Ouço-te no silêncio

Sento-me em meu banquinho de madeira e tiro algumas notas de meu teclado.

Quem me vê assim, não sabe de minha desgraça. Em breve, eu não saberei mais a diferença entre um dó e um ré, pois não poderei ouvir nenhum dos dois.

Sofro de uma doença degenerativa que devora meus ouvidos aos pouquinhos. Mesmo sendo eu tão jovem, meu canal auditivo um dia será inútil. O grande problema nisso tudo é que sou apaixonada por música desde criança – e morreria se não fosse mais capaz de ouvi-la.

— I’ve got a thing about you... – canto, melancólica, enquanto toco tecla por tecla.

“A Thing About You” é dos Roxette e é minha música preferida. Meus pais que me apresentaram a ela. As pessoas da minha classe dizem que sou esquisita por agir e me vestir como se ainda estivesse nos anos 80, mas eu não tenho culpa de ter nascido na década errada. Gosto das minhas polainas, das minhas calças justas, do meu cabelo cheio de fixador, das minhas tiaras enormes e dos meus discos de vinil.

E eu gosto... de música.

— Mas que importa sonhar em viver na década de ouro da música se um dia eu ficarei totalmente surda? – murmurei para mim mesma – Minha sina é morrer nos braços do silêncio quando tudo o que eu mais quero é viver pela minha música...

— Aisha? – perguntou meu namorado, abrindo a porta do meu quarto – Tudo bem? Vim te fazer uma visita fora de hora. Sua mãe me deixou entrar.

— Algum problema? – perguntei, triste por não ouvir a voz dele com tanta nitidez quanto eu ouvia anos atrás.

— Nenhum... É que... Você parece muito triste recentemente. – ele me abraçou por trás enquanto eu tocava meu teclado – Sabe que pode me contar tudo, não sabe?

— Ah... – deixo uma lágrima escapar enquanto continuo a tocar a melodia de “A Thing About You” – Minha mãe já deve ter contado alguma coisa pra você, né? Ela não gosta que eu esconda a verdade dos outros, não quer que eu tenha vergonha da minha condição. Mas é que... O que você faria se eu não pudesse mais ouvir a sua voz? Muito menos seus solos de guitarra?

— Você está me assustando... Por que não poderia mais me ouvir? – ele me dá um beijo no ombro e lá fica com a cabeça apoiada – Não está pensando em deixar esse mundo, está?

— Não... Mas parte de mim deixará em breve... – emito mais uma nota e vejo lágrimas em meu teclado – Estou ficando surda, meu bem. E não tem cura. Estou gradativamente perdendo a audição. Segundo o médico, não poderei ouvir mais nada dentro de alguns meses... E você vai me deixar, porque... quem quer namorar uma surda, não é mesmo?

— Aisha... – ele parece atônito – Por que não me contou antes?

— Porque não queria que você me largasse...

— Não vou, por que largaria? Minha tia é surda e eu me comunico com ela usando a língua de sinais. Não terei problemas em conversar com você.

— Mas eu só poderei ver seus gestos... Nunca mais poderei ouvir a sua voz.

Ele, parecendo ignorar minha fala, pega a minha partitura de “A Thing About You” e rabisca algo nela.

— Ei, me devolve! – ordeno.

— Aqui... – ele desenha um grande coração na folha e me mostra – Significa amor em todas as línguas... E não precisa ter ouvidos para ouvir. Porque se ouve com o coração.

— Terry... – eu sorrio enquanto a voz dele desaparece lentamente de minha memória.

Dentro de alguns meses, não há mais sons. Toco meu teclado e nada mais escuto. Mas sei que os sons ainda estão lá, pois Terry diz que estou tocando lindamente.

Terry... Eu tenho uma coisa sobre você... Ouço-te no silêncio. E isso está muito além do que meus ouvidos podem dizer.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!