Já passava da uma da manhã, quando Enkidu olhou pela ultima vez o relógio acima do edifício do Banco de Brasília. Ele se aconchegou em seus trapos de roupas sujas e arrumou o papelão que usava como colchão quando mais um grupo de jovens abastados passou bem devagar em seu carro importando, provavelmente dado por seu pai sanguessuga do governo, jogando latas de enérgico vazias e uma garrafa de whisky Black Label que se quebrou perto de onde ele estava, os sons de risadas e chacotas ficavam mais distantes a medida que o carro se afastava.

O vento soprava mais forte, ao que tudo indicava iria chover em breve, os outros moradores de rua já estavam dormindo. Nos últimos meses muitos moradores de rua tinham desaparecido, claro que a policia ou o governo nem sabiam de tal fato, esta gente era invisível para a sociedade e em Brasília o estigma era ainda maior.

Enkidu estava mais afastado dos outros, estava em um local mais escuro e isolado perto de uma parada de ônibus, já era a quinta noite que pernoitava ali no mesmo local, esperando o maldito assassino vir busca-lo, era madrugada de sexta para sábado, o dia predileto do malfeitor, provavelmente o dia dele se alimentar.

Um Amarok chegou com farou baixo e som de musica suave, era o protocolo do maldito, que parou o carro perto dele na parada da rua, abaixou a janela, e jogou na parada de ônibus uma pedra de crack e um cachorro quente, igual às ultimas três noites anteriores, ele pegou a droga fingindo uma fissura louca, deixando de propósito a comida no chão. Enkidu tinha praticamente se banhado de cerveja para dar um aspecto mais degradante a sua pessoa e ainda mais agora que uma parte da camisa estava ensanguenta, devido a um corte recente feito pelo vidro de wisk. Os olhos do jovem rapaz fitavam o aspecto maltrapilho e degradante dele, Enkidu não via misericórdia nem amor em seus olhos, apenas fome e uma maldade doentia.

—--Você quer ir para minha casa moço? Tomar um banho e comer algo quente? Tenho um quintal com mato alto e ervas daninhas, você poderia ajudar-me com trabalho amanhã cedo.

—--Humrrum, pode ser... Enkidu balançou a cabeça positivamente enquanto fumava a pedra de crack em uma lata de alumínio.

—--Entra! O jovem rapaz abriu a porta do carona e bateu com a palma da mão no banco do carona.

Enkidu enfiou o rosto dentro do carro, era a primeira vez, que via o jovem rapaz assim de perto, no banco traseiro avistou um homem negro grande, de terno e gravata, ele nunca o tinha visto, mas já o tinha percebido desde a primeira noite, era dele o batimento cardíaco calmo que se percebia dentro do carro, era aparentemente um segurança. O jovem rapaz também vestia terno e gravata, algo mais nobre, bem mais caro que o do lacaio.

Ao entrar no carro, Enkidu fingiu uma cara de espanto quando olhou o segurança, mas se acomodou no banco do carona e bateu a porta do carro. O jovem rapaz não se deu ao trabalho de falar mais nada, apenas ligou o motor novamente, aumentou o som do carro e voltou a dirigir.

O caminho apresentou-se mais longo que o esperado, passando muito do centro e entrando na zona rural do lago oeste. Enkidu fingia está tentando dormir, mas podia ouvir os batimentos do segurança subir aos poucos, o destino estava perto, por isso o nervosismo crescente.

Quando o carro parou, o segurança e o jovem rapaz desceram de imediato, a porta do carona foi aberta pelo segurança que o olhava fixamente.

—--Chegamos! Disse o segurança de forma ríspida. Puxando o convidado do banco do carro.

Enkidu deixou seu corpo solto, e com o puxão foi jogado ao chão.

—-- Ohh calma ai moço. Enkidu se levantou olhando para os lados. O jovem rapaz não estava mais lá, mas ele podia sentir o cheiro do perfume amadeirado que o jovem rapaz usava ainda por perto.

