Our Fury
10 You'll know the debt is paid
Notas iniciais
Atrás da pilastra, Megara observou quando Meistre Pycelle deixou o quarto om seus passos lentos e cuidadosos, fitou cada passo esperando que ele se afastasse o suficiente para que não viesse nem ouvisse enquanto ela se aproximava do quarto. Somente quando o velho meistre dobrou o corredor, ela avançou cautelosa em direção a porta e escorregou sorrateiramente para dentro. Em um giro de calcanhares, pode ver o quarto por completo e enxergar o jovem Lancel Lannister moribundo em sua cama, com seus olhos semicerrados, sem notar a presença dela. Deixou-se sentar na cama, ao lado dele, sem saber como começar a falar ou o que dizer.
Ele não era belo, não mais. Se antes era um jovem de rosto bonito e cabelos cor de areia, agora parecia muito mais velho e seu cabelo tornara-se quebradiço. Megara nunca gostou muito dele. Na verdade, ela tinha uma tendência a desconfiar de gente que não olhava nos olhos das pessoas enquanto falava, era isso que Lancel fazia. Ela nunca gostara dele, nem fizera questão de lhe ser gentil, talvez não fosse tarefa fácil conseguir a confiança dele.
– Lancel. – ela chamou com calma. – Está acordado?
Os olhos verdes do rapaz acordaram assustados, fitando-a.
– Senhora Megara. – disse com um tom alarmado. – O que faz aqui?
Megara forçou um sorriso simplório.
– Eu achei que seria bom vê-lo. – respondeu. – Achei que seria grato da minha parte saber seu estado já que defendeu nossa cidade tão bravamente.
Lancel não parecia confiar plenamente nela.
– Eu estou bem.
Megara quase riu ao ouvir aquilo, mas se controlou.
– Lancel... Eu sei que nunca fui exatamente gentil com você e espero que me perdoe por isso. — Não há pelo que perdoá-la, senhora. — Eu sempre fui um tanto arrogante. – Ela sentiu algumas lágrimas mentirosas se formarem em seus olhos. – E você sempre serviu a meu irmão e a toda minha família tão fielmente, eu nunca lhe retribui isso nem com um único gesto gentileza.
– Está tudo bem, senhora Megara. – Ele pareceu incerto – Mas deve se lembrar que eu não salvei seu irmão naquela caçada, não pude ajudar o rei e ainda lhe servi vinho demais, eu deveria ter servido menos vinho.
– Nós conhecíamos bem Robert e sabíamos que ele nunca aceitaria isso, você foi leal e obediente, Lancel.
Os olhos do garoto Lannister se encheram de culpa e isso não passou desapercebido por Megara. Só precisava chegar ao ponto certo e ele lhe confessaria tudo. Podia se sentir cada vez mais perto da verdade, só tinha que fazer com que Lancel se sentir mais culpado.
– Eu talvez não tenha sido tão leal assim, senhora.
– Como não, Lancel? Você é da família da rainha e sendo assim, também fazia parte da minha, nunca faria nada contra Robert.
– Eu... Eu fiz.
Algumas lágrimas cintilaram nos olhos dele.
– Esta delirando, Lancel, vou chamar o grande Meistre Pycelle.
Quando fez menção de se levantar, a mão de Lancel segurou seu pulso fracamente.
– Eu tenho que lhe contar a verdade, senhora.
– Que verdade?
– Não sou tão bom e fiel assim, senhora... Que os Deuses me perdoem mas tenho que contar a verdade! Por favor, me perdoe, eu imploro que me perdoe, senhora Megara. – Ele lhe disse suplicante. – Espero que isso fique entre nós.
– Está me assustando, Lancel.
– O seu irmão, o rei Robert, eu... A rainha me ordenou que eu servisse ao rei uma dose maior e mais forte de vinho, assim ele ficou zonzo e o javali o derrubou. Eu fiz isso, senhora, mas foi uma ordem da rainha, como eu poderia recusar?
– Meu irmão... – Ela repetiu, hesitante. – Você o matou!
