Não era nem nove horas da manhã quando Kazuma ouviu Enkidu bater em sua porta, o cara tinha passado o resto da noite se divertindo com a mulher e a ainda tinha energia para acordar cedo, às vezes Kazuma tinha vontade de matar os perturbadores do bom sono.
---Enki!!! Vai dormir cara!
---Para de moleza Kazuma. Nunca vi um Japonês preguiçoso. Vamos!
---Eu não sou Japonês, eu nasci no Brasil. Dá-me mais cinco minutos?
---Beleza, eu vou preparar o café então.
Kazuma era um nomeador, ele não precisava dormir mais que duas horas. Mas dormir era um prazer totalmente humano e uma besta são saberia apreciar a paz de um bom sono em um dia nublado. Quando Kazuma saiu do quarto já passava das nove e meia da manhã. Enkidu estava mexendo no celular com um sorriso maroto, com certeza estava aprontando algo, talvez se preparando para pregar uma peça em alguém que geralmente era um certo amigo meio japonês.
---Que sorriso maroto é este na sua cara cão?
---Nada. Só estava vendo algumas coisas na internet.
---Sei... Kazuma observou bem a cozinha, provou cuidadosamente o café as torradas e o queijo. Aparentemente estava tudo certo.
---O que foi Kazuma? Tá desconfiado de que?
---Nada não... O que nós vamos fazer hoje mesmo?
---Vamos dar uma olhada no André o Líder das Bestas aqui de Brasília. Quero dar um confere no bando dele para saber quantos são e o que fazem.
---Eu tenho que pegar alguns materiais para o meu laboratório o projeto “Andarilha do Sol” está pronto, mas tenho que deixar tudo certo para o teste com a Selene.
---Vamos primeiro pegar as suas coisas, depois nós iremos para o Jerivá dar uma olhada no bando do André.
A manhã passou rápida, Kazuma pegou alguns suprimentos médicos no caminho e chegaram ao local um pouco depois da hora do almoço. A pista estava movimentada com um fluxo de motoqueiros acima do normal. No lado de fora do local existia um grande número de motos grandes estacionadas e o local repleto de motoqueiros com suas roupas do clube de motos, vários clubes por sinal.
---Qual clube de motoqueiro está procurando Enki? Kazuma estava sentando de frente para a entrada olhando o fluxo de pessoas chegando, cada um mais marrento que o outro em contraste com as mulheres lindas e tatuadas.
---Eles se denominam de Áspide Mecânica. Eles usam jaqueta com uma Víbora Áspide bordada em estilo cyborg.
---Sempre quis uma jaqueta de couro com o símbolo do Lanterna Verde bordada, mas nunca tive coragem de sair do meu Impala para andar de moto. Você acha que ficaria legal mandar fazer uma para andar de carro?
---Oh!!! Ficaria show Kazuma. Seria algo surreal, poderia até virá moda.
---Porque você está com este sorriso sínico de deboche na cara cão?
---Apenas imaginei você no seu Impala, com uma jaqueta de couro bordada com o símbolo do Lanterna Verde. Chorei de rir por dentro, serio!
--- ... ... ... PALHAÇO!
Kazuma e Enkidu interromperam a conversa quando um novo grupo chegou, eram um grupo grande, quinze motos. Quando entraram quase todos ficaram calados, o líder com uma aparência de uns quarenta quase cinquenta anos de idade, barba grande, óculos escuros e corpo bem malhado para idade, ao seu lado uma linda mulher ruiva uns trinta anos no máximo, roupas de couro, olhos verdes e presença fora do comum, todos no ambiente, homens e mulheres, nem que seja por um segundo, olharam para a mulher com o desejo em seus olhos, inclusive os dois ali sentados.
---São eles? Perguntou Kazuma se esforçando para tirar os olhos da ruiva, o magnetismo e a presença que a mulher exercia sobre todos ali era algo fora do comum.
---Não! Eles usam outro símbolo na jaqueta, um Calango de piche com chamas ao redor, o nome dizia “Calangos do Cerrado”. Eram de Goiânia aparentemente.
---Aqui será um encontro dos bandos de Brasília e Goiânia?
---Parece que sim. Algo grande vai acontecer, bandos grandes assim não costumam fazer negócios juntos, se estão fazendo é sinal que algo muito bom para ambos está para acontecer, ou...