O segurança sacou uma arma, apontou para Enkidu e gritou.

—--Corre desgraçado, corre que eu vou caçar você esta noite.

Em poucos segundo Enkidu sumiu no meio do mato, correndo sem olhar para traz. Enquanto o sorriso doentio do verdadeiro caçador ficava oculto na noite.

Carlos despiu seu terno, enquanto marcava o tempo na mente, a caça estava fugindo, logo o sangue dele estaria repleto de adrenalina o hormônio da luta ou fuga. Para ele, que adorava esportes radicais quando humano, era melhor se alimentar assim, esta era a única maneira de sentir um pouco dos prazeres da vida agora que era um vampiro. O sangue repleto de adrenalina tinha um sabor diferente e lhe causava um prazer semelhante ao que sentia quando se aventurava em vida.

Já se tinham passando uns cinco minutos, era ora da caçada. Carlos correu para a mata, seguindo o cheiro de cerveja da caça, ele percebeu que de inicio a sua caça corria em zigzag, mas após uns minutos começou a correr em linha reta, estava correndo em direção à luz vermelha da torre de transmissão de celular.

Carlos achou graça da ideia de correr para lá, a torre ficava a uns oito quilômetros passando pelo cerrado, seria muito desgastante para um homem drogado e fraco correr esta distância toda no escuro, ele com certeza iria se cansar em breve e tentar se esconder, esta seria a parte mais prazerosa antes do banho de sangue.

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Enkidu jogou a roupa maltrapilha fedorenta perto de uma árvore de pequi, usou seu pacto da lua nova para esconder seu cheio e seus rastros na terra, era hora de conhecer melhor seu caçador e ver a sua verdadeira habilidade.

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O cheiro da caçada estava mais perto, Carlos podia sentir o cheio de cerveja azeda bem próxima, o maldito mendigo era resistente e ele gostava disto, já tinha corrido mais de três quilômetros e agora iria iniciar o jogo de gato e rato. Carlos desacelerou quando o cheiro ficou mais perto, parecia que a caça estava parada perto de uma árvore. Ele fez alguns barulhos propositais para o mendigo ouvir e correr, mas parecia que o maldito já tinha se cansado de vez, nem se moveu. Carlos deu a volta na árvore para ter uma visão mais clara da caça, quando o vento fez a roupa balançar e ficar bem claro que não tinha nada ali mais, a não ser uma roupa velha jogada nos galhos secos caídos da árvore.

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Os olhos de Enkidu estavam focados no vampiro perto da árvore, o vampiro procurava ao redor, virando o rosto e fungando o vento tentado captar o rastro da sua caça, mas ele estava muito distante e imóvel para ser notado pelo seu caçador. Agora a próxima jogada seria do caçador, ele queria ver que truque ele iria fazer para tentar encontra-lo, que habilidade ele iria queimar para retomar a caçada.

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Carlos puxava o ar com força, mas o cheio da caça parecia ter desaparecido, o vento estava mais forte, pois uma tempestade estava a caminho, talvez o vento forte tenha mascarado o cheiro ou a caça tenha ficado a favor do vento. Por vias das dúvidas ele iria correr contra o tempo e ficar mais rápido e mais hábil em seguir a caça.

O corpo de Carlos começou a tremer e a pele se rasgar, em poucos segundos estava na forma de um cão do mato, foi até a roupa e cheirou lentamente tentando buscar o cheiro da caça, por traz do cheiro da cerveja, existia outro aroma uma mistura de energético com urina humana e um cheiro quase imperceptível de algum animal que ele não sabia qual. Carlos deu algumas voltas ao redor da árvore tentando captar alguns dos cheiros em algumas das trilhas perdida na mata, mas não encontrou nada. Algo fora do comum estava acontecendo, ele nunca tinha sido enganado antes, jamais tinha perdido a trilha da caça, mas para o azar do mendigo ele sabia outros truques, ele possuía habilidades bem superiores à mera sorte.

