PREMONIÇÃO - A Última Nota
2 Pássaro Livre
Notas iniciais
Jamie arfou, assustado.
Um baque no peito, como se tivesse levado um soco de dentro para fora. Seu corpo estava inteiro, sem cortes, sem sangue. O ar, pesado e quente, mas não tóxico como há pouco. Os sons que ouviu primeiro foram a batida grave da bateria e a risada de alguém próxima a ele.
O celeiro estava intacto.
O som vibrando nos amplificadores, o cheiro de cerveja derramada e madeira velha, o palco improvisado iluminado com refletores presos por fios mal colocados. Os Ceifadores ainda estavam cantando e a plateia cantando junto.
O jovem ergueu seu olhar para cima e viu a mesma passarela que havia despencado com ele fatalmente instantes antes, agora inteira e com vigas a sustentando. Megan ajeitava a câmera no alto, observando ele com um sorriso. O som da multidão vibrante abafava seus próprios pensamentos.
— Ainda está sóbrio, James? — brincou ela.
As luzes coloridas giravam sobre a multidão animada. A banda de Ramon começou afinar os instrumentos no palco improvisado, onde Mike fez uma piada no ouvido de Jason. Todos pareciam bem, sem nenhuma mancha de fuligem.
Jamie piscou rápido, sentindo o suor frio escorrendo pelas têmporas.
Ele levou a mão ao rosto, tentando se recompor. A pele estava úmida. As imagens ainda estavam lá: A explosão no galpão, os corpos eletrocutados, o teto desabando... o sangue.
Muito sangue.
Olhou para as próprias mãos. Limpas.
— Jesus... o que... o que foi isso...? — sussurrou para si mesmo, os olhos girando pelo salão.
A sensação de sufoco não passou. Cada vez que observou alguém se movimentar, a lembrança da forma como morreriam tomava conta de sua mente. Ele sabia. Tinha certeza. Aquilo ia acontecer.
Sentiu alguém tocar seu ombro. Megan.
— Jamie? Ei, você tá bem? — perguntou, preocupada. Os olhos dela buscaram os dele. — Você tá pálido... parece que viu um fantasma.
Ele engoliu em seco.
— Megan... a gente precisa sair daqui. Agora. Eu... eu vi... Deus, eu vi tudo. Vai pegar fogo. Vai explodir. Todo mundo aqui vai morrer!
Megan franziu a testa, um brilho de receio nos olhos. Ela segurou o braço dele, tentando conduzi-lo para o canto.
— Calma, cara. Você tá em choque. Vamos respirar lá fora. Você deve ter tido um ataque de pânico...
— NÃO, Megan! Não é isso! — Jamie apertou o braço dela, os olhos fixos e assustados. — Eu vi o teto caindo! Eu vi o Ramon morrendo! Eu vi você...
A voz de Ramon ecoou pelo salão.
— E aí, seus desgraçados!
A multidão vibrou. Mike afinava a guitarra, a garota dos piercings estava sobre o teclado, aguardando sua hora de entrar. Ramon no centro, sorriso debochado no rosto, se aquecendo com os primeiros toques da bateria.
O calor da fogueira do lado de fora chamou sua atenção, cujas brasas já subiam como pequenas chamas dançantes na corrente de vento.
Jamie suou frio assim que deixou Megan para atrás. Sentiu as pessoas enquanto passava, rindo, conversando, completamente alheias à tragédia iminente.
"Se eu não fizer algo agora..."
Sem pensar, ele continuou avançando pelo meio da plateia, empurrando quem estava no caminho.
— Com licença... sai da frente...
— Vamos fazer essa noite ficar na história, porra!
Ele pisou sobre o gelo derretido dos copos caídos no chão, vendo os cabos mais adiante com um nó na garganta. Suas pernas se moveram rapidamente pelos degraus do lado direito do palco. Subiu rapidamente, arrancando o microfone da mão de Ramon.
— PAREM! TODO MUNDO SAI! O CELEIRO VAI EXPLODIR! — Jamie gritou, a voz rasgando o som ambiente.
A multidão deixou seus berros de euforia morrerem no ar lentamente, alguns rindo achando que era encenação, outros xingando para ele sair dali.
