Outono dos Deuses

2 Amor, o verdadeiro pecado .


Notas iniciais
Quem leu Edgar Allan Poe entenderá a referência, acho interessante demais esse personagem, e estarei adotando ele .

A muito tempo no país de Varzus , em uma cidade chamada Fairlight East houve a chegada de um grande contingente populacional, proveniente de sobreviventes de guerra, e pessoas refugiadas. Era o normal de acontecer, êxodo intenso das cidades que estavam sendo atacadas para as mais seguras. Ou agora, nem tão seguras assim. O que realmente estava por trás dessa movimentação populacional, era o fato de serem todas as pessoas do subúrbio de um país próximo, e por conseqüência também foram enviados prisioneiros soltos de suas custódias, pelo fato das prisões terem sido danificadas a ponto de estarem com estruturas frágeis o suficiente para desabarem a qualquer momento.

Fairlight East no começo aceitou bem os imigrantes, acolheu-lhes, deu trabalhos a grande parte das pessoas, indicou abrigos, e até mesmo deu cargos de piloto de Sky ships para os mais experientes, pelo fato da cidade ter navios voadores que não estavam em funcionamento a muito tempo e aproveitou a oportunidade. Mas em pouco menos de dois anos, a cidade tinha ganhado um novo ar, algo parecido com a tensão que se há em pessoas que se sentem perseguidas. A cidade havia caído em decadência, os antes prisioneiros tentaram tomar o controle da cidade através do seu acesso a armamento ilegal, e uma guerra civil foi instaurada. Talvez não uma guerra tão tensa, por que ela ocorria aos poucos, literalmente poucos: pequenos ataques a prefeitura, sequestros de governadores, prefeitos reféns e etc., porém sempre era resolvido e o governo se mantinha em pé, talvez com as pernas machucadas, mas em pé. Enfim, a cidade se tornou um local onde não se podia se sentir seguro nem mesmo para expor suas vendas sem pagar aos rebeldes.

Em meio a esse caos, existiam quatro adolescentes, filhos de famílias pobres, que conseguia apenas consumir o que cultivava além dos duplos impostos (governo e rebeldes). O grupo era formado por Serjen, um garoto magro de cabelos crespos; Benn, talvez o mais ousado, um pequeno ladrão, tinha uma barbicha rala, cabelos enormes e despenteados, e andava o tempo inteiro com cigarro na boca; Kril , um herdeiro de uma família que em sua cidade natal era nobre, com a vinda para Fairlight East, perdeu totalmente o poder do título "Kushien" , era baixinho, um adorador de adagas e pistolas, tinha seu própria arsenal para praticar em casa ; e Por fim, Jas ... Jas uma garota que quase nunca falava, depois da morte do seu melhor amigo, ela se sentia aterrorizada para conversar, e se relacionar, com medo de que outras pessoas se fossem, assim como o seu antigo companheiro. Os quatro eram um grupo que se conheceu durante uma fuga de um pequeno embate na cidade, e terminaram se encontrando mais vezes, até que se tornaram conhecido como “as quatro crianças” , nome dado por rebeldes que eram saqueados pelo grupo.

–É meio dia , adianta o lado que é hora da sonda, Serj. — Disse Benn olhando para Jas e Kril que estavam de vigia.

–Quer tentar , porra ? Isso aqui não é fá.. -a fechadura destrava- não é tão fácil .

Os dois entraram no esconderijo de rebeldes, era um lugar podre, os suprimentos que eles queriam estavam, no mínimo podres. Os garotos corriam pelo lugar fazendo muito barulho, mas como Jas e Kril ainda estavam escoltando acharam que estava tudo bem não se importar em revirar as coisas naquele mausoléu. Eles pegaram maçãs, trigo, sal, e até sanduíches que estavam prontos e guardados em uma caixa com o nome de “Refeição mais deliciosa do dia”. Obviamente era o lanche da tarde, não era a mais importante, mas com certeza a mais deliciosa, por ter algo que era caro na região: geléia. De repente, se ouve um estrondo, e logo depois algo parecido com um terremoto, juntamente com o céu fechando e raios de luz azul atravessando os céus e tocando o chão. Os garotos desmaiaram.