Os trapos usados pelo mendigo estavam balançando devido ao vento forte, o cão do mato chegou perto e mastigou o tecido surrado onde existiam respingos de sangue coagulado. Segundos após o gosto de ferrugem inundar a sua boca, ele pôde sentir a direção tomada pela caça, ainda correndo em direção à torre, não mais que duzentos metros.

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No momento que o rapaz tomou a forma de um cão do mato, Enkidu soube qual tipo de vampiro estava enfrentando, o pior tipo para se enfrentar sozinho no meio da mata, um Voluntas. Na verdade tudo dependeria do quão antigo o vampiro seria, então seria melhor tomar cuidado e averiguar se o seu caçador era um novato ou um vampiro experiente.

Quando Carlos chegou perto dos trapos, Enkidu já estava na forma de lobo, um lobo um tanto diferente com pernas longas e pelagem dourada com vermelho, um lobo guará. No mesmo instante que o vampiro virou a cabeça em sua direção ele sabia que estava novamente no radar do caçador.

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Carlos sentiu a caça correr ainda mais rápido em direção a torre, a distância entre eles nos últimos minutos caiu para cento e cinquenta metros, mesmo podendo enxergar no escuro, ele não o tinha visto nem uma vez. Carlos acelerou, iria correr por uma trilha paralela até ficar a frente da caça e volta para a trilha original quando tivesse na dianteira e pega-lo de frente.

Em pouco tempo Carlos sentiu o ritmo da caça desacelerar, ele já estava com uma folga de setenta metros na frente quando decidiu que era hora de voltar para a trilha original, o trajeto foi tranquilo o cerrado estava baixo devido a uma queimada recente e a visão estava limpa. Quando retornou para trilha original ainda podia sentir que a caça estava correndo por ali. Ele visualizou uma curva acentuada na frente, aquele seria o ponto ideal para emboscar. Ao fazer a curva ele parou bruscamente e se virou para onde o outro apareceria em alguns segundos, tentou ouvir os passos da caça chegando, mas não ouvia nada além do vento.

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Enkidu ouvia o som dos calangos correndo a medida que suas patas batiam de leve no chão, ele tinha perdido o vampiro quando este saiu da trilha principal. E estava sem tempo para fazer uma pausa na corrida e tentar localizar o seu caçador, então o máximo que ele poderia fazer era ficar atento para algum ardil. Quando mais a frente da trilha avistou uma curva mais acentuada escondida por árvores maiores que não foram pegas na queimada, ele sabia que poderia parar, pois seria o local ideal para descansar e tentar localizar o caçador por outros meios.

Quando acabara de fazer a curva, Enkidu deu de cara com os olhos vermelhos no meio da trilha, não tinha tempo para parar, o caçador já estava no meio do bote, ele apenas jogou o corpo de lado para tentar minimizar o dano.

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O impacto jogou o lobo fora da trilha, Carlos lambeu as garras com o sangue fresco da Besta. Homens lobos eram raros nos Brasil, ele não esperava se deparar com um naquela noite. Sempre fora cuidadoso para não arrumar encrenca com este tipo de criatura, sempre evitava caçar pessoas com cheiro de felinos ou serpentes, os tipos de Bestas mais comuns na América do Sul, mas agora ele já estava na caçada e não tinha como voltar atrás, tanto ele quanto o lobo sabiam que estavam lutando pela vida e a noite não findaria com os dois vivos, a história de alguém terminaria ali no meio do cerrado.

Carlos sentiu o lobo parar a dezenas de metros fora da trilha, e resolveu aproveitar a inercia do lobo para reavaliar a situação. O cerrado agora não era mais uma vantagem para ele, mas a noite de lua quase cheia era um fator a seu favor, estava claro o suficiente para usar alguns truques com sombras que ele dominava bem, existia outro fator, o lobo parecia apreensivo, o que demostrava uma dúvida mútua sobre até onde iria à habilidade do outro, ele tinha um lacaio armado no carro e uma arma de prata no porta luvas, ele teria que aproveitar a vantagem do número. Carlos deu as costas disparou rumo ao carro, ele iria lutar com todas as vantagens na mesa.

