Ostium: Diamond
20 Capítulo 14
Capítulo 14
Bela Paisagem
Dia 10 de junho, um pouco mais tarde.
O meu sono foi o melhor que podia, minha energia estava muito baixa e cai inconsciente em segundos, porém nada pode durar eternamente.
Digo... agora falar isso soa um pouco idiota...
—Acorde.
Numa resposta imediata a ordem da vampira, meus olhos abriram e cada um dos meus músculos teve um espasmo, num instante estava absolutamente ignorante dos meus arredores, no segundo já podia ouvir as folhas das arvores se movendo com o vento, as paredes velhas se quebrando por causa da ventania noturna.
—Bom dia...
Me levantei vagarosamente, tentando não ir tão rápido logo após acordar.
Lavei meu rosto e escovei os dentes, só aquilo devia ajudar a arranjar um equilíbrio entre nenhuma atenção e absoluto alerta.
Depois de coordenar minha respiração, lentamente voltei ao estado padrão.
“Viver em alerta assim deve ser um inferno...”
—Se apresse, não deixe meu alerta torna-se vão porque ficaste encarando o vazio.
—É...
De frente para mim estava um espelho, mas não o meu reflexo, da mesma forma que sobre mim havia uma luz, porém sob meus pés não se via uma sombra.
“Pelo menos parece que isso não é nada difícil de esconder, as presas que sempre tive acabam ajudando, ninguém as considera sinais de verdade do meu vampirismo, eu acho...”
—Foi mal. Vamos logo. Nem é como se tivesse tempo de sobra também.
Destranquei a porta, espiei o corredor para ter certeza que não havia ninguém por perto, mas não ouvi passos, respiração ou o bater de um coração por perto, já era suficiente.
O que não percebi, pois não olhava as minhas costas, era a vampira se aproximando, então se preparando para seguir-me.
Quando levantei minha perna direita, ela o seguiu, assim o fez até saímos da casa.
Seguindo meu andar como se o tivesse feito centenas de vezes, tal qual fosse o mais natural. Sem que nem mesmo eu percebesse.
Do lado de fora, sob a luz da lua cheia.
—Iras a pé? Deixara tua bicicleta jogada como lixo aqui?
Estava já deixando a rua, parei quando isso foi trazido à tona e respondi.
—Bem... pensei que você ia preferir andar em vez de me deixar com todo o trabalho.
—Nunca declarei nada do tipo.
Dei dois passos para trás e me virei, logo pulei na bicicleta, a vampira se sentou na cesta como da última vez.
Então voltei a pedalar até o esconderijo.
—Aliás, se prepare para se esconder na minha sombra quando alguém conhecido aparecer. Não tenho como te apresentar para alguém sem mencionar que é uma vampira.
—Não se preocupe, estou bem mais atenta aos arredores que você. Desvie da pedra.
Um segundo antes de passar por cima de um pedregulho solto da rua, voltei minha atenção a rua e joguei a bicicleta para o lado. Notei a vampira fazendo um sutil esforço para não mudar sua posição.
“Por pouco...”
—Não tire seus olhos da estrada. Esse veículo parece bem instável, como se com um segundo de distração ele fosse colapsar.
—Perdão. Achei que podia olhar nos seus olhos e para frente ao mesmo tempo, mas acho que a perda de foco é bem... notável.
—Bem notado. Cuide de lembrar disso. São esses conhecimentos que podem salvar sua vida daqui para a frente.
Ainda não podia entender aquilo. Não naquele dia, não tão cedo. As importantes dicas estavam passando por mim uma atrás da outra, porém poucas foram as que percebi, essa... foi um caso especial.
Entrei nas florestas sem encontrar ninguém, tomei algumas ruas menos movimentadas intencionalmente, mas esse resultado foi realmente melhor do que esperava.
—Vampira, você gosta de um ambiente como esse?
—Não é de meu agrado. Sinto pouquíssimo cheiro de pessoas por aqui.
—Cheiro de pessoas...? Tem alguém além de nós por perto?
—Não necessariamente. Só estou dizendo que poucas pessoas passam por essa floresta. Com os séculos é possível adivinhar isso por dicas sutis. Nada de teu interesse.
—Mas isso é interessante sim...
O resto da viagem foi como sempre, mas notei dessa vez quantos animais pareciam me seguir, por todo canto ouvia eles, sentia o cheiro deles. Não sabia se estavam realmente me seguindo, ou apenas finalmente notei o quão próximo eles sempre estiveram.
Chegamos no esconderijo, ainda não havia ninguém.
—Vou ficar treinando apenas nessa parte perto da entrada. Você pode ficar mais ao fundo da caverna, não acho que a Roi vai notar minha falta de sombra no meio do treino.
