PREMONIÇÃO - Sangue Marcado
8 Decisões Difíceis
O cheiro da chuva encharcava a madeira do corredor quando Miley alcançou o segundo andar; seus passos eram um tambor abafado no assoalho úmido.
Antes mesmo de alcançar a última porta, um som seco e molhado vazou do fim do corredor. Um lamento que morreu de repente, como se alguém tivesse engolido o próprio grito. O coração dela apertou com uma percepção tão nítida que doeu: Mais um sobrevivente morreu.
— DYLAN! LANA!
Brad vinha logo atrás, a respiração curta, chamando o nome dela com pressa. Miley empurrou a porta do quarto do final do corredor sem cuidado, sem cerimônia.
A cena que a esperava arrancou um som sufocado de sua garganta: Lana jazia no chão, imóvel, a têmpora marcada por um filete de sangue que manchava os fios de cabelo. Ao lado do corpo, um troféu com a base metálica suja.
O rosto da aprendiz de wicca refletindo o clarão mortiço da lâmpada — parecia grotescamente deslocado, como um arbítrio rindo sobre a vítima.
Na varanda, com as costas voltadas para eles, alguém se destacava na penumbra. Ela viu com pesar um macacão cinzento, contaminado de lama, a postura oca e deliberada de quem não tem pressa de fugir.
— Não pode ser...
Miley não precisou olhar o rosto para saber quem era. A natureza da ameaça havia a impregnado na memória com aquela maldita silhueta magra, os ombros com um ângulo estranhamente nervoso e cabelos curtos.
Quando Derek virou a cabeça, a tatuagem de caveira no pescoço recortou-se sob o relâmpago, e um gelo lhe percorreu a espinha.
Brad agarrou o ombro dela num puxão urgente, tentando tirá-la do cômodo.
— Chama a polícia. — Ele ordenou, baixo, segurando a faca em uma das mãos.
O jovem de macacão olhou por cima do ombro, com desdém simples.
— Grande surpresa ver vocês de novo. — Disse ele, voz cortante.
— Eu não tenho ideia de como veio parar aqui, mas não faça nenhuma idiotice.— Brad gritou.
Derek respondeu com uma calma absurda:
— Não fiz nada demais além daquilo que já estava devidamente definido para acontecer. Vamos morrer e depois... eu também vou.
— O que? — Brad indagou.
— Ninguém era para sair vivo daquele aquário... mas então vocês apareceram.
— E que bom que aparecemos, não? — Brad retrucou — Minha vontade é esfregar esse seu sorrisinho idiota nesse chão agora.
A engrenagem de metal que vinha do quintal , o triturador, lá embaixo começou a roncar, um ruído pesado que vibrava pelos móveis e pela coluna vertebral de Miley.
As lágrimas vieram nos olhos dela, primeiro discreta nos cantos e depois como um rio quente que ameaçava cair. A raiva lhe encheu a boca: a sensação de tudo ser tão injusto, de Dylan ter merecido outro destino.
— Você... é uma merda de um assassino! — ela cuspiu, a voz arranhada. — Dylan não merecia isso! SEU CRETINO!
Antes que pudesse avançar, sentiu as mãos de Wayne prendendo-a pelas laterais, puxando-a para trás com força. O velho gesto foi rude, porém firme; a pressão do corpo dele contra o dela a pressionou contra o alambrado que dava para o primeiro andar.
A madeira rangeu sob o impacto, e o trovão fez a vitral ao lado estalar, fazendo com que os galhos do cedro balançassem contra o vidro.
Miley viu tudo com a clareza afiada da raiva. Ela queria correr, tomar Derek pelo pescoço, arrancar a vida dele para compensar o que fora tirado de Dylan.
A sensação de premeditação — que aquilo tivera sido armado para acontecer justamente ali, enquanto eles haviam acreditado encontrar refúgio — a aterrorizava mais do que a presença do assassino.
Se a Morte podia escolher, por que chamara um humano para executar alguém? Derek era uma avaria, uma discussão com a providência; ele tirara a vida de alguém.
— A Morte... tá usando ele para nos matar.
Wayne, com o olhar brilhante de quem já perdera demais, virou-se e exigiu, com a voz grossa:
— Como você pode ter tanta certeza disso? — O desespero o tornava abrupto; havia ódio, confusão, e um medo que se transformava em agressão.
