Pária
5 Persuasão
Notas iniciais
Espero que gostem desse capítulo!
Saí dos Campos de Morango e fui andando alegre para o meu chalé. Alegre não, afinal agora sei que a garota que eu sou apaixonado está amaldiçoada e que tem um morto vivo vidente no Acampamento, mas enfim...
A Ala dos Chalés estava praticamente vazia. Entrei no Chalé 6 e ele também estava totalmente vazio, muito estranho. Corujas só deixam seu ninho a noite. Era como se todos tivessem saído para uma atividade e ainda não tivessem voltado.
Fui até a mesa, sentei-me e abri o notebook (uma linda invenção dos filhos de Hefesto. Temos internet e os monstros não nos rastreiam) Estava pesquisando por sites sobre mitologia grega – levemente desnecessário, mas tudo bem – e lá estavam todos os mitos. Pandora e a Caixa, Prometeu e os Primeiros Homens, Eco e Narciso, uma foto da Carollyn, Os Treze Olimpianos...
Opa.
Subi a página e arregalei os olhos. Não era uma foto, era uma pintura — muito antiga, devo acrescentar. E para completar o meu espanto, lá estava a legenda da foto.
Princesa Helena de Troia (1256)
- Não, não, não... – murmurei lendo o texto abaixo da foto.
Segundo a lenda, Helena foi a responsável principal pela famosa Guerra de Troia. Ela era a mulher mais bonita do mundo, sendo dotada de grande esperteza, persuasão e sedução. Apaixonou-se por Páris e fugiu com este, enfurecendo seu marido Menelau.
Uma parte do mito não é divulgada, porém acredita-se que ela faça parte dos arquivos secretos de Homero (o grande poeta grego). Diz-se que, na noite anterior a fuga com Páris, Helena de Troia invocou Hécate, a deusa da magia.
“Oh, Hécate, sábia deusa da magia” disse Helena “Ajuda-me a viver com meu amado”
“Você sabe as consequências que isso poderá trazer, Helena” respondera Hécate.
“Façamos então um acordo” sugeriu a mortal “Dá-me a oportunidade de fugir com meu querido Páris que, em troca, dou-lhe qualquer coisa”
“Qual quer coisa?”
“Sim, minha deusa”
“Aceito sua proposta” respondeu Hécate “Em troca, eu desejo o poder sobre a vida de sua filha, Hermíone”
“Oque?” Helena ficara horrorizada, porém disfarçou seu choque “Assim será feito, minha senhora”
Hécate assentira e sumira. A deusa cumprira sua parte do acordo, ajudando Páris e Helena a fugir, mas Helena não honrou seu juramento. Sua filha Hermíone, com apenas nove anos na época, nunca se encontrou com Hécate nem deu-lhe o poder sobre sua vida.
O acordo nunca foi cumprido.
Diz-se também que, na noite da morte de Helena, Hécate surgiu para ela e disse-lhe.
“Eu lhe dei uma escolha, Helena. E partir do momento que você não honrou nosso acordo, tirou todas as escolhas do futuro de seus descendentes”
E assim, fiquei encarando a tela sem acreditar. Carollyn... Helena...
- Di Immortales! – exclamei ficando de pé – Meu cérebro ainda funciona!
Saí correndo na direção do Chalé 20, porém Drew entrou na minha frente. Usava saltos altos, a camiseta do acampamento e shorts jeans – curtos demais, para variar.
- Você – ela bateu seu dedo pintado de rosa no meu peito – Quero você lá. Agora.
- Desculpe? – perguntei confuso.
Drew deu um sorriso malvado.
- Vá ao Anfiteatro, você vai adorar o showzinho – ela disse e se afastou. Eu, hein.
Desviei minha rota original e fui para o Chalé 4. Se alguém sabe de uma novidade do Acampamento, é o Josh. Bati na porta, esperei quase roendo as unhas e fui atendido pelo próprio. Ele estava pálido.
- Cara... – disse Josh – Porque está aqui? Sua namorada está ferrada!
- Minha namorada? – perguntei.
- É, Carollyn – corei – Drew convenceu todos a levarem-na para o Anfiteatro. Querem expulsá-la do Acampamento!
- Oque?! – gritei – Mas ela só está no Acampamento á dois dias!
- Eu sei! – exclamou Josh – Carollyn não pode ir embora! Se ela for, minhas chances com a amiga ruiva dela estão terminadas!... Ah, e também porque é errado expulsar as pessoas e blá blá blá...
- Vamos logo! – exclamei.
Nós dois corremos até o Anfiteatro rapidamente, escancarei as portas e olhei para dentro. Todos os campistas do Acampamento Meio Sangue estavam lá. Todos. Até mesmo ninfas, sátiros e Quíron.
- Vadia – praguejei.
E no palco do Anfiteatro, estava uma cadeira onde Carollyn estava sentada. Ela não parecia nervosa nem estressada, parecia... Conformada. Aquilo era uma assembleia para expulsá-la do acampamento! Era...
