Overdose
1 Capítulo Único - Perina
Eram muitas confusões, ainda mais para ela. Parecia que um turbilhão de coisas haviam chegado ao mesmo tempo.
Ela se sentia perdida em seus próprios caminhos, parecia injusto pra ela, que fora sempre correta.
Logo Karina, que fora sempre tão decidida, estar dividida entre dois homens.
Apesar de Pedro ter a enganado, ainda era o Pedro. O amarelão de todas as horas, ainda eram os olhos dele que a traziam para perto. Ainda era o sorriso que tanto a encantava. Sem dúvida alguma ela o amava.
Já do outro lado, Cobra. O companheiro de todas as horas, o amigo que ela sempre pôde contar, mesmo nos momentos de mais sofrimento e aflição. Era visto por muitos como uma pessoa de caráter duvidoso, porém ele se mostrava diferente quando estava com Karina.
O coração pulava e pulsava no peito, e ela queria mais do que nunca ouvir as batidas do mesmo. O coração acelerado dela, pedia, rogava por Pedro, mas a cabeça dela o culpava. O cérebro dela o via como um vilão, um cachorro, uma pessoa má que abusou dela, que lhe usou. O mesmo cérebro que condenava Pedro, queria se jogar aos braços de Cobra. Queria que ela pudesse, mesmo que por um segundo, ter esperanças de recomeçar. De se sentir amada, mesmo que não fosse recíproco da parte dela.
Era uma confusão sem fim.
- Esquentadinha? — era a voz de Pedro, ele a chamava na janela de seu quarto.
- Você? — ela observou o corpo dele pairar sobre ela, pulando janela adentro. — O que você quer? Pode ir saindo, Pedro, não tô a fim de papo!
Ele não disse nada, apenas caminhou em direção à ela, procurando uma brecha, mas ela parecia estar em guarda de todos os lados. Por fim, apenas acariciou o rosto de Karina, e os olhos dela se encheram de lágrimas.
- Eu só quero que você me deixe explicar... — a voz dele saiu baixa, ele não queria invadir o espaço dela. — Que você me ajude a te ajudar.
- E eu quero que você me deixe em paz! Eu não preciso de ajuda. — o tom dela, firme, para a surpresa da própria.
Ela parecia inabalável. Era quase impossível, ele sabia daquilo, mas precisava tentar. Estava mais arrependido do que nunca de ter aceitado dinheiro em troca de Karina, se fosse nos dias de hoje ele a teria sem querer nada em troca. O amor foi descobrido depois.
- Não complica as coisas, Ka. Deixa... — ele não estava mais pedindo, ele estava implorando.
Ela não sabia mais como agir, Karina sabia que ele era cabeça dura e que iria persistir até conseguir. Ela também não era de ferro, mas a vontade era de matá-lo. Ainda existia uma grande mágoa. Um impecilho que impedia os dois de serem felizes juntos. Aquele era o maior sonho dela, eles estarem juntos.
- Você me machucou muito, Pedro. — ela começou, decidindo enfim se abrir. — Eu confiei em você, eu me entreguei pra você. Descobrir que você só tava comigo por dinheiro, me dá nojo. Eu te amei, Pedro, e você? E você só ficou comigo por causa de dinheiro? — ela caiu em si e se debateu dele.
Os movimentos dela eram rápidos, mas ele foi mais ágil, pegando nos braços dela com força. Ela parou quando percebeu as mãos dele a pegarem os pulsos, o coração dela batia forte.
- Me solta! — ela quase gritava, quando voltou a se debater e ele a segurou mais forte.
Uma coisa forte tomou conta de Karina. Ela era só uma adolescente cheia de hormônios, se fosse outra, com certeza se entregaria a ele ali mesmo. Mas ela não queria e não podia, existia mágoa, ela não podia esquecer. O corpo dela suava, e ela se lembrou que não adiantaria gritar. Não havia ninguém naquela casa, sentiu seu corpo tremer quando Pedro a puxou para junto dele.
Ele precisava dela de uma maneira inenarrável, ele precisava dela como seus pulmões precisavam de oxigênio. Não era escolha dele, ele necessitava tê-la por perto, já não era mais natural, era surreal.
Os olhos verdes dela, observava os movimentos fora do normal dele. A respiração estava irregular, e ela riu disso. Ele ficou feliz ao vê-la rir dele, já era um grande passo.
- Karina, eu amo você. — aquelas palavras tiveram eco dentro dela, ela sentiu o peito subir e descer.
Ela sentiu que ia desmaiar a qualquer momento, aquelas simples três palavras a tirava o fôlego, ela esqueceu até seu próprio nome. As pernas dela vacilaram ao sentir os lábios dele tocar os seus, e ela sentiu seu corpo quase amolecer nos braços que rodiavam ela. As línguas se encontraram exalando paixão.
Naqueles segundos que eles estavam próximos, ela pôde saber qual era a pessoa certa pra ela. Aquela sensação, talvez, fosse passar depois, e todo o sentimento indescritível que sentia fosse ser substituído pela raiva que ainda exalava dela.
