Our Memories
1 Capítulo 1
Notas iniciais
{...} Loving can hurt
Loving can hurt sometimes
But it’s the only thing that I know
And when it gets hard
You know it can get hard sometimes
It is the only thing that make us feel alive {…}
Tudo ainda era normal, ou pelo menos parecia ser. Julie e eu começaríamos no mesmo colégio, naquele mesmo dia. Ainda me lembro como ela deixava o cabelo roxo preso em um coque mal feito, mas que não tirava a sua beleza. Como seus olhos escuros e grandes eram tão chamativos, mas ao mesmo tempo tão misteriosos. Acho que os olhos eram a única coisa que tínhamos em comum, já que enquanto seus cabelos eram lisos, os meus eram totalmente encaracolados. Nossas alturas eram quase as mesmas, mas ainda assim ela conseguia ser um pouco mais alta.
Éramos o casal de gêmeos mais engraçado que já tínhamos visto. Éramos o oposto em praticamente tudo, mas tinha uma coisa que tínhamos um amor mútuo: música. Algumas vezes, deixávamos tudo de lado e ficávamos o dia inteiro vivendo de música. Ora ela cantava e eu tocava, ora ela tocava e eu acompanhava. Mas sempre juntos. Acho que era a música que nos deixava tão unidos, por que se não fosse por ela, provavelmente, já teríamos nos separado muito antes.
Cheguei me jogando na cama da Julie, de braços abertos e fechando os olhos. Quando percebi que ela não tinha perguntado o que tinha acontecido, o que fazia sempre, me sentei e fiquei fitando-a.
— Você está bem? – perguntei, quando a vi olhando para o nada. Tudo bem que isso é normal, olhar para o nada e pensar em tudo, mas nunca foi normal para ela. Julie sempre foi daquelas pessoas que, quando tem alguma ideia, ou quando pensa em algo, por mais bobo que poderia ser, falava em voz alta. E não importava o que achassem, para ela aquilo era a coisa mais magnífica que ela poderia ter dito.
— Estou bem Lucas. Só quero ficar quieta.
— Ju, você nunca fica quieta. – falei, começando uma risada, mas parando assim que percebi que não era o mento de rir.
— Lucas, eu já falei. Eu estou bem. Só não quero tocar, nem cantar, nem fazer nada hoje.
— Já sei. Você está assim por causa daquele mané do Cristiano, não é?! Já falei Ju, deixa ele pra lá, ele é um idiota. Você merece coisa melhor do que ele, e nós sabemos que você consegue, e também...
— DÁ PRA VOCÊ CALAR A BOCA, LUCAS? VOCÊ NÃO SABE NADA QUE ACONTECEU ENTRE A GENTE, VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE FALAR DELE, VOCÊ NEM O CONHECE. SÓ ME DEIXA QUIETA, VAI PRO SEU QUARTO TOCAR QUALQUER COISA QUE VOCÊ ACHA QUE SABE E ME DEIXA EM PAZ. – disse enquanto levantava e abria a porta para eu sair. E quando ela fechou a porta, eu continuei lá, parado, sem entender o que tinha acontecido. E assim ela ficou pelo resto do dia, e das semanas, trancada no quarto, falando apenas o necessário, e apenas quando queria.
{...} We keep this love in a photograph
We made these memories for ourselves
Where our eyes are never closing
Hearts were never broken
And time’s forever frozen still {…}
A partir daquele dia, as coisas em casa só ficaram piores. Morávamos apenas eu, minha mãe e Julie. Quando minha irmã começou a faltar aula e a ficar somente trancada dentro de casa, minha mãe resolveu levá-la a um médico, que a encaminhou à um psicólogo, que logo após, a encaminhou à um psiquiatra.
E depois disso, tudo virou um caos. Minha mãe culpava meu pai, que tinha se separado dela à 5 meses. Já meu pai, culpava minha mãe por não estar tão presentes na vida de seus filhos. Eu, parcialmente, me culpava. Achava que talvez, se eu tivesse reclamado menos, das tantas vezes que já tinha reclamado com ela, e tivesse a ouvido mais, talvez ela não estaria depressiva. E enquanto nós ficávamos culpando um ao outro, ou a nós mesmos, ela continuava lá, distante.
Um dia, cheguei em seu quarto com uma caixa de fotografias. Desde o nosso nascimento até as mais recentes que tínhamos tirado.
— E essa, você lembra? Quando nos lambuzamos todos com a lama que a chuva tinha formado? Acho que a gente tinha o que, 5 anos?! Essa aqui foi do ano passado, quando a gente foi naquele festival de música que teve na cidade aqui do lado, que tivemos que sair escondidos e depois o papai descobriu. – E eu continuei, mas sabia que ela não estava ali comigo. Parecia que eu estava falando sozinho, por que mesmo quando falava das histórias que mais nos fizeram rir na nossa vida inteira, ela ainda não demonstrava nada. Nenhuma expressão, nenhum sorriso, nem mesmo uma lágrima. E quando a abracei naquele dia, ainda parecia que eu estava abraçando uma estranha.
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