Ele conseguiu ver Randy na passarela de cima. Ele pareceu se divertir com a situação, rindo com outros festeiros.
Ramon congelou por um segundo. Depois veio a fúria.
— QUE PORRA É ESSA, JAY?! — ele avançou no irmão.
Jamie tremeu, os olhos fixos em Ramon. Os refletores estavam pousados nos dois irmãos, deixando a luz opaca destacar eles sobre a leve penumbra do resto do celeiro.
— Eu vi, Ramon! Eu vi tudo! A gente vai morrer aqui se não sair agora! Eu juro por Deus! Os tambores, o fogo, o teto... o teto vai cair na gente!
— Tá usando o quê, caralho?! Vira homem, porra! Tu quer estragar meu show?! A galera tá aqui para beber, curtir, não para ver surtado! — Ramon empurrou Jamie pelo ombro.
Alguns começaram a vaiar. Ele viu pelo canto do olho Steven e Ruby se aproximando entre o mar de pessoas até a beirada do palco. Jamie voltou, encarando.
— Eu não estou drogado, Ramon! Eu tô tentando salvar você, cacete! Se você pisar nesse palco hoje, vai morrer junto!
A plateia começou a murmurar. Alguns sacaram celulares. Mike deixou sua guitarra escorada em um canto das pilastras de ferro que emolduravam o palco. O homem, que deveria ter quase trinta anos, chegou até a dupla com as mãos em forma de rendição.
— Acho que é melhor você resolver isso fora daqui, Ramon. — Mike, o Mestre, falou — Assuntos pessoais é fora do palco. Se quiser, eu vou junto com vocês.
— Que porra tá acontecendo aí? — gritou Jacob, se aproximando com uma garrafa de cerveja na mão.
Jamie iria falar mais, porém o microfone foi tirado de suas mãos por Mike. O guitarrista levou sua mão gentilmente, mas insistente, nas costas do rapaz e levou ele até os degraus do palco. Jacob estava perto, onde Sasha observou tudo com certo receio.
Assim que passaram pelo garoto mais rico da universidade, ele soltou uma risada debochada.
— Tá aí... o garotinho Corman surtando de novo. Fala logo que tá com ciúmes do irmão roubando a cena e pronto, mané!
Jamie se virou, enfurecido.
— Vai se foder, Jacob. Cala a boca!
— Ihhh... perdeu a linha — debochou Jacob, jogando um pouco do conteúdo de sua garrafa na blusa de Jamie.
Todos que estavam perto soltaram um grande e sonoro "Oh!", se afastando da confusão. Jamie sentiu o gosto da cerveja escorrendo no canto da boca e sua blusa se grudando contra o peito.
No instante seguinte, Ramon desceu do palco com um pulo, pousando próximo do irmão.
— Você perdeu a cabeça, seu idiota?! — Ele empurrou com força Jacob, os dois quase se engalfinhando em uma briga.
— Ramon, para! — Mike gritou, separando os dois.
Megan avançou no meio dos curiosos, abrindo uma brecha entre os bêbados. Ela derrubou a garrafa de Jacob no chão, o puxando pelo braço para atrás. Ramon se aproximou, empurrando o rapaz com camisa polo e calças caqui na direção da saída do celeiro.
— Para! — Megan gritou — Para os dois, merda! Que cena ridícula!
— CHEGA! O que vocês tão fazendo?! — gritou Steven, pegando o braço de Jamie — Vamos sair daqui, Jamie... agora!
Mas Jacob não se conteve.
— Isso mesmo, saem daqui. Voltem para o hospício que a mãe de vocês saiu.
Foi o suficiente.
Ramon se desvencilhou de Mike e acertou Jacob com um soco no rosto, fazendo um pequeno respingo de sangue voar para fora da boca. Jacob tropeçou, mas devolveu com um cruzado. Os dois rolaram no chão.
A plateia gritou. Alguns filmavam. Outros se afastavam.
— VEM! AGORA! — Steven ordenou.
Quando se deu conta, Jamie estava sendo levado por Megan e Steven para fora do celeiro. Ele se virou, observando Ramon e Jacob trocando insultos enquanto Mike e a tecladista tentavam separar os dois.
— Espera! — Ruby gritou, saindo da entrada do local as pressas — Stevie!
