Pássaros
16 Capítulo 16
Notas iniciais
Boa leitura!
Pássaros
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Escrito por Amanur e Noel Blue
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Capítulo 16
— Eu sei que você está aí, Sakura. — disse a outra voz.
Com um suspiro, ela resolveu ceder para ele, e destrancou todas as fechaduras para que ele pudesse entrar.
Naruto se espantou com o estado deplorável em que sua colega se encontrava. Ela estava completamente descabelada, o odor de álcool parecia vir de suas entranhas, e nunca achou que pudesse vê-la tão mal vestida com aquele moletom comprido, velho, desbotado e cheio de furos.
Sem dizer nada, o rapaz entrou e foi direto para a cozinha. Arregaçou as mangas do blusão que vestia, e se pôs a lavar a montanha de louça suja que ela deixara acumular outra vez. Sakura, entediada, puxou uma cadeira de sua cozinha e se pôs a observá-lo. Ele teria muito trabalho para fazer ali, mas ela apenas o observava, enquanto tomava o restante do seu café se perguntando qual o propósito de sua visita inesperada.
Ele estava furioso, na verdade, e tentava canalizar sua frustração na louça. Esfregava a esponja com força contra a louça, enquanto sua mente borbulhava com questões sobre o que estava acontecendo, porque não compreendia como alguém poderia ser tão volátil, inconstante, e inconsequente quanto ela; justo ela que sempre se mostrou ser uma pessoa centrada, focada no trabalho. Não fazia sentido para ele todo aquele relato que ouvira a seu respeito, e apesar de ainda estar chateado pelo que aconteceu entre os dois, ele se importava com ela, e precisou ver com seus próprios olhos o que estava acontecendo.
— Quando é que você vai voltar ao normal, hein? — ele começou a resmungar, sem olhar para trás, enquanto enchia pratos de espuma — Quando é que você vai voltar a ser aquela pessoa divertida e sorridente por quem me apaixonei? Por que, tenho que dizer, não gosto desse seu novo eu, Sakura. Ela é ranzinza, deprimente, desagradável, inconsequente e sem noção! Nunca vi tanta louça junta na minha vida! — sem querer, ele acabou deixando uma xícara escorregar da mão e quebrar no chão — Mas que merda! — esbravejou, se afastando dos cacos.
Com um suspiro pesado, ela se levantou para limpar a sujeira dele. Naruto ficou ali, parado, com as mãos ensaboadas, observando os movimentos lentos, preguiçosos, sem vida da sua colega. Ele se perguntava como alguém poderia chegar a esse ponto sem se dar conta do mal que fazia a si mesmo, pois ele se negava a acreditar que ela estivesse fazendo aquilo tudo de propósito.
Ela pegou os cacos maiores, e em silêncio se dirigiu a lixeira em cima da pia, jogando-os ali. Em seguida, foi até uma porta ali mesmo, na cozinha, para pegar a vassoura e a pá penduradas num suporte. Então, sem dizer nada, foi varrendo o resto do vidro, jogando-os na mesma lixeira. Quando terminou, ela fitou aqueles olhos cristalinos, se aproximou e lhe abraçou, deixando Naruto em choque.
— Me desculpe. — ela sussurrou em seu ouvido, como se tirasse um peso das costas — Não quero que se sinta no dever de vir aqui me ajudar, você não tem que fazer isso. São meus erros, minhas consequências. Sinto muito, mas não crie expectativas comigo, não quero magoar você...
— Sakura... — Naruto tinha a voz trêmula, hesitante, incerto do que estava acontecendo ali, e se afastou levemente dela para olhar em seus olhos verdes — Deixe me ajudá-la, por favor. — ele passou os dedos pelo seu rosto, deslizando pelo queixo, sem tirar os olhos dos dela.
— Vou ficar bem, tudo vai ficar bem, eu prometo.
Naruto franziu os lábios, desviou o olhar e, respirando fundo, se afastou, voltando a lavar a louça acumulada na pia. Seus olhos foram ficando cada vez distorcidos pela frustração. De repente, ele queria esganá-la, porque sabia exatamente qual seria o desfecho daquele dia — que seria completamente diferente do que ela dizia.