—Hum... está sendo bem gentil, impressionante. Aprecio vossa intenção, humano.
—Agradeço a consideração. Irei tentar não chegar perto do limite, tu também não deves distrair-se e sair sem pensar.
—Hipoteticamente... o que aconteceria se isso acontecesse...?
—Nada que vosmecê deseje. É tudo que precisas entender.
A vampira caminhou em direção ao fundo da caverna com um livro no rosto, o livro era...
—Ei... você está com outro desses? Aliás, história?...
—Sim! O que houve no último século!? Primeira guerra mundial, segunda guerra mundial, como pôde? Por quê?
—Você não lembra disso?...
—Nada disso. A maior guerra que já observei foi a grande guerra. Estás dizendo que houveram outras duas na mesma escala? Ou piores?
—Esper... ah! Ouvi algo! Ela chegou.
Girei todo o meu corpo e olhei para a saída, estava ouvindo uma frequência como de um coração batendo pouco mais rápido que os próprios passos, numa sintonia com o ciclo de respiração que parecia uma orquestra.
“Roi, só pode ser ela”
Então olhei pelo meu ombro, vendo se a vampira já tinha se escondido.
Felizmente, quando olhei para trás ela já havia sumido. Diria que as habilidades de se ocultar de uma mulher que viveu por séculos não podia ser comparada a nada que já vi.
“E nem mesmo a Roi vai notar isso, muito menos enquanto estiver focando no treino”
Peguei as duas espadas de madeira que tínhamos usado desde o primeiro treino, segurei uma em cada mão. Esperei ela emergir da floresta.
—Estava esperando. Vamos, tome sua espada.
—Obrigado.
Joguei a espada bastarda na direção dela, a qual Roi pegou habilmente.
Imediatamente, sem querer conversa besteiras dessa vez, entrei na minha posição de combate.
—Está bem melhor. Vamos.
A Roi lançou seu primeiro ataque, até agora, em treino algum ela começou, até agora, pois naquele dia o seu primeiro golpe foi lançado.
Um que tomei em cheio e cai de costas.
Segurei minha espada e com um impulso dos braços, me levantei outra vez e voltei a luta.
Naquele treino... algo havia mudado.
Os golpes estavam se defletindo sozinhos, meus ataques chegavam muito perto de acertar, sem notar, meus pés faziam danças velozes e pequenas acrobacias e me davam uma minúscula vantagem, havia notado algo diferente durante aquele treino, a Roi também.
—Está bem melhor.
Assim ela repetiu após jogar minha espada para longe das minhas mãos.
Assim ela repetiu após segurar outro dos meus golpes com a própria arma e me jogar para longe, quando minha arma caiu de minhas mãos.
“De novo... mesmo com ambas as mãos, ainda estou deixando minha arma cair. Isso não está certo... como ela faz isso...”
—Roi... se você só segura a espada com uma das mãos, por que não usa a outra também...? O que você está guardando!?
—...
Com o olhar neutro imutável dela, num instante senti uma energia me envolvendo, impulsionei todo o corpo com os braços, me levantando e segurando a espada.
Dessa vez, em apenas uma mão. Eu segurei aquela espada, claro, não era nem um pouco pesada para mim, estava tão firme quanto antes, mas agora a maior parte do meu corpo não precisava focar naquilo.
Continuei treinando, agora usando pés e minha mão livre para o maior efeito possível, como sempre fiz, lembrando de tudo que sabia sobre atacar com as mãos nuas, sobre chutes e socos.
Senti como se o vale que nos dividia na força ofensiva tivesse diminuído um pouco.
Algumas horas se passaram. O treino terminou. Larguei minha arma no chão e sentei no sofá. Tinha ido com muito entusiasmo na última metade do treino e terminei ficando cansado demais.
Enquanto isso a Roi guardava as duas armas com cuidado sobre uma mesa, ao mesmo tempo dizia:
—Demorou para entender. Há.
—Isso de usar uma mão para segurar a espada e deixar o resto do corpo livre era a charada o tempo todo?
—Quase.
—Então o que... deixa, consegui aprender a lição, mas não sei se quero carregar uma espada de verdade comigo. É muito... estranho.
—Não precisa. Seria um desperdício, afinal.
—...? Mas todo o meu treino... arg, eu nem sei que lógica você está usando mais, Roi! Como eu vou responder agora!?
Mesmo tão cansado, me levantei para encarar o perfil dela, apesar de por fora ela parecer não estar sequer afetada pelas horas de treino, os diversos golpes e defesas, agora que eu podia focar melhor, via o quão pesada sua respiração estava, ela não deixar isso aparente por si só era impressionante.