Miley cédeu à raiva que borbulhava por dentro e empurrou Wayne para o lado, os dedos buscando espaço para avançar.
— SAI DA MINHA FRENTE! — gritou, o som fissurando a sala. — Temos que matar ele! Agora!
Derek sorriu, uma coisa afiada e sem calor.
— Não esperava menos da mulher que fracassou meus planos. — murmurou, mordaz. — Se tem coragem, faça você mesma. Faça com as próprias mãos.
A ordem caiu como gelo.
O quarto pareceu estreitar; o ruído da chuva tornou-se uma cortina opaca entre eles e o mundo. Miley sentiu o peso de cada decisão: se atacasse, poderia provocar uma catástrofe; se esperasse, mais sangue poderia rolar.
A faca na mão de Brad brilhava como uma promessa e um desafio. A respiração dela ficou curta, o corpo inteiro pronto para explodir de movimento ou ruir em prantos e, no exato ponto em que a tempestade rugiu mais alto do lado de fora, a escolha pendia sobre eles como um punhal, pronto a descer.
Miley sentiu a voz sair de sua garganta como um fio cortante:
— Se nós o matarmos fora da ordem, pode quebrar a lista. Todos podem ficar a salvo. — Havia mais esperança do que razão nas palavras; mas a esperança, naquela hora, soava como uma sentença.
Wayne, os olhos perdidos, virou-se para Brad num rompante:
— Vai, Brad. Esfaqueia ele! — A ordem saiu como quem tenta agarrar um fio impossível para estancar um pânico maior.
Derek, como se pouco se impressionasse com as vontades alheias, abaixou-se e pegou o troféu que jazia ao lado de Lana. Ergueu-o alto, a base metálica reluzindo num lampejo sinistro.
Lana, no chão, murmurou algo ininteligível; o sangue na têmpora ainda úmido. Miley entrou em pânico e a voz dela tremeu de raiva
— Não ouse! — mas as palavras pareciam pequenas diante da ideia imaginária do que poderia acontecer.
— Eu só estou me defendendo. — disse Derek com frieza. — Assim co.o eu fiz na minha vida inteira... me defendendo de pessoas asquerosas como vocês.
Brad deu um passo à frente, a faca em punho, olhos firmes.
— Larga isso e a gente conversa como adultos. — ordenou.
Derek riu, um som seco.
— Não. Vocês deveriam ter morrido. Eu vim para terminar o serviço.
Miley, os músculos tensos, tentou alcançar o celular que havia caído, mas a mão de Derek subiu e ele falou curto:
— Larga isso agora, ou a cabeça dela vai ser esmagada que nem daquele velho lá fora.
Lá fora, os galhos do cedro batucavam como dedos ansiosos sobre o vidro. Miley deixou o telefone cair em um o ato foi como soltar um pedaço de si mesma.
Lana recobrou os sentidos aos poucos, os olhos arregalando-se quando viu Derek por cima dela. Suas mãos subiram em súplica.
— Não, por favor... — murmurou.
Derek tentou golpeá-la; ela reagiu, segurando a base do troféu a centímetros do rosto, gritando. Brad avançou no mesmo tempo e empurrou Derek contra a varanda.
Um relâmpago iluminou tudo por um segundo e, na fração seguinte, o velho cedro do lado de fora foi atingido por um raio.
O estrondo foi tão forte que Miley perdeu a visão por um segundo. Piper, lá embaixo, gritou por seu pai.
— PAPAI!
— FILHA! CALMA!
Wayne deu um passo, correndo, para buscar a filha. No entanto, as tábuas do teto do corredor deram o último estalo de resistência logo acima de Wayne. No segundo seguinte, uma grande rachadura, começaram a aparecer.
— Espera! — Miley falou, temendo o pior — Não vai aí!
Galhos grossos arrebentaram a janela e despencaram, varrendo o corredor com força. Um pedaço maior rasgou no ar em direção a Wayne; Miley reagiu por instinto e o empurrou para o lado, tirando-o do golpe no último instante.
A força do impacto foi tremenda.
O teto desabou, lançando telhas e lascas de madeira; o lustre do hall soltou-se e caiu. Miley sentiu algo golpeá-la — as costas ardendo, o casaco rompendo — e, num movimento que fez tudo girar, ela rolou escada abaixo junto com tábuas e destroços.
