PRÍNCIPE DAS TREVAS
9 Fraquezas - Parte 4
Notas iniciais
–Você está me enojando, humano – comentou quase como um sussurro a voz reconhecida do meu demônio atrás de mim. Virei-me rapidamente surpreso ao encará-lo materializado.
–O que faz fora do espelho?
–Está com medo? Posso senti-lo. Está cada vez mais humano e isso está lhe deixando fraco. Devore a alma daquela humana – ele apontou para o espelho que refletiu a imagem de Luna quando abaixou as alças de seu vestido para que eu me alimentasse do seu sangue – É isso o que você deseja, é isso o que seu corpo deseja. São seus instintos. Sua fraqueza está vencendo você. Está me vencendo. Seu reinado neste mundo está morrendo, como você a cada dia que passa está se tornando um misero humano por causa do seu orgulho inútil sobre sua promessa fajuta de não a feri-la. Beba de seu sangue, ela entenderá.
–Não posso fazer isso.
–Porque não? Você a ama?
–Não – respondi olhando friamente para sua imagem no espelho.
–Você foi mimado de mais e agora vive como um animal se arrastando pelo mundo mal aguentando segurar sua espada. Onde está o guerreiro egoísta, cruel de antes? Onde está o deus que se glorificava e que era temido por todos? Você não passa de uma piada agora. Ninguém mais o teme, pois todos querem lhe matar, mesmo que custem suas vidas. Ninguém mais o tem medo de você humano, todos estão lutando contra você e em breve até seus “companheiros” irão se revoltar.
–Como pode ter tanta certeza e confiança em suas palavras medíocres assim, demônio?
–Você quer apostar? Eu sei o que você vê, eu sei o que você sente, eu sei o que você não sabe, porque somos um – ele pousou suas garras em meu ombro e deu um sorriso demoniacamente sarcástico – Você tem medo de mim, tem medo do que virá, tem medo de enfrentá-los porque sabe que logo estará sozinho. Sabe também que enfrentará Hares.
–Medo – repeti aquela palavra que soava tão estranho.
–Sim. Medo. Sentimento ridículo que você adquiriu quando se tornou humano. Desde quando perdeu a confiança em nós? Você deixou alheios todos os insultos que eu fiz o que está acontecendo com você?
Permaneci em silêncio. Realmente eu tinha me tornado um humano. Esta fraqueza me controlou e agora não reagia como antes. Eu me transformei em um inútil fracassado. Meu demônio tinha toda razão por me insultar e não era digno que segurar mais a espada de diamante. Desde quando eu havia perdido a confiança em mim? Foi quando eu deixei que Copérnicus me banisse. Foi naquele instante em que eu o deixei me golpear. Foi quando eu percebi que minha história iria mudar e me desesperei, pois estaria sozinho contra todo o Inferno. Sim, eu fui muito mimado e não soube o que fazer quando fui banido. Fui tão fraco que o primeiro lugar que frequentei foi uma casa noturna. Eu poderia ter descoberto meus poderes muito antes, se não fosse tão cego. Poderia ter invadido o reino da Luz com toda minha força e aniquilado todos, pois o dote foi quebrado, mas agora é tarde demais. A segurança do reino da Luz deve ter se reforçado bastante. Pediram reforços para Zeus, disso eu tinha certeza.
–Pare de ter esses pensamentos fracassados. É tarde demais para se lamentar pelas suas tolices do passado. Você me despertou agora porque abriu seus olhos. Você tem consciência do que irá enfrentar. Então seja corajoso e confie em você. Eu sou você e você sou eu. Nossas almas são apenas uma. Honre isso e deixe de ser esse fraco insignificante que está sendo... Humano.
Virei-me á ele direcionando-lhe um soco na direção do seu rosto que foi bloqueado pela sua mão. Não era um reflexo. Realmente estava ali. Ele sorriu. Encarei-o com ódio e desprezo sentindo meus olhos reptilianos sangrarem.