Era um Julgamento de Bruxa.
- Oque é isso?! – exclamei andando até o palco.
Percy, que estava mais próximo, respondeu.
- Cara, eu não sei – ele piscou confuso algumas vezes – Drew mandou todo mundo vir para o Anfiteatro... E nós viemos. E é tudo que sei.
- Obrigado – respondi sarcástico.
- Queridinho, que bom te ver – disse Amélia dando um risinho – Veio assistir a expulsão dessa bruxa? Vamos mandá-la de volta para Hoguiwar.
- É Hogwarts, sua sangue ruim estúpida – disse Carollyn olhando as unhas perfeitas e escuras – Não que eu esperasse que você soubesse. Afinal, já é um grande avanço você falar. Galinhas não deveriam fazer isso.
- Oque você está dizendo? – exclamou Amélia ficando púrpura.
- Só estou dizendo, Amélia, minha querida – falou Carol com um sorriso de escárnio – Que você é tão galinha, que se tomar um banho quente, vira canja.
Amélia bufou de raiva e saiu marchando. Drew subiu no palco, chamou a atenção de todos e deu um sorriso carinhoso.
- Olá, pessoal – sua voz ficou doce, mas não tanto quanto a de Carollyn– Estamos todos aqui para discutir sobre Carollyn Black, a filha de Hécate.
Quando disse o nome de Carollyn, sua voz se encheu de nojo. A raiva borbulhou dentro de mim. Onde está Nêmesis quando se precisa dela?
- Ela é perigosa, meus amigos – continuou Drew reforçando seu poder da persuasão na voz – Ela não é desse acampamento. Ela tem que ir embora.
- Ela tem nome! – gritou Sammy ficando de pé. Usava os óculos escuros mesmo no ambiente escuro e fechado.
- Sente-se, Hellthorne – Drew sibilou; a filha de Afrodite sorriu e continuou seu discurso – Carollyn Black é uma ameaça a essa sociedade, e todos nós nos lembramos do que fizemos com a última ameaça a sociedade: Mandamo-la para o Tártaro.
- Nós? NÓS? – berrou Sammy revoltada – VOCÊ NÃO FEZ NADA NA GUERRA, SUA MERETRIZ BARATA!
- Cale-se! – gritou Drew – Carollyn é uma ameaça! Tem que sair do acampamento AGORA! Hécate não é amiga dos deuses, nunca foi! Logo, sua filha também não é!
As palavras ficaram pairando no lugar e o silêncio reinou. As pessoas começaram a assentir hesitantes e a comentar entre si. Drew sorriu satisfeita, porém Carollyn levantou-se de sua cadeira.
- Caso seu pequeno show já tenha acabado, Drew, eu gostaria de dar algumas palavras – Carollyn olhou para todos no salão – Espero que ninguém tenha algo contra.
De fato, ninguém tinha.
- Ótimo – a voz da filha de Hécate tornou-se hipnótica. Sirena – Não sou uma ameaça a vocês, meus caros. Sou apenas mais uma campista. Será que vocês são tão tolos a ponto de acreditar em palavras vazias de uma mimada e fútil garota? Vão me expulsar do abrigo para pessoas especiais como nós por minha, admito, um tanto excêntrica opinião? “Para criar inimigos não é necessário declarar guerra, basta dizer o que pensa”.
- Não me venha com esses papos nerds! – exclamou Drew.
Carollyn deu-lhe um olhar frio.
- Perdoe-me, mas acho que Martin Luther King Jr não era um nerd.
Sorri comigo mesmo. Ela é demais, simplesmente. Podemos nos casar amanhã? [N/Sammy: --']
- Então – Carollyn sorriu para a multidão – Continuarei no acampamento, correto?
Todos assentiram firmemente e sem hesitação.
- Cara – Josh sussurrou assustado para mim – Qual é a da sua namorada? Ela conseguiu convencer 300 semideuses somente sorrindo!
- Você não ia acreditar se eu te contasse – dei de ombros.
- Tudo bem – Josh ergueu as mãos – Se não quer contar, beleza. Respeito isso. Agora, será que pode me apresentar para a ruivinha?
Ri e levei Josh até Sammy. O filho de Deméter estava quase roendo as unhas de ansiedade, mas espero ansioso para vê-lo descobrir que Sammy já morreu.
- Sammy – disse aproximando-se dela – Quero te apresentar alguém.
- Não me interesso – disse a ruiva esticando o pescoço para ver melhor o palco – Um dia ainda esmago a cabeça da Drew. Aquela filha da...
- Esse é o meu melhor amigo – disse apontando para o bendito – Josh Glass, filho de Deméter.
Sammy olhou na direção de Josh e pude perceber, mesmo com os óculos, que ela o olhou de cima abaixo.
- E aí? – perguntou a filha de Ares – De boa?
- Hãn ham – sorriu Josh debilmente.
A boca de Sammy retorceu-se.
- Enfim... – ela suspirou – Preciso... Ir falar com meus amigos...
