Quando Selene arrancou a estaca que estava do peito de Carlos, imediatamente os olhos se abriram e a primeira reação dele foi se debater. As correntes e as cordas logo o fizeram desistir, ele estava no centro de um quarto sem moveis, com três pessoas o encarando, entre elas o lobo, agora com barba feita e roupas novas, ele parecia muito mais jovem, uns trinta anos talvez.

Kazuma foi quem deu as boas vindas. --- Bom dia flor do dia?!

Selene o pegou pelas correntes e o colocou sentando no canto da parede. Todos no quarto se sentaram no chão e encararam Carlos nos olhos.

Carlos estava com medo e com fome, não sabia qual o motivo de lhe terem tirando do sono, mas com certeza não era para pedir desculpas e o levar de volta para casa. Mas aos poucos seu medo foi virando serenidade, a raiva se transformando em conformismo e em poucos minutos ele não queria ir a lugar algum, todo ímpeto ou vontade de fugir foi derretido como gelo ao vento, emocionalmente ele agora era uma casca de ovo fazia e frágil.

Para Selene foi fácil acalmar o vampiro sentando a sua frente, ele tinha consumido seu sangue o que potencializava o poder que ela exercia sobre ele.

—--Você sabe por que está aqui? Perguntou Selene de maneira suave.

—--Não! A Resposta foi rápida e sincera.

—--Você sabe quem somos?

Carlos simplesmente balançou a cabeça em negativa, ele não sabia nem o motivo de sua captura ou quem eram seus captores.

—--Você está aqui por quebrar a lei da fábula. Lembra-se de quebrá-la em algum momento?

Carlos tentou puxar na memória se havia cometido algum deslize ao se alimentar, de ter usado seu poder de maneira a chamar a atenção em público, mas não conseguiu se lembrar de nada. Apenas balançou a cabeça em negativa novamente.

Selene fazia as perguntas e à medida que Carlos puxava as informações na memória ela lia seus pensamentos, ele realmente não sabia de nada. Selene apenas olhou para os outros no quarto confirmando a resposta do homem.

Kazuma então se levantou e saiu, voltou rapidamente com um notebook, abriu em um blog e mostrou o conteúdo a Carlos.

—--Aqui tem uma foto sua, tirada na W3 Norte com uma garota de programa, aqui é uma matéria de jornal com a foto da garota morta. Aqui outra foto sua com um morador de rua, você está lhe dando mantimentos e roupas usadas, novamente outra matéria com a foto do morador de rua morto.

Kazuma mostrou dezenas de fotos que juntas deixavam de ser coincidências e passavam a ser provas. O blog era de um missionário cristão Roberto Costa, um maluco protestante maltrapilho que trabalhava evangelizando prostitutas, moradores de rua e usuários de drogas no centro da cidade.

Kazuma tinha gasto alguns dias andando com ele e seu grupo nos cantos esquecidos de Brasília, o rapaz fazia um trabalho espetacular com os esquecidos, o azar de Carlos é que o missionário conhecia e cuidava destas pessoas esquecidas pela sociedade, como se não fosse o bastante, começou a investigar e por ironia do destino acabou descobrindo o assassino serial dos esquecidos. Começou a escrever no blog sobre seus achados postar fotos e fatos, a coisa foi tomando forma e fama e como fruto do azar e da imaginação humana, teorias de conspiração, vampiros e muita coisa macabra foram surgindo.

Mas o fim da linha foi um vídeo achado no celular de um mochileiro onde dava-se para ver um homem se transformando em animal e se alimentando de uma prostituta. O mochileiro e a prostituta mortos, saíram no jornal como sendo vitimas de um assassino pé de chinelo e que o corpo, após abandonado, foi violado por animais. O problema foi o celular achado por um escoteiro e o vídeo postado na internet, embora tenha sido classificado como falso, o vídeo causou alguns burburinhos na rede e os responsáveis por manter o segredo sobre os seres mysticos mandaram uma equipe para limpar a sujeira.

Após a demonstração de Kazuma, Carlos apenas abaixou a cabeça. Não tinha nada para argumentar, ele tinha cometido alguns deslizes e a lei sobre a fábula era absoluta, ele iria morrer e a bagunça seria limpa pela equipe dos Sentinelas.

—--Você tem algo que ache importante para nos dizer? Perguntou Selene, enquanto Enkidu se levantava e sacava uma enorme faca de caça do cinto.

—--Não!

Enkidu o colocou de joelhos, virado para a porta, enquanto Selene e Kazuma saiam do quarto. Ele olhou para o rosto pensativo de Carlos, todos sem exceção antes de morrer faziam aquela expressão de descrença.

A morte um dia chegava para todos, por mais intocáveis ou poderosos que pareçam, o fim era igual para bestas, nomeadores, vampiros ou humanos. A eminencia do fim era recheado de medo, dúvidas e negação. Da mesma maneira que o machado do algoz subia antes de uma execução a faca de caça de Enkidu subiu e como o cair da noite a lâmina descia para levar todas as dúvidas e medos embora para sempre.

—--Pare!!! Gritou Selene do outro lado da porta.

Enkidu paralisou o movimento a poucos centímetros do pescoço de Carlos. Selene abriu a porta e se deparou com os dois homens olhando para ela. Enkidu com um ar de surpresa e dúvida e Carlos com um misto de medo e alivio.

---A garota vale apena ser salva? A pergunta foi dirigida a Carlos, que apenas sussurrou entre as lágrimas de sangue que escorriam do rosto.

—--Sempre...!!!

O som da porta batendo foi quase que ao mesmo instante do som da cabeça rolando ao chão. Enkidu olhou para mãos fechadas em punho do vampiro.

—--Todos nós morremos com as mãos fechadas em punho, com a vã esperança de segurar qualquer fagulha de vida.

Na sala Kazuma cantava um velho clássico. “Esse é o nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante, e a primeira vez, é sempre a ultima chance...”