Pai, Estou Gravida De Um Coreano!
7 A barata cascuda
Notas iniciais
– Hei! — Ouvi a voz da Tainara logo atrás de mim e vi sua silhueta quando virei o rosto. — O que o casal de pombinhos esta fazendo ai?
– Eu, tentando dar uma trepada com a sua nova amiga. Mas ela é do tipo difícil! — Cristian brincou. Corei com as palavras dele. — Cadê o bastardo do seu irmão, Tainara?
– Aula de química, Cris. Você sabe que ele quer ser tonar um medico, não? — Ela aproximou-se de nós. Tainara usava rabo de cavalo e um jeans escuro com a blusa do uniforme.
– Sim. Ele já me disse uma vez. — Os dois olharam para mim. — Estou saindo... Vou dar uma caminhada por ai e terminar o meu cigarro. Depois nos vemos, Lívia... Tainara. — Ele passou por mim,e eu pude respira seu perfume masculino. — Bye!
– Você tá ficando com ele? — Tainara fez a pergunta com um ar inocente.
– Eu? — Arregalei os olhos. — Não! Nunca! Jamais!
– Ele é bonito. Sexy. Gostoso. — Ela passou a língua nos lábios com gloss. — Eu adoraria dar umas pegadas nele... Mas não estou habilitada!
– Hum... — Começamos a andar na direção das salas de aula, no segundo piso do edifício.
– Cristian não é somente tudo isso que você vê. A maioria das meninas acham ele bonito, assim como acontece com o Rui e vários outros. Então, para o azar do destino, elas sempre se apaixonam por eles por causa de algo fútil, como o rosto e corpo bonito! Rui é um exemplo clássico disso. Ele sempre ficou com muitas garotas, mas a única que realmente ele gostou fui a Piet... Porém ela é a única garota da escola que não gosta dele. A mesma coisa vai para o Cris...
– Cris gosta de alguém? — Minha curiosidade foi esticada.
– Não que eu saiba. E é por isso que ele vive brincando com os sentimentos das garotas que dizem gostar dele. Elas sempre acham que podem mudar ele... Traze-lo para o mundo delas... Mas Cris esta preso ao um mundo paralelo a esse e se alguém quer fazer parte da vida dele, terá que aceita-lo como ele é. Ninguém pode muda-lo não, mas... Antes até que era possível... Agora é impossível.
– Está dizendo isso por causa das mortes que ocorreram na família dele?
– Você sabe?
– Sim... Ele me contou.
– Então esta ciente que o irmão dele morreu ano passado de câncer, né?
– Não. Isso ele não me falou. Quero dizer o motivo. Apenas mencionou a morte da mãe, o frustrado suicídio do pai, que o irmão morreu...
– Nossa... Ele realmente te contou isso? — Ela fez uma cara estranha. — Cristian tem uma história trágica de vida e foi por isso que ele se apegou a um mundo só dele, para evitar a realidade, sacas?
– Entendo... Ele não quer encara a realidade. É mesmo triste a historia dele.
– Nem tanto. Rui também passou por coisas ruins...- Ela parou de falar.
Entramos na sala de aula. Iria começar o terceiro horário. Era uma sexta- feira quente e abafada. 15h da tarde. Eu e Tainara fizemos dupla para um trabalho que a professora de português havia pedido. O resto da turma se encontrava discutindo sobre o mesmo, vozes e mais vozes se sobressaltavam pela sala.
– Rui é um azarento! — Continuou ela, abrindo o livro na página indicada. — Quando pequeno sufocou, por acidente, o irmãozinho mais novo até a morte e por esse motivo, sua mãe ficou traumatizada... Ela não fala mais com ele!
– Credo! Ele matou o próprio irmão? — Falei um pouco alto, mas ninguém percebeu. Aparentemente.
– Foi um acidente. — Ela tentou defende-lo. — Ele tinha apenas três anos e ao se inclinar sobre o berço do irmão, acabou ficando pendurado, e acidentalmente...
– Não foi culpa dele... — Terminei a frase, sabendo que ela não iria dizer mais nada. Afinal, o que mais poderia ser dito?
– A mãe dele o odeia tanto que falou para o pai do Rui que queria que ele morresse! — Ela olhou para a página do livro enquanto roia a unha. — Por esse motivo Rui veio para o Brasil com o pai... Pena que as coisas não foram tão boas aqui como lá. No ano passado Rui foi acusado de abusar de uma garota.
– Hã? Como?