Mas Sakura só ficou ali olhando para as costas dele, tentando convencer a si mesma de que dizia a verdade, porque ela queria que fosse a verdade.
— Qual o seu problema? — ele grunhiu, de repente — Por que você, simplesmente, não consegue deixar que os outros te ajude? É vergonha? Orgulho? Medo? O que é? O que diabos se passa na tua cabeça, Sakura? Eu entendo que você tenha passado por um momento complicado em sua vida, mas, pelo amor de Deus, até quando você vai lamentar por isso? A sua vida continua. Acorde logo, antes que seja tarde demais. — ele respirou fundo, com a voz grave e as narinas dilatadas pela raiva.
Ela ouvia tudo calada, com os olhos agora no chão. Ele não tinha direito de dizer aquelas coisas, porque não sabia o que era perder alguém importante, que nunca mais verá, sentirá seu cheiro, seu toque, ouvir sua voz. Ele não sabia que aquela amargura em que ela mergulhava era a única coisa que mantinha viva a lembrança dos momentos que teve com seu falecido marido; porque se voltasse a sorrir novamente, ela temia que aquelas lembranças vividas que a corroia aos poucos desvanecessem. E ela precisava daquela melancolia aguda para nutrir o que ainda restara dele dentro de si. Para Sakura, voltar a se feliz significava que precisava se esquecer ele, e isso era algo para o qual ela não estava preparada ainda.
— Naruto, você... — murmurou, sem saber bem o que dizer.
— Nem se incomode em dizer que eu não sei de nada, porque não passei por isso, e blábláblá. Me poupe desse discurso cretino, porque sei exatamente o que está na minha frente. — ele se virou para encará-la novamente — Essa figura fantasmagórica não foi a pessoa com quem seu marido se casou, Sakura. Se ele era uma boa pessoa, tenho certeza de que não era isso o que ele iria querer para você.
— Acredito que ainda tenho o direito de decidir o que fazer com a minha vida... Além disso, você não conhecia ele, portanto, não fale como se o conhecesse!
Aquilo o deixou ainda mais irritado. Então, ao invés de continuar enchendo a boca de palavras inúteis que não serviriam de nada, Naruto resolveu tomar algumas atitudes. Jogou a esponja cheia de espuma na pia, limpou as mãos embaixo da torneira, as enxugou no pano de pratos, e marchou em direção a ela.
Com medo do que ele pudesse fazer, ela deu um passo para trás, mas ele a agarrou, pendurando-a em seus ombros. E assim, com ela de cabeça para baixo, foi levando-a até o banheiro.
— Se quer agir com uma criança, acho que não há outra alternativa, a não ser tratá-la como uma! Vá tomar um banho, trocar de roupa, e depois desça para comer um prato descente!
— Naruto...
— Nem ouse me contestar! — ele a soltou no banheiro, e segurando o rosto pálido dela, a fez ver o próprio reflexo no espelho — Por favor, sinta vergonha de si mesma. — ele interrompeu severamente — Você é uma fraca, covarde. — ele resmungou, secamente, sem se importar em magoá-la com aquelas palavras duras —.. Se escondendo dentro de casa, e tentando esquecer atrás das garrafas de bebida... Você não percebe que isso só piora a sua condição?
E, de fato, Sakura sentiu seu coração apertar. Cada palavra do Naruto dançava em sua mente, zombeteiramente. Ela sabia que ele tinha razão, mas ao mesmo tempo não queria aceitar aquele fato. Ela não queria aceitar nada!
Ele a deixou ali, percebendo a resistência da rosada diante do espelho, e voltou para a cozinha pisando forte no chão. Mas desta vez, a cada passo que se distanciava dela, sua certeza de que estava fazendo a coisa certa por ela ia se desmanchando em pó. A profundidade da tristeza, que viu nos olhos dela, era maior do que imaginava, mas ele não queria ainda desistir do que tinha ido até lá para fazer. Ele queria creditar que sua colega ainda tinha salvação, e por isso não pretendia desistir.