O mundo de Miley virou trevas aos poucos. A cabeça bateu na quina de um degrau, uma escuridão súbita, depois nada.
Enquanto caiu, a última sensação clara foi a de que havia dado tudo de si para puxar alguém para fora do caminho e que, ainda assim, o preço cobrado pela noite estava longe de acabar.
○○○
O corredor já não existia — transformara-se em uma garganta escura de galhos, telhas partidas e pedaços de teto. A luz piscava em intervalos desiguais, como se a casa respirasse em agonia. O som da chuva do lado de fora parecia vir de todos os lugares.
Lana tossiu, engolindo poeira e gritando:
— Miley! — Sua voz ecoou, fina, frágil, e se perdeu entre os estalos da madeira. — Miley, responde!
Nenhuma resposta. Apenas o som abafado de trovões e algo pesado se movendo na varanda atrás dela.
— Lana! Sai daqui! — a voz de Brad veio com esforço.
Ela se virou a tempo de ver o impossível: Brad e Derek travados num duelo, a faca cravada no ombro do terrorista, o sangue descendo em filetes sobre o macacão cinzento.
Derek gritou, empurrou Brad com força e o lançou contra as portas de vidro. O impacto estourou as vidraças em mil fragmentos.
— Brad! — Lana berrou, cambaleando. A cabeça ainda latejava, o corte em sua têmpora pulsava.
Brad rolou, tentando respirar, mas Derek já estava sobre ele, as mãos em volta do pescoço do homem.
— Vocês acham que podem brincar com a morte?! — rugiu Derek. — Todos vocês deviam ter morrido! TODOS!
Brad tentava falar, mas o ar não vinha. O rosto dele já avermelhava, as veias saltando. Com um golpe desesperado, ele enfiou os polegares nos olhos de Derek. O terrorista urrou e recuou.
— Corre, Lana! Chama ajuda! — Brad conseguiu soltar, arfando.
Mas Lana não correu. Com o coração martelando no peito, ela pegou o abajur do criado-mudo, o fio arrastando no chão, e desferiu um golpe certeiro. O som foi seco, metálico.
Derek cambaleou, levou a mão à cabeça e tombou de lado. Brad engatinhou até a faca caída e a empunhou, o punho firme apesar do tremor.
— Chega! Fica parado, Derek!
O terrorista riu, cuspindo sangue.
— Vocês acham que venceram? — Ele deu um passo para trás, o olhar selvagem. — Isso não acabou. Eu ainda vou terminar o que comecei.
— Fica aí! — gritou Brad. — Não dá mais um passo!
Derek deu mais um. Depois, sem aviso, correu até a sacada e saltou.
Lana se aproximou cambaleando, o coração no limite. Brad estendeu o braço, mas ela já estava na beirada. A chuva caía forte agora, cada gota um tapa no rosto.
— Não ouço nada... — ela murmurou. — Nenhum grito.
Brad tossiu atrás dela, o pescoço marcado, apoiando suas costas contra a lateral da cama de casal.
— Talvez ele tenha caído... ou fugido.
Lana apoiou-se no parapeito. Lá embaixo, o triturador de madeira estava desligado. Toda a sua estrutura estava vermelha e com pedaços irreconhecíveis de carne que Lana não ousou formular se em um dos lados eram de um rosto ou um braço pendendo para fora.
No entanto, ela reaparou no motivo de não ter um segundo corpo triturado ali: Um galho quebrado mantinha a alavanca para cima.
— A Morte não quis ele... ainda. — ela disse num sussurro. — Mas devia.
Ela se virou para Brad, que ainda tentava respirar com dificuldade.
— Você tá bem?
— Vivo, já é o bastante. — respondeu ele com um meio sorriso cansado. — E quero continuar assim.
Lana sorriu de volta, mas os olhos encheram de lágrimas. Pegou um lenço do criado e limpou o sangue da têmpora dele, a voz embargada:
— Eu devia ter salvo o Dylan... o sangue lá fora é culpa minha. Eu falhei com ele. A deusa... ela não tá do nosso lado.
Brad segurou o pulso dela com firmeza.
— Lana, olha pra mim. Você não podia saber. Derek deve ter seguido a gente. Isso não é culpa sua.
Ela assentiu, embora não acreditasse. Os olhos dela voltaram para a porta destruída. As tábuas, o corredor obstruído, o silêncio pesado.
— Miley! — gritou outra vez, com desespero.
