo em Reyna, só que com tinta vermelha em vez de roxa. E assim continuaram até que toda a área de seus braços, pernas, pescoço, costas e todo o resto de seus corpos estivessem cobertas de flores e cores.
— A partir de hoje, você será o meu jardim. – declarou Reyna.
— E você será a minha borboleta.
— O que acha de pintarmos os lençóis?
— Eu serei o pincel e você será a tinta?
— Exatamente isso.
— Vamos pintar os lençóis!
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