P a r a l e l o s
2 Prólogo
— Agora é a sua vez de buscá-la — argumentei, atirando-me displicentemente sobre a grama e sustentando o peso do corpo sobre os cotovelos.
Podia sentir o suor lavrando caminhos tortuosos sob a camisa úmida. Eu resfolegava, o peito subindo e descendo com sofreguidão na tentativa de encher os pulmões. Me estiquei para alcançar a garrada d’água já com o rótulo ilegível e despejei seu conteúdo morno sobre o rosto.
Naquele fim de tarde ensolarado no Kentucky, tudo parecia estar em seu devido lugar, na mais perfeita harmonia. O céu, limpo, tingido por uma paleta de cores azuis e alaranjadas – tal qual uma pintura impressionista –, lançava centelhas luminosas nos cabelos acobreados e úmidos de Josh. Seu rosto moldado por covinhas estava igualmente coberto de suor. O garoto estava em pé e me encarava, seu corpo projetando sombras sobre os meus pés.
— Não! Ela foi muito longe — Josh fez um muxoxo, cruzando os bracinhos miúdos sobre o peito.
— Mas isso não é justo, eu fui da última vez.
Nós dois lançamos olhares em direção dos trilhos de trem, onde a bola de futebol, que antes embalava nossa disputa, agora repousava.
— E então? Você vai buscar a bola para continuarmos o jogo ou vai assumir o seu título de perdedor da partida?
Josh ponderou por um instante, seu semblante vincado em uma expressão contrafeita. Sorri triunfante, pois sabia que aquilo o afetava. O garoto jamais aceitaria se dar por vencido.
— Que droga, sua trapaceira! — Josh bateu os pés no chão. Lascas de grama esvoaçaram no ar, e tive de virar o rosto para que não me atingissem. Explodi em um riso sem controle até perder o fôlego.
— A culpa não é minha se Joshua Young Hill é um merdinha chorão. — Esfreguei os punhos fechados sobre os olhos, fingindo estar secando as lágrimas.
— Ok, você venceu! — Josh lançou as mãos para o alto, aborrecido. — Eu te odeio, Jess.
Dei de ombros. Josh revirou os olhos e caminhou pelo gramado a passadas duras, pisoteando impiedosamente o chão com as travas da chuteira. Espremeu-se para atravessar as tábuas da cerca pintada de branco até chegar ao outro lado do terreno.
— Espero que os pássaros não comam suas migalhas de pão para encontrar o caminho de volta, Hänsel — provoquei-o. Um sorriso travesso irrompia em meus lábios.
— Ora, cale essa boca — gritou em resposta, mostrando a língua para mim por entre as tábuas.
Assim que Josh desapareceu do meu campo de visão, me esparramei sobre o gramado, as mãos espalmadas sobre os olhos para protegê-los do sol que já começava a se refugiar no horizonte.
— A Hora Dourada — balbuciei. Lembrava-me de quando mamãe havia me explicado o significado do termo ao revelar, em êxtase, sua pintura recém-acabada. O sol poente figurava entre as ruínas do que parecia um antigo anfiteatro romano. Aquelas pinceladas leves e sem contorno evidente eram a coisa mais deslumbrante que eu havia visto em toda a vida.
Havia meses que mamãe virava as noites enfurnada em seu ateliê. Quando não estava no ateliê, seus olhos se encontravam vidrados em frente à tela de um notebook. Na semana seguinte, aconteceria sua primeira exposição. Ellen estava sofrendo por antecipação. Estava nervosa, inquieta. Passara dias catalogando a coleção, elaborando a lista de convidados, selecionando meticulosamente os comes e bebes que seriam servidos e contatando músicos. Ellen parecia um furacão em seu corre-corre ininterrupto, sempre com manchas de tinta no cabelo. Papai argumentava que mamãe estava se exigindo demais.
— Jess! — O clamor estridente me fez despertar do estado de semiconsciência. Recompus-me em um segundo e me coloquei em pé, esfregando a grama que havia se agarrado às roupas. — Jess, por favor, me ajude!
Corri até a cerca e espiei por sobre as tábuas, a tempo de ver a figura de Josh sentada sobre os trilhos, a bola aninhada sob seu braço esquerdo. O direito agarrava firmemente o tornozelo, cujo pé repousava em uma posição estranha sob o perfil de aço laminado.
