O local estava escuro, lotado de pessoas jovens, era algum tipo de festa com pessoas ricas, bêbadas e arrogantes. Samira já tinha notado algumas mulheres com pouca roupa e perfume vagabundo, pelo rumo que a festa andava logo percebeu que eram garotas de programa.

—--O que estamos fazendo aqui? A pergunta era direta e carregada de uma vontade louca de ir embora. Samira não gostava de ambientes carregados como aquele, musica ruim, prostitutas, drogas e lotado de jovens mimados, ricos e infelizes.

—--Sente-se e me escute com atenção. Agora você vai aprender a caçar, procure alguém que esteja sozinho, de preferencia já bêbedo e louco para uma transa fácil e grátis, este será o alvo mais fácil, leve para um dos quartos no andar de cima do salão eu sigo você.

—--Como assim? Você quer que eu chame um estranho para transar assim do nada?

—--Apenas faça o que eu falei. O Sexo é apenas uma desculpa para leva-lo para outro lugar. Depois você discute quando terminar. Selene sentou-se à mesa, observando os muitos convidados, era uma festa com garotos mimados que adoravam torrar o dinheiro dos pais, arrogantes, cheio de si e fáceis de manipular, era o ambiente perfeito para uma primeira caçada. Ela soube da festa quando andava na cidade com Enkidu, escutou o papo de dois rapazes que se gabavam por terem ficado com muitas meninas em outra festa.

Samira se levantou e foi andando pelo salão, mas era quase impossível andar sem ter que empurrar alguém, a musica ruim não parava, era uma batida eletrônica que nasceu no coração do diabo, um tutituti infernal, era impossível alguém achar que música eletrônica era musica de verdade, mas era o que os jovens de mente vazia gostavam de ouvir e dançar, se bem que uma musica vazia de letra, melodia e sentimento formava um par perfeito com jovens vazios, arrogantes e fúteis.

Após algumas voltas infrutíferas seus olhos bateram em um rapaz sentado nas escadas próximo a saída, era o único que estava longe o suficiente da pista e com cara de poucos amigos. Samira simplesmente se sentou ao lado do rapaz que estava lendo um livro no celular.

—--Está gostando da festa?

—--NÃO!

—--Está a fim de ir para um lugar mais reservado?

A reação do rapaz foi um tanto quanto inesperada e a pegou despreparada. O rapaz simplesmente tirou uma nota de cem reais do bolço e entregou a ela.

—-- Se está a fim de vender seu corpo moça, está aqui o dinheiro. Pegue e vá para sua casa, eu não pago por nada que consiga conquistar, mas, por favor, me deixe aqui no meu canto em paz.

—--Desculpas! Não queria incomodar, mas eu não sou prostituta. Samira estava ofendida por ser tomada por prostituta, mas pensando bem o ambiente a roupa com decotes e a aproximação davam um certo credito ao pensamento do rapaz. Outra coisa que ela se atentou já tarde era o fato dele não estar bêbado, olhando melhor não estava vestido para festa e nem parecia pertencer ao ambiente.

—--Me perdoe. Não quis ofender. Sabe como é? Todas as mulheres aqui se vestem como prostituas e já recebi mais de duas propostas de programa em menos de quinze minutos, junte isto a musica de péssimo gosto e teremos um cabaré moderno. Mil perdões se lhe tratei como tal, e antes que me esqueça, vou me apresentar de maneira mais adequada. Prazer sou Saul.

Samira abriu um sorriso sem graça, quando o rapaz se retratou pela confusão e ficou ainda mais encabulada quando o mesmo pegou sua mão e beijou, era uma situação totalmente fora de hora e lugar, era um paradoxo com o ambiente deselegante.

—--Prazer sou Samira!

—--Então Samira, o que uma mulher como você está fazendo em um lugar onde a musica nem a bebida lhe agradam?

—--Como sabe que a musica não me agrada e que não bebi? Aposto que foi mera especulação de sua parte Saul.

—--Você faz uma cara de nojo toda vez que a musica parece acabar e começa novamente com a mesma batida rítmica, e não sentir o cheiro de bebida em você, como aqui não servem nada além de bebida com energético supus que não bebeu nada. Estou certo?