– Perdão, senhora.
– Como ousa me pedir perdão?
– Foi uma ordem, eu fiquei com medo... A Rainha me ordenou, senhora Megara!
– Regicida.
– Não, pelos Deuses, senhora... Não me chame assim.
O desespero dele trazia uma sensação boa nela. Um breve silêncio se fez no quarto, sendo quebrado pelo som dos passos de Megara até a janela. Algumas lágrimas, agora verdadeiras, escaparam de seus olhos. Agora tinha a certeza de que Cersei fora responsável pela morte de Robert.
– Você disse que Cersei lhe deu a ordem?
– Sim.
– Por que?
– Eu não sei, senhora. – Lancel respondeu. – Por favor, senhora, me perdoe pelo que eu fiz, por favor... Misericórdia.
Ela limpou as lágrimas com as costas das mãos e se aproximou da mesinha onde uma pequena taça com leite de papoula estava. Lembrou-se do vidrinho que estava dentro da manga de seu vestido. Quando olhou para a cama, viu que Lancel fechava os olhos, murmurando alguma coisa como uma prece. O pequeno vidro deslizou de dentro da manga, parando na palma da mão de Megara. Não sabia quem lhe mandara, mas desconfiava de alguém em especial. Quando acordara pela manhã, o vidrinho em estava embaixo de seu travesseiro, como se alguém tivesse entrado durante a noite em seu quarto e o deixado ali.
Abriu a tampa com o polegar e deixou que a pequena erva deslizasse para dentro do leite de papoula, depois tornou a guarda-lo dentro da manga. Balançou a taça, vendo o conteúdo se tornar um só.
– Eu o perdoo, Lancel.
Quando ele voltou a abrir os olhos, encarou surpreso o fato dela ainda estar ali, agora de novo sentada na cama ao lado dele.
– Perdoa, senhora?
– Sim, Lancel. – disse as palavras com dificuldade. – Você tem o meu perdão. – Nunca fora tão difícil dizer aquilo.
Ele sorriu, aliviado, mas logo seu sorriso se tornou uma expressão de dor.
– O que aconteceu, Lancel?
– Sinto muita dor... Tanta dor, senhora.
– Eu vou fazer parar, Lancel. – disse, prestativa. – Vou fazer parar para sempre. – Suas mãos alcançaram a taça e levou aos lábios dele. – Beba, é leite de papoula.
O garoto obedeceu, bebendo avidamente o liquido.
– Obrigado, senhora, muito obrigado... É muito boa.
– Eu não sou tão boa assim, Lancel. – respondeu-lhe, erguendo-se da cama. – Eu vou chamar o Meistre Pycelle.
Pegou a taça e derramou-a na lareira do quarto que não estava acesa, então foi até a porta, não sem antes, virar e encarar Lancel começar a agonizar em seu leito.
– Ai está minha misericórdia para você, leão.
Assim que saiu do quarto, deixou-se caminhar o mais rápido que pode até a torre onde os dornenses estavam, precisava encontrar uma certa víbora o mais rápido possível.
***
– Sua esperteza deveria me preocupar. – Tyrion concluiu enquanto sentava-se em sua cadeira a frente de Moira.
– Claro que não, meu bom leão, eu estou do seu lado.
– Jogo esse jogo há tempo demais para saber que ninguém esta do lado de ninguém totalmente, Moira.
A lysena encolheu os ombros e bebericou sua taça de vinho.
– Estou curioso para que me conte seu fabuloso plano.
– Que funcionou.
– Bom para você, Moira, agora me conte.
– Era algo simples e não tinha muita coisa. – começou. – A sua parte era contar ao seu pai sobre a carta e assim levar Megara a frente de todos, para que ela pudesse mostrar sua lealdade ao sobrinho de uma vez por todas, assim que ela queimasse a carta, porque eu sei que ela é inteligente o suficiente para saber que aquela era a melhor escolha. – Moira bebeu um gole de seu vinho. – Assim, a lealdade estaria provada e ninguém a importunaria mais com desconfianças, os Tyrell perderiam seu interesse nela e...
