Our Demise
4 Capítulo 3
Notas iniciais
A busca tinha-se revelado infrutuosa e o grupo acabou por se reunir e regressar ao autocarro.
Não demoraram muito tempo a chegar ao autocarro e também não demorou muito para se perceber que algo estava errado.
Não havia sinal de nenhum dos alunos que haviam ficado para trás, mas a maioria das pessoas no grupo não pareceu notar a falta deles.
– Até que enfim – Naomi suspirou. A morena tinha estado meio quieta até então, mas agora que estavam de volta ao veículo ela parecia sentir-se melhor. – Isto foi uma perda de tempo.
– Também acho – Tori concordou, olhando para baixo e queixando-se de ter sujado os sapatos.
A primeira que falara correu animadamente para a porta, chamando por Pamela e depois espreitando para fora do autocarro:
– Eu não estou a vê-los…
– Será que eles fugiram? – Amber questionou, olhando em volta. Não parecia haver zombies por perto, por isso eles não deviam ter razão para deixarem o autocarro.
– Talvez estejam no andar de cima – disse Annie, aproximando-se da porta também. – Eu vou lá contigo.
A professora meio que se sentiu tentada em ir atrás delas, mas decidiu ficar com o grupo. Os seus alunos pareciam mais calmos, talvez por não haver qualquer perigo por perto, ou por simplesmente ainda estarem todos juntos.
Elsa perguntava-se sobre quanto tempo esta segurança iria durar.
Silêncio voltou a instalar-se enquanto as duas raparigas subiam, mas isso depressa mudou quando gritos começaram a vir de dentro.
– Annie?! – Tori chamou pela amiga, assustada.
Os gritos pararam por momentos e ambas as raparigas saíram disparadas da porta da frente.
Naomi tinha lágrimas a escorrer-lhe pela cara enquanto era rodeada por Peter e Gale. Os rapazes começaram a fazer-lhe perguntas, enquanto Elsa se ocupou de Annie.
– O que houve?
– A P-Pamela… — gaguejou, passando a mão na camisa para limpar o que parecia ser sangue. – A-A Molly… Todos e-eles…
– CUIDADO! — alguém exclamou.
Silver virou a cabeça na direcção da porta, agarrando o cabo do machado de incêndio com mais força quando viu o que saía do autocarro.
Zombies.
E não eram apena zombies, mas aqueles eram os seus colegas. Aqueles que haviam deixado no autocarro.
– Merda – mascou a palavra.
– Eles foram mordidos? – Samantha, que se encontrava a seu lado, olhou-a.
Haviam três, avançando até eles em passos lentos. Os dois primeiros eram obviamente rapazes, embora não fosse possível adivinhar quem eram. Talvez o mais baixo pudesse ser Fred, mas a cara do cadáver parecia ter sido comida, pelo que não dava para entender.
Tropeçando nos dois que vinham na frente, o terceiro zombie era obviamente feminino. E era, muito provavelmente, Sabrina – dado que tinha pele escura e finas tranças no cabelo preto. Faltava-lhe metade de uma perna e uma boa porção do abdómen, mas o zombie insistia em caminhar em frente.
– Parece que sim – desta vez foi uma voz de rapaz que interveio. Ambas olharam para o lado e viram Teddy. Este começou a andar para trás. – Nós devíamos afastar-nos.
– Nós devíamos matá-los – Silver disse, mas talvez o tenha feito de um modo brusco, porque metade dos seus colegas de classe a olharam estranhamente. – Eu só quis dizer… Que não é preferível deixá-los assim.
– Concordo – Crystal disse, e a voz dela foi ouvida mesmo já tendo recuado bastante. – Seria o mais humano a fazer.
A professora foi quem falou a seguir, com a voz um pouco trémula enquanto recuava:
– O-Okay… A-Afastem-se do autocarro, vamos deixar isto para aqueles que têm armas, sim?
Quase que imediatamente, a rapariga de óculos azuis escuros brandiu o machado e cortou fora a cabeça do zombie perneta.
Samantha perfurou a órbita do zombie que ainda tinha uma cara reconhecível, torcendo a faca e removendo-a com um empurrão, deixando o corpo cair no chão.
O terceiro, e aparentemente último, zombie foi morto por Kevin, que o esfaqueou directamente no cérebro.
– Faltam duas pessoas – Silver notou.
– E-Eu… — Annie começou – Eu matei a Pamela, lá em cima… A M-Molly ainda lá está.
– Ela está bem? – perguntou, ainda que não achasse provável.
Annie acenou a cabeça, os caracóis escuros e pintados a caírem-lhe para a cara. Tori estava a seu lado, dando-lhe a mão enquanto a sua outra estava na palma de Naomi.
Silver suspirou e socou o autocarro. Bateu-lhe umas quantas vezes com o fim do machado, até que finalmente o corpo moribundo da sua colega de classe se fez ouvir.
Molly arrastava o passo enquanto caminhava até à porta, levantando os braços numa tentativa fútil de alcançar a humana que se encontrava à sua espera. Quando se aproximou o suficiente, Silver cortou-lhe a cabeça, espirrando sangue para cima de si acidentalmente.