Nenhuma resposta.
Por fim, uma voz vinda do andar de baixo rompeu o vazio:
— Chamem uma ambulância! Rápido! — era Wayne. O som trêmulo dele fez o estômago de Lana gelar. — É a Piper...
Lana prendeu a respiração. O trovão seguinte engoliu tudo.
○○○
Miley despertou com um som distante de sirenes, misturado ao farfalhar abafado da chuva. O teto acima dela era branco e balançava suavemente, só então percebeu que estava dentro de uma ambulância.
O motor vibrava sob o piso metálico, e uma luz fria piscava sobre seu rosto. Ela tentou se mover, mas uma pontada aguda atravessou a parte de trás da cabeça. Gemeu baixo e levou a mão ao ponto dolorido, sentindo o toque de um curativo ali.
— Ei, calma, não se mexa tanto. — A voz vinha de uma mulher. Uma enfermeira negra, de olhos cansados, ajeitava o soro e apertava o esparadrapo que prendia uma faixa em volta do braço dela. — Você teve sorte, querida. Saiu quase ilesa depois do que passou.
Miley piscou, confusa, tentando entender. As luzes vermelhas e azuis dos carros piscavam lá fora, refletindo nas janelas. Pessoas passavam apressadas, algumas falando em rádios, outras apenas observando.
— Oque... o que está acontecendo? — murmurou Miley, a voz rouca.
A enfermeira suspirou, pegando um esparadrapo e colando na lateral da testa dela, bem acima da sobrancelha. Foi quando Miley percebeu o corte ali, sentindo o ardor do toque.
— Um vendaval forte atingiu a região. — explicou, sem parar de trabalhar. — Destelhou casas, arrancou árvores enormes, até lá em McGregor. Foi sorte a sua sair viva da queda daquela árvore gigantesca.
Miley piscou algumas vezes, o mundo girando por um instante.
— Você tem uma sorte e tanto, hein? Primeiro lá no aquário e agora isso. Deus realmente está te protegendo.
E então vieram os flashes. O teto cedendo, o barulho ensurdecedor da madeira se partindo, o primeiro galho vindo na direção de Wayne... e ela o empurrando, rolando com ele pelas escadas. Tudo se encaixava em imagens confusas, rápidas demais.
— Wayne... — ela murmurou, virando-se para a enfermeira. — Ele está bem?
A mulher parou por um segundo, depois respondeu num tom suave:
— Está sim. Foi para o hospital, na mesma ambulância que a filha dele. — fez uma pausa curta, baixando os olhos. — Pobre homem... sinto tanta pena. Vou rezar muito pela menina.
O corpo de Miley gelou.
— Oque houve com ela? O que aconteceu com a filha dele?
Antes que a enfermeira respondesse, uma voz conhecida ecoou da porta traseira.
— Graças a Deus... — era Brad, ofegante, segurando o batente. — Você acordou.
Miley se ergueu da maca de imediato, apesar do protesto da enfermeira.
— Senhorita, você precisa descansar, teve uma pancada forte!
— Estou bem, juro, — disse Miley, forçando um sorriso. — Nova em folha... pronta pra derrotar qualquer entidade misteriosa onipresente.
A enfermeira apenas a olhou, sem entender nada do que ela dizia, e deu de ombros.
— Esses jovens... — murmurou, abrindo espaço para que Brad a ajudasse a descer.
Lá fora, o vento frio da madrugada a atingiu em cheio. Miley viu o cenário e engoliu em seco. O chalé estava destruído. Várias viaturas piscavam em torno do lago, e uma faixa de isolamento cercava o local onde o enorme cedro caíra, inclinando-se sobre o telhado partido.
Policiais andavam em grupos, lanternas varrendo o gramado. Fotógrafos forenses tiravam fotos próximas ao triturador, onde os legistas se abaixavam, vasculhando o que restava de Dylan.
Miley desviou o olhar, o estômago revirando. A bile subiu à garganta e ela se afastou cambaleando.
— Meu Deus... — sussurrou. — Eu só quero ir pra casa.
Brad a alcançou, apoiando a mão em seu ombro. Ele tinha o rosto arranhado, um corte fino na têmpora e outro no pescoço.
— Senta um pouco, vai. — disse ele, guiando-a até o banco de madeira da pequena edícola próxima.