Enquanto isso, depois de encarar seu próprio reflexo, ela se fechou no banheiro. Tirou a roupa devagar, com a imagem daquele rosto estranho no espelho em sua mente, para se deparar com a sua banheira — aquela que ela não usava desde que seu marido morrera.
Com a determinação que Sakura não sabia que ainda tinha, ligou as torneiras e observou a água preencher aquele espaço vazio aos poucos. Ela desejava poder preencher o vazio que sentia no peito da mesma forma, mas sabia que o processo seria ainda mais lento e doloroso.
Depois de preencher a banheira (e continuar com o peito vazio), ela jogou para dentro os últimos sais aromáticos que ainda tinha no armário e entrou ali. Prendendo a respiração, mergulhou por alguns segundos, encarando o teto de olhos aberto embaixo da água. A vontade de se afogar lhe era atraente, como uma dama num vestido vermelho era para os homens, mas a falta de ar lhe obrigou a voltar à superfície. Suspirou e fechou os olhos, descansando a cabeça na beirada da banheira, relaxando e pensando em tudo que estava acontecendo.
Ela era uma covarde. Ela era fraca, e ela tinha vontade de desaparecer do mapa. Mas, então, para sua surpresa, ela pensou em Sasuke, e se perguntou em como ele poderia estar; se havia melhorado, se estava bem agora, quem estava cuidando da fisioterapia dele, e pensou na promessa que havia feito. Riu sem humor.
— Maldito seja, Uchiha. — resmungou.
E pensando nele, nas palavras dele que condiziam com o que seu colega acabara de jogar em seu rosto sem o menor constrangimento, adormeceu ali mesmo.
Algum tempo mais tarde, ela abriu os olhos devagar. O ambiente a sua volta não era mais o mesmo, e passou a mão pelo cabelo meio molhado. Franziu o cenho e sentou-se em sua cama, notando que estava nua. Lembrou-se de que havia adormecido na banheira, e se enrolou no lençol branco, olhando ao seu redor, procurando pelo Naruto. Mas o loiro não estava lá, e, em compensação, seu quarto estava incrivelmente bem arrumado e perfumado.
— Quando foi que o cretino fez isso?
Seu relógio marcava 5h e 20min da tarde. Levantou-se às pressas, e caminhou pelo quarto, notando que tudo que estava fora do lugar. Pelo menos, o lixo que tinha não estava mais ali.
Desconfiada, ela desceu as escadas rapidamente, percebendo que a limpeza se estendida por todo seu apartamento. Naruto havia feito aquilo por ela, e agora ela não sabia exatamente o que dizer sobre aquilo.
Na cozinha, ela encontrou um prato cheio de salada, um bife de carne e arroz, esperando por ela. Havia um bilhete dele, lhe ordenando a comer tudo o que tinha ali, e que voltaria mais tarde para verificar. Ele havia feito compras, e substituído algumas coisas velhas por outras novas, o que realmente não lhe agradava, mas resolveu deixar as coisas como estavam.
No entanto, quando sentou-se para comer, sua campainha tocou. Ela achou estranho, mas foi atender, pensando que poderia ser o loiro de volta. Mas ao abrir a porta, viu um homem estranho, que nunca viu em sua vida, segurando um capacete e um papel na mão.
— Você é Sakura Haruno? — ele indagou, olhando dos pés a cabeça a bela moça enrolada num lençol.
Constrangida, ela se escondeu um pouco mais atrás da porta, mas sem deixar espaço para ele entrar.
— Uh... Sim.
— Tenho isso pra você.
Ele estendeu a mão com o papel, e ela o pegou, agradecendo. O viu ir embora e fechou a porta atrás de si, se perguntando o que poderia conter naquele papel amassado.
Mas seus olhos se arregalaram com aquela mensagem, e precisou lê-la mais de uma vez para ter certeza de que não estava alucinando.
“ Sakura, vou sair do hospital, e quero você como minha fisioterapeuta particular, atendendo em domicilio. Pagarei muito bem.
Por favor.
E atenda a porra do telefone quando eu te ligar!
Ass. Sasuke”
Notas finais
Não respondemos aos comentários do capítulo anterior, mas responderemos a todos em breve! Não deixem de comentar neste também! :)
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