O lado de fora estava praticamente vazio, onde apenas alguns bêbados vagavam e jogavam conversa fora perto de suas caminhonetes. Um arrepio cruzou a nuca de Jamie. Ele se virou uma última vez.
As chamas da fogueira do lado de fora lançaram uma brasa que voou no ar. Lentamente. Jamie a viu atravessar a janela quebrada e sumir atrás do palco.
"Começou."
— MEGAN, CORRE! — gritou, puxando-a contra o chão de terra batida.
— O que vocês estão... — As palavras de Ruby foram interrompidas.
Um estouro alto ecoou na Fazenda Peterson.
Uma luz laranja rasgou o interior do celeiro, lançando fogo e estilhaços. A estrutura tremeu, sendo pega pelo deslocamento de ar. Houve gritos. Jamie sentiu o calor na pele, o ar quente sendo espirrado para todas as direções.
Tons alaranjados iluminaram o lado de fora, assim como seus espectadores.
Ruby, que estava perto da entrada, berrou e foi jogada com o impacto contra o chão. A tecladista teve suas mechas azuladas esvoaçadas pelo ar, abraçando Ramon de lado como se quisesse protegê-lo.
Jacob se assustou com o estrondo e saltou contra a terra e palha esparramados, colocando suas mãos atrás da cabeça como se estivesse sendo revistado por policiais.
Megan estava caída ao lado de Jamie, ofegante.
— Como você... soube?
XX
A sala de espera do Departamento de Polícia de Hope Hills era pequena e abafada.
Havia cadeiras de plástico enfileiradas contra as paredes bege descascadas e um ventilador de teto girava preguiçosamente, sem fazer diferença alguma no ar denso e carregado de tensão.
Os sobreviventes estavam espalhados pelo espaço, cada um tentando lidar à sua maneira com os escombros deixados pela tragédia. Os olhos vermelhos, roupas manchadas de fuligem e pequenos curativos improvisados faziam deles um retrato imperfeito daquilo que o destino havia poupado — ao menos por enquanto.
Jacob estava recostado em um canto da sala, com as pernas esticadas à frente e os braços cruzados atrás da cabeça. Ao lado dele, Sasha permaneceu em silêncio, os olhos amendoados fixos no piso frio, como se sua mente ainda estivesse presa no celeiro, entre gritos e labaredas.
Afinal, não era fácil para ela. Sasha foi uma das poucas que conseguiu escapar pela saída de emergência atrás do palco.
Mike estava com o corpo curvado no final da fileira das cadeiras, onde sua cabeça estava baixa e o rosto oculto pelos longos cabelos castanhos. Ele não havia pronunciado nenhuma palavra desde que as chamas explodiram tudo. Jamie viu ele fungar, mas não sabia se era um sinal de choro silencioso.
Foi Jacob quem quebrou o silêncio, a voz carregada de ironia e desprezo disfarçado de brincadeira.
— Quando eu sair daqui eu juro que vou processar seu irmãozinho de merda por agressão. — disse ele, o tom zombeteiro ecoando pelo ambiente.
Os outros presentes lançaram olhares rápidos, incômodos, mas ninguém interveio. Sasha soltou um suspiro cansado, passando as mãos pelo rosto.
Jamie fechou os punhos, sentindo a raiva e a tristeza se misturarem no peito como um nó sufocante. Ele não respondeu de imediato, mas o peso das palavras pairou no ar, espesso como fumaça.
— Só cala essa boca. – resmungou Steven perto de Jamie.
Steven havia ficado ali, mesmo após prestar seu depoimento. Ruby havia ido embora de carona com seu pai que não parava de ligar para ela a cada cinco minutos, mas mesmo assim, seu colega de quarto continuou sentado ao seu lado.
De certa forma, Jamie se sentiu acolhido.
Foi então que a porta da copa se abriu com um rangido discreto.
Ramon apareceu segurando dois copos de café fumegante. Os olhos fundos e a barba por fazer denunciavam o quanto ele também não havia pregado o olho. Ao ouvir a provocação de Jacob, Ramon lançou-lhe um olhar gelado, que durou apenas um segundo, antes de passar direto como se ele nem existisse.
