Sai do hotel e novamente estava nas ruas de Silent Hill. Andei, com as mãos na cintura – sobre onde mais doía no meu corpo, por enquanto. Então eu vi uma mulher andando na rua, ela chorava muito, segurando o ombro direito com a mão esquerda.
— Hei! – chamei-a – Espere.
Ela esperou, olhando-me assustada. Aproximei-me dela e tentei encostar em seu ombro, ela se afastou num movimento rápido, mas fraco. Então reparei mais nela, loira, os cabelos curtos, até metade do pescoço, embaraçados e cacheados. Uma camiseta rosa, manchada de sangue, saia jeans e salto.
— Não toque em mim... – ela disse, com a voz rude, aguda e assustada.
— Vai ficar tudo bem! – eu disse – Quem é você?
— Natalie Ezèbeth. – ela disse – E você?
— Eu sou Alex Nashville. – respondi, logo em seguida questionando-a – E o que você faz aqui?
— É uma longa história – ela disse, gemendo de dor – Estou indo para a delegacia da cidade, se me acompanhar eu lhe conto o que aconteceu.
— Ok! – eu disse – Pra que lado?
Ela não respondeu, somente andou. Eu a segui, esperando ela começar a “longa história”. Ela então começou a contar.

- Estudamos em uma escola, numa cidade ao lado daqui... – percebi que para se proteger não deu muita informação sobre si mesma – Uma garota, a “esquisita”, saiu da escola tarde, colocou um saco grande dentro do porta-malas do carro e saiu rápido.
“Eu e umas amigas decidimos segui-la para saber o que ela aprontava. Mas, no meio do caminho tinha uma moto caída no chão. Joan não conseguiu desviar e bateu na moto, antes que pudéssemos reagir e sair do carro, a picape do meu namorado bateu na nossa traseira.
“Eu desmaiei, e quando acordei as minhas amigas estavam mortas...”.
— O quê? – eu a interrompi sem querer, mas eu não entendia. Será que a moto que ela mencionara ela a minha?
— Não me interrompa... – ela disse, depois voltou a contar os fatos – Sai do carro e vi que na picape atrás de mim estava sendo pilotada pelo meu namorado, Dan. Ele estava desmaiado. Eu então entrei na cidade para pedir ajuda.
“Uma sirene tocou e monstros apareceram. Voltei para o carro, mas meu namorado não estava mais lá. Ele deve está vivo.”
— Ele está, – eu falei. – Encontrei com ele em uma escola.
— Nossa! – ela disse – Onde ele deve está agora?
— Não sei! – eu respondi – Ele me abandonou aqui, sozinho com esses monstros.
— É um medroso desgraçado! – ela comentou – Tenho que achá-lo. Mas como eu disse, antes temos que ir a delegacia.
— Desculpe-me a curiosidade... – eu iria questioná-la – Mas por que uma delegacia?
— Simples. – ela disse – Lá tem tudo o que precisamos... Armas e um radio, onde poderemos chamar ajuda.
— Entendi, — eu falei – Então vamos.
— Estamos indo. – ela disse, indicando o caminho.
— Mas como você sabe o caminho? – questionei.
— Vi o mapa da cidade.
— A tá! – falei, calando-me e seguindo-a.
Andávamos pelas ruas nebulosas, minha lanterna iluminava o caminho. A arma estava na minha cintura, escondida – não queria que ela visse.

Enfim chegamos, estávamos parados, em frente à delegacia de Silent Hill. Nós dois respirávamos forte, tentando tomar coragem para entrar, mas o medo tomava conta de mim – e dela também, eu podia sentir.
— Então, vamos ou não entrar? – perguntei.
— Claro. – ela disse – Tire a arma pra fora, temos que nos assegurar.
— Você a viu?
— É claro que sim... – ela respondeu rindo – Não sou cega.
Então saquei a arma. Respiramos fundo mais uma vez, então entramos, iluminando todo o lugar. Vimos, encima de uma mesa na sala do delegado um kit de primeiros socorros.
— Nós dois precisamos disso... – eu disse, apontando para o ombro ferido dela.
— Você precisa mais do que eu! – ela disse, com razão.
— Obrigado! – eu disse.
— Não é nada! – ela disse, sorrindo pela primeira vez, um sorriso tímido, mas lindo.
Então me sentei numa cadeira e ela na outra. Então ela pegou o kit de primeiros socorros e começou a tratar das minhas feridas, começando com as chicotadas – de cabelo – que a velha me aplicara há pouco.
Então, ela estava quase acabando quando ouvimos a sirene tocar e vimos a cidade mudar mais uma vez. Levantamos rapidamente e corremos pelos corredores da delegacia até achar uma porta com os dizeres “Armas”. Entramos e pegamos algumas armas – eu peguei mais um revolver e uma escopeta, ela pegou uma pistola calibre 38 e mais um rifle.
— Você sabe usar? – perguntei.
— Não. – ela disse, carregando o rifle que havia pegado – Mas aprendo.
Então uma espécie de corrente enferrujada entrou na sala de repente e enrolou-se no corpo de Natalie, levando-a para longe. Ela deixou cair o rifle, mas levou a pistola consigo.
Peguei o rifle e tentei segui-la. Mas a corrente a levara rápido demais pelos corredores da delegacia.
— Socorro! – ela gritava, enquanto tentava segurar em algo. Mas ela não conseguia.
Eu corria, estava quase a alcançando. Mas de repente uma surpresa. Algo voou em minha direção e me fez entrar em uma sala.