— O que aconteceu?
— Acho que fiquei preso.
— Qual é, Josh? Isso não tem graça. — Tentei me manter impassível, mas podia sentir o nó que começava a se formar na garganta e o coração pulsando mais forte.
— Eu não estou brincando. — Quando Josh se virou para mim com os olhos marejados, engoli em seco. — Fui me agachar para pegar a bola e essas coisas de metal agarraram as travas da minha chuteira. Agora, não consigo sair.
— Meu Deus! Ai, meu Deus! — praguejei, pegando impulso para saltar sobre as tábuas. Aterrissei ruidosamente do outro lado da cerca. — Me pergunto como conseguiu essa façanha.
Atravessei o gramado denso, cujo tamanho chegava à altura da minha coxa, e dobrei os joelhos ao me aproximar da figura atônita do garoto. Apanhei seu tornozelo para poder examinar melhor. Josh se recolheu de modo quase instantâneo e emitiu um grunhido entredentes.
— Está doendo!
— Como posso ajudar você se não me deixa nem ao menos tocá-lo? — Levantei-me e depositei as mãos sobre a cintura, suspirando. — Acho melhor chamar a mamãe e o papai para re... — Um sonido agudo se fez notável ao longe, como o assobiar de uma chaleira cujo conteúdo começava a ferver. — Que barulho é esse?
O semblante de Josh escureceu de imediato, e não precisei de respostas para confirmar minhas suspeitas. A constatação me aterrorizou tanto que minhas pernas começaram a ceder.
— O trem está vindo — O garoto murmurou para si, como se necessitasse de uma confirmação. Em seguida, dirigiu o olhar para mim. Sua expressão era tão atormentada que tive de me conter para não desviar os olhos. — O TREM ESTÁ VINDO! FAÇA ALGUMA COISA, JESS!
Minha visão pareceu enevoada por um instante, e pontinhos pretos sumiam e desapareciam enquanto eu apanhava os braços de Josh. Projetei todo o peso do corpo para o outro lado. O garoto urrava em um misto de dor e agonia, mas seu pé não se movia um único centímetro. Empreguei ainda mais força, até as juntas dos dedos ficarem esbranquiçadas e veias azuis despontarem em minha testa. Minhas mãos úmidas escorregaram e cambaleei para trás, ofegante.
— Não está funcionando!
Meus olhos esquadrinhavam incessantemente o ambiente ao redor na busca desesperada por uma solução. Limpei o suor que escorria pelas têmporas com as costas da mão e quase me dobrei para vomitar quando senti o sabor da bile impregnar meus lábios.
— Deveria ter alguma alavanca por aqui que leva o trem para outra linha, mas onde diabos?
O gramado denso tornava a tarefa de encontrá-la praticamente impossível. Invoquei todas as forças para acionar meu raciocínio e me concentrar no que precisava ser feito.
— DEPRESSA, JESS! ESTÁ SE APROXIMANDO!
Em um ímpeto de determinação alucinada, comecei a acenar de maneira vigorosa, esticando os braços até onde meus músculos podiam suportar. Gotículas de saliva voavam dos meus lábios enquanto eu bradava a plenos pulmões, ordenando que o trem parasse. Sem lograr nada em resposta, permaneci apoiada sobre a ponta dos pés e gesticulei com ainda mais firmeza.
Tudo o que aconteceu depois não passava de uma confusão enevoada. O maquinista aparentemente atendeu ao meu chamado. Os passageiros gritavam em um fervor caótico. As rodas do trem produziam faíscas em contato com o perfil de aço laminado. Sua estrutura sacolejava e emitia rangidos medonhos conforme perdia velocidade. Então, com um rugido metálico, quase animalesco, os vagões da frente descarrilharam e se dobraram, as rodas mergulhando na terra e lançando torrões para todo lado.
Em algum lugar do tórax, um impacto fez meu corpo ser lançado metros adiante. O gramado alto fora responsável por atenuar a queda. Ainda assim, meu rosto colidiu contra uma estrutura firme que não fui capaz de distinguir. A dor da pancada imediatamente se espalhou como algo quente e fluido, e pude discernir o gosto metálico do sangue em meus lábios. Meus sentidos foram obliterados por um breve espaço de tempo, e tudo pareceu estar fora de foco.