--- Ou o que?
---Sabia que você ia ficar curioso. Ou o preço da cerveja está muito barato e vai rolar muita briga neste lugar.
--- Você está numa veia cômica hoje digna dos piores programas de humor da TV aberta hem!
---Estava te zoando japa, a verdade é que alguém está mexendo os pauzinhos em algum lugar. O Leo está querendo derrubar a Regente de Brasília sem motivo, e sabemos que ele tem fortes conexões com as Bestas do Planalto Central.
---Enki, tu viu a ruiva ao lado do barbudo?
---Oh! Claro que vi. Porque a pergunta?
---Linda né! Imagina a ruiva com uma lingerie vermelha, batom negro, vindo na sua direção, transpirando sedução e libido.
---Imaginei coisas bem melhores menino inocente. Agora esta atração que ela tem é algo sobrenatural concorda?
---Não! É que a ruiva é gostosa mesmo. Sobrenatural será a surra que você vai levar quando eu jogar umas indiretas bem diretas para Selene, e ela ler a minha mente e confirmar o fato lendo a sua mente pervertida. Será no mínimo meses de sofá. CARO AMIGO zoador.
---Nem brinca cara! Não faz uma coisa demoníaca desta não. Pela nossa amizade.
---Eu estava brincando cara. Mas não me responsabilizo caso saia mais uma graça da sua boca até chegarmos em casa. Beleza?
---Japa filho d... Beleza então!
Não demorou nem quinze minutos quando o bando de André chegou, estavam em número menor, oito motos, mas eram todos imponentes, o próprio André era uma figura imponente com seus dois metros de altura, grande massa muscular, não aparentava ter mais que trinta anos, chegou trazendo a sua companheira uma linda loira de olhos azuis, agora vendo de perto Enkidu já tinha visto a mulher antes, o nome dela era Laura a filha bastarda mais nova de Leo, parecia que a serpente tinha planos e uma filha em Brasília, ele estava usando sua influencia dentro da Sentinela para angariar poder no centro do planalto central.
---Kazuma! A loira é a filha do Leo. Fruto de uma aventura no Sul do Brasil. Eu já a vi junto dele quando ela ainda era uma criança e o Leo ainda não era um dos chefes.
---Estou vendo. Sabe mais alguma coisa dela? Corre perigo de ela te reconhecer?
---Não sei mais nada sobre ela. E não corre perigo dela me reconhecer, ela nunca me viu na vida.
O encontro de motoqueiros rolou durante o dia todo, risadas, muitas histórias, cada uma mais mentirosa que a outra, muita ostentação de mulheres bonitas e motos customizadas, mas nenhuma informação importante, os líderes dos bandos quase não se falaram apenas ficaram com seus respectivos grupos bebendo e farreando. Mas o cenário mudou com a chegada da noite, os grupos menos expressivos foram embora, ficando apenas os grupos maiores, quando foi acertado outro lugar para continuar a festa, uma fazenda próxima a Pirenópolis onde o bando de Goiânia mantinha um galpão.
Kazuma observou os motoqueiros pegando suas motos e caindo na estrada, parecia um enxame de abelhas tanto pelo barulho quanto pelo número. Enkidu ainda estava em pé escorado em uma pilastra observando os últimos motoqueiros saírem.
---Kazuma ligue o carro, acho que está na hora de invadirmos uma festa particular.
---Acho que não vamos dormir em casa hoje né?
---Provavelmente!
O Impala cortava o asfalto em meio à noite, seguindo o barulho das motos. O silêncio dentro do carro era parte da concentração, ambos já tinham passado por situações complicadas e invadir uma reunião de bandos de metamorfos era uma receita perigosa e na maioria das vezes letal, mesmo com toda a experiência sempre haveria risco e perigos não calculados.
Após parar o carro em uma estrada de chão a dupla esperou alguns minutos até os últimos motoqueiros passarem, a fazenda estava perto, menos de três quilômetros morro acima, mas o trecho teria que ser feito andando para não chamar atenção, o carro foi deixado próximo a um matagal para não ser visto, estava na hora de adentrar na festa alheia.