—--Totalmente. Você ganhou! O que mais você supôs de mim?

—--Que você não está aqui sozinha, pois em todo momento você procura alguém na multidão. Acertei?

Samira ficou um pouco nervosa com as hipóteses do rapaz, pois era um tanto quanto verdadeiras o que demonstrava que ela dava muito mole em questão de ser lida, mas era claro que o cara tinha uma observação um tanto quanto fora do comum.

—--Talvez! Ok você acertou em parte. Mas agora é minha vez de adivinhar. Disse Samira observando o rapaz de cima a baixo e avaliando o sujeito.

—--Você está aqui com uma amiga que gosta, por isto aceitou o convite de ir a uma festa que não faz seu tipo, pela roupa que está vestido, suponho que não gosta de seguir tendências de moda e está com muita pressa de ir embora para levar a tal amiga para casa e terminar a noite de maneira agradável, pois não para de olhar o relógio. Acertei?

—--Nossa! Você é muito boa.

—--Serio?

—--Não! Estava brincado com você. A única coisa que acertou foi quando falou que “Eu estou aqui”, o resto passou longe.

—--Acho que não sou boa em ler pessoas. Então qual é o enigma da sua vinda aqui?

—--Vim pegar minha irmã, que provavelmente está bêbada e não poderá dirigir, eu como irmão responsável e bom cidadão, vim prestar este favor a sociedade. Estou vestido assim porque escolho sempre a primeira roupa que vejo quanto saio de casa e para sua informação estou olhando o relógio porque minha lanchonete favorita fecha às duas da manhã e falta apenas uma hora e vinte para isso acontecer. Agora é sua vez de falar como parou aqui e sem se esquivar da pergunta.

—--Estou aqui, com a minha irmã. Ela foi convidada por um amigo, mas ele já está tomado pela bebida e então vamos para casa agora.

—--Hum. Que pena! Você quer ir fazer um lanche? Pode chamar a sua irmã. Mas só se realmente quiser, não quero que fique constrangida em ir a outro lugar que não queira.

—--Posso falar com ela? Só um momento.

—--Disponha.

A caminhada até o local onde Selene estava foi rápida e angustiante, ela estava caçando um babaca para se alimentar e não procurando um cara legal para literalmente comer. Mas de qualquer maneira a proposta era boa, ele não queria ficar ali ouvindo o tutituti infernal da musica eletrônica e ela também não. Mas para sua surpresa Selene não estava na mesa, nem nos quartos, nem em lugar algum na festa. A ela restou apenas aceitar a oferta de Saul.

—--Não achei minha irmã, então se o carro dela não estiver aqui e vou com você ok?

—--Tudo certo. A minha irmã já está no carro com uma amiga no banco de trás.

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A lanchonete na verdade era um trailer restaurante e ficava próxima a casa de Saul, uma comida agradável e um bom atendimento ao cliente. O papo foi bem descontraído, coisas banais, trabalho, politica, seriados, filmes e livros. Enquanto isto a irmã dele e a amiga ficaram caladas apenas curtindo o efeito do álcool passar. O Tempo passou sem se perceber até que um dos proprietários começou a recolher as cadeiras.

—--Quer dormir lá em casa? Ou quer que te leve em casa?

A pergunta de Saul veio repentina, e deixou Samira meio paralisada para responder, as duas opções eram boas, o pensamento de Samira rodava a mil, ela tinha que caçar e não se apaixonar, tudo estava indo rápido demais, mas ela não voltaria para casa sem provar para sí que podia apender rapidamente, mesmo sem Selene ela iria acabar a noite bem.

—-- Acho que posso ir para sua casa, espero não incomodar você e sua irmã.

—--Tudo bem ela vai dormir com a amiga no quarto dela, você pode dormir no meu quarto eu fico na sala.

—--Tudo certo então.