“Talvez...” as possibilidades correram por mim até ela me responder:
—Pois punhos também são armas, para defesa e ataque, assim como uma lâmina.
—Dependendo da situação, qualquer coisa pode virar uma arma. Não é?
Comecei a apertar meus dedos, quando percebi minhas unhas, elas estavam um pouco maiores, também... diferentes, mas tinha visto a pouco, no treino.
Desde aquele momento... algo havia mudado, não estavam só maiores, não pareciam naturais, por assim dizer, sendo especifico.
Não parecia pertencer a um humano.
—Sim...
O olhar dela ficou intenso, repentinamente notei as pálpebras tendo espasmos irregulares, mas sem realmente piscar, tudo enquanto ela olhava para mim... parecia.
—Jack, mais perto.
—...? O que foi ag-
Enquanto me movia, entre um passo e outro, quando havia fechado meus olhos.
Abri meus olhos, mas duas mãos já tinham se pregado no meu pescoço. Havia um peso que, estando exausto como estava, eu não podia segurar, eu cai de costas ao chão.
Os olhos da Roi estavam perto, muito perto, ainda com espasmos, dessa vez mais frequentes, ainda sem piscar. Eles passavam por todo o meu rosto.
Ela tinha posto muita força para me segurar, posto o peso de seu corpo contra meu peito e me lançado ao chão, se realmente quisesse ainda poderia me livrar, mas nem consegui pensar nisso.
—Roi...?
—Seus dentes?
—Ah... sim...
—Por que?
—Eles sempre foram assim, você nunca notou?
Falei, já perdendo um pouco de ar.
Então ela piscou várias vezes e tirou a pressão dos dedos, contou.
—Ah... claro, sempre foi assim.
Então ela afastou as mãos de mim. Lentamente as recolheu de volta, então concluiu qualquer pensamento que ela possa ter tido antes de se afastar.
—Tinha esquecido.
“Ela esqueceu de como minhas presas são? Por isso ela agiu assim...? Ou talvez haja mais algo nisso? Será que a vampira... espera! Tem isso!”
—Perdão.
Depois de ter me atacado assim, foi tudo o que eu ouvi, enquanto me levantava, no entanto:
—Não consigo me incomodar, mesmo que tente. Mas podia pedir um favor a você...
“Nos conhecemos lutando e voltamos a isso, deve ser só como as coisas são...”
—Qual?
—Hipoteticamente, se você tivesse encontrado uma garota de talvez 10 ou 11 anos, com cabelos loiros e pele clara e que também tenha perdido as memorias e esquecido o próprio nome, do que você a chamaria, também incluindo que ela é uma vampira.
—...
“Será que deu pare perceber como estou escondendo algo?”
—Alice?
—Alice...? Espera, esse é o nome que você pensou?
—Sim.
—Pode funcionar, mas ela não parece com a Alice que foi ao país das maravilhas...
—Ela?
“Gah!”
—Roi? Falou algo?! Eu não disse nada! Isso tudo é só uma pergunta hipotética, só uma precaução, simples assim!...
—Hum... então qual a diferença?
—Essa Alice... acho que não consigo explicar com palavras.
—Não pode ser tão diferente.
—Vale tentar. Obrigado, Roi, foi uma boa ideia, ainda mais por nunca ter pensado em dar o nome a alguém e tudo...
—...? Posso ir? Gostaria de sair quando possível.
—Claro. Descanse bastante. Amanhã talvez precisemos fazer uma investigação, uma ajuda sua seria bem-vinda.
Ela se virou, coletou algumas coisas que só tive breves vislumbres e pôs nos bolsos, me respondeu:
—A qualquer momento.
Roi então foi embora, atravessou a entrada da caverna e a perdi de vista logo após.
—Parece que funcionou...
Fechei meus olhos e soltei os músculos, queria me dar pelo menos um minuto para descansar antes de voltar a agir, não tinha mais que vinte minutos até o Ritte chegar e precisar ouvir a longa explicação dele sobre como a investigação deveria proceder.
—Tolo!
Mas várias lâminas atravessaram meu rosto assim que o fiz, passando de um lado ao outro da minha bochecha e deixando gotas de sangue voar.
Ela tentou fazer isso mais algumas vezes, mas lembrando do que vi antes, com um pouco de treino da Roi também, me joguei de um lado ao outro da caverna para escapar, desengoçadamente eu fugia das unhas de uma vampira furiosa.
—Cuidado! Isso não vai curar tão rápido em mim!
Foi o que disse após ser encurralado menos de um minuto de perseguição depois.
