Outlaws Of Love
4 A Day With Kurt.
Kurt acordou naquela manhã sentindo-se especialmente leve. Depois de espreguiçar-se sentado em sua cama de casal, em passos lentos e arrastados ele dirigiu-se até o banheiro do seu quarto para tomar um banho e escovar os dentes. Ele não entendia o porquê de estar sentindo-se tão leve naquela manhã, já que o dia anterior havia sido um dos piores dias da sua vida. Com certeza aquele dia estava na sua lista de dias péssimos.
Enquanto isso, Blaine esperava pacientemente sentado na cama do castanho. Claro que ele não entraria no banheiro e ficaria vendo o outro tomar banho, além de constrangedor para Kurt – Que nem sabia de sua existência – aquilo seria constrangedor demais para o moreno. Olhando em volta, ele percebeu um mural com várias fotos de Kurt com Elizabeth quando era mais novo, com um homem que o anjo deduziu ser seu pai e vários outros jovens que sorriam, abraçavam e beijavam o castanho no rosto.
O anjo levou um susto tão grande quando Kurt repentinamente abriu a porta do banheiro que, mesmo sem querer, havia feito o quadro cair da parede apenas com a força da adrenalina que passou pelo seu espírito, causada pelo susto.
O castanho, sem se assustar, resmungou algo como “depois eu terei que arrumar isso” e dando de ombros, foi se vestir. O anjo ficou de costas para o garoto esperando que ele se vestisse adequadamente, porém quando virou – julgando o tempo que havia dado para Kurt, suficiente – encontrou o castanho no banheiro com vários potes diferentes em suas mãos.
Blaine, curioso, parou atrás do outro e ficou olhando-o pelo reflexo do espelho. Kurt parecia testar todos os conteúdos dos vidros e decidindo-se por um, ele passou uma leve camada do medicamento nos dedos e aplicou sobre o olho roxo e na parte inchada dos seus lábios.
– Puck ainda vai me pagar. – Ele rosnou para si mesmo antes de passar um tipo de corretivo no olho que havia o hematoma.
De repente, num olhar de relance, Kurt virou violentamente para trás, dando de cara com a porta.
– Que estranho. Jurei que tinha visto alguém aqui. – Ele murmurou para si mesmo, desconfiado, com suas sobrancelhas arqueadas. Decidido a ignorar, virou-se novamente, voltando sua atenção para a maquiagem que ainda aplicava no rosto enquanto certo anjo ria atrás de si.
Não era algo proposital, mas às vezes, quando anjos ficavam perto demais dos humanos – Como Blaine estava fazendo com Kurt naquele momento – eles conseguiam, mesmo que por breves segundos, vê-los e logo depois, não mais. O moreno adorava a cara de confusão, desconfiança e até certo medo por parte dos vivos.
O anjo realmente os achava fascinantes.
– Kurt! Desça, o café da manhã está pronto! – Blaine e o castanho ouviram uma voz masculina gritar.
Kurt vestiu uma roupa qualquer, ele não estava com ânimo para se arrumar naquele dia, pegou a sua mochila e saiu às pressas do quarto.
O anjo continuou ali observando o quarto do outro até que, apenas fechou os olhos e “atravessou o chão” para o andar de baixo e encontrou-se na sala de estar da casa.
Para o moreno, essa era uma das partes mais legais de ser um espírito, poder atravessar as coisas materiais terrenas. Ele até tentou atravessar a parede da sua sala de aula no astral quando estava sendo ensinado sobre “como explicar a um humano que está na hora de partir”, mas o máximo que conseguiu, foi cair sentado. Ele não sabia que apenas atravessaria paredes que estavam na terra, e não no mundo espiritual.
Blaine flutuou até a cozinha e a cena que viu, não imaginou que veria. Kurt tomando um café silenciosamente sem olhar para o seu pai e Burt, com um olhar triste e impotente sobre o filho.
A aura do mais velho brilhava em um tom roxo escuro, demonstrando toda a sua tristeza. E a aura de Kurt, bom, a do castanho tinha os mais diversos tons brigando entre si. Aquilo demonstrava o quão perdido e confuso o castanho se encontrava.