– Devíamos continuar a andar – Amber falou, olhando para a professora.
– É verdade – Silver concordou, suspirando. – Pode não haver zombies nesta zona, mas também não há qualquer abrigo ou mantimentos. Precisamos de voltar à estrada e encontrar um sítio onde nos possamos refugiar, nem que seja por pouco tempo.
– Temos gasolina para continuar? – Kevin inquiriu, recostando-se contra o metal branco do autocarro. Passou a mão pelo cabelo claro, suspirando, e depois reparou que Teddy se chegara à frente.
– Antes de sairmos eu verifiquei – o moreno admitiu. – Não temos um depósito cheio, mas acho que é suficiente para chegarmos a algum lado.
– Onde podemos ir? – Markus perguntou, mordendo o lábio. – É que, eu não sei quanto a vocês, mas o meu sentido de orientação não presta. E termos saído à pressa numa direcção ao calhas não ajuda.
John ajeitou os óculos, levantando a mão:
– Eu acho que sei onde estamos. Eu vi uns quantos sinais na estrada. Falavam em Lake City.
– Então parece que é para lá que vamos – Elsa afirmou, caminhando para o autocarro. – Vamos… Vamos simplesmente sair daqui.
Matthew e Kevin levaram o corpo de Molly lá para fora e depois entraram, sentando-se como todos os outros.
Entretanto, Silver observou as pessoas de novo, do seu lugar nas escadas.
Desta vez toda a gente se tinha decidido a sentar no piso inferior.
Naomi e Patricia encontravam-se num estado deprimente. Estavam sentadas nos primeiros bancos, do lado esquerdo, com caras pálidas, os olhos vermelhos de chorar e sacos de plástico entre as mãos para vomitarem à vontade.
Outras raparigas estavam à sua volta, tentando confortá-las ou simplesmente chorando também.
De resto, o autocarro seguia num silêncio desconfortante. Os seus amigos tinham-se juntado na parte de trás e até eles pareciam abalados, pelo que ou falavam baixo e brevemente ou nem sequer abriam a boca.
Silver fechou a mão em punho e suspirou pesadamente. Tinha ponderado ir ter com eles, mas não percebia onde isso iria ajudar. A rapariga simplesmente não sabia como agir numa situação destas.
A verdade é que, por mais séries que dessem na televisão ou por mais videojogos em cenários apocalípticos que fossem lançados, nada poderia ter preparado as pessoas para isto.
Estar cara a cara com um morto era algo extremamente desconfortante, especialmente se esse cadáver pertencera a um conhecido. Aqueles corpos, meio vivos, meio mortos, emanavam um cheiro nauseante, um cheiro a morte e a podre.
Silver ainda tinha sangue, tanto na roupa como na sua cara. Podia tê-lo limpo, mas por esta altura já secara e se tornara mais escuro.
Água.
Para onde quer que fossem, iriam precisar de água.
Talvez já não houvessem canalizações em funcionamento – ou, com um pouco de sorte, talvez até encontrassem algumas – mas ainda assim haviam rios, ou nascentes, pelo que eles apenas tinham de se manter atentos e procurar bem.
A floresta que se estendia de ambos os lados do autocarro de dois andares era bastante densa e verde. Os pinheiros eram enormes, rodeados de arbustos baixos e meio rectangulares.
Tinha de haver um rio por perto.
– H-Hey, pessoal… — chamou, insegura. Todos a ouviram e viraram as cabeças na sua direcção, o que a fez engolir em seco. – Mantenham-se atentos à floresta. Procurem por sinais de… rios, lagos, qualquer coisa.
– Porquê? – John inquiriu, levantando os óculos com um dedo.
– Não sabemos se há água para onde vamos – explicou. Olhou para baixo e depois murmurou para si: — Nem sabemos sequer para onde vamos.
– Nós vimos um rio, lembras-te? — Teddy relembrou, espreitando a cabeça por detrás do banco.
– Sim — Silver assentiu. — Mas não sabemos até onde vai o leito.
– Pode ser que haja água que nos aguente, nesta cidade — Taylor falou, olhando pela janela em seguida. — Senão... iremos à procura do rio outra vez.
Durante uns momentos houve silêncio, mas depois houve o restolhar de roupas quando umas quantas pessoas se levantaram e andaram para junto de uma janela, e o correr de cortinas para aqueles que as haviam fechado.
Levou um dia e noite de viagem, onde Kevin alternou a condução para deixar a professora descansar, mas a turma finalmente conseguiu chegar a onde pretendia. Quando a professora finalmente falou, ainda havia pessoas a dormir.
– Meninos, acabámos de entrar em Lake City – informou.
Silver levantou-se das escadas, onde se sentara de novo, e saltou o último degrau, aproximando-se da professora.
– Há um hipermercado para aquele lado – apontou para a placa que sinalava “esquerda”, e logo a seguir viu mais duas. Á direita havia um posto de polícia e dali a mais alguns quilómetros haveria um centro comercial.