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Enkidu estava na forma de homem, caso o vampiro tentasse uma luta corporal ele preferiria uma postura bípede. O ferimento no ombro estava profundo onde a garra tinha dilacerado a carne, mas o sangue já tinha estancado e a regeneração iria levar poucos minutos para curar a ferida. Enkidu percebeu que o vampiro tinha parado a caçada, isto mostrava que ele não se sentia seguro em concluir o abate, agora que o vampiro sabia que estava caçando uma Besta, era mais prudente parar e reavaliar a situação. Então era hora de tomar o controle da situação e ir logo para casa, se o vampiro fosse antigo ou experiente ele aproveitaria a vantagem de ter ferido uma Besta primeiro e tentaria um abate rápido, mas o refugo demonstrava insegurança e imaturidade.

O corpo humano de Enkidu em poucos segundos ganhou mais massa, pelos e garras, ele que tinha cerca de um metro e setenta centímetros, agora era uma massa de músculos e pelos de quase dois metros e vinte centímetros, a cabeça como de um lobo gigante e um corpo bípede que parecia uma maquina de guerra projetada para perfurar, rasgar e matar. Em poucos segundos a Besta na sua forma Gigas sumiu no meio da escuridão como se nunca tivesse existido.

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Carlos parou quando sentiu algo errado com a localização do lobo, ele voltou para a forma humana, tapou uns dos olhos com a mão, assim ele poderia ver através das sombras, um poder eficiente para observar qualquer coisa em qualquer lugar em um raio de cem metros, o único requisito era ter alguma sombra. O lobo estava em sua forma de batalha, ele corria e pulava longas distâncias. Carlos ainda estava na dianteira, seria melhor usar um pouco do poder do sangue vampírico para melhorar a resposta e a força muscular. Por alguns breves segundos o corpo de Carlos era um borrão cortando o cerrado levantando poeira.

Quando chegou ao carro, observou os faróis ainda ligados iluminando a mata, o seu lacaio em pé perto da porta do motorista.

—--Diego! Tenho problemas! Disse Carlos em seu tom autoritário e urgente.

Diego logo abriu o porta luvas, pegou a arma de fogo municiada com balas de prata e uma adaga de prata com a lâmina em forma de serpente. Jogou a arma para Carlos e ficou com a adaga na mão.

Carlos destravou a arma, colocou a arma em punho apontado para a trilha por onde o lobo vinha, assim que o lobo apareceu a arma disparou três vezes, após os disparos o silêncio inquietante e mortal.

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Enkidu, vinha correndo e pulando alternadamente para ganhar terreno mais rápido, do alto ele avistou o vampiro e seu lacaio se preparando para sua chegada, quando seus pés tocaram o chão novamente ele mudou a velocidade de seus passos, a intenção do vampiro era simples e por ser simples demais foi muito fácil de ser lida, o erro foi esperar com a arma em punho para atirar assim que ele aparece no fim da trilha. O tempo de reação de um humano comparado a um vampiro ou uma besta é muito grande, mas entre uma besta e um vampiro o tempo era idêntico, por isto, assim que o fim da trilha chegou ele pulou no chão levantando terra e grama para todos os lados. Quando ouviu os disparos da arma, ele já estava no chão seguro e perto o suficiente para tentar uma investida contra a arma em punho do vampiro. As garras cortaram o ar, zunindo e acabando com o som abafado do metal da arma batendo contra a terra, o golpe era para decepar a mão do maldito vampiro, mas apenas a arma foi pega no golpe e agora ele estaria vulnerável pra um contra ataque.