Eles se sentaram. O ar cheirava a barro molhado e madeira queimada. Policiais passavam, conversando em murmúrios sobre “a rota de fuga possível” e “a estrada leste bloqueada”.
— Derek fugiu. — contou Brad, olhando em volta. — Metade das patrulhas estão fazendo varredura por aqui e pelas estradas. Nada ainda.
Miley manteve o olhar fixo no chão, a cabeça pesada.
— E... Piper? — perguntou, hesitante. — Ela... ela está bem?
Brad respirou fundo, desviando o olhar. A expressão dele bastou para o coração dela apertar.
— Brad... fala logo.
— Durante a queda da árvore... um dos lustres despencou. — começou ele, com a voz baixa. — Acertou em cheio a cabeça da Piper. Ela... está desacordada.
Miley o encarou, o rosto se esvaziando de cor.
— Entrou em coma, Miley. — Brad passou a mão nos cabelos, trêmulo. — Wayne não sai do lado dela nem por um segundo. Tá arrasado. Faz de tudo pra garantir que nada mais aconteça.
Um silêncio doloroso se instalou. O barulho das viaturas ao longe parecia mais distante agora.
— Tudo isso... foi culpa minha, — ela murmurou, os olhos marejados. — Eu levei todo mundo pra esse chalé. Se eu não tivesse insistido...
Brad balançou a cabeça.
— Não diz isso. Você não tinha como saber que Derek tava ali. Isso foi armado.
— Armado por quem? — sussurrou ela, mesmo já sabendo a resposta.
Ele respirou fundo, o olhar perdido nas luzes piscando à distância.
— Pela Morte. — disse, com firmeza. — E, de algum jeito... ela sempre parece estar um passo à frente da gente.
Miley abaixou a cabeça, o curativo da testa ardendo, o mundo girando de novo. A sirene de outra ambulância se aproximou, ecoando pelo lago.
E, por um breve instante, ela jurou sentir o vento mudar — frio e pesado, como se algo invisível tivesse passado por ali, apenas observando.
Ela respirou fundo e quebrou o silêncio:
— Nem tudo saiu como a Morte queria.
Brad desviou o olhar para ela, confuso.
— O que você quer dizer?
Miley apertou os dedos contra as próprias pernas, o curativo na testa pulsando com o sangue acelerado.
— Na minha visão... era o Wayne o próximo, depois do Dylan. — Sua voz tremia levemente. — Eu vi a árvore caindo, partindo o teto, e ele bem embaixo. Era o fim dele. Mas eu empurrei ele pra longe, antes do tronco atingir. Eu mudei isso. Eu salvei o Wayne.
Brad a olhou, surpreso.
— Então... você quebrou a sequência? — um lampejo de esperança atravessou seu rosto. — Quer dizer que a lista pode ter sido interrompida?
Miley balançou a cabeça devagar, com pesar.
— Não sei. A Fiona não disse nada sobre isso... e, se eu entendi bem, as mortes seguem um padrão, até o último nome. Talvez só tenha adiado. A Morte pode voltar por ele... lá no final.
Brad respirou fundo, o otimismo se dissolvendo no ar frio da madrugada. Ele se recostou, passando um braço em torno dos ombros dela e a puxando para perto. Miley se permitiu encostar, sentindo o calor humano contrastar com o vento gelado.
Lá adiante, cães farejadores latiram na entrada da floresta, e o zumbido grave de um helicóptero cortava o céu, juntando-se à caçada por Derek. O som das hélices parecia vibrar dentro do peito dela.
Foi então que Lana surgiu do chalé, acompanhada de dois peritos. Os olhos marejados, o rosto pálido e uma expressão de quem havia visto o inferno de perto. Ela caminhava devagar, sendo amparada por um deles, a respiração trêmula.
Brad observou aquilo em silêncio e murmurou:
— Eu sei que vou ser o próximo.
Miley virou o rosto pra ele, os olhos marejando.
— Não diz isso...
— Mas é verdade. — Ele forçou um sorriso, triste. — Foi bom ter conhecido você agora. Ver que aquela garota esquisita de cabelo colorido... virou uma mulher forte pra caramba.
Ela soltou uma risada embargada, limpando uma lágrima com o dorso da mão.
— O sentimento é mútuo. E... bom, finalmente vi seus músculos de perto, e não só pelas redes sociais.
Brad arqueou uma sobrancelha, surpreso.
