Pé de Chinesa

8 Capítulo 3 – Um jantar conturbado


Não demorou muito para Xu Lee se sentir à vontade na casa dos irmãos Xong. Yotra abriu todos os compartimentos do guarda-roupa para mostrar com detalhes sua coleção de vestimentas, dessa forma Xu poderia escolher a que mais gostasse. Yotra mostrou até as roupas íntimas para a convidada, mas Xu havia reparado em uma coceira peculiar na amiga e resolveu não arrisca. A jovem chinesa pegou uma calça jeans, uma camisa básica da cor amarela e foi ao banheiro se trocar, depois de tomar um belo banho.

Enquanto se ensaboava no banho, Xu Lee tentava não pensar na morte da avó. Sempre que esse pensamento surgia em sua mente, ela lutava para manda-lo a um lugar bem distante. Caso contrário, passaria o resto da noite chorando. Apesar do luto, ter criado novas amizades estava ajudando-a a superar os sentimentos ruins daquele dia fúnebre.

Quando saiu do banheiro, Xu Lee percebeu que Yotra não estava mais no quarto dela. Para onde a amiga tinha ido? Xu colocou sua roupa suja em cima da cômoda do quarto e começou a andar pela casa, procurando pela desaparecida. A jovem chinesa percebeu que a porta do quarto de Keen estava entreaberta e resolveu bisbilhotar para ver se sua amiga estaria por ali. O que viu, entretanto, a deixou intrigada. Keen estava sentado em frente a uma escrivaninha com vários cadernos em branco dispostos sobre o móvel. O rapaz passava o dedo em cima das folhas, como se estivesse lendo com uma concentração absurda cada palavra invisível dali. Xu esticou o pescoço e tentou observar melhor, talvez houvesse coisas escritas que não seria capaz de ler naquela distância. Ela levou um susto quando sentiu um par de dedos cutucarem seu ombro.

— Xu Lee? – Yotra perguntou, fazendo a amiga tremer da cabeça aos pés. – O que você está fazendo aí?

— Ai, que susto! – a lutadora de kong-fu disse aflita. Em seguida, afastou-se da porta. – Eu estava te procurando, não encontrei você quando sai do banheiro.

— Eu fui na cozinha preparar algo para nosso jantar. – Apesar de não parecer com raiva, havia uma desconfiança no olhar de Yotra. – Por que você estava espionando meu irmão? Você, por acaso, está interessada nele?

— Não, não é nada disso. Eu pensei que você estivesse conversando com o Keen. Mas, ele está lendo... Páginas em branco! Como funciona isso? Ele consegue enxergar algo naquelas folhas?

— Eu não sei. Já faz meses que meu irmão está estudando para passar no vestibular de medicina e sempre estuda com um montão de cadernos em branco. Acho que é uma técnica nova. Eu não entendo muito bem isso.

— Ah, entendi. Eu acho.

— Vem, eu preparei yakissoba para o jantar. Deixa eu chamar meu irmão. – Yotra foi até a porta do quarto de Keen e deu três batidas de leve. – O jantar está pronto! Vem, acho que Xu Lee está faminta.

— Já estou indo – Keen respondeu, dando sinal para indicar que ainda precisava ler uma folha em branco antes de sair.

Xu Lee sentou-se na cadeira da ponta da mesa de jantar. Yotra pegou uma panela fumegante do fogão, em que uma mistura apetitosa de macarrão, verduras e molho shoyu balançava à medida que a moça servia os pratos na mesa. Demorou apenas mais dois minutos para que Keen se juntasse as duas mulheres. Todos se sentaram e começaram a comer a comida que, de fato, estava bastante apetitosa.

— Então, Xu, o que você pretende fazer agora? – Yotra começou a conversa, mas levou um chute do irmão por debaixo da mesa. – Ai, o que foi?

— A moça acabou de perder a avó e todo o templo pegou fogo. Deixe ela ter o tempo dela para decidir as coisas. Parece até que está querendo expulsar ela daqui.

— Não, tudo bem – Xu avisou, tentando esboçar um sorriso. – Eu sei que minha avó tinha um dinheiro guardado no banco, amanhã vou tentar retirar esse valor. E, então, eu vou viajar para o Brasil.

— Brasil? – O irmãos Xong perguntaram em uníssono.

— Por que você vai para lá? – Yotra indagou, ainda perplexa. – Não teria um lugar mais perto que você queira conhecer?