– Também sabia do desejo que Joffrey concederia a ela?
– Isso eu não pude prever, mas foi algo bom para Megara, ela se livrou por algum tempo de algum casamento indesejado.
– Seu plano não é lá muito grandioso.
– Mas deu certo, o que faz uma trama dar certo é poder prever os movimentos das pessoas, foi isso que eu fiz.
Tyrion sorriu.
– Littlefinger lhe ensinou isso? O rosto da loira se transformou em uma carranca pensativa.
– Ele me ensinou muitas coisas e esse foi o erro dele. – respondeu friamente.
– Ensinou um inimigo que irá derruba-lo.
– Não. – ela sorriu, olhando para o vazio. – Eu vou fodê-lo, como ele mesmo dizia.
Moira tinha ódio dentro dos olhos ao se lembrar do homem. Tyrion se lembrava bem da garota triste vinda de Lys que vira no bordel de Petyr Baelish. Jovem e pequena, não deveria ter mais do que treze anos quando a vira pela primeira vez, chorando e encolhida em uma enorme cama, com os olhos opacos e cheios de tristeza. Tyrion a vira rapidamente, mas quando a olhou, soube que talvez fosse uma puta que não desse muita alegria aos homens que pagavam por ela. Littlefinger disse que o nome dela era Maedge e que se pudesse poderia ter uma noite com ela, e ele aceitou. Quando ficaram a sós, ela nem fora capaz de fazer seu trabalho, Tyrion não se aborreceu com isso.
– Eu não me chamo Maedge... – Ela lhe disse, antes que ele saísse. – Moira, meu nome é Moira, senhor.
Ele quis odiar a lysena por ela lhe lembrar tanto Tysha, mas não conseguiu. Soube que Moira tinha algo bem mais especial e que não poderia ser usado em um bordel. Porém, quando ele foi compra-la a Petyr Baelish, descobriu que ela já havia sido vendida. Era uma puta que não lhe dava lucro algum, então ele resolveu se desfazer dela, vendendo para um senhor que queria transformá-la, encontrar nela uma forma de tirar prazer que a maioria dos homens acharia impensável. Ele não conseguiu deixar isso para trás, por isso mandou homens atrás dela. Tyrion conseguiu tirá-la das mãos do homem durante a uma viagem pela estrada do rei, quando pagou alguns homens para sequestra-la e trazer a garota lysena para ele.
Tyrion a escondeu durante alguns anos em Lannisporto, para que crescesse e mudasse. Quando Moira já estava crescida e diferente, ele a mandou para King’s Landing para ser aia de Megara Baratheon. A história inventada era que Moira Maegyr era a filha de um comerciante de Lys que Tyrion conhecera e que mandou sua única filha para a corte, para conseguir um lugar nela. Littlefinger não foi capaz de reconhecer a lysena, já que ela estava crescida e mais velha, muito diferente da menina de treze anos do bordel.
– Você é rancorosa.
– Você não? — Moira retorquiu.
– Littlefinger me vendeu para o primeiro louco que apareceu, se você não tivesse me salvado, sabe-se lá qual destino sombrio eu teria.
– Sua gratidão é comovente.
– Você terá minha lealdade para sempre, Tyrion. – Ela o olhou, seriamente.
– Isso é bom, mas sinto lhe dizer que não posso lhe ajudar a ter sua vingança contra Petyr Baelish, ele está bem longe de nós.
– Não, Tyrion... – Ela sorriu para si mesma. – Pelo menos, não para sempre, chegará um dia em que nos veremos de novo, quando nos encontrarmos, eu irei acabar com Petyr, você saberá que a dívida foi paga.
A porta foi aberta em um rompante por um Podrick assustado e esbaforido.
– Senhor Tyrion! Senhor Tyrion!
– O que foi? O Castelo está pegando fogo?
– Não, não, senhor.
– Os dornenses e os homens Tyrell devem estar se matando. – Moira concluiu em deboche.
