Suas pernas pesavam como chumbo. Seu coração apertava de dor e culpa. O caminho para sua casa parecia ter aumentado incrivelmente. Ele não pensava em nada, só conseguia ver o rosto sujo de sangue em sua mente. Não conseguia chorar, as lágrimas que outrora poderiam lavar sua consciência haviam lhe fugido, o deixando encarar sozinho o que fez.

Seu celular começou a dar estática exatamente na hora que ele estava na frente do Jude’s Dinner.

Sete criaturas rodeavam-no. Três delas eram de focinho, as outras quatro eram menores, do tamanho de uma criança, e não tinham braços.

”Eu não vou morrer aqui, para essas criaturas”

Uma delas se aproximou e Garcia atirou. Uma de focinho começou a correr em sua direção e ele acertou-a no peito.

”Logo irão acabar as minhas balas, tenho que me esconder dentro desse maldito lugar”

Ele correu para a porta do Jude’s Dinner e tentou abri-la. Algo estava impedindo a porta de abrir pelo lado de dentro.

”Droga”

Tentou empurrar mas o máximo que conseguiu foi deixa-la entreaberta. Algo dentro do restaurante fez um “click” e uma porta se abriu.

”Tomara que não seja mais algum monstro”

As criaturas estavam se aproximando. Garcia atirou numa delas.

Restavam quatro. Garcia atirou na cabeça da ultima de focinho que caiu no chão. Uma das pequenas estavam perto dele, com o tiro que ele deu no peito dela a criatura “voou” uns 3 metros. Faltavam duas criaturas, mas Garcia estava já sem balas.

- Droga, estou ferrado –disse ele.

”É assim que vou morrer então? Para duas criaturas nessa maldita cidade? Esse é o meu castigo”

ZUM. Um machado decepou a cabeça de uma das criaturas, Bronsky apareceu em seu auxílio. A outra criatura virou-se para atacar Bronsky, porém ele acertou uma machadada em sua cabeça. A criatura caiu sem vida no chão.

Garcia o olhava como se não acreditasse que Bronsky tinha acabado de salvar sua vida.

- De nada – disse Bronsky, rindo.

- Bem, agora estamos quites, hein?

- Sim.

Bronsky retirou o machado da cabeça da criatura.

- Aonde achou isso, cabrón?

- Aqui do lado haviam umas lenhas cortadas e isso estava cravado em uma delas.

- Bom, com certeza é mais útil que uma pistola. Aonde está aquela que eu te dei?

- Acabou as balas – mentiu Bronsky.

- O mesmo com a minha doze. Desde que anoiteceu, o número de criaturas deve ter triplicado.

Garcia olhou para a sua doze e suspirou. Então olhou novamente para Bronsky.

- Então cabrón, ainda indo para a mecânica?

- Na verdade não mais, além do que duvido que tenha alguém lá.

- Então porque veio até aqui?

Bronsky hesitou antes de falar.

- Bom, eu pensei que já que vim até aqui, porque não sigo para saída que dá acesso a Brahms – respondeu Bronsky.

- Bom, boa sorte então, está bloqueada – mentiu Garcia. Ele não sabia porque disse aquilo, afinal a saída não estava bloqueada, ele veio por ela de Brahms, porém algo o fez falar aquilo, quase como alguém lhe tivesse soprado no ouvido.

- O que? Mas você não veio por ela essa manhã?

- Sim, mas agora a pouco quando tentei voltar e ir pra Brahms encontrei-as bloqueadas.

- Bloqueadas como?

Garcia hesitou para inventar uma resposta.

- Buraco.

- O que?

- Um buraco enorme no chão.

- Mas como?

- Eu realmente não sei.

Garcia baixou sua cabeça e encarou o chão.

- Se você tentou voltar então... você não encontrou seus pais e irmão?

O cérebro de Garcia congelou por alguns segundos, ele não sabia o que responder a Bronsky

- Encontrei... mortos – disse ele, finalmente. Dentro do peito a vontade de gritar “EU OS MATEI” era grande, mas controlou-se.

- Si-sinto muito – murmurou Bronsky

Garcia não respondeu. Levantou a cabeça, e desviando o olhar de Bronsky disse.

- Eu não sei porque você quer ir a Brahms, cabrón, mas seja o que for não vale a pena arriscar a sua vida, essa cidade é... demoniaca. Ela só vai deixar você sair daqui morto, seja tanto por dentro ou tanto por fora.

- Eu... eu tenho que prosseguir.

Garcia o olhou, as lágrimas haviam voltado a seus olhos.

- Você ainda tem o canivete?

- Sim.

- Então me prometa que se qualquer coisa vier atormentar a sua cabeça, pega esse canivete e enfie na sua garganta. Não deixe nada dentro dessa cidade entrar em sua cabeça, porque se entrar isso vai te destruir e você vai implorar pela morte.

- Porque você está dizendo isso?

A dor aumentou dentro do peito de Garcia.

- Você ainda tem o canivete?

- Sim.

- Então me prometa que se qualquer coisa vier atormentar a sua cabeça, pega esse canivete e enfie na sua garganta. Não deixe nada dentro dessa cidade entrar em sua cabeça, porque se entrar isso vai te destruir e você vai implorar pela morte.

- Porque você está dizendo isso?

- Porque eu não fui corajoso o suficiente pra apontar essa doze pra minha cara e puxar o gatilho. Não seja covarde como eu fui.

Garcia virou-se e recomeçou a andar.

- Garcia... – chamou Bronsky.

Garcia se virou para ele.

- Eu prometo.

Garcia o fitou por um momento.

”Conseguirá mesmo? Tomara que sim, meu amigo”

Garcia assentiu a cabeça e disse:

- Boa sorte, cabrón – e então continuou a andar.