–Meu nome é Ryan – disse quase rangendo os dentes – E eu não sou um humano.
Tudo se escureceu como uma névoa e me trouxe de volta ao normal. Abri meus olhos um pouco assustado, mas entendi o que ele quis dizer. Era dia, e o calor emanava aquela sensação desconfortável, porém o mais desconfortável era perceber que estava deitado ao lado da besta fera feijão, que permanecia dormindo.
Levantei-me e vi roupas limpas e um sobretudo ao meu lado. O sujeito não estava ali, mas não deveria estar muito longe. Vesti-me e fui de encontro ao sujeito. Estava sentado em uma das árvores tombadas fitando o nada.
–Leve-me de volta ai mundo dos humanos e me entregue minha espada.
–Por quê?
–Tenho assuntos que precisam ser resolvidos.
Ele ficou pensativo por alguns instantes, mas aceitou o pedido chamando seu dragão que saiu da caverna abrindo suas imensas asas de fogo.
–Não vou subir nesta coisa.
–Quer ir ao mundo dos humanos?
Desnecessário. Desnecessário e constrangedor. Humilhante.
O sujeito pegou de dentro do seu sobretudo uma espécie de flauta transversal de ouro e após subir em sua montaria, aproximou o instrumento em seus lábios e tocou uma suave melodia que fez o animal voar pelos céus tranquilamente. Uma visão controlou minha mente. Uma linda ruiva de olhos verdes destacados por algumas sardas que lhe davam um charme a mais abraçava uma criança aparentemente sua filha. Porque estava tendo aquela visão? Não fazia ideia de quem seria. Lembrei-me da morena que vi quando quebrei a barreira entre mim e minhas servas. Havia alguma por trás dessa história. A visão se desfez e vi que estávamos na floresta do mundo real. Era noite e a tempestade se aproximava, imediatamente corri para a fazenda e desesperei-me quando vi a casa em chamas. Ouvi os gritos de Abby gritar por sua mãe, porém a casa estava em ruínas e podia sentir o cheiro de morte emanando dos escombros. Avistei a criança a alguns metros da casa chorando com o coelho em seus braços.
–ABBY – gritei e chorando ela veio em minha direção.
–Ryan, minha mamãe...? – ela não conseguiu terminar a frase. Estava soluçando e podia sentir seu desespero quando ela me abraçou.
–Quem fez isso?
–Um homem estranho com uma faca grande e branca tinha uma faixa preta enrolada nela... Ele veio junto com o padre e falaram que minha mamãe era uma amante de Lúcifer.
Faca grande e branca? Será que...? Copérnicus, o que está obrigando meu exército a fazer?
–Sinto muito, criança. Sua mãe não pode voltar.
O sujeito apareceu logo atrás de mim, estava ofegante como se tivesse corrido um longo caminho.
–Encontrei uma senhora desmaiada na floresta – comentou-o.
Segurei a menina nos braços e fomos de encontro à mulher. Era Darcy e não estava morta. Deixei a criança sobre os cuidados do sujeito e carreguei a velha até alguma casa abandonada ou caverna que pudesse nos servir abrigo para aquela tempestade até conseguirmos algum plano. Encontramos uma velha hospedaria no meio da mata e assim que adentramos fomos diretamente para um dos quartos e deitei Darcy na cama. Pedi para que o sujeito tomasse conta delas enquanto eu assegurava o local. Droga! Onde está minha espada?
–Vai precisar disto – disse ele jogando a espada de diamante em minha direção. Eu fiquei aliviado em ver seu brilho novamente e um leve tom de raiva me atingiu quando ele me entregou. O que ele estava fazendo com minha espada? Estava machada com meu sangue em seu cabo. Fazia sentido. O sangue, as queimaduras em minha mão, o fogo místico. Eu sabia exatamente o que deveria fazer agora.
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