Cai no chão, tremendo. Olhei então onde estava – em uma sala estranha, uma mesa no centro, duas cadeiras, a parede do norte era feita de vidro e estava manchada de sangue. As outras paredes estavam sujas também.
Olhei o vulto que havia me jogado para dentro daquela sala – que provavelmente era onde os presos eram interrogados. O vulto era baixo, mas assustador. Junto com ele surgiram mais três.
Eram cães, horrendos e assustadores. Tinham a carne toda a mostra, e de suas costas saiam espécies de espinhos – de ossos. Os olhos estavam quase no pescoço e a boca não era comum, não estava horizontalmente – como deveria ser – mas estava de forma vertical. Abrindo toda a cabeça ao meio e mostrando os dentes. Dentro da boca a língua áspera e escamosa balançava de um lado para o outro, saindo da boca.
Eles então uivaram e vieram em minha direção. Peguei o rifle e mirei neles. Então atirei em um, fazendo-o cair no chão. Destravei a arma rapidamente e atirei no outro. Fiz isso até matar todos.
Então respirei fundo, saindo da sala. Ouvi os gritos de Natalie, então os segui. Eu corria pelos corredores da delegacia.
Entrei em um corredor cercado por celas. Dentro das celas monstros grotescos gritavam e produziam sons assustadores. Eles tinham um formato humano, mas o corpo era de um tom acinzentado e tinha cortes por todos os lados. A cabeça era assustadora, era como se tivessem levado várias pancadas na face, a boca, nariz, olhos, estavam fora do lugar comum. Do peito de cada um saia espécies de tentáculos assustadores, que saiam das celas e tentavam me atingir.
Ignorei-os e segui adiante, para salvar Natalie. Eu não podia deixá-la morrer. Ela gritava muito, me deixando apreensivo.

Então cheguei onde ela estava, uma sala cheia de mesas e colchões espalhados, na parede do outro lado da sala vários pôsteres.. Ela estava completamente amarrada em uma corrente suja e enferrujada. Ao lado dela um monstro enorme, grotesco. Ele tinha na cara uma mascara de pano, o corpo musculoso estava cortado e tinha queimaduras de terceiro grau. As correntes saiam de sua barriga, que estava aberta, deixando a mostra seus órgãos. Em uma de suas mãos uma foice, suja de sangue.
Atrás de mim uma porta fechou-se, trancando-nos ali. Eu sabia que tinha que encontrar a chave, mas dessa vez não havia nenhuma pista – eu estava um tanto quanto fudido.
— Seu desgraçado! – gritei – Largue-a.
— Mais diversão – ele disse, vindo em minha direção.
Então uma corrente veio em minha direção e tirou o rifle de minha mão. Mas eu ainda tinha dois revolveres e uma escopeta pendurada nas costas.
Saquei a arma e mirei nele, atirando. Os tiros não faziam efeito, então ele se aproximou perto demais de mim e acertou-me um soco.
Voei em direção a parede, bati contra a parede e cai em cima de um dos colchões no chão.
Levantei-me rápido e mirei nele novamente, desta vez descarreguei meus revolveres atirando naquele maldito. Ele correu em minha direção, apunhalando a foice para me dar um golpe mortal.
Desviei-me dele e a foice acabou presa na parede. Fui para trás e vi nas suas costas os dizeres “Sinta os batimentos”. Batimentos? O que isso queria dizer?
Então ele pareceu ficar nervoso e a sua nuca começou a pulsar, como se o coração batesse ali. Era isso.

Peguei a escopeta e mirei na sua nuca. Mas, num movimento rápido ele soltou a foice da parede e se virou, não tinha como acertar mais a sua nuca. Ele veio então na minha direção, para me golpear novamente.
Desviei-me dele novamente e fui para perto de uma parede. Ele então veio na minha direção de novo. Era simples, rápido e fácil – eu pensei.
A foice ficou novamente presa na parede, como eu planejara. Mirei na sua nuca e atirei. Ele caiu no chão, largando a foice e deixando de viver. Então minha cabeça doeu e vi a nevoa me cercar – eu iria ter mais uma daquelas visões.