–Acorde, meu anjo. — Uma voz desconhecida ressoou por dentro dos salões de um enorme castelo

Jas acordou, em meio a um lugar que ela nunca tinha visto, parecia um palácio, que se estivesse em dias de glória, seria lindo. Mas só o que se podia ver, era um homem, com uma máscara vermelha, sentado num trono, e logo ao seu lado havia o que parecia ser um rei, com a pele inteira erodida por alguma doença. E no resto do cenário várias pessoas empilhadas. Ela olhou para trás, e lá no fim, um grande relógio. Ela tentou gesticular algo , e mexeu a boca mas estava apavorada mediante a tanta carnificina.

–Você não precisa falar. Deuses também não precisam de permissão pra ler seus pensamentos. — Disse o Deus de a máscara rubra agora, e ele realmente não parecia mexer a boca, nem mudar semblante da sua face.- Tenha em mente , que o que seu mundo vai experimentar a partir de agora, não é nada mais, do que um disputa para saber quem irá demandar o futuro da vida existente lá.

–Mas ... — Ela tentou falar, mas estava aterrorizada, e nada a faria conseguir mover nem se quer mais um milimetro do corpo.

–Você deve estar perguntando por que está aqui. Vamos por partes. Talvez não conheça a lenda do “deus rubro”, mas não precisamos de muita apresentação, eu estou em livros antigos da sua civilização. Em síntese, eu apenas estou aqui para mostrar que nenhum ser humano está salvo das chagas, da dor, e da morte. Eu a trouxe aqui, por que você conhece a chaga, a dor, e a morte de perto, e vive com ela, como ninguém nunca viveu. Você pode ver ele, indo embora, dia após dia. E sabe por que ? Por que eu quis. Eu quis que perdurasse. Eu quis que você entendesse que a dor é algo para se temer. Eu prolonguei cada dia, e cada segundo, da dor do seu amigo, para que alguém entendesse com o que eu vivo, e com o que, como dever divino, eu tenho que fazer. Eu me sentia triste, no começo, mas depois... Eu só me acostumei. Sabe, Deuses criados por outros deuses, não tem muitos por quês. Eles só estão lá pra cumprir deveres, e serem temidos, ou amados. E no meu caso, o temor é o maior sentimento que se pode ter.

A garota em meio a conversa já estava chorando, em posição fetal, gritando como se uma faca a tivesse perfurado de forma tão intensa que precisava pedir por ajuda, mas sem conseguir formar palavras.

–Enfim, eu lhe tenho uma proposta a fazer. — Quando ele disse isso, ela parou instantaneamente de gritar, não por que quis, mas sim por que pareceu ter sido ordenada.- Seu amigo, ele era importante não é ? Uma existência importante para você ? Bom, Eu lembro que quando ele morreu e foi sepultado, você não pode nem mesmo chegar perto, por ter sido suspeita de você mesma, ter passado sífilis para o pobre jovem. Ó, soberba humana que os faz culpar qualquer um por seus descuidos ou suas desatenções. Ambos sabemos que era uma praga, que eu mesmo espalhei. Mas sim, que tal, se você me ajudar, eu te dar a chance de vê-lo mais uma vez, e poder se despedir.

–... Eu ...- Ela estava relutante, e não disse mais nada

– Jas, não ? Vou considerar isso um sim, por que eu estou dentro de sua mente, ainda. Tantas lembranças, tantas coisas que se passam ai. Gostaria de um dia sentir esses sentimentos que foram dados a vocês, através do pecado... O amor... É por ele que vocês cometem as maiores atrocidades, e muitas vezes desrespeitos a nós. Esse sim, é o sentimento produzido diretamente do pecado.

–Eu posso te perguntar, de verdade, por que ...- Ela não continuou, por que era esperta o suficiente para entender que não precisaria dizer nada para que ele pudesse responder suas perguntas

–Alguém mais forte ? Você acha que a pessoa de quem eu quero ajuda, precisa de força? Nem mesmo um músculo será necessário... Só... controle de si, que eu já sei, que é algo que você não tem. Conheço as suas crises, eu acompanhei você.

–Você me acompanhou ? — No termino dessa frase Jas apagou .

–Jas , acorda , por favor, Jas, acorda, vamos. Precisamos sair daqui agora. — Benn estava desesperado aos gritos, parecendo que o mundo iria acabar. E talvez estivesse.

–Oi ... — Falou a garota desnorteada com tudo que aconteceu.

E de longe deu para se notar a chegada de inúmeros rebeldes, o grupo tentou correr dali, e a cidade estava terrivelmente destruída, apenas algumas partes conservadas, partes o suficiente para que se pudesse correr. Eles mantiveram um ritmo intenso em sua fuga, os rebeldes estavam atrás deles, muito perto, talvez a 30 segundos de distância. E por fim , eles ficaram encurralados em um beco formado por um prédio que foi destruído no terremoto.