– Onde está Carole? – O castanho perguntou tentando quebrar aquele silêncio tenso.
– Ela já foi trabalhar. – Burt sorriu, ao ver o filho iniciar uma conversa. Mas nada poderia fazer seu coração de pai, sossegar naquele momento. – Kiddo... – O velho homem começou colocando sua mão sobre a do castanho, obrigando-o a olhá-lo. – Por que você está todo machucado? O que aconteceu? Por favor... Conte-me, eu posso te ajudar filho... Eu só não aguento mais te ver assim... – Burt encontrava-se à beira de lágrimas enquanto o filho nem ousou levantar o olhar para seu pai.
– Briga de escola. Coisa de adolescente, nada com o que se preocupar. E-eu tenho que ir. – Kurt retirou a sua mão e praticamente correu até a porta com Blaine em seu encalço.
– Volte lá. Kurt volte. – O anjo o abraçou sussurrando eu seu ouvido. Aquele era o primeiro contato direto que tinha com o seu mais novo protegido, acordado, e sentiu várias coisas diferentes. Um arrepio percorreu todo o espírito do moreno e de uma maneira nova e confusa ele sentiu-se feliz em abraçar o castanho.
Mesmo com aquela confusão, Blaine, concentrando-se no que estava tentando fazer, continuou insistindo e sussurrando aquelas quatro palavras até que Kurt, mesmo sem saber de onde vinha aquela vontade, largou a sua mochila perto da porta, caminhou rapidamente até a cozinha e sob o olhar confuso de seu pai, o levantou pelos ombros abraçando-o fortemente.
– Está tudo bem pai. Eu sei me virar. E eu te amo. – Kurt falou com o pescoço enterrado no pescoço do pai. Ele realmente queria conversar sobre aquilo com alguém, mas achava que seu pai já tinha problemas demais.
– Eu também te amo, filho. E-eu sei que você está em apuros. Kurt, por favor. Converse comigo. – Burt retribuía o abraço. Tudo o que ele queria era sentir-se útil e habilitado para ajudar seu bem mais precioso que mesmo silenciosamente, gritava por socorro com aqueles belos olhos.
– Eu estou bem. E agora eu realmente preciso ir. Até a noite. – O castanho, saindo dos braços de seu pai, sorriu delicadamente e tanto o homem quanto Blaine, que estava ao lado do castanho, haviam achado aquele gesto o mais formidável do garoto de olhos adoravelmente azuis.
OL
Kurt, com seus fones de ouvido, corria pela rua sem prestar atenção em nada a sua volta. Blaine “flutuava” ao seu lado e tentava ouvir o tipo de música que o outro escutava aproximando-se mais. Mesmo que muito baixo, o moreno conseguiu ouvir um piano e um violino ao fundo, o que ele achou muito bonito e emocionante.
Ele adorava esse poder dos humanos de fazerem músicas que tocam o coração de todos os seres vivos.
Blaine sentiu-se atordoado quando entrou na escola junto com o castanho. Não era só por que a escola era cheia de humanos, ou por que era um local completamente novo e diferente para ele que estava acostumado apenas com uma estrutura terrestre: Hospitais.
Era por que a escola também estava superlotada de anjos da guarda assim como ele.
Todos foram muito receptivos e o moreno observava que mesmo conversando entre si, os anjos não perdiam seus protegidos de vista nem por um segundo. Tentando adaptar-se ao local, colocou os dois pés no chão e começou a caminhar como todo mundo. Aquilo era realmente estranho.
Mas ao virar-se na direção em que Kurt deveria estar ele não o encontrou. Blaine correu pela escola e não achou o garoto que deveria estar sob a sua guarda. Então, usando a sua inteligência, ele simplesmente “imaginou” o rosto do castanho e fechou os olhos. Quando os abriu, estava na frente dele.
Kurt estava discutindo com um garoto que tinha um moicano estranho que lhe deu um forte empurrão, fazendo o castanho cair sentado com uma expressão de medo no rosto, causando um arrepio de desconforto em Blaine, enquanto pedia dinheiro.
