– Campistas – a voz de Quíron soou nos auto falantes – A aula de canoagem vai começar! Dirijam-se para o lago, por favor!

Levantei-me da mesa. Josh apareceu e pulou nas minhas costas.

– HEEY! – ele berrou.

– SAI DE MIM, HADES! – gritei.

Josh riu até eu usar um golpe de judô e jogá-lo no chão.

– Que mal humor – disse Josh rolando pela grama como uma criança – Ei, Daniel, me carrega até o lago?

– Te vira, sedentário.

– Vou mandar cereais puxarem seu pé durante a noite!

Nós dois rimos. Ajude-o a se levantar do chão e nós dois fomos caminhando até o lago; quando chegamos as margens do lago, meu coração falhou brevemente. Lá estava ela. Obviamente, Carollyn tentara vestir-se de modo que não chamasse muita atenção.

É, não deu certo.

Ela usava a camiseta laranja do Acampamento, um blazer preto, leggings cinza e tênis All Star azul escuro; tinha prendido os cachos castanhos arruivados em um rabo de cavalo. Mas mesmo assim, os garotos praticamente quebravam os pescoços quando ela passava.

Senti raiva vendo isso. Deixe de ser idiota, disse a mim mesmo, ela é uma Sirena. Seus sentimentos por ela são falsos, é tudo parte da magia dela.

Carollyn e Sammy estavam conversando, quase discutindo. Sammy ainda usava os óculos escuros – ela sempre usava.

– Nossa – disse Josh – Quem é aquela gata?

– Carollyn Black – suspirei.

– Não ela – disse Josh me olhando como se eu fosse louco – A que está falando com ela, a ruiva.

Joguei a cabeça para trás e ri. Samantha Hellthorne? Gata? O cereal está afetando o cérebro do Josh!

– O nome dela é Sammy Hellthorne, filha de Ares – respondi sorrindo.

Josh sorriu e ficou olhando para Sammy.

– Então, pessoal – Percy chamou a atenção de todos e leu uma prancheta – É o seguinte: Vou separá-los em duplas e cada dupla fica com um barco, ok?

Assentimos e ele começou a ler.

– Drew Tanaka e Amélia Skull – as duas filhas de Afrodite deram gritinhos de felicidade – Connor Stoll e Clarisse La Rue; Josh Glass e Samantha Hellthorne – Josh sorriu triunfante e foi para perto de Sammy, que retorceu a boca em desagrado – Travis Stoll e Chris Rodriguez; Daniel Jones e Carollyn Black...

As pessoas me olharam com pena, como se eu estivesse indo para a forca. Fui até Carollyn; ela tinha um hipnótico de rosas e canela.

– Oi – cumprimentei.

Ela deu um aceno de cabeça em minha direção e me ignorou. Minhas entranhas se retorceram desconfortáveis, como se decepcioná-la fosse a pior coisa que eu pudesse fazer em vida...

– Pare com isso – mandei.

Carollyn me olhou com algo beirando à inocência, sendo que de inocente ela não tem nada.

– Isso oque? – ela perguntou.

– Eu sei oque você é – disse baixando a voz – É uma Sirena. Controla as pessoas. Eu quero que você pare de me controlar agora.

Ela piscou, confusa.

– Como você descobriu? – ela perguntou, então xingou em grego – Sammy! Um dia ainda estrangulo aquela idiota.

A filha de Hécate disse isso como se já conhecesse Sammy a muito tempo, sendo que – eu acho – elas se conheceram ontem à noite.

– E sobre a sua ordem – Carollyn debochou da palavra – Eu não usei os poderes de Sirena em você, Daniel.

Um rubor surgiu no meu rosto. Acho que gosto mesmo dela, então.

– Para as canoas, gente – indicou Percy.

Nós dois seguimos para uma das canoas, entramos lá e sentamos um de frente para o outro. Carollyn sorriu.

– Sabe aquilo que eu disse sobre não ter usado os poderes de Sirena em você? – perguntou e eu assenti – Esqueça. Pegue os remos e reme, Daniel.

Sua voz pareceu mais melodiosa durante a ordem. Minhas mãos se moveram contra minha vontade, pegaram os remos e começaram a remar a canoa. Eu realmente tentei soltá-los, mas eu era como se eu não tivesse mais controle sobre mim mesmo.