— Espera... você me stalkeava?
— Talvez um pouquinho, — ela respondeu, rindo. — Meu lado jornalista sempre fala mais alto.
Os dois riram juntos. Por um breve instante, o peso da noite pareceu sumir. Só restou o som distante do helicóptero e o reflexo trêmulo das luzes no lago.
O riso dela se apagou aos poucos, substituído por um silêncio incômodo. Miley virou o rosto, encarando o perfil dele.
— Eu não quero perder você.
Brad suspirou.
— Eu também não. Mas ainda há outras pessoas antes de mim... e o tempo que eu tenho, quero passar com você. O máximo possível.
Os olhos dela se encontraram com os dele. A distância entre os dois diminuiu, lenta, natural. O hálito quente de Brad misturou-se ao dela. O mundo parecia girar em câmera lenta — o frio, o medo, o destino — tudo suspenso no ar.
— Talvez... se a gente matasse alguém da lista, — Miley murmurou, com a voz vacilante. — Talvez isso quebrasse o ciclo de vez.
Brad piscou, surpreso.
— Miley, não... o preço é alto. Você pode virar assassina. Ir presa.
Ela o olhou nos olhos, firme.
— Vale a pena se for pra salvar quem a gente ama.
Por um instante, o mundo pareceu silenciar. O vento soprou entre as árvores, levando o som distante das sirenes.
Brad encostou a testa na dela, o perfume amadeirado dele invadindo o ar. Miley sentiu o coração acelerar — podia sentir a tensão nos músculos dele, a respiração quente, a lembrança viva do perigo que os cercava.
E então, sem mais pensar, ela se inclinou. Os lábios se encontraram, suaves no início, depois urgentes, como se tentassem roubar da Morte um único momento que fosse só deles.
Um raio cortou o céu ao longe. O beijo dos dois brilhou sob o clarão passageiro, selando o instante entre o amor e o presságio.
○○○
O relógio da parede marcava 00h37 quando Wayne levantou o olhar cansado. O ponteiro dos segundos se arrastava com o mesmo ritmo lento e torturante que o ar frio daquela sala de espera. Tudo ao seu redor parecia imóvel — o zumbido dos tubos fluorescentes, o cheiro de desinfetante, o ranger das poltronas gastas. Nada o confortava.
Do outro lado da parede, a ala pediátrica se mantinha em silêncio, como um cemitério de esperanças. E sua filha — sua pequena Piper — ainda estava lá dentro, intocável, inalcançável, sob o olhar distante de máquinas que respiravam por ela.
Wayne apertou os punhos, apoiando-os sobre os joelhos. A barba por fazer riscava o queixo em desalinho, os olhos fundos, inchados de tanto chorar. Ele se sentia seco por dentro, como se todas as lágrimas já tivessem evaporado junto com a fé.
Lá fora, além das portas de vidro do hospital, o caos fervia. Flashs de câmeras, vozes histéricas, repórteres disputando espaço nas calçadas molhadas pela garoa.
As vans de imprensa cercavam o estacionamento como aves de rapina, lançando perguntas ao vento:
— “Senhor Wayne! É verdade que o homem armado ainda está foragido?”
— “O senhor presenciou as mortes?!”
— “O que tem a dizer sobre o terrorista?”
As palavras soavam distantes, abafadas, mas cada uma delas o feriu com a mesma força. Wayne baixou a cabeça, pressionando os dedos contra as têmporas.
“Urubus...”, pensou, com o coração pulsando pesado. “Eles não querem a verdade. Querem sangue.”
Os policiais haviam formado um cordão de isolamento do lado de fora, tentando conter a multidão. Mas dentro do hospital, o silêncio voltava a reinar — um silêncio sufocante, denso, quase hostil.
Wayne olhou para a poltrona ao lado, vazia.
Ali, ele gostaria que estivesse alguém. Qualquerum. Mas Miley não viera. Nem Brad. Nem Lana. Todos sumiram, dispersos após o caos, cada um se agarrando ao próprio medo. E ele... ele ficou sozinho.
“Sozinho.”
A palavra o corroeu por dentro.
Ele respirou fundo e deixou o corpo afundar na cadeira, o som de um soluço escapando de sua garganta. Pensou em Piper — no riso dela quando o chamava de herói, nas mãos pequenas segurando as dele com força, nos sonhos que ela contava sobre ter um cachorro, uma bicicleta azul, um verão sem medo.