Enkidu retirou a camisa ficando apenas de calças jeans, alguns insetos criaram vida saindo de suas tatuagens, era um exame de vespas com algumas vespas mandarinas. Enkidu espalhou as vespas ao longo do caminho, era assim que ele conseguia obter a visão de uma grande área, ele conseguia ver e sentir tudo que os seus insetos captavam, era uma maneira eficiente de bisbilhotar qualquer lugar.
Após alguns minutos observando ele já tinha em mente qual seria a melhor rota até o galpão, mas mesmo a melhor rota estava sendo vigiada, o que levaria ter cautela para passarem pelos vigilantes.
---O galpão estava perto uns seiscentos metros à frente, mas existem quatro homens no caminho e mais três fazendo um ronda ao redor do galpão. Disse Enkidu ao enviar os insetos para uma posição mais elevada.
---Você consegue enviar os insetos para dentro do galpão?
---Consigo! Mas vou ter que enviar outros insetos com melhor audição.
---Mande algumas traças-de-cera são os insetos com a melhor audição.
Quando as primeiras traças saíram da tatuagem, Enkidu levantou uns dos dedos apontando para o lado esquerdo deles. Kazuma já conhecia o gesto, era sinal que alguém estava vindo daquela direção, apenas fez um gesto com a cabeça pra informa que tinha entendido e se preparou para a chegada do estranho.
Kazuma tinha subido em uma árvore, enquanto Enkidu estava em sua forma de lobo dentro de uma moita de capim. Quando o motoqueiro passou andando vagarosamente por onde eles estavam minutos antes, e parou onde Kazuma estava deitado na grama, eles já sabiam que algo errado estava acontecendo. Enkidu tinha uma habilidade sobrenatural de esconder o cheiro e seus rastros, mas Kazuma não tinha esta capacidade. Assim que o motoqueiro se abaixou e tocou na grama amassada, Kazuma já estava mexendo seus lábios invocando o nome da terra que engoliu o motoqueiro em um piscar de olhos.
---Acho que alguém já sabe que tem invasores aqui. Murmurou Kazuma para si, e com alguns sussurros a terra vomitou de volta o motoqueiro desacordado. Enkidu já estava longe seguindo para perto do galpão em sua forma de lobo.
Quando Kazuma tocou o testa do motoqueiro ficou claro que o rapaz era apenas um acorrentado, um humano que bebia do sangue de uma Besta Alfa pra ficar mais forte e ter seus sentidos aguçados, é comum o alfa criar alguns acorrentados, assim ele ganha fieis seguidores e aumenta o número do bando. Mas o que na verdade acontecia era que em um bando de trinta membros, apenas uns quatro eram realmente seres sobrenaturais, o resto não passava de acorrentados, bucha de canhão como dizia Enkidu.
Kazuma tirou a jaqueta do rapaz e a vestiu, pegou a pistola e a munição que estavam com ele e o deixou desacordado no chão. E com algumas palavras a terra voltou a engolir o rapaz deixando apenas um pequeno espaço para o mesmo respirar. Era hora de dar mais algumas voltas e ver como a noite iria terminar.
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Enkidu estava próximo ao galpão, em uma posição onde poderia monitorar de perto os insetos que estavam por toda a área. Enquanto estivesse ocupado com monitoramento ele não poderia lutar ou fazer outra atividade com maestria. Então achou uma brecha na segurança do local e se escondeu perto a um monte de lixo ao lado galpão.
Os insetos estavam espalhados por toda parte, dentro do galpão a festa rolava solta, regada a bebidas, mulheres e musica alta. Claro que não poderia faltar uma boa briga, pois violência gratuita era a ópio de todas as bestas, se existia algo que fazia parte das necessidades básicas de todos os metamorfos era a violência e o sexo, seria como comer e beber para os humanos, era algo que seus corações selvagens ansiavam dia após dia e nunca estavam completamente saciados.
Os lideres dos bandos não estavam no coração das festividades; estavam mais isolados dos outros, perto do balcão de bebidas, o velho barbudo, a dama ruiva, André e Laura. A conversa girava em torno de um único assunto: como enfraquecer o poder da Regente de Brasília.
Já existia um plano em ação, para provocar um caos no centro da cidade, eles estavam inundando o centro com drogas, principalmente crack, o que deixava as autoridades ocupadas, os cidadãos incomodados e os moradores de rua loucos.