– Eu te odeio – falei ainda trabalhando.

Ela riu. Sua risada era hipnótica, bonita, envolvente e... Mágica! Se controle, Daniel, ela é – por falta de termo melhor – uma bruxa! Não, não digo isso de uma forma pejorativa, é isso que ela é.

Uma bruxa.

Uma feiticeira.

E, para todo o acampamento, uma pária.

Segui remando (mesmo sentindo os músculos dos meus braços ardendo) até o meio do lago, onde Percy indicou que deveríamos ir.

– Ei, sua bruxa – chamou Drew de sua canoa – Onde está sua vassoura?

Carollyn ignorou-a e continuou brincando com a barra da camiseta.

– Não ligue para essa ridícula – disse Amélia maldosamente – Olhe aquelas pontas duplas! Lamentáveis.

Como as filhas da deusa do amor conseguem ser tão desprezíveis? A única filha de Afrodite que já vou legal comigo (verdadeiramente legal, não dando em cima de mim) foi Silena; que ela descanse em paz nos Campos Elíseos.

– Ela é surda? – perguntou Drew.

– Não, só é idiota – respondeu Amélia. As duas caíram na risada.

Carollyn olhou naquela direção com os olhos fervendo de raiva. Então, o barco virou brutalmente sozinho e lançou as duas filhas de Afrodite para dentro da água. As náiades pegaram-nas e as levaram para a margem.

Parei a canoa na margem no momento que Percy vinha correndo para socorrer as duas garotas ensopadas. Olhei para Carollyn, sabia que fora ela quem tinha feito isso; seu rosto não mostrava o menor sinal de culpa.

– Oque aconteceu? – perguntou o filho de Poseidon.

Drew, que parecia um panda com a maquiagem derretida, respondeu.

– Oque aconteceu, Percy?! – exclamou ela – Nós resolvemos tomar um banho no lago!

– Sério?

– Não, seu idiota! – exclamou Amélia furiosa – Nós caímos!

– Devem ter se apoiado no lugar errado da canoa – presumiu Annabeth.

– Não foi nada disso! – gritou Drew – Foi ela!

A filha de Afrodite apontou para onde momentos antes estava Carollyn, agora só havia um resquício de rosas e canela.

* * *

Já era noite e eu estava sentado no telhado do Chalé 6. Sim, eu não deveria estar aqui, mas... A vista daqui é incrível! Apesar da lua cheia no céu, eu conseguia ver cada canto escuro do Acampamento graças aos meus olhos de coruja. Literalmente.

Vi a porta do Chalé 5 abrir-se e me arrumei melhor para não me verem.

Sammy saiu de lá. Usava óculos escuros – apesar de ser noite – e tinha um prato de plástico com coxas de frango em mãos. A filha de Ares correu para a floresta silenciosamente e desapareceu. Desci do telhado o mais rápido que consegui e também corri naquela direção.

O caminho pela floresta estava iluminado pela lua cheia, que dava um aspecto sinistro às árvores; eu tinha a impressão de que algo poderia pular das sombras e me atacar a qualquer momento.

Finalmente cheguei a uma clareira. No momento que Sammy saiu das árvores e entrou na clareira iluminada pela lua brilhante, suas roupas mudaram, porém ela continuou com os óculos escuros.

– Achei que ia me deixar aqui sozinha – disse Carollyn saindo do meio das sombras – Sabe como eu tenho medo de escuro...

– Vá se catar, Carol.

– Ai, nossa – Carollyn fez uma careta – A morte te deixou irritada, é?

Sammy bufou.

– Já fazem anos, esqueça isso – Sammy disse e olhou para o colar em seu pescoço (com figura de uma mulher esqueleto) e fez uma careta.

– Gostou? – Carollyn sorriu sarcástica – Achei... Bem a sua cara.

– Nem sei por que ainda sou sua amiga!

– Porque sua alma me pertence, minha cara, achei que se lembrava do acordo – disse ela abrindo os braços como se fosse óbvio – Agora, pode tirar os seus óculos.