– Não, dona Moira. – Podrick respirou um pouco. – O seu primo, senhor... Sor Lancel... Está morto.
***
Megara respirou fundo antes de passar pela porta do quarto, deixando os guardas para trás. O lugar parecia estranhamente silencioso. Passou por uma mesa grande onde o príncipe normalmente deveria fazer suas refeições, mas caminhou firme na direção de onde algumas cortinas de seda revelaram a cama. Sentiu seu rosto corar furiosamente ao ver a cena. Ellaria estava sobre Oberyn que tinha o tronco despido, agarrada ao seus lábios luxuriosamente, deitado na cama, também havia outro rapaz que os observava atentamente.
Ela deu dois passos para trás, fazendo menção de sair da sala sem ser notada, mas viu seus planos irem pelos ares ao esbarrar em uma mesa e derrubar um jarro de vinho que chão, fazendo um estrondo horrível. A atenção de todos na cama se voltaram para ela que virou o rosto para o lado, evitando encará-los.
– Senhora Megara. – Ellaria disse animadamente, erguendo-se de cima do amante. – Veio no visitar finalmente.
– Em um péssimo momento. – ela sussurrou, mas para si mesma do que para a dornesa. – Eu volto em outra hora.
– Nada disso, senhora!
Ela levantou-se da cama vindo na direção de Megara, mesmo com as saias finas que usava e com apenas os cabelos longos e negros cobrindo seus seios.
– Você está corada?
– Bobagem, não é? Eu não tenho motivos para isso. – respondeu-lhe sarcasticamente. – Perdoe-me, Ellaria.
A dornesa sorriu.
– Olyver. – Ela chamou o rapaz na cama. – Venha comigo, vamos buscar outra jarra de vinho para servir a Senhora Megara. – Guiou o rapaz pela mão e sorriu a ela. – Nós já voltamos.
Enquanto observava a atraente dornesa se afastar com o rapaz, perguntou-se se ela saberia o que houve entre Megara e Oberyn, se soubesse, se ainda a trataria tão bem. Tentou apagar os pensamentos que teve. Nunca acontecera nada entre ela e o dornês, alguns beijos trocados não a fariam uma meretriz ou sua amante.
– Eu não pensaria em ir embora. – Oberyn acordou-a de seus pensamentos, vindo na direção dela ainda estando com apenas sua calça. – Nós, os dornenses não nos esquecemos de desfeitas.
– Eu sei que não.
– Então. – Ele começou pegando sua mão. – Você me parece agitada, ainda posso ajudá-la com isso... Lembra-se das minhas três propostas?
– Dane-se a suas propostas, pode começar me dizendo se foi você que me mandou isso? – Ela retirou o vidrinho da manga do vestido.
– E pelo que vejo você o usou. – Oberyn sorriu. – Espero que bem usado.
– O que era isso?
– Não parece óbvio? Pelo que vejo, como usou tudo, será uma morte sofrida.
– Longa?
– Não tanto, mas muito sofrida.
– Como você sabia... Como entrou no meu quarto?
– Você se enganou, Megara, as portas do seu quarto nem sempre estão trancadas.
– E você entrou.
– Ainda não aprendi a usar magia e atravessar as paredes. – Ele aproximou-se dela. – Se bem me lembro, você disse algo sobre ter algumas formas de me agradecer.
– Minha divida ainda não foi paga.
– Tem razão, eu a ajudei, sua divida ainda está em vermelho comigo.
– Não falo de você, falo de Cersei.
– Descobriu a verdade. – A víbora parecia satisfeito. – Precisa de outro veneno?
– Não.
– Uma coisa de cada vez, Megara, você esta nervosa ainda.
– Como sabe disso?
– Suas mãos estão tremendo.
Ela olhou as próprias mãos e percebeu que era verdade.
– Eu ficarei bem.
– Claro que ficará. – Ele afastou algumas mechas do cabelo dela. – Eu mesmo cuidarei disso. – depositou um leve beijo nos lábios dela.
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