- Amigos que gostam de frango? – perguntei erguendo as sobrancelhas.
- Como...
- Sou filho da deusa da sabedoria. Eu sei de tudo, Sammy. Sei até mesmo que você é integrante do The Walking Dead.
- Você é fã de The Walking Dead? – perguntou Josh animado – Eu também, Sammy!
Sammy me deu encarou por debaixo dos óculos e saiu sem dizer nenhuma palavra.
- Vou atrás dela – suspirou Josh. E assim, ele saiu “saltitando” atrás da filha de Ares.
Olhei para o palco, e vi que Carollyn havia sumido. Eu preciso falar com ela! Vamos, Daniel, use esse seu córtex cerebral supostamente desenvolvido. Ela é filha de Hécate, deusa padroeira dos marinheiros. Onde ela poderia estar?
* * *
E lá estava ela. Carollyn Black sentada na areia da praia olhando para o mar verde de verão. Sentei-me ao seu lado.
- Oi – disse.
- Oi – Carol respondeu – Gostou da minha atuação?
- Muito boa – sorri – Martin Luther King Jr sempre é a solução.
Carol riu e colocou uma mecha do cabelo para trás do cabelo. Notei que seu nariz estava um pouco vermelho; teria ela chorado?
- Carollyn, eu tenho uma coisa que vai te ajudar com a coisa da maldição – eu disse firme – Sabe, sobre o motivo para Hécate ter te amaldiçoado.
- Oque você sabe? – ela séria perguntou virando-se para mim.
- Eu estava pesquisando, como sempre, então descobri algo não revelado sobre a história de Helena de Troia.
Carollyn franziu a testa.
- Helena de Troia? Oque aquela monga tem a ver comigo? – perguntou. Não pude evitar rir.
- Aquela monga? Sabe que essa palavra não existe, não é?
- Claro que sei, seu idiota. E o motivo para Helena ser uma monga é que... Bem, causar uma guerra por amor? Patético.
- Enfim... – eu me ajeitei na areia – Pelo oque eu li, Helena de Troia fez um acordo com Hécate e não o cumpriu. Hécate a deu uma escolha, mas com a quebra do trato, ela...
- Ela tirou o direito de escolha dos descendentes de Helena de Troia – Carol concluiu arregalando os olhos. Ela é mais inteligente que parece.
A filha de Hécate ficou em silêncio por um momento. Tenho que dar-lhe um crédito, é realmente difícil acreditar nisso.
- Maldita – foi tudo que disse.
Ficamos num silêncio desconfortável. Nenhuma frase filosófica vai ajudar nesse momento, então somente dei um tapinha reconfortante em seu ombro.
- Não fique assim. Tenho certeza que há um jeito de impedir a maldição – falei com firmeza – E mesmo se não houver, você vai para a Luz, Carollyn.
Ela deu uma risada um tanto amarga um tanto sarcástica.
- Meu sobrenome é Black, como eu poderia ser White? – perguntou ela rindo – Daniel, faça um favor a si mesmo: Siga meu exemplo. Eu já aceitei que só tenho mais 52 dias para continuar sendo quem eu sou.
- “A persistência é o menor caminho do êxito” – recitei.
- Charles Chaplin – Carol logo adivinhou – É, eu gosto desse cara. “Um dia sem rir é um dia desperdiçando” Eu adoro de humor, sabia?
- Jura? – perguntei surpreso.
- The Big Bang Theory é o melhor – Carollyn sorriu.
Ela ficou de pé e limpou a areia da roupa. Olhei-a bem; o sol do fim da tarde refletia em seu cabelo, revelando belas luzes ruivas em meio a cachos castanhos e os olhos azuis pareciam ainda mais brilhantes e profundos. Eu fiquei de pé e disse:
- Carollyn, você sabe como funcionava o sistema do antigo casamento romano?
- Hãn... Não, desculpe – ela franziu a testa confusa.
- Os noivos se casavam em uma cerimônia particular, e sempre os dois se amavam muito para isso. O casamento era muito sério naquela época, era a coisa mais séria que alguém poderia fazer na vida – falei sorrindo – E, ao fim do casamento, os noivos sujavam seus polegares com a poeira do chão e desenhavam uma cruz na testa um do outro. Isso era uma prova de amor.
Dito isso, eu me abaixei, sujei o polegar com a areia da praia, afastei o cabelo da testa de Carollyn e fiz uma cruz com a areia. Ela ficou extremamente vermelha.
- Seu idiota – ela murmurou sem graça.
Sorri quando Carol abaixou-se, sujou o polegar com areia e também desenho uma cruz na minha testa. Aproximei-me, a abracei e sussurrei em seu ouvido:
- “Não preciso me drogar para ser um gênio; Não preciso ser um gênio para ser humano; Mas preciso do seu sorriso para ser feliz” — Charles Chaplin.
E é assim, meus caros, que um nerd conquista uma garota.
Notas finais
E aí^? Gostaram? Ficou meloso demais?
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