Aquilo era fascinantemente aterrorizador. Sammy... Estava morta? Ela era um zumbi? Não, ela me parecia bem viva. Respira, se alimenta, reage a estímulos externos, nasceu... Ela é definitivamente um ser vivo! Como pode estar morta? E oque Carollyn tem haver com essa suposta morte?

Essas dúvidas martelavam minha cabeça quanto Sammy tirou os óculos escuros e eu quase caí para trás. Sammy não estava com seus normais olhos verdes... Eles estavam amarelos como os de um gato, quase dourados, brilhando no escuro.

A ruiva suspirou.

– Realmente não tem um jeito de tirar essa coisa dos olhos amarelos? – perguntou ela – Andar de óculos escuros o dia todo me irrita.

– Agradeça por eu conseguir fazer seus olhos ficarem verdes alguns minutos por dia. É um pequeno preço a pagar pela vida, Sam – disse Carollyn; ela deu de ombros – Além disso, você fica muito estilosa com eles.

Sammy assentiu fracamente. Ela colocou o prato com as coxas de frango no chão e ergueu o rosto para a lua.

– Lua cheia – disse e deu um sorriso maroto – Lua para fazer magia Black.

– Há-há, que trocadilho engraçado – disse Carollyn revirando os olhos – Seria o mesmo se eu comparasse Hellthorne com seus cabelos vermelhos.

– Vamos parar com as brincadeiras e começar – disse Sammy voltando a ficar séria. Ela ajoelhou-se de frente para o prato, ergueu as mãos para a lua e começou a entoar uma canção.

Πνεύματα της Νύχτας

Πνεύματα φίλους

Έλα, μιλήστε, πείτε μου την αλήθεια

Έφερε τους αυτό το δώρο

Ταπεινός, αξιολύπητη σε σύγκριση με τις εξουσίες του

Έλα, μιλήστε, πείτε μου την αλήθεια

“Espíritos da noite

Espíritos amigos

Venham, conversem, digam-me a verdade

Lhes trouxe essa oferenda

Humilde, patética comparada a seus poderes

Venham, conversem, digam-me a verdade”

O silêncio tomou conta da floresta. Os grilos não cantavam, as corujas não piavam e minha respiração ficou presa na garganta. O prato de frango foi engolido pela terra e os animais noturnos voltaram a sua rotina.

– Não acredito! – exclamou Sammy aborrecida – Eles levaram o meu frango e não me contaram nada! Malditos espíritos!

Um rugido medonho veio da terra.

– Oh, desculpe...

Sammy levantou-se, limpou a sujeira do vestido e encarou Carollyn.

– Eles não disseram nada? Sério? – perguntou a filha de Hécate com, pela primeira vez, medo nos olhos.

– Nada mesmo – confirmou a ruiva – Eles estão mais quietos desde que... Você veio para o Acampamento...

– Não me dê mais falsas esperanças, Sammy – cortou a outra – Sei muito bem que é por causa do meu aniversário.

Carollyn ergueu a mão esquerda, havia um número escrito com caneta ali. 53.

– Eu só tenho mais 53 dias – disse, seus olhos estavam cansados – Tem noção do que é isso? Em 53 dias, eu posso estar te mandando de volta para o Mundo Inferior e matando as pessoas desse Acampamento por pura diversão!

– Você vai para a Luz, Carol.

– Não, Sammy, eu não vou. Não vou me dar falsas alegrias, nem que elas sejam momentâneas; As Trevas já estão dentro de mim, não dá para lutar. A única coisa que posso fazer é aproveitar o pouco tempo que me resta. Só te chamei aqui hoje por que... Eu não sei! Tive uma fagulha de expectativa de que pudéssemos mudar isso...

Sammy deu um tapinha afetuoso no braço da amiga, despediu-se e saiu da clareira; no instante que ela pôs o pé para fora do lugar, suas roupas normais voltaram.

Carollyn suspirou, passou a mão nos cabelos e olhou diretamente para a lua.

– Sei que está me ouvindo – disse em uma voz baixa e raivosa – Sei que você também é uma deusa lunar, assim como Artemis e Selene. Eu te odeio, mamãe.

Notas finais
Deixei vocês curiosos? u.u
E eu vi tenho 22 leitores! Fantasmas, apareçam! Eu peço para a Sammy dar frango para vocês também!