A multidão esvaziava o trem como uma manada. Não fosse pela dor pungente que se abatia sobre mim, eu poderia jurar que aquela era a hora do rush de uma metrópole. O tumulto tomava conta do lugar. Havia uma sinfonia de gritos furiosos e inflamados. Executivos de traje impecável e maleta em mãos chacoalhavam seus bilhetes no ar, praguejando algo sobre trabalho, horários e o-que-é-que-eu-vou-fazer-agora. Os comissários do trem tentavam, em vão, abrandar a confusão. Crianças choravam copiosamente. Alguns poucos grupos mais contidos se abraçavam e agradeciam a Deus por ter sido apenas um susto. Aparentemente, ninguém havia se ferido.
Despertei de meu estupor quando um homem loiro, de cabelos ralos e barba por fazer, puxou-me pelo braço. Seu polegar áspero escorregou pela fonte da dor em meu rosto. Com os olhos entreabertos, pude ver sua face se vincar em uma careta contrafeita ao lançar um rápido vislumbre pelo dedo maculado de sangue.
— Você está bem, menina? — O sotaque do homem era carregado e bastante nasalado. Pelo modo como articulava as palavras, supunha ser algum imigrante eslavo. — Essa foi por pouco. Onde você estava com a cabeça? Poderia ter morrido!
— Meu irmão. — Minha voz não passava de um sussurro que escapava com dificuldade pelos lábios trêmulos. — Onde está o meu irmão?
— Seu irmão?
— É, ele estava comigo um minuto atrás. Estava preso nos trilhos. — As imagens de Josh permearam meus pensamentos, como flashes de um pesadelo, e não demorou para que minhas entranhas se contraíssem. — Eu consegui salvá-lo, certo?
— Deus, eu não sei.
Fiz um esforço extra para agarrar seu braço. Puxei seu rosto para mais perto do meu, numa tentativa desesperada de fazer com que ele compreendesse a urgência de minhas palavras.
— Preciso achar o meu irmão.
Então, empurrei-o para o lado e me desvencilhei dele. Engatinhei alguns metros adiante, incapaz de me colocar em pé. O sujeito me ajudou a levantar e estendeu a mão, mas refutei seu amparo.
— Ei, mocinha, você está machucada. Não quer que eu acione os paramédicos?
— Está tudo bem, é só um corte.
O sujeito permaneceu me observando enquanto eu cambaleava. Vislumbrei de soslaio quando ele sacou o celular do bolso de trás da calça jeans, percorreu os dedos pelas teclas e o conduziu à orelha. Segundos depois, monocórdica e mecanicamente, relatava a ocorrência para a pessoa do outro lado da linha.
Avancei trôpega. Olhares condescendentes recaíam sobre mim. Alguns metros a frente, uma multidão se aglomerava. Pessoas se acotovelavam em nome de um lugar privilegiado para contemplar a cena, para logo depois se afastarem com as mãos espalmadas cobrindo os lábios. Algumas pessoas mais sensíveis desabavam em lágrimas e se refugiavam nos braços de quem quer que estivesse ao lado. Meu estômago imediatamente se revirou.
Corri até o aglomerado. Meus músculos urravam de dor, mas me forcei a prosseguir. Esgueirei-me por entre a comoção, que agora sussurrava baixinho, murmurando palavras como “hemorragia, múltiplas fraturas, traumatismo craniano”. E, então, eu o vi.
Havia o trem, um corpo débil e sangue por toda a parte. O tempo pareceu congelar por um instante, e tudo ao meu redor se tornou indistinguível. Minhas pernas fraquejaram e caí de joelhos. De início, apenas permaneci ali, com os olhos injetados, o lábio inferior tremendo compulsivamente e tentando compreender – ou ao menos processar— o panorama surreal que transcorria diante de mim. Mas então, comecei a soluçar. Chorei de uma maneira que não chorava desde criança, quando despencara de uma árvore e quebrara o braço em três lugares.
Então, era assim que a melodia da morte soava. Soturna. Dura. Aterradora. Nada de avisos prévios ou compadecimento.
Ali estava ele. Josh. Meu Josh, o corpo sem vida mergulhado no que parecia um sono profundo. O trem não havia parado a tempo de livrá-lo das garras de tal melodia fúnebre.
E a culpa era toda minha.
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