– Para onde deveríamos ir? – a adulta perguntou, parando o autocarro no meio da estrada. Ela olhou em frente, semicerrando os olhos. – O centro comercial é mais longe, portanto talvez o devêssemos vasculhar mais tarde.
– Sim, concordo – uma voz disse por detrás deles. Pertencia a Kevin, que virou a cabeça para o lado esquerdo. – Talvez o hipermercado seja a nossa melhor hipótese. Pode ter comida.
– Ou pode já ter sido limpo – desta vez foi Amber quem falou.
Teddy fitou a placa da esquerda, também se aproximando da parte da frente do autocarro:
– A polícia parece-me melhor. Deve ter mais segurança e armas.
– Mas do que nos vale estarmos seguros se é para morrermos à fome? – Silver retorquiu, dando um passo atrás e encostando-se contra a porta de vidro e metal do autocarro. – Acho que devíamos procurar comida primeiro, e depois preocuparmo-nos com a segurança.
– E para onde é que regressamos? – Samantha foi quem fez a pergunta, suspirando. – Vamos voltar para este maldito autocarro?
Um certo rapaz de cabelos negros interveio quando a professora ia abrir a boca para falar.
– Não necessariamente – Matthew disse. – Há casas na zona, podíamos conduzir o autocarro até lá e barricar uma delas. Depois voltávamos atrás para recolher mantimentos.
– Mas nesse caso – a rapariga de rabo-de-cavalo ajeitou os óculos – o Teddy tem razão. A polícia seria mais segura para nós ficarmos.
– Se não estiver apinhada com zombies – Markus suspirou, e pareceu pensativo por uns momentos. – E se nos dividíssemos? Metade procurava comida, a outra metade revistava a estação da polícia. Combinamos uma hora para nos encontrarmos de volta no autocarro e se a polícia for segura, passamos lá a noite.
Todos se entreolharam e acabaram por acenar a cabeça ao mesmo tempo.
– E como vamos dividir isto? – a professora perguntou, levantando-se para falar devidamente com os alunos.
– Nem todos nós temos armas – notou Silver. – Portanto os que estão armados não podem ficar todos juntos. Também temos de ter em conta onde será que haverá mais necessidade para armas.
– Acho que isso seria no supermercado – Samantha afirmou. – A polícia deve ter armas lá dentro, pelo que quem entrar pode simplesmente agarrar nelas e defender-se.
O problema era se já não houvesse armas ou comida – mas talvez isso fosse um pensamento demasiado negativo para se ter agora. Pelo que os seus olhos viam, a cidade não parecia movimentada.
Na verdade, era muito estranho o facto de quase não se ver humanos pelas ruas. Assumir-se-ia que todos iriam andar num frenesim a tentar arranjar mantimentos e sítios onde pudessem esconder-se em segurança dos mortos, mas pelo silêncio da cidade notava-se que não deveria haver ninguém vivo por perto.
Talvez houvessem mortos-vivos, mesmo assim.
– Somos dezanove pessoas – Kevin informou. – Apenas seis de nós têm armas. Não acho que seja necessário pormos mais pessoas armadas num grupo, simplesmente dividimos por metade.
– É – a professora concordou e olhou para dois alunos específicos. – Teddy, Sam. Vocês podiam ficar comigo e nós vamos pela direita, para a polícia.
A rapariga de cabelos pretos assentiu, bem como o rapaz moreno a seu lado, e ambos seguraram no cabo da sua arma com mais força.
– Então eu, o Matthew e o Kevin procuramos por comida – Silver disse. – Okay. E quanto aos outros?
– Esperem! – uma voz exclamou, e todos se viraram para ver John caminhar até eles com um ar superior. – Antes que vocês cometam o erro de me pôr num grupo qualquer, eu digo já que quero ficar no grupo que for ao hipermercado.
Ninguém parecia ter paciência o suficiente para o questionar, pelo que simplesmente se voltaram a juntar e fizeram grupos.
Para revistar a estação da polícia iria Teddy, a professora e Samantha. Com eles iriam Gale, Steve, Tyler, Taylor, Tiana, Markus e, embora ainda estivessem inquietas e assustadas, Patricia e Naomi iriam com eles também.
Para procurar mantimentos no hipermercado iria Silver, Kevin e Matthew. Ah, e John. Com os quatro também iriam Annie e Tori –que pareciam ter recuperado, embora Silver não achasse que Annie fosse conseguir matar um zombie tão cedo- Peter, Tisha, Crystal, Amber e, claro, Doug.
Todos desceram do autocarro, e Elsa olhou para o relógio de pulso que ela e John tinham.
– São duas da tarde. Voltem para aqui quando começar a anoitecer – disse. – Por volta das cinco horas da tarde, portanto.
Os alunos acenaram com as cabeças e ela suspirou:
– Mantenham-se a salvo, vocês.
Silver esboçou um pequeno sorriso, virando as costas:
– O mesmo para vocês. Até já.
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