—O que pensavas?! Não posso crer aquela humana não ter deduzido minha existência só com aquilo! Foi uma performance ridícula!
—Desculpa! Mas funcionou, então qual o problema?
—...
Foi como se alguma visão tivesse passado pelos olhos dela, olhos que não pareciam mortos, mas deveriam estar, assim imaginava.
—Sim... perdão... o corte não vira a se tratar em pouco tempo...
Notei a mão dela imitando a minha, passando os dedos levemente pela bochecha para sentir o corte, esperando que a dor sumisse logo.
—Ademais, tome cuidado com estes treinos, mesmo quando não estou em teu corpo, nossa dor é partilhada, dificultou bastante minha leitura.
“Então esse corte foi... também nela?”
—Não imaginei. Você não havia percebido mais cedo quando tomou meu sangue?
—De forma alguma. Teu sangue era todo meu foco naquele momento. Nada mais passava por mim, porém isto foi apenas negligência, não se repetira.
Com essas palavras, seguiam a gesticulação como se ela negasse alguma ideia minha, apesar de eu não ter certeza de qual.
—Ainda bem... mais, o que acha desse nome? Posso usar para você?
—O diga, novamente diga o nome qual vosmecê escolheste para mim.
—Alice. Você viveu suficiente para ler o livro que comentei com a Roi, não foi? Se lembro bem ele é bem antigo.
—Certamente. Bela prosa, porém, está forma é apenas temporária. Quando recuperar meus poderes, irei torna-me diferente do que vês agora.
—Sim. Entendi, mas, precisa de um nome agora e não depois. Alice? Você pode aceita-lo?
Dando um passo a frente, eu fui ao coração daquela questão, não era todo dia que eu iria dar um nome a alguém, parecia importante demais, aquele passo foi uma prova para mim mesmo, uma prova de coragem.
—Como desejas, Alice será meu nome enquanto manter a forma de um quase-humano. Devo poder lembrar-me dele, ao menos um único nome pode ser recordado.
Graciosamente, ela aceitou a minha escolha.
—Ainda bem, espero que tenha gostado, não sei se vai combinar, porém estava me incomodando que você não tinha um nome.
—Não venha se preocupar, por favor não, o nome que vós escolhestes será ideal, pois apenas tu deverás o saber, apenas a vosmecê ele terá algum significado.
—Sim... não é como se você fosse o usar para... qualquer outra coisa... bem, me ajude de novo.
Apesar do pedido vago, ela logo entendeu, a vampira, Alice deu alguns passos e com sua força sobrenatural ela empurrou o móvel sucateado para mim, finalmente pude parar um pouco.
Claro, não era minha intenção, mas isso havia me mostrado mais uma vez que a força dela não era normal, nem um pouco.
“Não é tão mais impressionante que antes, mas ainda assim devia tentar lembrar disso. Talvez vá precisar de ajuda...”
Lembrei como fui derrotado uma vez pelo trapaceiro de vários nomes pois estava sozinho.
“Agora imagino que não estarei mais sozinho, mesmo que quisesse, não posso mais o fazer”
Pensando ainda, pacientemente vi o tempo passar até que o Ritte viesse ao esconderijo...
O alarme veio logo, após ouvir um coração ao longe, eu olhei para o longe e lá estava ele.
Consigo, Ritte tinha uma pasta amarela que parecia bem pesada, perto de estourar até, então ele tirou alguns daqueles papeis para mostrar fotos, vou me esforçar para lembrar tudo o que ele falou.
—Parecia óbvio demais, porém, segundo o instituto, tem um monte de criminel activité, achei estranha essa escolha, contudo...
—Espera, atividade de criminosos não podia ser... digamos... só eles fazendo coisas normais de criminosos? Roubar bancos ou algo assim?
O Ritte estava indo rápido demais, precisei frear ele antes que me perdesse naquela lógica
—Possível, mas lembre o que nós sabemos, a capitã controla todo crime organizado por quase o mundo inteiro, pour sûr, todo criminoso de lá está sob o comando direto ou indireto dela.
—Imagino...
—Não só isso, de alguma forma eles tiveram informações de dentro da polícia, parece que a Hikari fez alguma coisa e por isso descobriram... não havia nenhuma atividade ilegal do Ben Verrat por toda a América.
—Hum? O que isso tem a ver com a capitã?
—Achei isso suspeito e continuei atrás, levei isso a atenção do Otsuka e ele disse que se houvesse alguma relação entre os dois vilões, algo quase certo, o resultado disso seria um infâme accord para “dividir território”
—Então... por isso a capitã está fazendo tudo isso agora?