– Foi tudo uma invenção por parte da garota. — Sussurrou Tainara olhando em volta. — Mas isso afetou, muito, a vida do Rui. Ele precisou sair da escola e todos ficaram contra ele, até mesmo os avós e o pai. Cristian e o meu irmão foram os únicos amigos que permaneceram ao seu lado.
– Essa gente tem telhado de vidro...- Analisei. Era possível que todo mundo tinha desgraças na vida? Ou era apenas azar? — Então é por isso que o Rui ficou falando aquilo para mim? — Deduzi. — Ele estava com medo.
– Aham... Ele tem medo de qualquer coisa, na verdade. Não o culpo... Se eu tivesse o mesmo passado que ele, carregando a culpa da morte do meu irmão e uma acusação de estupro, já teria a muito tempo me suicidado!
– Esses dois têm um passado macabro! — Avistei Rui de longe.
Ele estava sentando ao lado de uma garota da turma chamada Catarina. Era engraçado o modo como ela corava toda vez que ele se aproximava para olhar o livro ou quanto ele esbarrava nela. Ele sempre estava sério, mantinha os olhos no livro e uma serena e empática expressão.
– Acho que eu não devia leva-lo tão a serio. – Divaguei em voz alta.
– Não devia mesmo. Fiquei sabendo o que rolou e sinto que tanto você como ele não tem culpa de nada. Alguém armou para vocês dois. Tenho quase certeza disso. – Sussurrou ela como se fosse uma espiã obsecada por roer unhas.
– Você sabe do que.... Não! Ai meu Deus! Quantas pessoas sabem disso?
– Não se preocupe, Rui apenas contou para Cristian e para o meu irmão. Eu meio que ouvi a conversa sem querer!
– Ótimo! Vai lá saber quantas pessoas não ouviram a conversa "sem querer" também. – Disse desanimada.
– Somente eu! Estava somente Rui, Cristian e o meu irmão em casa. Foi um descuido meu não ter me lembrado que eles estavam em casa estudando para as provas finais.
– Provas finais?
– Ah, você é novata, não é? É que o Rui já está ha dois anos na mesma turma e como ele saiu no ano passado, para voltar a estudar, ele precisou fazer uma avaliação. Nada demais! E Cristian e Douglas foram ajuda-lo.
– Cristian?
– Não o subestime! Apesar de não aparentar, Cristian tem um Q.I relativamente de gênio. – Revelou ela empolgada. — Para se livrar da solidão ele passou a estudar 16 horas por dia quando mais novo e agora é praticamente o garoto mais inteligente da nossa escola. Ele já ganhou várias medalhas das olimpíadas de matemática, física... E no ano passado ele acertou praticamente todas as questões do enem!
– Serio? — Não acreditei nela. — Como é possível?
– Ele realmente queria fugir desse mundo. E os livros eram uma boa opção. Uma porta de escape!
– Uau, nunca iria imaginar.
A professora veio até a nossa mesa. Era uma mulher baixinha, cabelos castanho escuro, trinta e três anos mais ou menos, cintura cheia e seis pequenos. Usava sempre calça colada e regata por causa do calor intenso.
– Lívia, Tainara — Ela olhou ao redor. — Jessica e Rui, você quatro irão ficar com a parte do Realismo no Brasil.
– Que? — Me levantei automaticamente. — Por que?
A professora me olhou com as sobrancelha arqueadas.
– Algum problema? — Ela tinha um olhar assustador agora. Era a autoridade da sala e eu devia respeito a ela. — Rui e Jessica, vocês dois venham para cá imediatamente!
Dois minutos depois Rui e Catarina estavam sentados juntamente comigo e Tainara. Ele nem olhava na minha direção, como se eu fosse invisível ou algo parecido. já Catarina dava-me algumas olhadas assustadoras, como ser ela quisesse me devorar com os olhos. Ela era uma daquelas garotas queimadas de praia com sardas, cabelos cor de petróleo e um corpo tão magro e ossudo quanto de uma modelo de passarela. Eu tentava não olhar muito na direção dela, com um pouco de receio de virar fumaça.
– Então... Rui você quer ficar com qual parte? — Perguntou Tainara com um sorriso simpático. — Tem a introdução, o desenvolvimento e a conclusão!
– Não sei.. — Ele olhou para Catarina, talvez esperando que ela escolhesse, mas em vez de tomar uma atitude a menina ficou com cara de boba e ele suspirou constrangido. — Bem, o nosso tema é muito grande?
– É uma boa pergunta — Tainara sacudiu os ombros tentando alcançar o livro enquanto falava.