Agora, tudo isso estava preso a tubos e cabos.
O rosto dele se contraiu em um misto de raiva e dor. As lágrimas voltaram, grossas, quentes. Ele esfregou os olhos com força, mas o choro insistia.
— Por quê, meu Deus... por quê ela?— murmurou, a voz rouca. — Levem a mim, mas deixem ela...
Seu olhar caiu sobre as mãos. Tremiam.“Miley.”
O nome veio como uma farpa na mente.
Ele se lembrou dela — das promessas, das teorias, das visões e da maldita ideia de ir ao chalé. Se ela não tivesse insistido, se Dylan não tivesse seguido o plano, se todos tivessem ficado em casa...
Piper estaria dormindo agora, deitada no quarto cor-de-rosa, sonhando com o amanhã.
Mas o amanhã, para ele, havia morrido naquela noite.
Wayne respirou fundo, a voz embargada:
— Isso é culpa dela...
As palavras saíram baixas, quase um sussurro, mas carregadas de ódio contido.
— Se não fosse por ela... por essa mania de desafiar a morte... nada disso teria acontecido.
Um som suave de passos ecoou atrás dele. Uma enfermeira passando, o olhar breve e compassivo.
— Senhor O'Brien, ainda não há atualizações. O médico vai chamá-lo assim que possível.
Ele apenas acenou com a cabeça, sem forças para responder. A mulher se afastou, e ele voltou a encarar o vazio à sua frente.
A chuva aumentou lá fora, tamborilando contra os vidros. O reflexo das luzes azuis e vermelhas das viaturas manchava o chão branco, projetando sombras trêmulas sobre o rosto cansado de Wayne.
Ele fechou os olhos por um instante, e pela primeira vez, o silêncio pareceu lhe dizer algo.
Um pressentimento.
Um aviso.
Talvez não fosse só Piper em perigo.
Talvez... o ciclo ainda não tivesse acabado.
Mas naquele momento, ele não tinha mais forças para lutar contra o destino. Nem contra a Morte. Nem contra o próprio desespero.
E quando o relógio marcou 01h00, Wayne entendeu o verdadeiro som do inferno:
O da esperança morrendo, um minuto de cada vez.
○○○
O relógio digital da cabeceira marcava 2h13 da manhã quando Clarisse Johnson despertou com um sobressalto.
O quarto estava mergulhado numa penumbra azulada, o ventilador girando preguiçoso no teto, e mesmo assim ela suava como se tivesse corrido uma maratona. O coração pulsava acelerado, e por um instante, ela ainda ouvia — como ecos de um pesadelo — o som do vidro se partindo, da água rugindo e de vozes distantes gritando por socorro.
O aquário.
Ela passou a mão pela testa úmida e respirou fundo. Tinha sido apenas um sonho… mas um sonho que parecia real demais.
Podia jurar que ainda sentia o toque frio da água subindo até o peito, o peso de Luke, seu filho de oito anos, agarrado ao seu pescoço e chorando enquanto os tanques se rompiam como janelas do inferno.
— Não aconteceu... não aconteceu, — murmurou para si mesma, tentando convencer o corpo do contrário.
Lá fora, o vento assobiava entre as árvores. Um trovão distante rolou no horizonte, e a chuva começou a bater devagar nas janelas. Clarisse olhou para o teto, sentindo um arrepio subir pela espinha. Tinha medo de voltar a dormir e reviver aquilo.
Silenciosamente, saiu da cama. Vestiu o roupão de algodão e caminhou descalça pelo corredor. O chão frio do piso laminado gelou seus pés.
Ela parou por um instante diante da porta do quarto de Luke, entreaberta, e espiou lá dentro.
O menino dormia em paz, o cobertor subido até o queixo, abraçado a um urso de pelúcia. A luz azul do abajur infantil desenhava sombras suaves nas paredes — um contraste cruel à inquietude que dominava o coração da mãe.
Clarisse desceu as escadas devagar, uma a uma, cada degrau rangendo como um aviso. Ao chegar à cozinha, a escuridão a recebeu como uma presença viva. Apenas a luz do poste do lado de fora filtrava-se pela janela, projetando reflexos frios sobre os armários.
Ela acendeu a luz. O ambiente ganhou cor — o relógio sobre o fogão, a pilha de louça que prometera lavar mais cedo, os ímãs coloridos na geladeira com fotos de Luke sorrindo. Tudo normal. Tudo banal.