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Após os disparos, Carlos sentiu um punhado de terra bater em seu corpo, foi o suficiente para fazê-lo pular para trás para tentar entender melhor o que estava acontecendo, foi quando sentiu uma dor profunda e cortante em sua mão, a arma tinha sido jogada para longe e um dos seus dedos tinha quebrado com o impacto da investida do lobo. Ele ainda no ar conseguiu ver quando o maldito lobo parou onde ele estava a meio segundo atrás, se não tivesse pulado momentos antes o maldito teria conseguido chegar a até ele.

Quando os pés tocaram o chão Carlos apenas girou o corpo para dar mais força no chute que acertou em cheio o peito do lobo que foi arremessado para o lado. Não dava para dar outro golpe, ele tinha que pegar a arma de prata com Diogo para dar fim à peleja.

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Assim que bateu no chão Enkidu, sabia que tinha quebrado algumas costelas, ele sentiu quando o chute do vampiro afundou em seus ossos, quando respirava sentia o gosto de sangue passar pela boca e descer pela garganta. O vampiro burguês sabia lutar. Mas que saco! Pensou ao pular para trás e ver o segurança jogar a adaga de prata para o vampiro.

Ele poderia forçar um combate corporal, mas a desvantagem de está dois contra um iria pesar muito no fim, o segurança era com certeza um lacaio vampírico, com mais força, velocidade e resistência física que um humano comum, a arma de fogo ainda estava funcionando e poderia ser um problema caso a luta corpo a corpo se estendesse demais, a opção mais sensata seria tirar o lacaio da luta o mais rápido e se livrar da arma de fogo.

Enkidu se embrenhou novamente no mato, o vampiro estava mais perto dele que o lacaio. O Segurança estava afrente dos faróis ligados do carro, fazendo uma grande sombra que se estendia metros a sua frente e Enkidu iria aproveitar que ele estava se abaixando para pegar a arma e acabar com as duas vantagens do vampiro.

À distância até o lacaio estava cerca de uns dez metros o suficiente para usar os Passos das Sombras. Enkidu pulou na sombra de uma árvore logo a sua frente, e saiu na sombra projetada pelo lacaio. Em um piscar de olhos suas garras estavam cravadas no peito do homem. Assim que retirou suas garras, pegou a arma do chão a quebrou e e a jogou para longe no meio do mato, distante o suficiente para tira-la do confronto que estava por vir.

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Carlos foi atrás do lobo depois dele ser jogado para dentro do mato após o golpe, o ferimento causado pelo chute foi forte o suficiente para quebrar alguns ossos, mas não pararia o lobo, em breve ele estaria curado da mesma forma que seu dedo quebrado já estava.

Carlos virou a cabeça assim que sentiu o lobo se mover de forma estranha, num instante ele o estava sentido no mato e no outro ele já estava na frente do carro. Diego estava prostrado com as mãos no peito enquanto o sangue escorria pelos ferimentos. Carlos se apressou em chegar até ele, o lobo corria novamente mata adentro.

O ferimento de Diego era mortal, não havia maneira de estancar, Carlos apenas aceitou a situação e se aproveitou para dar cabo da vida do homem, o puxou para longe da luz e se alimentou dele até saciar a fome. O lobo o espreitava do mato, ele o podia sentir, mais alguns movimentos e a luta terminaria para alguém.

Carlos andou lentamente até a frente do carro, seu corpo fazia uma sombra gigante. Ele já tinha descoberto como o lobo fazia o truque, ele pulava em uma sombra e saia em outra, a distância percorrida não poderia ser maior que uns quinze metros, talvez menos, ele o viu chegar mais perto do lacaio para usar o truque e a sua observação tinha uma margem de segurança.

—-- Vou esperar você aqui. Ainda tenho mais três horas antes do sol nascer.

Carlos segurou a adaga com mais força olhando atentamente para a sombra a sua frente, ele podia sentir o lobo chegando mais perto.