– Na verdade — Nem me dei conta de estar falando, até que reparei que Rui estava me observando interessado no que eu iria dizer. Meu coração palpitou um pouco, mas não foi por causa que eu gostava dele. Eu fiquei envergonha, mas mesmo assim continuei. — O realismo no Brasil tem uma passagem breve e um tanto desnecessária ao meus olhos! O Realismo no Brasil ocorreu oficialmente em 1881, com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, com autor Machado de Assis. Mas logo entrou em declínio em 1890 ou coisa parecida! Não me lembro a data certa, eu estudei isso para fazer o vestibular e não sou boa para guardar datas!
Rui ficou impressionado pela minha destemida mini palestra genial sobre o tema. Dei um sorrisinho fajuto e me virei para Tainara. Ela estava me encarando com as sobrancelhas arqueadas.
– Você é uma nerd? — Ela perguntou com uma cara de espanto.
Dei de ombro.
– Mais ou menos. Sempre gostei de estudar. — Bocejei. Senti um pouco de incômodo com a saia que eu usava e percebi que ela estava um pouco apertada demais. Coloquei as mãos por baixo da mesa e tentei desafoga-la, mas não adiantou muito. O elástico da saia que ficava na cintura estava apertado demais, entretanto somente naquele momento eu havia percebido. — Nossa, esta quente aqui, não?
– Verdade. — Quem respondeu foi Rui, naturalmente. — Acho que desligaram o ar condicionado.
– Será que está quebrado? — Tainara perguntou com o lápis tocando a boca, parecendo estar mais preocupada em decidir se o morderia ou não. — Ou estão mantendo-os desligados para poupar energia... – Divagou.
– Por que fariam isso? — Perguntei inocentemente.
– Meu pai não relatou nada disso. — Rui acenou para a professora.
– E o que o seu pai tem haver com os ar condicionados da escola? — Fiquei boiando. Nem havia notado que estava falando com ele normalmente e sem complicações.
– Meu pai é o dono do Colégio — Ele virou-se para mim com um rosto serio. — Você não sabia disso? – Na verdade todos me encaravam. Comecei a ficar nervosa e incomodada.
– Você é filho do diretor? — Espantei-me de imediato.
– Não, Lívia. — Tainara disse, pousando a mão em meu ombro. — Meu pai é o diretor. O pai do Rui é apenas uns dos donos desta instituição!
– Serio mesmo? Ou vocês estão brincado comigo? — Os dois riram de mim e isso me irritou um pouco. – O que foi? hein?
– Você sabe quem eu sou? — Rui perguntou, ainda rindo.
– Você é um asiático. — Respondi. — Mas eu não sabia que seu pai era o dono da escola!
– Não só desta. Meu pai é o terceiro homem mais rico de toda a Coreia do Sul. Ele tem dois Colégios de elite, uma universidade e uma empresa... — Ele me observava curiosamente, como sr eu fosse um bicho estranho. E sinceramente era assim que eu estava me sentindo mesmo. Deslocada. — Você não sabia disso?
– E como eu saberia? Como é possível uma pessoa ser tão rica? Pelas barbas de Merlin, isso sim é nascer com a bunda virada para lua, hein!
Tainara explodiu em risos e Rui se segurou. Catarina me observava como se eu tivesse dito uma besteira sem tamanho. Eu, particularmente me sentia uma palhaça de circo. Porém, algo me chamou atenção naquele momento. Rui não parecia o mesmo idiota de antes. Não que ele tivesse mudado da noite para o dia, mas ali, sentando comigo e com a Tainara, ele parecia uma pessoa diferente daquela que me expulsou do quarto e me tachou de postituta. Sinceramente, a primeira visão que eu tive dele era de um cara arrogante e mesquinho, mas depois de ouvir a história do seu passado, acho que meu coração ficou mole e eu tive ideias novas sobre ele. Mas isso não queria dizer e eu dava razão para ele por ter me humilhado duas vezes. A professora veio até a nossa mesa.
– E ai, já sabem o que irão fazer? — Ela perguntou olhando especialmente para Rui, como se ele fosse um príncipe sentando em um cavalo branco.
– Ainda não chegamos à lugar nenhum — Tainara bufou feito uma hiena.
– Professora, poderia me dizer por que motivo está tão quente? — Rui perguntou com uma postura aristocrata. Ele cruzou os braços. — Poderia ligar o ar condicionado?
Não sei se foi impressão minha ou a professora tinha ficado " abobalhada" com o asiático. Ela deu um sorriso tão radiante que eu fiquei com uma cara de taxo e pensei: " ela está dando em cima dele?" mas ela é uma velha de trinta anos!
