Pária

6 Helena de Tróia


Notas iniciais
Muito obrigada a MaryMalfoyWeasley e Matheus Snow pelas recomendações! *O*

- E vocês não se beijaram? – e foi assim que Josh me recebeu na manhã seguinte.

Nós estavamos na enfermaria, por causa do olho roxo de Josh. O motivo? Sammy, claro. O babaca tentou cantá-la (“Gata, me chama de Poseidon que eu te mostro o meu tridente”)

- Não – respondi – Eu... Carollyn não é uma garota qualquer. Ela já me disse que não acredita que possa amar alguém um dia. Eu só queria... Ir devagar.

- Isso, vai assim mesmo – disse Josh sarcástico – E quando vocês tiverem noventa anos, talvez vocês andem de mãos dadas.

Revirei os olhos. Ele não entende. Cresci lendo os milhares de livros na biblioteca do meu pai e desenvolvi uma ideia de romantismo. Sempre achei que, quando tivesse uma namorada, eu a levaria a parques, andaríamos na praia e daria flores e chocolates para ela.

Isso, claro, se ela não fosse uma filha de Hécate amaldiçoada pela mãe.

E Carollyn e eu ainda nem somos namorados! Só andamos juntos... Nada demais! Não é nada oficial e, por ela, acho que nunca vai ser mesmo.

Como era sábado, passei o dia todo de bobeira na enfermaria conversando com o meu melhor amigo. Tudo estava muito quieto, entediante. As horas passaram, passaram e passaram. Já era hora do jantar quando eu cansei de mordiscar aqueles malditos cereais que Josh gosta e saí para esticar as pernas.

Dessa vez, quem vi adentrando na floresta às pressas foi o meu problema favorito. Carollyn Black. Ela parecia afoita com alguma coisa. Segui-a silenciosamente até a mesma clareira, me empoleirei em uma árvore e observei o decorrer das ações.

- Sammy? – chamou Carol baixo – Sammy? Está aí?

- Positivo e operante, minha cara – senti calafrios ao ver aqueles olhos dourados – Já trouxe até a pá para fazermos um buraco no...

Com um gesto das mãos de Carollyn, um buraco foi feito na terra.

- Esquece...

- Samantha Hellthorne – disse Carol séria – Já que estamos aqui, diga-me que história é aquela de você ter mandado Josh Glass para a enfermaria?

- Ah, ele me irritou! – exclamou Sammy infantilmente – Ninguém mandou aquele idiota ficar soltando cantadas patéticas!

- Ele é o melhor amigo do Daniel! Tem ideia de como isso vai ser ruim para mim? – perguntou Carol – As pessoas já tem dificuldade para gostar de mim, não lhes dê motivos!

Eu não tive dificuldade em gostar de você, Carollyn.

- Trouxe a oferenda? – perguntou Carollyn abanando a cabeça para esquecer o assunto.

- Trouxe – Sammy agitou um pratinho com mais frango frito — Será que ela vai gostar de frango? Pelo o que eu li nas histórias, ela era meio aviadada.

Outro calafrio me percorreu a espinha. Não pelos olhos dourados, mas pela palavra totalmente errada.

- Ela vai sim. Dê-me isso – Carollyn pegou o frango e despejou no buraco, junto com algo que parecia suco de laranja.

As duas garotas se ajoelharam em cada lado do buraco e começaram uma canção em grego antigo. Uma música melodiosa e suave que enchia a floresta e parecia deixar o ar mais frio. Uma nuvem de névoa começou a sair do buraco, um fantasma saiu dali, bebeu do suco e comeu do frango e ficou de pé.

Meu coração parou. Não podia ser ela... Mas era. Sem dúvida.

A Princesa Helena de Tróia, em pessoa – talvez em fantasma seja mais apropriado.

O título de mulher mais bonita do mundo não foi lhe dado à toa, ela era realmente muito bonita. Cachos loiros reluzentes, olhos cor de chocolate, alta e esguia, pele levemente bronzeada e lábios rosados. Mas, não, se a decisão de escolher a mulher mais bonita do mundo coubesse a mim, eu não a escolheria.

Escolheria Carollyn, por razões óbvias.

E pensar nisso me deu um choque. Carollyn e Helena são parentes distantes! E, sinceramente, não se parecem nem um pouco.

- Carollyn Black – a voz de Helena estava cheia de ternura – Parece-se tanto com minha filha Hermíone...

- Hermíone para mim só a Hermione Granger – respondeu Carol – E ainda sim acho aquela nerd muito chata. Escuta aqui, sua loira nojenta, porque não cumpriu o acordo com Hécate?

- Oh, Carollyn – Helena suspirou – Responda-me: Você seria capaz de abrir mão de alguém que ama?

- Você foi! – exclamou Carollyn inconformada – Largou sua filha de 9 anos para fugir com Páris! Dá-me nojo, sua cretina! Deixar uma criança para fugir por amor? Que idiotice!

- Então não faria loucuras por amor? – perguntou Helena.

- Nunca!

- Bem, acho que talvez sua opinião mude um dia – Helena olhou de relance para a árvore onde eu estava escondido – Sei que seu coração não é tão duro quanto aparenta. Sei que não há somente gelo aí dentro, mas também há fogo. Você só deve permitir que alguém o incentive a crescer.

- Isso nunca acontecerá.

Helena sorriu.

- Mas já está acontecendo – disse suavemente.