Saul morava em um apartamento, já no fim da Asa Norte, era um lugar simples, com decoração masculina, ou seja, nada combinando com nada, moveis dispostos de maneira caótica, mas tudo estava arrumado. Fotos da família, fotos da formatura no Corpo de Bombeiro Militar, uniforme já arrumado em cima de uma cadeira para o próximo dia.

Assim que chegaram, a irmã e a amiga foram para o quarto, Saul foi arrumar um lugar para dormir. Samira resolveu tomar um banho para tirar o fedor de cigarro e da bebida das pessoas na festa.

A água quente escorrendo pelo corpo dava uma sensação de aconchego, era como ser abraçada por braços fortes e quentes. Samira foi tirada de seus devaneios com o som de batidas leves na porta, era a amiga da irmã de Saul trazendo a toalha. A garota entrou no banheiro arrumou a toalha e se despiu, abriu um pouco a porta do box e ficou parada encarando Samira nos olhos.

---Eu hem sai pra lá garota, não está vendo que estou tomando banho?

A garota simplesmente não se importou, abriu a porta do box completamente e entrou ficando colada com Samira debaixo da ducha de água quente.

---Oh garota você está doida? Tá chapada? Sai! Desencosta de mim! Tira a mão de mim! Louca. Eu vou gritar!!!

A gargalhada da garota foi abafada pelo som do chuveiro, o olhar malicioso um misto de diversão e deboche estavam deixando Samira incomodada.

---Calma Samira é apenas uma brincadeira. Sou eu! Selene!

--- O que? Como? O que você está fazendo aqui? E como está no corpo de outra pessoa?

---Depois de explico. Você tem apenas mais duas horas para fazer o que tem que fazer, estarei no quarto caso precise. Boa sorte!

Após o susto no banheiro, Samira estava mais calma, se Selene estava lá então daria tudo certo. Após sair do banho e se vestir encontrou Saul na cozinha.

---Coloquei uma garrafa de água no seu quarto caso sinta sede, estou levando água e aspirina para as garotas. Ah! Antes que me esqueça, troquei a roupa de cama e tem um cobertor e um lençol limpo para você. Boa noite!

---Obrigada Saul! Você é muito gentil.

O quarto era arrumadinho e bem simples, a única coisa que destoava o ambiente era os mais de duzentos livros na estante, parecia que Saul gostava de ler, tinha de tudo: romances históricos, suspense, aventura medieval, ficção cientifica, HQ e Mangás. Ele podia está beirando seus trinta e cinco anos, mas tinha um gosto por livros adolescentes e quadrinhos, como todo homem ele era uma criança crescida e responsável e isto a fez gostar ainda mais dele.

Já era quase quatro horas da manhã quando Samira olhou o relógio digital da tv. Saul estava dormindo e a casa silenciosa parecia desabitada. Ela teve o cuidado de deixar a porta entre aberta, pois quando completamente fechada à porta fazia um leve rangido o que poderia entregar a sua presença. Ela chegou perto do sofá onde Saul dormia, podia sentir a respiração quente dele, o peito subia e descia em cadência leve e ritmada. Seus olhos focaram o pescoço, a artéria cheia de sangue, fluindo vida.

Samira sentiu os olhos de Saul se abrir assim que as presas perfuraram sua carne, mas tão rápido quando sua reação, foi o efeito do veneno da vampira que o levou para um passeio na terra dos prazeres, uma terra repleta de desejo e satisfação.

Samira sentia o sangue fluir e lhe encher de vida e cor. Era como viver novamente. A fome nunca passava, mas ela sabia, seria assim para sempre. Após sorver um ultimo gole, Samira retirou a presa do pescoço de Saul, a ferida da perfuração se fechou instantaneamente como se nunca tivesse existido. Selene estava ao seu lado observando-a, sua cara de aprovação e o sangue ainda nos lábios mostrava que também tinha se alimentado.

—--Ele vai ficar bem?

—--Vai. Você foi muito bem, se controlou o suficiente para não matar e bebeu o necessário para se alimentar de modo eficiente. Amanhã ele acordará com dor de cabeça e achado que fez o melhor sexo da vida dele. Vamos! Temos que ir antes que amanheça. O caminho até o carro vai ser longo.