PARA ONDE VAMOS?
1 Capítulo 1- A história do elefante
PARA ONDE VAMOS?
Capítulo 1- A história do elefante
Steve esfregara os olhos vagarosamente, pois o sono já o havia tomado. Eram quase 11:30 da noite.
—Boa noite, filho(exclama a mãe, dando um beijo suave e lento na testa do garoto)
—Não...(suplica o garoto, segurando o braço da mãe que levantara para ir embora)
—O que houve, querido?...Não está com medo daquela história do Homem do Chapéu, né??(questiona ela, levando sua mão direita em cima da do garoto)
—Não é isso. Eu queria ouvir aquela história que você comentou com o papai durante o jantar. Eu tive que ir ao banheiro fazer 'xixi', e eu não entendi nada dela(explica Steve, voltando a esfregar seus olhos)
—Ok. Mas para de esfregar seus olhos com força. Vai começar a arder, e eu não vou sair da minha cama pra te levar ao banheiro não, hein(diz a mãe, enquanto sorria para o garoto e passava as mãos entre os cabelos do mesmo)
—Ta bom, mãe. Hahaha(ria rapidamente o garoto, enquanto voltava a se cobrir e ajeitar sua cabeça no travesseiro do Homem-Aranha)
A mãe colocara o copo de água do garoto na mesa do notebook, ao lado da cama. A mesma se levanta, puxando a cadeira, e sentando ao lado de Steve para contar a tal história interessante. Mas antes, ela da um leve suspiro passando a mão sobre os braços descobertos do garoto.
—Um certo dia, um príncipe indiano mandou chamar um grupo de cegos de nascença e os reuniu no pátio do palácio. Ao mesmo tempo, mandou trazer um elefante e o colocou diante do grupo de cegos. Conduzindo-os pela mão, foi levando os cegos até o elefante para que o apalpassem. Um apalpava a barriga, outro a cauda, outro a orelha, outro a tromba, outro uma das pernas...
O garoto já esquecera de seu sono, e acomoda ainda mais seu corpo na cama. Parece que seu sono havia sumido. Mas sua mãe, que ainda continuara com a história, parecia não se importar e foi terminando-a:
—...Quando todos os cegos tinham apalpado o elefante , o príncipe ordenou que cada um explicasse aos outros como era o elefante. E então, o que tinha apalpado a barriga, disse que o elefante era como uma enorme panela. O que tinha apalpado a cauda até os 'pêlinhos' da ponta discordou e disse que o elefante se parecia mais com uma vassoura. “Nada disso “, interrompeu o que tinha apalpado a orelha; “Se alguma coisa se parece, é com um grande leque aberto”. O que apalpara a tromba deu uma risada e logo explicou: “Vocês estão por fora. O elefante tem a forma, as ondulações e a flexibilidade de uma mangueira de água…”. “Essa não”, exclamou o que o tocou na perna, “ele é redondo como uma grande mangueira, mas não tem nada de ondulações nem de flexibilidade, é rígido como um poste…”. Os cego então começaram uma discussão sem fim, cada um querendo provar que os outros estavam errados e que o certo era o que ele dizia...
A mãe acabara sua história e voltou a sorrir para o garoto durante uns segundos em silêncio. O garoto, mesmo tendo a certeza em sua mente que a história teve seu fim, esperou que a mãe concluísse algo depois daquilo tudo que ela falou. Mas o que saíra da boca da ruiva naquele momento, não ajudaria a concluir o que o garoto queria entender:
—Era isso, filho. Agora vamos dormir que você tem aula amanhã cedo...Boa noite, meu queridinho(acrescenta ela, dando outro beijo na testa do garoto. Ela parecia apressada dessa vez)
—Boa noite, mãe...(responde o garoto, com total desdém e incerteza do que pudesse ter falado antes)
Sua mãe levantara lentamente da cadeira, colocando-a de volta para o canto do quarto. Seus passos pareciam lentos e firmes pelo tapete vermelho. Já próxima a porta, ela apagara a luz do quarto e deixando a porta entreaberta, com um pequeno feixe de luz que já não incomodara mais os olhos do garoto. Não por ter perdido seu sono, mas porque agora ele estava com a cabeça debaixo da coberta. Era um medo estranho. Talvez um medo de não ter entendido aquilo tudo por completo que a mãe o contara.
''Só tinha um-...'', pensava o garoto sendo interrompido pela vontade de beber água. ''Mas tenho que beber pouco, se não vou acabar guardando o 'xixi' e esquecendo de ir quando acordar. Não quero fazer 'xixi' na frente da senhorita Moore, como aconteceu uma vez com o Richard''. A mão direita do garoto se estendia para a mesinha próximo a cama. Sua mão dançava como uma pluma no escuro, tateando toda parte que tocara. ''Cadê o maldito copo de água?''. Segundos após toda a procura, ainda com a cabeça coberta e acolchoada ao travesseiro, seu dedo indicador toca o copo, mas logo o derruba no chão.