Sammy teve que interromper antes que Carollyn avançasse para bater naquele fantasma.

- Helena, você sabe como quebrar a maldição? – perguntou Sammy.

- Não é certo, porém, — disse a princesa – Creio que a maldição é infrangível. Na noite do seu aniversário, a lua cheia a levará para a Luz ou para as Trevas.

- Nenhum jeito?! – exclamou Carollyn.

- Se bem me recordo, acho que há um livro – a imagem do fantasma começou a falhar – Escrito por Atena. Chamava-se...

E o fantasma saiu, fazendo a floresta voltar ao normal. Carollyn em fúria, caiu de joelhos e bateu com os punhos no chão.

- Droga! – berrou.

- Carol, calma – disse Sammy afagando-lhe o ombro – Daniel pode te ajudar, não é?

- Pode – ela murmurou com a testa ainda apoiada no chão – Eu não quero mais isso, Sammy. Estou cansada.

- Faltam somente 51 dias.

- Não sei se isso é bom ou ruim.

Outro gesto de mãos e o buraco se tapou, levando consigo os últimos vestígios de Helena de Troia e a resposta para a maldição.

* * *

Domingo. Eram onze horas da manhã quando decidi ir ao Chalé 20. Eu acordei seis horas e passei todo esse tempo procurando livros na biblioteca pessoal dos filhos de Atena, e escolhi somente dois com potencial de nos ajudar.

Um estava em grego e tratava sobre maldições, o outro era em latim e... Bem, meu latim é meio enferrujado.

Bati a porta e Carollyn abriu-a. Ela usava uma camiseta branca folgada, shorts – curtos, mas tentei não reparar nisso – verdes e um coque mal feito. Parecia que tinha acabado de acordar. Não usava batom, joias ou qualquer maquiagem, mas para mim estava mais bonita que Helena de Tróia. Ao ver-me, deu um sorriso.

- Oi – ela cumprimentou – Quase não te vi ontem.

- Eu estava meio ocupado – levantei os livros – Livros escritos pela mamãe?

Ela franziu a testa.

- Como você...

- Sei de tudo, já deveria ter aprendido isso – disse com firmeza.

Ela me deu um olhar duro, mas bufou.

- Entra aí – falou Carollyn – Tente não engolir nenhuma poção, ok? Estão em fase de teste.

Sabe o Salão Comunal da Sonserina em Harry Potter e a Câmara Secreta? O chalé de Hécate é tipo isso, mas com o lilás substituindo o verde. O chalé estava mais para um apartamento moderno. Uma televisão de várias polegadas na sala, um sofá preto engomado, bancadas com milhares de frascos coloridos, estantes com centenas de livros e uma mesinha de estudos muito simpática.

- Gostou do meu cantinho? – perguntou Carollyn orgulhosa do chalé – Deu muito trabalho e... Ah, quem quero enganar? Eu só estalei os dedos e a magia fez tudo.

Ri e coloquei os livros na mesa.

- É um lugar realmente aconchegante – comentei sentando-me na cadeira.

Ela se sentou na minha frente e começamos a estudar os livros. A filha de Hécate lia latim com tanta facilidade quanto eu lia grego. E apesar dos esforços, não achamos nada de útil.

- Que coisa – ela se levantou frustrada da cadeira e sentou-se no sofá, a fim de ver F.R.I.E.D.S. Não vou nem perguntar aonde ela conseguiu aquela televisão bloqueada para monstros.

- Ainda faltam 50 dias – falei sentando-me ao seu lado – Vamos resolver isso, prometo.

- Resolver como? – Carol me encarou.

- “Esse é o meu segredo. É muito simples: Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos” – recitei.

Ela revirou os olhos.

- O Pequeno Príncipe – ela acertou – Já li o livro. Achei entediante.

- Oh, que novidade – ironizei – Diga-me: O que não é entediante para você, Carollyn?

Ela deu um sorriso de canto e inclinou-se em minha direção. Meu coração errou uma batida quando senti seus lábios quentes encostando nos meus. Aquilo não podia ser verdade.

Mas, felizmente, era.

Quando recuperei brevemente minha consciência, dei por mim empurrando-a de costas no sofá, subindo em cima dela e beijando-a praticamente com raiva. Carollyn brincava com os dedos nas minhas costas enquanto eu a puxava ainda mais para mim.

Pude sentir meu rosto quente, mas quem disse que eu estava ligando para alguma coisa naquele momento?

As mãos de Carollyn desceram até a borda da minha camiseta e...

- Campistas, compareçam todos no Refeitório. Quanto mais rápido, melhor – a voz de Quíron soou nos auto falantes.

Não! Agora não!

Ela separou-se de mim ofegante. Eu mesmo estava com respirando com força e com gotículas de suor na testa.

- Acho melhor nós irmos – disse Carollyn com a voz rouca.

Infelizmente.

- É – concordei sentando-me no sofá. Corei só de pensar no que faríamos sem o comunicado de Quíron para atrapalhar – Vamos.

Realmente espero que aquele centauro tenha um bom motivo.

Notas finais
PROMOÇÃO!
Quem enviar uma recomendação, ganha um pedaço de frango da Sammy U_U
Sammy Hellthorne Frangueteria (?), o frango que até os mortos amam.
Assustei vocês agora com esse final? Pensaram o que, seus pervertidos? Daniel é uma criatura pura u.u
Já a Carollyn... Não podemos ter tanta certeza...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.