– Eu não tenho mais dinheiro. E eu não vou mais vender essas porcarias para você! Se meu pai descobre que eu andava metido com esse tipo de coisa... Nossa, eu nem sei o que aconteceria. – O castanho jogou o pacote com uma substancia branca em cima do garoto que bufou de raiva e saiu deixando-o sozinho.
Blaine percebeu o suspiro de alivio que Kurt tinha dado.
Decidido a matar aula, Kurt pegou a sua mochila e seguiu pela rua colocando mais uma vez seus fones de ouvido. O anjo havia percebido que aquele tal Puck era quem havia deixado o castanho cheio de hematomas no dia anterior e que Kurt só tinha ido à aula para devolver a ele qualquer coisa que estivesse vendendo.
Blaine nem percebeu quando o castanho ficou um tempo olhando para um ônibus em alta velocidade que se aproximava.
“Talvez isso nem doa.” O anjo, ouviu aquele murmúrio de Kurt com horror. Ele estava mesmo pensando em se matar?
Se Blaine não estivesse tão apavorado, teria se dado conta de que Kurt não havia pronunciado nada. Que ele havia realmente ouvido o pensamento do castanho.
“É só pular na frente dele na hora certa... E tudo isso estará acabado.”
Kurt deu um passo em direção ao meio da avenida enquanto Blaine praticamente jogou-se em cima dele abraçando-o com força.
– Não, não faça isso. Você tem muito para viver, não jogue sua vida fora. Kurt pare de pensar nisso. Volte para a calçada, por favor. Pare. – O moreno tentava passar segurança e serenidade para Kurt, mas a verdade era que ele estava apavorado. Nunca teve que tentar impedir ninguém de um suicídio e o castanho parecia realmente ter certeza de que faria aquilo.
“Vamos Kurt, não seja medroso. Você não vai sentir nada.”
Kurt colocou mais um pé na avenida. Blaine afastou-se em pânico. Ele não conseguiria impedir que o castanho fizesse aquilo. Com as duas mãos na cabeça ele olhou para o céu ensolarado daquele dia. Ele conhecia alguém que conseguiria ajudar.
Não foram precisos mais do que alguns segundos para Elizabeth aparecer. A um olhar arregalado e apreensivo do anjo menor, a mulher entendeu tudo ao ver seu filho indeciso com os pés perigosamente postados na rua.
– Querido, pare. Volte já para a calçada. Sim, você vai sentir muita dor se fizer isso. Você ficará um bom tempo numa cama de hospital sentindo dores pelo corpo todo. – A voz do anjo veio firme fazendo o filho, mesmo que inconscientemente dar dois passos para trás e bufando, seguir seu caminho até a praça mais próxima deixando Blaine e Elizabeth para trás.
– C-como...? Como você fez isso? – Foi tudo o que o moreno conseguiu perguntar.
– Prática. Quando você não conseguir convencer ele de que a vida é ótima e que ele tem muito para viver, convença-o de que, se ele fizer qualquer besteira, ele vai sentir muita dor. Kurt tem medo e evita qualquer tipo de desconforto. – A mulher disse simplesmente, recebendo um olhar ainda mais incisivo.
– Então já é um hábito ele pensar e tentar se matar? Quando você ia me contar isso? – Blaine estava realmente incrédulo.
Como ele iria conseguir ajudar Kurt?
– Sim. E esse tem sido o nosso problema. Ele quase não me ouve mais. Então você foi trazido. A sua ligação com ele é muito mais forte e intensa do que a minha.
Blaine arqueou as suas sobrancelhas e riu. – Como isso é possível se eu acabei de conhecê-lo?
– Você acha que acabou de conhecê-lo. Você vai descobrir. Bom, agora você já pode voltar para lá. – A mulher apontou para o céu e depois riu. – Eu vou passar o resto do dia com ele hoje. Sabe como é, para me despedir. Amanhã você volta querido.
Vencido, mas ainda curioso, o anjo deu um pequeno sorriso e olhou para o céu que estava limpo e com lindas nuvens branquinhas. A olho nu, nenhum humano viu Blaine, que como um raio, atingiu o céu sob o olhar compreensivo e acolhedor de Elizabeth.
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