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Enkidu já estava se sentido melhor, as dores ao puxar o ar para dentro dos pulmões já tinham diminuído consideravelmente. Mas o fadiga de usar os poderes já estavam o deixando mais lento. E para piorar a o vampiro tinha acabado de se alimentar. Ele chegou mais perto para observa melhor o que Carlos estava fazendo. O vampiro estava na frente do veiculo fazendo uma sombra enorme e falando bobagens, praticamente o estava convidando para tomar a iniciativa e atacar.

Existiam duas sombras a sua disposição, a própria sombra de Carlos, e a sombra de um pequeno arbusto um pouco mais a direita do vampiro, que dava um bom ângulo para as costas do maldito. Ele iria usar a sombra do arbusto, um ataque igual ao anterior seria abusar da falta de atenção do vampiro, que o esperava com a adaga em punho e com certeza preparado para um ataque vindo de sua própria sombra.

Em um breve movimento Enkidu afundou nas sombras.

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Assim como um relâmpago que corta o céu do oriente ao ocidente em um breve instante, assim foi à reação de Carlos que após sentir o deslocamento do lobo, usou o poder de seu sangue para pular o mais alto possível. Desde o inicio o seu foco não era a própria sombra, pois um ataque vindo de frente igual ao anterior seria uma jogada temerária e idiota para um lobo que já tinha demonstrado ter mais experiência.

A adaga cortava a noite, lançada assim que ele avistou seu oponente saindo das sombras de um arbusto, um lançamento certeiro e mortal.

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Enkidu sentiu um frio na espinha quando percebeu o vampiro pular e girar no ar assim que ele saiu das sombras, os olhos vermelhos e obstinados do seu alvo dava um recado claro. Se ele cometesse mais algum erro de julgamento o jogo poderia virar.

Ele observou a adaga sendo lançada em sua direção, era certo que pelo ângulo de onde o vampiro estava à tentativa foi em vão, erraria por muito. De repente a mente de Enkidu deu um estalo. O alvo da adaga não era ele, o maldito fez uma aposta quando adivinhou por onde viria e apostou tudo em uma jogada sagaz, o alvo era a sombra.

O dor percorreu o corpo todo, mas seu ombro queimava com o corte profundo da prata, o vampiro tinha acabado de usar o corte das sombras, uma habilidade extremamente perigosa e irritante, a dor era como ferro quente na carne viva, algo exageradamente dolorido. Mas em poucos segundo a batalha iria terminar.

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Carlos ainda esboçou um sorriso quando viu a dúvida nos olhos do lobo, por um instante ele tinha a vitória nas mãos, mas como que um capricho do destino, tinha batido de frente com alguém que conhecia seus truques, o maldito lobo sabia de tudo de que ele era capaz e o desconhecimento do inimigo era uma desvantagem enorme para ser tirada em poucas horas.

Assim que o lobo virou o corpo a sombra também mudou de posição, o local onde antes estava a sombra da cabeça, agora era um ombro, a adaga fincou no chão no mesmo momento que um talho se abriu no ombro do lobo.

Carlos apenas fechou os olhos quando viu o maldito dar mais alguns passos e pular. Depois disto apenas a dor de ossos sendo quebrados por presas e sua carne sendo rasgas por garras.

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O corpo do vampiro estava no chão e imóvel, mas o processo regenerativo estava fechando as feridas, enquanto existir sangue no organismo do vampiro o mesmo se regenera, a menos que o ferimento seja muito grande e a hemorragia irreparavel, em breve ele voltaria a consciência. Enkidu quebrou um galho de árvore, fez uma ponta usando o corte das garras e transpassou o coração do vampiro. Ele não morreria, mas não iria recobrar a consciência enquanto a madeira bloqueasse o poder do sangue no coração.

Enkidu jogou o corpo do segurança dentro do carro, usou o celular do mesmo para fazer uma ligação. Era hora de descansar.