— Vai se foder, Jacob. — murmurou, sem emoção, e seguiu até onde Jamie estava.
Sentou-se ao lado do irmão e lhe estendeu um dos copos.
— Aqui, você parece mais morto que vivo.
Jamie aceitou em silêncio, sentindo o calor e o gosto amargo invadindo sua boca. Ele abaixou o copo, observando a fumaça escapando pelo ar.
Ramon tomou um gole do seu próprio café, observando o irmão de soslaio. Por alguns segundos, só se ouviam os estalos do ventilador e o farfalhar das folhas de anotações do policial atrás do balcão.
— Foi como com ela, não foi? — perguntou Ramon, quebrando o silêncio, sem rodeios.
Jamie respirou fundo, a mandíbula tensa.
— Eu não quero falar sobre isso, Ramon.
O irmão balançou a cabeça, recostando-se na cadeira.
— Você precisa falar. Se tá acontecendo de novo... a gente precisa saber. Precisa se proteger. Ou você quer esperar o próximo acidente? Quer acordar preso em outro lugar pegando fogo?
Jamie apertou os olhos, como se quisesse expulsar a memória das chamas, dos gritos e da madeira cedendo.
— Eu não quero acabar como ela, tá legal? — a voz saiu baixa, cortante. — Não quero terminar a vida feito a Kimberly Corman... vendo todo mundo morrer ao meu redor e esperando a porra da Morte vir buscar o que sobrou. Eu não quero acreditar nisso, Ramon. Eu só... quero que isso pare.
Ramon não disse nada. Só ficou ali, encarando o próprio café, enquanto o silêncio voltava a ocupar o espaço entre eles.
A porta do corredor rangeu, abrindo-se devagar.
O detetive Dean Jenkins surgiu, o cansaço estampado no rosto marcado por rugas e olheiras.
Megan apareceu atrás dele, com o rosto abatido e os olhos marejados. Ela segurava um lenço na mão e evitava olhar para os outros enquanto cruzava a sala.
— Pode ir, Megan. — disse Dean, com a voz rouca. — Está liberada. Se precisar de ajuda para voltar para casa, o oficial Maddox pode acompanhar.
Ela assentiu e saiu, sem dizer palavra. Dean então olhou para a sala, o bloco de anotações nas mãos.
— James Collins Corman? É sua vez.
Jamie respirou fundo, largou o copo de café quase intocado na cadeira e se levantou. Ramon tocou o ombro dele com firmeza, um gesto breve, mas cheio de significado.
— Qualquer coisa, pode contar comigo.
Jamie assentiu e seguiu para a porta, sentindo o peso dos olhares em suas costas — de Mike, de Sasha, de Jacob ou Steven, ainda esboçando aquele receio estranho sobre ele.
Dean abriu a porta e Jamie desapareceu no corredor.
A sala ficou novamente imersa naquele silêncio espesso, onde até o tique-taque do relógio parecia hesitar.
XX
A cidade de Hope Hills repousava sob um céu encoberto, onde as nuvens pesadas de fumaça ainda pairavam, mesmo horas depois do incêndio. As ruas estavam quase desertas, apenas os postes de luz quebrando a escuridão com suas lâmpadas amarelas e cansadas.
Jamie seguiu de carona com Ramon em sua moto. Ele iria até o pequeno apartamento do irmão, no terceiro andar de um prédio antigo perto da estação de trem. O lugar era apertado, com paredes descascadas e móveis desajeitados, mas tinha um certo ar de refúgio improvisado — e era tudo o que Jamie precisava naquela noite.
Ele não queria voltar para o dormitório da faculdade.
Não queria cruzar o corredor e ver a cara de Steven, não queria ouvir perguntas, não queria lidar com aquele olhar de pena ou com os sussurros de como ele previu tudo. Aqui, pelo menos, ele podia tentar esquecer — ou fingir que tudo aquilo ainda não estava colado em sua pele.
Ramon abriu a porta e jogou as chaves sobre a bancada da cozinha americana.
— Finge que a casa é sua. — disse ele, a voz rouca pelo cansaço.
Jamie largou o casaco jeans no sofá e se jogou numa das poltronas surradas da sala. Por um instante, nenhum dos dois disse nada. Apenas o som distante do trem chegando na sua estação ao longe e o leve estalo do relógio de parede preenchiam o ambiente.