–HAHAHAHA , as quatro crianças encurraladas. Bom, acho que seus pequenos saques acabam aqui, não ? Vamos nos divertir com algo que os próprios deuses nos enviaram. — Os rebeldes terminaram a sua frase, aumentando sua massa corporal, e criando pequenas brocas na região dos ombros, de onde uma chama negra podia ser vista.

–Mas que porra ... Krill, alguma arma de fogo ? — Gritou Serjen, querendo agir primeiro.

Krill deu-lhes algumas pequenas armas de fogo, com pouca munição, e com certeza aquilo não derrubaria aqueles soldados infernais. Eles atiravam, e as balas entravam no corpo, e jorravam o sangue, mas parecia ser algum esteróide tão poderoso, que eles nem mesmo diminuíam o passo para chegar perto do grupo. E então foi praticamente um massacre, os soldados começaram a espancar os garotos que estavam segurando a linha de frente, para que Jas não fosse atacada. Mas não adiantou, os garotos foram tão surrados que apagaram.

–Deixe-os ai , só tem graça se eles puderem sentir a dor, vamos agora lidar com a ... bela dama aqui . O que temos aqui... você está tremendo ? Não precisa se preocupar, nós não machucamos mulheres. Nosso doutor por outro lado, está testando antibióticos, e ele precisa de pessoas que se contaminem primeiro...

–Jas pareceu ter sido congelada, enquanto aquele soldado enorme se aproximava, e começou a tentar pegar a garota a força. Ela se debateu, mas não existia força no mundo naquela hora capaz de tornar sua fuga possível.

–Hm... Nosso doutor ama as garotas que se debatem. As seringas vão fazer você se debater bem mais.

Nesse exato momento, Jas aparentemente entrou em estado de transe, ela lembrou-se do número de seringas que seu amigo experimentava por dia, para tentar curar a sua chaga divina.

–Jas... Jas... Jas... Você realmente acha, que eu vou deixar meu trunfo, morrer assim ? Pra soldados de odium ? Essas chamas negras são a maior vergonha que eles poderiam ter herdado. Você que as seringas entrem na sua pele, Jas ? Ou quer ser exposta a doenças piores que a do seu amigo ? Jas... imagine a dor novamente, e imagine mais... Morrendo aqui, você nunca vai poder se despedir daquele que você jurou proteger, e nem mesmo pode ver ser enterrado. Você é uma vergonha. — Uma voz já ouvida antes falava agora no subconsciente da garota.

Nesse momento , a garota começou a gritar, como gritou da primeira vez, no palácio, mas dessa vez era mais estridente, mais agudo, mais desesperado... Dessa vez, dava para se ouvir a morte em cada pequeno arranho sonoro, que era exposto pela pobre garota.

–Minha pobre e desesperada dama. A única coisa que eu preciso de ouvir de você , é um grito, com um “Sim”. E ai talvez possamos resolver essa situação... Com um pouco do seu sangue... E com um pouco da sua sanidade... Mas o que são esses preços para alguém que vai morrer e não deixar nada para trás ? — Na mesma hora que a voz foi ouvida em sua mente , um grito pode ser ouvido de muito longe

–SIM ! — A garota gritou com tudo que podia.

Nesse momento , vários fios vermelhos começavam a sair de dentro do corpo da garota, por todos os lados. Os soldados iam sendo cortados de forma rápida, e gritavam, como se aquilo ardesse mais que o fogo escaldante do inferno. Os fios se moviam de forma aleatória e rápida, e as vezes ameaçavam pegar em seus amigos. E os gritos continuavam, mas agora pareciam ser algo com ritmo, um ritmo desesperado, mas que podia ser lindo, se posto com percussionistas de fundo.

Por fim, todos os soldados rebeldes mortos, e a garota ensangüentada, compartilhando do seu próprio sangue, e de sangue alheio. Ela sentia mais dor que qualquer um naquele lugar, mas os gritos paravam, por que a dor a calou.

–Minha querida, toda dádiva, vem com a chance da punição. O que você fez agora, não foi nada menos do que reproduzir o pecado que havia dentro de você. E talvez isso tenha te machucado. Mas não importa, o amor é mais importante, não ? — E a presença da voz pareceu sumir de uma vez do local.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.