As taxa de crime tinham aumentado drasticamente com a facilitação das drogas. Os índices de roubos, furtos, homicídios, destruição de patrimônio e vandalismo crescia drasticamente no Distrito Federal. Isto iria demandar certo tempo para se colocar em ordem novamente e estava tirando a atenção da regente para o próximo passo que era colocar em circulação um grande numero de armas nas mãos das gangues de Brasília, com gangues armadas até os dentes seria muito fácil fomentar a discórdia entre elas colocando-as em conflito por poder, seria o pandemônio em toda a cidade e criaria uma brecha perfeita para ir atrás da regente sem levantar suspeitas, pois, a cidade estaria um caos e não seria complicado levar uma guerra particular até o território pacifico onde a regente residia e risca-la do mapa.
Enkidu já estava satisfeito com o que tinha ouvido, mas ainda não sabia o que o bando de Goiânia iria ganhar dando de presente a André o poder sobre a capital. Era sabido que a Regente tinha um acordo com as bestas do centro oeste de não agressão, e existiam até metamorfos com posto de alta importância dentro do território da Regente. Tirando-a do poder para colocar André em seu lugar não seria uma jogada inteligente para o bando de Goiânia, pois, o bando de André em poucos anos teria poder suficiente para incorporar as cidades mais importantes do centro oeste em seu território o que faria dele o Alfa sobre todos os bandos, inclusive sobre o bando de Goiânia, então não existia sentido outro bando ajudar alguém que em pouco tempo lhe roubaria o território, a não ser que existisse mais alguém querendo jogar os dados da sorte e acabar com André, o Barbudo e a Regente em um único movimento.
Era hora de voltar e pensar no jogo de xadrez se formando no centro oeste do Brasil, um jogo que seria regado a sangue, armas e trapaças. Era hora de sentar e avaliar os cenários possíveis e se preparar para o pior.
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“Eu estou perdido” foi o pensamento que veio a mente de Kazuma quando percebeu que não sabia mais onde estava. Ele tinha sentido uma presença o seguindo alguns minutos antes, e a cada minuto que passava o seu perseguidor estava mais perto, talvez o foco no seu perseguidor o tivesse distraído do caminho, mas a realidade era totalmente diferente, ele tinha caído em uma astuta armadilha.
Kazuma simplesmente sentou no chão ao perceber o perseguidor em pé parado ao longe. Olhou ao redor e sabia que não estava mais na fazenda, estava no mundo espelho ou como os mysticos chamavam o mundo de Oneiros.
O mundo espelho na verdade era o mundo real, apenas sem o véu que ocultava os seres mysticos. No mundo espelho bestas não pareciam humanos e sim animais, vampiros perdiam o véu de humanidade, aparecendo na forma real com olhos vermelhos, presas e garras. Alguns animais podem ver o mundo espelho, os cães os gatos, por exemplo, podem ver o sobrenatural e se comportam de maneira estranha a tudo que se move em silêncio na calada do véu.
Alguns humanos também podem ver, na verdade todos os humanos já sentiram o mundo espelho na pele, quando ficam presos no sonho, meio dormindo, meio acordado, com o corpo paralisado, por alguns segundos eles podem ver alguns dos seres que vivem no outro lado do véu, anjos, demônios, espíritos primordiais e selvagens, geralmente a experiência é intensa e repleta de temores, pois humanos não foram criados para ver o que existe além-véu.
No mundo espelho tudo tem um aspecto mais sobrenatural, as plantas são mais verdes e mais belas, as sombras são negras e chegam quase a ser palpável, o ambiente é preenchido sempre por uma nevoa fina, tudo ali exala vida plena ou perigo mortal. O mundo espelho é o misto dos medos reais com os pesadelos imaginários, um lugar inundado de frustações e cacos de sonhos, um mundo sobrenatural dentro do mundo real, um inferno para os culpados e o céu para os injustiçados.
—--Quem é você? Perguntou Kazuma. A pergunta foi mais para quebrar o clima tenebroso, do que para se obter uma resposta.
—--Sou o seu Nêmesis. A voz sussurrante cortava o ambiente, parecia vir de todos os lugares e ao mesmo tempo de lugar nenhum.