– Vou ver o que eu posso fazer, meu.... — Ela olhou para mim e jogou os cabelos sobre o ombro sedutoramente. — Meu querido aluno!
– Por favor, seja rápida — Ele disse apenas, virando-se novamente para a mesa. — Tainara, eu fico com a introdução!
– E eu.. — Catarina mostrou que fazia parte do grupo. — E eu vou ajuda-lo com isso!
– Não, nem sonhando — Tainara bateu as mãos na mesa. — Rui, você vai ficar com a parte do desenvolvimento! Eu sei que você adora escrever e tem vocação para ser jornalista! Já eu aqui, sou péssima com isso!
– Eu poderia ter ajudar. — Falei, olhando para ela.- Sou boa em escrever também!
– Ótimo! Então vai ficar assim: — Tainara era a líder do grupo e todos ouviram o que ela tinha a dizer. — Eu e Catarina ficaremos com a introdução e conclusão! Afinal, sou péssima em pesquisas e pior ainda em fazer texto. No ano passado eu tirei zero na redação do enem! E lembre-se, não foi por erros ortográficos não! — Ela deu um sorrisinho sacana. — E, já que vocês dois são tão bons para escrever, Rui e Lívia irão fazer a desenvolvimento juntos!
Minha garganta ficou seca. Meu silencio não foi por que eu aceitei a ideia, mas sim porque ela me assustava imensamente. Eu precisei de um bom tempo para recompor-me daquele maldito susto. Abrir a boca para contestar, mas Rui foi mais rápido.
– Ok, tudo bem então. — Ele concordou.
– o que? — Murmurei, não entendo por que ele havia aceitado aquilo. Não era ele que vivia me dizendo para manter distância?
– Algum problema? — Rui quis saber.
– É que... você me mandou ficar longe de você...
– Hã? — Tainara olhou para nós dois fingindo-se de desentendida. Ela secou Rui. — Por que você disse isso a ela? Por acaso ela é algum animal venenoso?
– Não exatamente. — Ele respondeu com o tom de voz suave. — Mas no começo eu pensei que ela pudesse ser uma pessoa que estava interessada em me prejudicar e na verdade ainda não estou inteiramente convencido. Então eu dei o meu aviso prévio. — Ele olhou para mim. — Não se preocupe, Cris me contou tudo e já estou ciente que a culpa não foi totalmente sua!
– Cristian... — Ouvir o nome dele ser pronunciado causou-me uma inquietação retórica. — Ele falou sobre mim?
– Sim, até demais. Ele te defendeu. – Disse vago, como se o assunto ainda o irritasse. — Disse que você era uma garota honrada e era para que eu mantesse distancia de você para o meu próprio bem e blá, blá, blá! Mas ele só falou isso por que ameacei mandar você para os confins do inferno! Pelo visto ele gosta de você...
Ele gosta de mim? Acho que eu sorrir sem querer querendo. E também fiquei um pouco vermelha. Respirei fundo, isso era impossível! Cristian não diria aquelas coisas por mim? Diria? Ele mal me conhecia! Só havíamos passado um bocado de tempo juntos por causa dos problemas que aquela confusão toda havia causado, mesmo que eu sempre me sentisse segura ao lado dele. Eu não precisava ter medo de dizer o que eu sentia por medo de magoa-lo, ele sabia fazer-me sentir uma pessoa normal.Além disso tinha a suposta gravidez. Era evidente que ele só estava tentando me proteger, nada demais.
– Hum... Ele não gosta de mim. — Meu desanimo foi mortal. — Ele só esta tentando proteger-me das pessoas maldosas desta escola, por causa da minha situação atual.
– Do que você esta falando? — Tainara me encarou.
Neste instante percebi que uma pessoa se encontrava na porta da sala. Arregalei os olhos quando vi a loira dos meus pesadelos com um teste de gravidez na mão, apontando para mim. Pela primeira vez na minha vida eu senti um desejo assassino em todo o meu corpo. Ela sorria para mim como se dissesse mentalmente " eu sei o que você está escondendo e eu vou contar para todo mundo!". Levantei-me abruptamente da minha carteira e andei em direção a porta com passos apressados. Não dei satisfação da minha saída para a professora, mas eu esperava poder explicar depois. Seja lá o que eu fosse inventar.
Lisa encarou-me com os olhos azuis extrovertidos. Ela sorria.