Ramon estava de pé, encostado no balcão da pequena cozinha, onde encheu um copo para beber água. Tinha os olhos fundos, denunciando o desgaste que as últimas horas haviam imposto. Uma de suas mãos passou pelos cabelos desalinhados, ele pareceu tão devastado quanto o celeiro incendiado que estava na sua mente.
— Você não vai conseguir dormir, né?
Jamie apenas assentiu, sem olhar.
Ramon sentou-se do outro lado do sofá, os dois encarando a televisão desligada.
— Tá tudo meio embaçado ainda — disse Ramon, após um tempo. — Não consigo... tirar da cabeça o Mike gritando, aquele fogo... as vigas... e você lá, gritando pra todo mundo sair.
Jamie fechou os olhos por um instante, as imagens se repetindo como um filme quebrado.
— Eu tentei. Eu juro, Ramon. Eu tentei. Mas... parecia que ninguém me ouvia. Igual... igual quando nossa mãe...
Ele não terminou a frase. Ramon deu um sorriso fraco e amargo, os olhos vermelhos.
— A gente fez o que dava. Se não fosse você, nem eu, nem Natalie, nem Megan estaríamos aqui agora. E Jacob... — ele deu um riso sem humor. — Bem, se tivesse ficado, talvez a delegacia tivesse uma cadeira a menos.
Jamie esboçou um sorriso fraco. Ramon se levantou, apontando para o quarto de hóspedes improvisado no final do corredor estreito.
— A cama tá meio dura, mas quebra o galho. Se quiser ficar uns dias aqui... a chave tá ali.
Jamie assentiu, sem responder, e Ramon deu dois toques leve no ombro do irmão como um último conforto. Ele ouviu o vocalista da banda andar até o seu quarto, fechando a porta com um clique lento.
A madrugada avançava.
Jamie ficou na sala, sem conseguir sequer pensar em deitar. Ligou a televisão e baixou o volume. No canal local, o noticiário reprisava imagens do incêndio.
— "... o incêndio, que começou por volta das 21h25 no celeiro abandonado da Fazenda Peterson, matou cerca de cinquenta e seis jovens e feriu outras dezenas. A causa provável ainda está sob investigação, mas as autoridades trabalham com a possibilidade de um acidente envolvendo líquidos inflamáveis próximos ao palco."
O repórter falava enquanto mostravam imagens do celeiro agora reduzido a escombros fumegantes. Ainda havia bombeiros ao redor e jatos d'água eram lançados em pequenos focos rebeldes atrás da cortina esbranquiçada de fumaça.
Jamie passou a mão pelo rosto. Sentia os olhos arderem.
Foi então que a televisão chiou por um instante — o som abafado, como se algo interferisse no sinal. A imagem falhou e, por uma fração de segundo, ele jurou ver... uma sombra disforme atrás de si no reflexo da tela.
Virou-se depressa. Nada.
O apartamento estava vazio. A luz fraca e azulada da televisão sendo a única coisa que não mergulhava o apartamento nas trevas. Ramon provavelmente já estava dormindo e não era da índole dele fazer pegadinhas.
— Preciso descansar um pouco...
Uma leve brisa gélida balançou as cortinas e passou sobre a velha cômoda em frente. Um boneco manequim de madeira acabou tombando e caindo no chão. A cabeça foi a primeira coisa a colidir contra o piso de madeira, onde se desprendeu do resto do corpo e rolou até os pés de Jamie.
Ele observou as cortinas pararem de se moverem lentamente, reparando que as vidraças da janela estavam fechadas. Não havia como uma corrente de ar ter entrado ali.
Ele desligou a televisão, encarou o próprio reflexo na tela preta e, pela primeira vez desde a tragédia, sussurrou para si mesmo:
— Isso não acabou...
XX
Mike Maverick estava exausto.
Não de cansaço físico — aquele, ele já nem sentia mais — mas de tudo o resto. Da vida, da rotina arrastada, das lembranças, e principalmente da insistência cruel do destino em manter ele por aqui enquanto os outros... não tiveram a mesma sorte.