—Droga...(cochicha o garoto, descobrindo agora sua cabeça e fitando algo que pudesse parecer um formato de copo no chão escuro)
O copo teve seu som abafado ao cair, pois havia caído sobre o tapete vermelho. Mas quanto mais o garoto olhava, mais parecia impossível de estar ali. Tapete e mais tapete, por todo canto que olhava ao chão. Talvez pudesse ter rolado para debaixo da cama. Mas a chance de ainda haver água dentro desse copo era nula, e Steve sabia disso. O garoto então, lentamente, coloca os pés para fora da cama. Seus pés, vestidos por uma meia branca e apertada, tocaram justamente a parte molhada do tapete. ''Droga...'', era a única coisa que passava-se em sua cabeça.
Agachando-se ao máximo sobre o tapete, o garoto tateava agora toda a parte do tapete. Mesmo com o feixe de luz da porta que sua mãe deixara entreaberta, o quarto era muito escuro com a lâmpada apagada. Steve, aceitando o fato que pudesse ter rolado para debaixo da cama, estica os braços e passa as mãos por debaixo da mesma, mas o copo parecia ter feito uma fuga perfeita pelo seu quarto. Aos poucos, Steve esticava seus pequenos braços por debaixo da cama toda. ''Era um copo do Homem-Aranha. Preciso encontrar logo''. Seu corpo agora já entrara praticamente por completo debaixo da cama e saindo pela outra lateral. E logo a porta, pelo feixe, um olho o observava.
O grande lençol da cama varreu seu rosto devagar ao passar por baixo da cama. O garoto levantara do chão, sem ter completado sua missão de achar o copo. Porém, outra coisa agora o incomodara. Aquele não parecia mais ser seu quarto.
—Mãe!!!-(gritou Steve, tentando apoiar as mãos em qualquer parede que alcançasse)
Steve não obteve resposta nenhuma de seu chamado em meio àquela escuridão. Mas percebeu e concluiu o pior, e o mais improvável que parecesse para ele: aquele não era mais o quarto dele. Não havia porta, nem janelas e nem seu pequeno armário que guardava os trabalhos artísticos da escola. Não havia nada além da cama e a escuridão gritante que o abraçava fortemente. A possibilidade de achar um interruptor era maior do que a de começar a chorar para ele. Ele então começara a andar lentamente pelo quarto escuro com seus braços esticados, parecendo um zumbi dos filmes que seu pai alugava nos fins de semana. Segundos depois a luz se acende magicamente, assustando as retinas do garoto.
Ao recobrar a visão devagar pela luz incessantemente forte sobre seus olhos, o garoto vira que havia apenas uma cama ao seu lado, o tapete vermelho de seu verdadeiro quarto e a mesa do notebook havia sido trocada por uma máquina grande, semelhante a um ''computador do futuro''. Uma voz suave e doce então ecoa daquele canto do quarto...o canto do computador:
—Oi...meu nome é Samantha-
—Aaaaah!!!!(interrompe o garoto com seus gritos de susto, andando devagar para trás olhando para o computador do canto)
—Calma...mantenha a calma-
—Como você 'ta' falando???!! É alguém escondido?(indaga o garoto, que já havia muitas perguntas entaladas de uma vez na garganta)
—Meu nome é Samantha, muito prazer(termina de se apresentar o computador)
—Você...(processa Steve lentamente o que está dizendo)...você está mesmo falando comigo?? Eu Steve Smith?
—É claro que estou. Não há mais ninguém no quarto...há?(indaga a inteligência artificial com um tom irônico)
—...Não...(responde o garoto olhando para os lados daquele pequeno quartinho) Como você está falando?
—Eu aprendi a falar, assim como você(replica ela ainda com uma voz doce)
—Esse cubo preto com uma luz vermelha acendendo é por onde você fala?(indaga Steve, agora curioso pela Samantha e desencostando da parede do quarto)
—É sim, Steve. Pode pegá-lo, eu ainda continuarei falando. Eu meio que sou...parte disso tudo
Steve sem acreditar em tudo aquilo ainda, mesmo com uma imaginação fértil e um histórico grande de amigos imaginários, anda em direção a Samantha e pega o cubo preto com a luz vermelha devagar. E a questão que Steve mais queria saber é proferida por seus lábios lentamente:
—Você...é...viva?
—Claro, Steve(responde Samantha, com uma voz ainda mais doce e meiga)
A voz da inteligência artificial fazia com que Steve a materializasse em sua mente: talvez uma mulher alta, de cabelos até o ombro...soltos...com uma aparência adorável, como a da enfermeira gentil que tivesse uma fórmula mágica que não fosse a injeção.
—Mas você não tem um corpo de verdade...(diz o garoto sem temor de magoar o computador mágico)
—Mas ainda sim eu vivo...E Steve, viver é a coisa mais rara do mundo. Pois a maioria dos seres apenas existe
Aquelas palavras tocaram Steve de uma forma única. Elas não pareceram confusas ou pseudo-intelectuais descritas num livro chato que seus coleguinhas liam em voz alta, a pedido de professora Moore. Aquelas palavras eram verdadeiras demais para ele, mesmo tendo apenas 7 anos.
—Senhora Samantha...(aquela formalidade era totalmente estranha para Steve, ainda mais quando são para um computador) Você pode me levar de volta pra minha casa?
—Mais ou menos(replica rapidamente Samantha , num tom ambicioso)
—CONTINUA
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