—--Quer algo de mim? Pois não tenho a noite toda para ficar de conversa fiada. Kazuma sentiu a temperatura baixar à medida que a estranha vestida de trapos se aproximava.
—--Não! Por enquanto não quero nada. Eu Disse “Por enquanto...” Mas quando chegar a hora eu irei ceifar a sua consciência e possuirei seu corpo.
—--Desfazes o território do mundo espelho. Disse Kazuma, olhando atentamente ao redor os seres do véu incomodados pela presença dele ali.
—--Não! Ecoou a voz fria.
Kazuma percebeu que a voz sem emoção ecoava fantasmagórica, mas no fundo tinha um timbre feminino, o ser a sua frente provavelmente era uma mulher humana, e não um ser original do véu.
—--Acho que você não entendeu, eu não pedi. As palavras estranhas proferidas por Kazuma fizeram a terra tremer, ao mesmo tempo em que uma gigantesca mão rochosa surgiu abaixo da estranha se fechando com violência e esmagando tudo que podia. Mas a estranha não estava mais ali.
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Assim que a terra tremeu abaixo de seus pés, Nêmesis se antecipou a pular. O homem a sua frente era um Nomeador da primavera, um Precursor da Vida, um perito em manipular a vida em todas as suas formas e comandar a terra a seu bel-prazer. No instante que a mão se fechou abaixo de si, as primeiras palavras de poder saíram de seus lábios invocando um aliando espiritual para o embate.
O ser alado de aspecto demoníaco portava uma lâmina incandescente. Antes que os pés de Nêmesis tocassem o chão, o ser alado já estava voando em direção ao oponente com sua lâmina em punho em uma investida mortal.
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Kazuma se preparou para um confronto longo e violento, a sua adversária era uma nomeadora de grande poder, alguém já experimentado em batalhas assim como ele, pelo poder de invocar seres espirituais e abrir uma fenda para o mundo espelho, era certo que se tratava de uma Nomeadora do Inverno, uma Desbravadora do Vazio. Ela fazia parte do grupo de nomeadores que dominavam o etéreo, a substancia espiritual do mundo, junto com o domínio total da água. Era um adversário sagaz, mas não tinha um poder destrutivo como os Nomeadores do Verão ou do Outono. Assim como ele, ela era uma nomeadora de pouco poder destrutivo, mas com muitos truques na manga.
Assim que o ser alado apontou em sua direção, Kazuma sussurrou algumas palavras de poder, aumentando sua força física, velocidade e resistência. No momento que o Ser chegou ao seu alcance Kazuma se esquivou para o lado, girando o corpo em um chute certeiro. Mas ao invés de joga-lo para longe, o corpo do Ser alado explodiu em água fervente, lhe queimando todo o corpo.
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À medida que o vapor se dispersou, Nêmeses pode ver o corpo do seu adversário repleto de bolhas de queimadura, quando ele despiu a camisa que saiu grudada em pele queimada, o tórax e o rosto que estavam em carne viva ficaram a amostra, mas antes que pudesse achar que tinha causado algum dano significativo o corpo já se regenerava, segundos depois estava completamente curado como se nada tivesse acontecido.
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Kazuma queria encurtar a distância do combate, se ele cedesse muito espaço, a sua adversária iria ter muita vantagem, assim disparou contra ela, fez surgir plantas no chão que cresceram instantaneamente enraizando sua adversária ao solo, impossibilitando qualquer movimento de fuga.
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Quando Nêmesis percebeu as plantas lhe segurando os pés, Kazuma já estava vindo em sua direção, quando as primeiras palavras saíram de sua boca, seu corpo já estava todo coberto por plantas, no pouco tempo que tinha o máximo que pode fazer foi uma grande parede de gelo a sua volta, para ganhar tempo.
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O som do gelo sendo golpeado era assustador, com as mãos nuas Kazuma socava a parece de gelo que sedia a seus golpes, quando conseguiu atravessar a camada de gelo, Nêmesis não estava mais presa, do outro lado da parede uma fenda aberta sinalizava sua fuga, as plantas que a prendiam estavam congeladas completamente e se quebraram como gelo. Antes que Kazuma pudesse perceber a armadilha, as paredes de gelo se transformaram em líquido lhe envolvendo no centro, Kazuma estava preso, como uma formiga afogada dentro de um copo com água, mas rapidamente a água se congelou, transformando em uma grande sepultura de gelo. Agora Kazuma estava completamente preso no centro do bloco gelo, a ele restou apenas a possibilidade de conservar energia para pensar em como sair.