Na manhã seguinte ao desastre no celeiro, Mike estava na Lambert's Garage, como se nada tivesse acontecido, embora tudo dentro dele estivesse despedaçado. Os jornais já estampavam fotos das chamas e manchetes sensacionalistas. Mas ali, entre cheiro de óleo queimado e lata velha, ninguém queria saber.
Negócio era negócio.
O som constante de metal contra metal preencheu o ar abafado da oficina, onde seu letreiro em forma de um corvo repousava acima da calçada. A ventoinha velha pendurada no teto era mais um enfeite do que funcional.
Mike estava de pé sob o capô aberto de um Chevelle 69, os braços cobertos de óleo e o rosto suado, enquanto ajustava uma peça no motor. Aquilo não era o que ele tinha sonhado para si. Nunca foi.
Depois que o pai morreu, foi ele quem precisou tocar os negócios da família: a oficina. As contas não esperavam, e a guitarra ficou mais tempo encostada do que em suas mãos.
"Só por um tempo", ele dizia. Mas o tempo virou anos.
Mike enxugou o suor da testa com as costas da mão e ligou o rádio, tentando abafar a inquietação.
— Vamos lá, só mais algumas horas, Mestre... — murmurou pra si mesmo.
O apelido Mestre ecoou na cabeça como um velho refrão. Ele se lembrou de como tudo começou. Quinze anos, uma guitarra velha emprestada e um festival de talentos. Tocou Highway Star num solo que fez a escola inteira pirar. Foi o único momento da vida em que sentiu que pertencia a algum lugar.
Que o mundo podia ser dele.
E agora? Preso a uma oficina, remendando o que sobrou.
— Tá melhor, Mestre? — perguntou Kenny, tentando aliviar o clima pesado.
Mike resmungou mentalmente. Não queria ser incomodado, mas respondeu.
— Mais ou menos. Dormi menos que gambá em rodovia.
— Achei que tu não vinha hoje, depois de ontem. — Kenny jogou uma chave inglesa para ele, que pegou no ar.
— Só morre quem tá na hora, né?
— É... — Mike hesitou — Espero que a minha ainda não tenha batido.
Kenny deu de ombros e sumiu nos fundos.
Ele ficara encarregado da hora do almoço com Kenny, o novato. Um moleque de boné para trás e cabelos escuros desgrenhados. Muitas espinhas no rosto e pouco empenho no trabalho. O repertório de piadas sem graça era infinito e para Mike tinha mais cara de cliente do que de futuro mecânico.
Para aliviar a tensão, foi pegou seu celular e conectou com uma pequena caixa de som colocada perigosamente na beirada da mesa suja e recheada de ferramentas. Ele avançou na sua lista de músicas preferidas até encontrar a ideal, sorrindo assim que tocou um trecho de Free Bird da sua banda favorita, Lynyrd Skynyrd.
"If i leave here tomorrow
Would you still remember me?
For i must be traveling on now"
Mike deixou a música fluir sobre si, balançando a cabeça conforme os riffs da guitarra evoluíam. A letra falava sobre alguém com o espírito livre como um pássaro querendo voar, onde ninguém pode mudá-lo e nem tocá-lo.
De certa forma, isso tocou o coração do velho Mestre.
Ele cantarolou a letra enquanto puxava a alavanca para cima, fazendo o Chevelle 69 subir no elevador hidráulico lentamente. O mecânico e guitarrista nas horas vagas não se importou no leve rangido que a corrente estava fazendo no guincho hidráulico, parecendo rosnar como um lobo sorrateiro.
A caixa de som continuava vibrando, e no instante seguinte, o som fez uma lata de querosene, mal apoiada na bancada, oscilar mais perto da beirada. Paralelo à isso, o rangido parou assim que chegou no topo da estrutura, logo acima de Mike.
— Hey, Mestre! — chamou Kenny, o tom zombeteiro de sempre. — Vai pro show hoje ou vai ficar namorando esse Chevelle?
Mike deu um sorriso torto, se esforçando para não dar um soco nele.
— Tô indo, cara. Só queria terminar isso antes.
Ele bateu com a chave inglesa na lateral de um dos pneus e murmurou:
— Prometi pro velho que esse carro voltava para estrada.