– Sabe... As vezes as pessoas tentam esconder uma verdade achando que ninguém vai descobri-la. — Lisa parecia calma para o momento. Eu estava só os nervos. — Lívia, é isso que você estava escondendo de nós? — Ela me mostrou o teste de gravide. — Esta com vergonha de ser uma vadia?
– Não sei do que você está falando. — Virei o rosto, com os lábios tremendo. Ela havia mesmo descoberto.
– Não se faça de desentendida. — Ela retirou um papel branco dobrado em quatro parte de dentro do bolso da saia. — Isso aqui prova que você esta grávida, minha querida!
– Onde conseguiu isso? — Era o meu exame de sangue?
– Sou muito amiga da enfermeira da tarde. Troquei o seu exame de sangue por um relógio de dois mil reais. E ela ainda se gabava disso! Gemi de medo. Eu estava literalmente ferrada. Não havia saída para mim. Primeiro o ácido nos cabelos, depois a bolada e agora o meu teste de gravidez. O que mais de ruim poderia acontecer?
– Vou ser direta. — Lisa colocou as mãos na cintura, decidida. — Quero que você suma da escola antes do carnaval!
– Como? E onde eu vou estudar?
– Quem nasceu pobre sabe bem onde é o seu lugar. — Ela encarou-me com um ar de superioridade. — Volte para a sua favela! Vai vender o seu corpo para comprar pão para os seus mais de dez irmãos! Aqui, esse mundo não pertence à você! Na verdade, seres como você nem deviam nascer! Vá embora e crie esse feto longe dos meus olhos, não sou obrigada a dividir o meu oxigênio com você e com essa mini praga que você esta gerando! Mais um futuro bandidinho de merda que vai ser morto aos quinzes anos em uma boca de fumo qualquer!
Senti de imediato uma dor no peito quando terminei de ouvi-la. Eu estava chorando. Eu estava com raiva. Eu queria que aquela criatura chamada Lisa evaporasse da minha frente. Olhei para o chão, as lagrimas descendo pelo meu rosto e me senti um ser inútil naquele exato momento. Lisa tinha conseguido quebrar o que restara em mim.
– Agora você pode voltar para aula. — Ela disse, virando de costas.
– Eu devia matar você. — Uma voz masculina rosnou entre mim e Lisa.
Cristian segurou meu braço com força e me colocou na frente dele. Lisa virou-se para nós dois.
– Cris? — Ela estava surpresa com a presença dele.
– Lisa, Lisa, Lisa. — Ele dizia o nome dela como ser estivesse falando um palavrão. — Você me surpreende a cada dia. Achou mesmo que pegaria a porra de um exame, esfregaria na cara da Lívia e a expulsaria da escola?
– Cris... — Ela parecia não saber o que dizer, mas mesmo assim tentou. — Eu tenho os meus motivos. — Algumas pessoas pararam para olhar o que estava acontecendo.
– Hum... Compreendo a sua situação. — Ele deu uma gargalhada maligna. — E quais são os seus motivos? Hum... Deixe-me pensar: seu pai esta falindo, Rui é um bom partido, você quer ser rica a todo custo e está achando que a Lívia é um problema? Acertei?
– Fale baixo — Ela sussurrou.
– Você é a vadia mais asquerosa que eu já conheci! — Cris apertou bem a mão em volta do meu punho. Ele se virou para mim. — E você? Vai deixar ela dizer o que ela quiser sem revidar?
Fiquei em silencio, cabisbaixa e envergonhada. Eu não estava mais chorando.
– E quanto ao que ela pode fazer contra mim?
– Cristian? – A voz do Rui soou em meus ouvidos como um tambor de escola de samba. — O que está acontecendo?
– Ah, nem te conto. Ou melhor — Cristian deu-me uma piscadela e depois encarou o amigo. — Sua vadia está me azucrinando.
– Hã? — Rui ergueu as sobrancelhas e devolveu um olhar confuso para o amigo. — Você pirou cara?
– Lisa, conte para ele o que descobriu!
– O que? — Gritei desesperada.
– E por que eu diria isso ao Rui? O que ele tem haver? — Lisa parecia não ter noção de quem era o "pai" do meu filho.
– Rui, Lívia está... – Eu precisava de uma solução, urgente. Rui não podia saber disso nem ferrando.
– Uma barata! – Gritei e chutei a parte proibida entre as pernas de Cristian.
Eu calei Cristian. Foi de uma forma bruta e desesperada, mas eu o calei. No momento, eu não tive tempo para pensar se eu estava fazendo a coisa certa ou não. Eu só precisava... Rui não podia saber. Esperava que ele pudesse me perdoar, em breve.
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