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Quando seu adversário adentrou a parece de gelo, ficando cercado por elas, Nêmesis sabia que tinha a oportunidade ideal para acabar com o embate, antes que ele pudesse pensar em algo, ela reuniu toda água ao redor dele e a congelou instantaneamente, como uma formiga congelada em um cubo de gelo, o corpo de seu adversário descansava em seu caixão glacial, agora era questão de tempo até ele sucumbir sem oxigênio e congelado. Ela esperaria ali ao lado, para ter certeza da sua vitória.
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O Corpo perdia calor rapidamente, o oxigênio nos pulmões também estava acabando, mas a mente de Kazuma trabalhava em frenesi, as horas que passou debruçado em livros de biologia, química e física passavam em sua cabeça, transformando informações em conhecimento que por sua vez se transformava em poder. Sim! Conhecimento é poder, ainda mais para um nomeador, quanto mais conhecimento era adquirido, mais possibilidades se transformavam em realidade. O poder verdadeiro consistia em criar, destruir e criar novamente, era o processo de conhecer o ciclo e entender cada detalhe dos fatores envolvidos que possibilitava ao Nomeador usar seu poder de maneira mais eficiente e com um custo de poder menor.
A sua adversária era sagaz, dona de um poder invejável, criar tanta água do nada era um feito gigantesco e congelar esta grande massa de água em poucos segundos era um feito ainda maior. A ele cabia apenas aceitar a superioridade em poder de sua adversária, absolutamente ela era superior em poder, mas não em conhecimento, por isso coube a ele apenas esperar uma oportunidade.
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Nêmesis pode ver o corpo de seu adversário queimado pelo frio no interior do caixão de gelo, já se faziam mais de vinte minutos que ele estava lá. Ela não pode chegar muito perto, pois até para ela existia um limite de frio suportável, no momento seus esforços desceram a temperatura do caixão a duzentos e cinquenta graus negativos, era o máximo que seu poder alcançava e beirava o zero absoluto, nada no mundo poderia suporta tal temperatura, e tudo em volta do caixão de gelo estava morto, congelado ao ponto de se quebrar com seu próprio peso.
Quando por fim se convenceu que seu adversário estava morto, ela dissipou a magia, e aos poucos o gelo foi se derretendo, quando por fim tudo descongelou já se tinha passado horas, o corpo inerte jazia sob a terra molhada, sem pulsação, sem calor, absolutamente sem vida. Era hora de iniciar o ritual pra tornar aquele corpo morto em morada para demônios, era hora de invocar mais um Precursor do Ódio.
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Quando Kazuma saiu do estado de latência, seu corpo estava banhado de incenso, seu corpo encima de um altar de gelo, no centro de um grande circulo com um pentagrama feito de algum composto em pó de cor amarelo limão sob a terra, pelo cheiro de ovo podre o composto era seguramente enxofre e ficou claro quando o composto entrou em combustão formando uma chama azulada. No lado de fora do circulo Kazuma podia ver as criaturas que viviam no véu, mas para seu desprazer apenas demônios estava ali, esperando algo acontecer.
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Nêmesis estava dando continuidade ao ritual, tudo estava completo, faltava apenas recitar a evocação e fazer do corpo destruído e inerte um instrumento para o princípio do fim.
Ouço o réquiem infausto.
Precursor do terror demoníaco.
Filha do ódio mascarado.
No ventre de uma mãe enfurecida.

O medo que corrompe e destrói.
Nasce em berço de abandono.
Onde a dor é seu único alimento.
E a morte seu maior contentamento.

Fazendo da agonia sua arma.
O conformismo é seu modo operante.
Estilhaçando sonhos de esperança.
Vomitando sentimento de cobrança.

E do ódio de um ser desesperado.
Surge a vingança de um deus abandonado.