Mas o silêncio era… estranho.
Clarisse abriu a torneira para fazer um pouco de chá. O som da água corrente trouxe um mínimo de conforto. A chaleira se encheu até a metade e o estalo do fogo surgiu assim que ela girou o botão do fogão.
— Que merda... pensei que isso tinha passado.
Clarisse se sentou na mesa com seus cabelos Black Power despontando desarrumados na cabeça e sua pele escura dando contraste contra a luminosidade das lâmpadas amareladas acima.
Ela estava se perguntando se sua insônia não havia retornado para atormertá-la, mas tudo parecia indicar que sim. Ainda mais quando viu com seus próprios olhos o homem que iria matar ela e tantos outros quase cumprir a sua chacina se fosse por um belo homem.
Bradley era o nome dele? Ela não tinha certeza apesar da televisão bombardear imagens dele e de uma ruiva quase que direto nos canais.
Cleck.
— Hã?
Quando ela se levantou para analisar a pia, notou que demorava a drenar. A água girava devagar, subindo pelas bordas do ralo.
— Ah, não de novo... — resmungou, agachando-se para abrir o armário sob a pia.
Ela sentiu um algo abafado, com cheiro de ferrugem e mofo. Ela tentou inspecionar se havia deixado algo passar desde a última vez que o consertou.
Ao lado, a chaleira estava fervendo e quase entrando em ebulição. O fogo balançou suavemente assim que uma leve brisa gélida percorreu o espaço.
— Vamos lá. Colabora.
Cleck!
O encanamento rangeu abaixo de seus dedos, sentindo um leve tremor como se tivesse entupido. Clarisse revirou os olhos e forçou a válvula do cano principal para aliviar a pressão, mas o metal gemeu alto.
A água fervente da chaleira começava a sair do bico do bule, borbulhando ameaçadoramente. Uma gota escorreu e atingiu as chamas, produzindo um chiado baixo que Clarisse ouviu e a fez girar a cabeça.
Antes que ela se levantasse para desligar o fogo, a válvula quebrou. Um estalo baixo e metálico ecoou e em seguida um jato de água escaldante escapou, atingindo-a em cheio no rosto.
— Ai! Merda! — gritou, recuando com a pele avermelhada.
A dor era insuportável. Parecia que seu rosto iria se desfazer de tanta agonia. Clarisse berrou, tentando sair da frente do jato, onde seu braço esbarrou contra o fogão e o forçou a se mover alguns centímetros fora do eixo.
Seus pés escorregaram na poça se formando e ela caiu para trás, batendo a cabeça na beirada da mesa. Clarisse apenas teve tempo de sentir suas costas contra o chão enquanto tentava limpar sua face avermelhada.
O balanço do fogão foi o bastante para mover a chaleira para fora do bocal e a inclinar para a a beirada.
— QUE MERDA!
Clarisse tentou recuar, mas escorregou na poça de novo. A chaleira, parecendo aproveitar o momento, caiu e derramou seu conteúdo quente sobre o corpo dela.
— AAAAAAAHHHHHHHH!!!!
O micro-ondas, preso por um fio mal encaixado, vibrou levemente na prateleira antes de tombar. Caiu no chão com força, o plugue se soltando — e a faísca que saltou iluminou a poça de água ao redor do corpo dela.
O choque veio num estalo brutal.
Clarisse arqueou o corpo, os olhos arregalados, a boca entreaberta num grito que nunca saiu. Os músculos se contraíram, as veias do pescoço saltaram. A corrente percorreu seu corpo em ondas invisíveis, e o som do curto-circuito preencheu a cozinha.
A lâmpada piscou freneticamente — uma, duas, três vezes — até se apagar por completo.
O silêncio retornou. Apenas o gotejar rítmico da torneira persistia, ecoando na escuridão e o borbulhar da sua pele formando queimaduras de segundo grau na sua cabeça.
Do andar de cima, um som suave:
— Mamãe...? — chamou a voz sonolenta de Luke.
Nenhuma resposta.
Clarisse Johnson jazia imóvel, o rosto voltado para o teto, o olhar vazio fixo em algum ponto além do tempo.
O relógio no fogão piscava 2:23, marcando o minuto exato em que o destino, mais uma vez, havia cumprido sua promessa.
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