Enquanto Kenny começou a mexer em um Mustang Shelby GT500 encostado, Mike ajeitava algumas ferramentas perto do velho fosso de manutenção no chão da oficina. O espaço estreito onde Mike desceu tantas vezes para trabalhar sob os carros estava escuro e sujo de graxa.
Um dos potentes acordes da música, durante o seu ápice, vibrou com força a caixa de som e de imediato, a lata de querosene. Ela tombou de lado, abrindo sua tampa mal fechada com facilidade.
O líquido escorreu no chão em direção ao fosso.
Mike não percebeu. Estava distraído demais encarando o vazio enquanto limpava a beirada do buraco retangular à sua frente.
— É só dar uma encerada nesse aqui, né? — perguntou Kenny, mascando um chiclete vermelho.
Mike virou a cabeça para observar o novato. Kenny, a poucos metros dali, usava uma lixadeira para tirar ferrugem do para-lama do Mustang.
Ele só murmurou, ainda ouvindo Free Bird.
— Sim, moleque. Cuidado para não riscar nada. Isso aí é uma joia rara.
A noite passada ainda estava presa em sua cabeça como uma música ruim que se recusa a ir embora. Ele viu aquele celeiro pegar fogo, sentiu o calor, ouviu os gritos, a madeira estalando, as vigas cedendo. E ainda assim, estava ali. Vivo. Como se tivesse trapaceado algo que não deveria.
E no meio daquele caos, Jamie Corman.
O garoto que, até então, Mike tinha achado meio estranho demais para se levar a sério, previu tudo aquilo com uma precisão sinistra. Um médium ou... algo pior.
"Deve ter nascido com o dedo do capeta apontado para ele." Mike pensou, enquanto pegava um pano e começava a limpar as mãos sujas de graxa.
Foi então que ele sentiu o pé escorregar.
— Merda! — exclamou, tentando se apoiar, mas já era tarde.
O pé direito deslizou na poça de querosene, seu corpo avançando para além do abismo de concreto sujo, caindo direto dentro do fosso. A cabeça bateu na borda com um estalo seco, e uma onda de zumbido preencheu seus ouvidos.
— Kenny?!
A lixadeira estava ligada, produzindo um barulho estridente alto demais para que Kenny pudesse ouvir. As faíscas lamberam o metal antes de voarem contra o chão, onde o óleo começou a avançar até o show de fagulhas.
Mike, grogue, se levantou cambaleante. Ele subiu pela enferrujada escada lateral, sentindo que sua cabeça iria explodir de tanta dor.
Olhou para o lado e viu a trilha brilhante de querosene se aproximando de onde Kenny, distraído, estava produzindo faíscas com a lixadeira.
— Para com isso, caralho! — gritou Mike, tentando sair dali às pressas.
As faíscas voaram. Uma delas beijou a trilha de combustível. A chama surgiu instantânea, rastejando como uma serpente luminosa.
Mike viu a lufada de calor ir contra seus pés molhados de óleo, vendo as mesmas chamas que mataram tantas vidas na noite passada avançarem sobre ele.
— SEU IDIOTA!
Ele cambaleou para trás, saindo da rota do fogo. As solas das botas escorregaram de novo, seu corpo tombando contra a alavanca do elevador hidráulico, ainda travada na posição de segurança.
O impacto liberou o pino de sustentação e a velha corrente voltou a girar.
"CLACK!"
Mike tentou sair debaixo, mas era tarde.
O Chevelle começou a descer de forma brusca, sua suspensão se erguendo conforme as rodas desabavam. Mike gritou, os olhos arregalados, mas o óleo escorregadio impediu que ele escapasse à tempo.
O pneu dianteiro, grosso e pesado, acertou em cheio sua cabeça.
Ele sentiu o peso pressionar sua mandíbula para trás, seus dentes da frente se quebrando e um gosto sangrento contaminar a boca. Um estalo vindo de suas têmporas afundando e esmagando a parte frontal do cérebro foi a última coisa que ele ouviu.
Kenny correu até o elevador hidráulico e gritou:
— Mike?! Mestre?!
Mas não houve resposta.
A mandíbula quebrada e apoiada sobre o peito embaixo do pneu indicava que o Mestre havia aposentado sua guitarra para sempre.
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