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Kazuma estava de olhos entre aberto, observando sua algoz se aproximar com uma adaga cerimonial em punho, embebecida em um líquido negro e viscoso, quando a mesma chegou perto o suficiente para que lhe pudesse tocar, ele deu o bote. Assim que sua mão tocou o centro do peito de Nêmesis, ela apagou. Kazuma tinha desligado toda sinapse aferente e eferente, ele tinha desligado a mente do corpo, privando sua inimiga de realizar qualquer ação motora e também de sentir qualquer estimulo sensitivo.
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Nêmesis viu a mão em carne viva romper rapidamente o tecido necrosado da superfície, parando em seu peito, após o toque da mão de Kazuma, seu corpo perdeu as forças, tudo que podia ver era o chão, seu corpo caído sem se mover, ela não sentia mais nada, nenhum maldito musculo a obedecia, nenhuma palavra conseguia sair de sua boca, a única coisa que sentia era o pulsar lento do coração e os pulmões trabalhando vagarosamente, a ultima coisa que veio a sua mente era o medo de morrer ali sozinha, repleta de arrependimento e dezenas de sonhos vazio na eterna escuridão do véu.
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Kazuma estava em pé, todo em carne, olhando para os tendões, músculos e ligamento sem a pele as cobrindo, era algo realmente repugnante para alguém que não amasse a anatomia, olhou para o chão onde jazia sua adversária, ao lhe virar pode observar de perto que se tratava de uma adolescente, vestida em trapos, suja e com cheiro das ruas, alguém que neste momento não carecia de sua compaixão, o destino dela seria selado em breve.
Olhou para o círculo ainda repleto de seres demoníacos no lado de fora, era uma algazarra infernal literalmente. Ele estava exausto, se proteger do frio intenso o forçou a fazer a criptobiose, ou seja, entrar em estado de latência cessando todo o metabolismo vital. A criptobiose era um truque usado por bactérias e tardígrados quando em ambientes hostis, este truque tinha lhe deixado exausto, mas tinha funcionado.
Após descansar e pensar por algum tempo, Kazuma estava completamente regenerado. Ainda estava preso no mundo espelho e o ritual aparentemente ainda estava em execução, pois não tinha se desfeito. Ele pegou a adaga ritual, que estava banhada em sangue, analisou todos os itens a sua volta, e a única alternativa que encontrou foi de continuar o ritual, com suas palavras de poder fez surgir do barro um homem de argila, soprou em suas narinas o folego de vida, e o barro se fez carne. Kazuma sabia que o corpo não duraria muito tempo, pois ele já tinha tentando fazer coisas similares antes, mas seria o suficiente para evocar o demônio e acabar com o ritual.
Ao deixar escorrer um pouco do seu sangue na boca do corpo recém-criado o mesmo se tremeu, mas quando a adaga lhe perfurou o coração o corpo foi habitado por um demônio e se levantou por vontade própria. Seus olhos eram negros como a mais escura noite e a aura de poder que emanava de si era gigantesca. Mas tão rápida como veio o poder se foi, o corpo já se desmanchava, retornando ao pó do qual foste criado.
Nos olhos de Kazuma apenas o deboche, demônios como sempre eram criaturas estupidas e pueris. A ultima coisa que o demônio viu com olhos de carne, foi o aceno das mãos de Kazuma fazendo um debochado tchau.
Assim que a fenda se fechou todos os seres por perto desapareceram, olhos humanos não os podiam ver quando o véu se fechava, mas eles estavam ali, ocultos, famintos, esperando apenas uma brecha em uma mente fraca para arrasta-los aos prantos aos seus jogos de perdição.
Kazuma ergueu o corpo da jovem e a colocou nos ombros, era hora de voltar para o carro e torcer para que Enkidu estive-se lhe esperando.
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Quando Enkidu avistou Kazuma, o sol já estava raiando. Seu amigo estava complemente nu, com a cara de cansado, carregando uma garota maltrapilha nas costas.
—--A noite foi boa? Perguntou Enkidu ajudando a colocar a garota no banco traseiro.
—--Foi nada. Levei um maior gelo da garota.
—--Hum! O primeiro encontro sempre é complicado, mas rolou algo mais profundo entre vocês? Pois sempre é bom quando um encontro termina em nudez.
—--Cala a boca e dirige cão. Vou tirar um cochilo, me acorde quando chegarmos em casa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.