O coração dela parecia sair pela boca, e ele curtia aquele momento enquanto podia. O beijo era correspondido pelas duas partes, e ele levantou as mãos pro céu mentalmente por isso.
Eles haviam de se separar, eles precisavam respirar. Ele ficou temeroso quando se afastou da boca dela, e ela quase o estapeou, não precisava muito para aquilo, mas não teria coragem de o fazer depois daquilo.
Ela estava coisada. Não havia outra palavra, atiraram a flecha do amor nela e ela estava perdidamente apaixonada por Pedro. Não havia como negar por dentro, mas por fora ela precisou gritar ódio.
- Sai daqui! — ela apontou para a porta do quarto. — Some da minha frente! — a voz dela era cheia de mágoa.
Ele havia a magoado de novo. Havia mais um motivo pra chorar. A maldita mágoa exalou nela, de novo.
- Eu pensei que esse beijo mudava. Alguma coisa.
- Esse beijo não muda nada, Pedro. Só serviu pra aumentar mais ainda minha raiva! — ela disparou e sentiu uma dor no peito.
Ele sentiu tê-la perdido naquelas palavras. Ele sentiu o vazio dela dentro de si, sentiu vontade de chorar. Ele sentiu o peso das palavras o puxarem para baixo.
Ela só sentia raiva por ele, ele pensava, já tinha o esquecido. Ele não causava mais um turbilhão nela, nem causava efeitos.
Podia ser que ela negasse até a morte, mas ele não negaria nunca. Ele estava abduzido pelos olhos e pelo sorriso dela. Ele havia entrado em overdose dela, e não imaginava mais sua vida sem Karina.
Pedro não disse mais nenhuma palavra sequer, apenas deu as costas e sumiu porta afora. Ela sentiu uma dor no peito ao vê-lo partir. Talvez seria pra sempre. Ela não podia saber ao certo quanto tempo ficariam separados, e nem sequer se voltariam a se falar, ela só queria viver um dia após o outro.
Nada melhor que isso. Viver um dia após o outro.
Ali, naquele quarto, naquele amontoado de travesseiros e numa colcha estampada, ela afundou seu rosto e se afogou chorando lágrimas de sangue.
Ela não sabia nem se ele já havia saído de sua casa, mas pouco lhe importava, ela só queria chorar em paz pelos próximos minutos sem ter de explicar a ninguém os motivos.
Seria mais fácil superar uma facada no coração.
A pior dor é a dor da alma.
Ela queria não ter que sofrer tanto, queria esquecer que Pedro a machucou. Ela não podia nem queria. Não havia mais confiança, ela sabia disso.
Por mais que ele causasse um furacão dentro dela, ainda não era a hora certa. Ele teria de esperar até o momento.
Aquelas lágrimas desciam do rosto dela com sinal de alivio, e ela teve certeza. Chorar alivia.
Havia um pequeno infinito entre eles, e ela queria não se importar com os infinitos agora, mas como não se importar? O infinito deles estava se esvaziando dos sentimentos bons.
Aquela porta era para Pedro, uma muralha. Uma enorme muralha que afastava Karina dele.
Ele estava perdido, em pensamentos e em sentimentos inenarráveis. Ele queria poder morrer. Já não fazia mais diferença pra ela, ele pensava, quando na verdade, ele causava aquele frio na barriga que os apaixonados sentem. Pelo menos ele teria uma lembrança de um beijo. Ele a teria, pelo menos em pensamento. Ele apenas fechou a porta do quarto dela, por fora, e saiu daquele apartamento.
Não, ele não sabia se voltaria, mas pouco se importava com aquele lugar. Afinal, ele estaria com ela em qualquer lugar, até mesmo debaixo de uma ponte.
Ele iria amá-la até o fim dos seus dias, e daquilo ele tinha convicção. Ele afirmava todas as noites que a amava olhando as malditas fotos dos dois no celular até dormir.
Não existia Pedro sem Karina, nem Karina sem Pedro. Eles se completavam como peças de encaixe para crianças brincarem, eles se bastavam. Ele era feliz por fazê-la feliz e agora ele já não sabia se ele era a felicidade dela. Eles já não sabiam se iriam mais se ver, nem ficarem juntos depois daquilo, mas de uma coisa ela tinha certeza, ela iria sonhar com aquele beijo toda santa madrugada que conseguisse pegar no sono.
Foi tão naturalmente fluindo. Foi gradativamente e de uma hora pra outra. Ela se apaixonou por ele e vice-versa.
Seriam para sempre um do outro e só aquilo não bastava. Ele a queria com a mesma intensidade que ela o queria. Uma hora ou outra, eles tinham de aceitar.
Dizem que o tempo é inimigo dos apaixonados, pois eles fariam o ser a favor deles, nem que tivesse de ser na marra. Eles ainda iriam ser felizes, mesmo que fosse só em sonho.
Notas finais
Obrigada por lerem, desde já.
Beijos.
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