— É por causa da minha mãe, ela mora em São Paulo. Agora que minha avó está em um lugar melhor, acho que devo conhecer a minha mãe. Quer dizer, eu só estive com ela quando eu era bem novinha, nem me lembro de como ela é. Mas minha avó me deu o endereço da minha mãe. Eu vou atrás dela.

Um silêncio se instaurou depois das palavras de Xu. Yotra e Keen trocaram olhares preocupados, sem dizerem uma única palavra. Xu manteve-se concentrada no yakissoba, comendo enquanto pensava como seria viajar para um país totalmente novo, com outros costumes, outro idioma, outro clima.

— Eu vou com você! – Keen falou subitamente.

— Eu sabia que você ia dizer isso – Yotra disse como resposta. – Não, Keen, você não vai.

— E quem vai me impedir?

— Você sabe muito bem que você não pode fazer isso!

Xu percebeu que havia uma disputa secreta entre os dois irmãos. Ela respirou fundo, tentando analisar a proposta de Keen. Ter alguém ao seu lado para viajar ao Brasil não era uma ideia ruim. Ela estava com medo do que iria encontrar no país novo, todas as dificuldades que passaria. Apesar disso, é compreensível que Yotra não queira viver sozinha. Com certezas os dois se ajudam nas tarefas domésticas e no pagamento das contas.

— Keen, você não precisa ir comigo. Eu agradeço bastante a preocupação, mas eu consigo me virar no Brasil.

— Eu vou e ponto final – o rapaz falou, encerrando o assunto. – Vamos comprar amanhã mesmo as passagens, ver se conseguimos algum voo o quanto antes.

— Por que você é assim, Keen? – Yotra levantou-se subitamente batendo as mãos na mesa. – Você sabe que devemos tudo para uma pessoa. E você nem ao menos quer consultar essa pessoa antes. Sempre assim, sempre fazendo o que quer na hora que quer.

— Já somos adultos, maninha! E podemos decidir o que queremos fazer por conta própria.

Antes que pudesse falar qualquer coisa para tentar reverter a situação, Xu viu Yotra sair da cozinha e trancar-se no quarto. A jovem lutadora sentia-se mal por ser o motivo da briga entre os dois, mas não podia evitar aquilo. Xu não mandava em Keen Xong e não havia nada que pudesse falar para fazer o garoto mudar de ideia.

— Deixa pra lá, amanhã ela está de boas – Keen comentou, juntando os pratos vazios da mesa e colocando na pia. – Acho que hoje você vai ter que dormir na sala. Tudo bem?

— Sim, claro... – Xu sussurrou, ainda desconfortável. – O que aconteceu? Por que vocês brigaram assim?

— Nós não temos mãe, fomos criados por uma mulher que virou nossa mãezinha. E Yotra acha que devemos pedir permissão a essa mulher para tomar nossas decisões. Mas já somos adultos, podemos muito bem agir por conta própria. Yotra sempre briga comigo quando faço algo de forma independente. – Keen respirou fundo. – É besteira, vai passar.

O rapaz foi até o próprio quarto e pegou alguns lençóis, alguns cobertores e um par de travesseiros. Ele arrumou um espaço no sofá para Xu ser capaz de passar a noite ali. Ela agradeceu a atenção, percebendo o quanto Keen era atencioso.

— Obrigada – a garota agradeceu.

— Ah, não é nada. Eu tenho lençóis extras.

— Não, obrigada por querer viajar comigo amanhã. É meio assustador ir sozinha para o Brasil. Apesar da briga de vocês, eu fiquei grata pela sua ajuda.

— Por isso... – Keen ficou com o rosto corado, sem-graça. – Não é nada. De verdade. Agora, er, boa noite! Dorme bem. Qualquer coisa, pode ir no quarto me chamar.

— Está bem. Até amanhã. Boa noite!

Xu Lee deitou-se no sofá, percebendo que de fato ele estava bem confortável. Ela encostou o rosto no travesseiro, sentindo que o pano tinha o cheiro do perfume de Keen. Respirou fundo, sentindo o coração bater mais acelerado. O que era aquilo? O que ela estava sentindo? A garota balançou a cabeça negativamente, tentando afastar qualquer sentimento que estivesse sentindo. Seu foco era encontrar a mãe em São Paulo. Xu fechou os olhos e sentiu mais uma vez o perfume de Keen. Sorriu, enfim, enquanto adormecia.