Tanto quanto eu, o Ritte parecia incomodado com isso, ele estava apertando o cachecol com tanta força que pensei se ele não estava se machucando:
—Oui...
—Que coisa, eu ficaria bem irritado se fosse eles, logo depois de derrotar um vilão, outro se aproveitar e ganha poder em cima disso... mal ia conseguir dormir.
—Assim que trouxe a possibilidade à tona, havia três deles lá, a Annie, em especial, parecia bastante irritada.
—Mais que justo... de qualquer forma, como isso nos leva para a costa dos Estados Unidos?
Contive meu incomodo, eu me inclinei para a mesa e encarei aqueles papeis, mesmo sem os entender. E enquanto apontava para vários daqueles documentos, o Ritte explicou:
—Le autre points vieram por causa de evidência de atividades recentes dela, algumas que nós vimos e outras das quais o instituto cuidou de me informar. Contudo, essa costa é provavelmente mais perto da “casa” dessa capitã que os outros pontos.
—Parece tudo lógico para mim. Já acabou a explicação?
—Presque là, Xeque. Tem mais uma coisa, houve uma mensagem que a capitã passou enquanto ainda estávamos no navio, não foi? Ela também de alguma forma cortou toda comunicação pela área do triângulo das bermudas.
—Lembro disso, nem parece que foi a tão pouco tempo, né?
—Sim. E talvez esteja só fazendo um palpite, encore, ao mesmo tempo, sinto que cheguei a onde queria enquanto repensava o caso até agora.
—Estou esperando...
Voltei para encarar ele, isso já não era mais produtos de evidências, aquilo era uma criação de Ambrose Vite, ele sabia disso, então, após lançar a ponta do cachecol para suas costas, ele voltou a falar:
—Para fazer tudo isso, segundo Amélia, seria com certeza necessário bastante aparatos, muito mesmo, quando questionei se seria possível fazer isso através do oceano... “certamente... só um pouco difícil” agora, essa capitã não parece versada em esse tipo de coisa, acha que ela poderia ter usado a rota mais fácil? Feito isso com uma base não tão distante, perto de uma das pontas do triângulo?
—Ritte!... Isso... faz sentido realmente...
“Considerando o que vi... é, com certeza ela teria se aproveitado de uma base perto da costa para ter feito aquele truque. Difícil acreditar como alguém com uma força de personalidade e instintos afiados poderia ainda ser uma especialista em computadores e... coisas, deve ser por lá o esconderijo”
—Jak, ainda lembre que é possível ela ter outra base, faz um tempo desde que Ben Verrat deixou a cena. Ela poderia ter mais de uma base e a usado, talvez a base por onde veio a interferência e onde o navio está sejam distintas. Talvez...
—Nem... não consigo acreditar que ela pensaria tão a frente. Talvez se ela tiver alguma humildade e aceitar que outra pessoa fizesse os planos para ela, alguém melhor do que você... entretanto, esse não deve ser o caso. Se a entendi bem, a capitã jamais faria isso.
—...?
—Não que eu tenha muita base para isso, eu também não vi nada quando a encontrei em Paris. Nós lutamos e minha fuga foi exatamente como lhe contei. É só que... mesmo se houvesse, não importaria. Pensei isso dela desde o primeiro momento que meus olhos se fincaram na silhueta sombria da capitã. Ainda no navio quando os corsários atacaram.
—Irei pôr tanta confiança nesse instinto quanto você então!... Agora... tem um problema para você em investigar esse local, fora possível encontro com corsários e tudo... a área onde ela poderia se esconder é... três grand.
—Estava fácil demais em...
Como dito pelo Ritte, teria de explorar muito chão, por isso tínhamos de escolher um local para ir por vez, pelas estimativas dele, caso apenas um de nós investigasse, também se tivermos escolhido o ponto errado e precisarmos olhar todo o território para confirmar. Teríamos terminado a busca um dia antes do fim desse mês, quase uma sentença de morte para nós, eu diria.
Ele levou os papeis consigo quando saiu, me deixando quase sozinho naquela caverna.
Quase, apenas isso.
—Estas numa saia justa, não é, servo?
—Parecido com isso, porém foi minha culpa... agora todos nós estamos nisso, farei o que posso para nos tirar dessa.
—Tu não se moves pela justiça? Em nome de derrotar os vilões?
Em um momento ela estava em um canto do esconderijo, inspecionando os aparatos da Une, em outro a via próxima a saída, observando a lua, ainda assim... eu sempre a seguia, nunca a perdi de vista...
—Sem querer ofender... só que não esperava uma conversa assim de uma vampira. A moralidade e ética humana ainda é de seu interesse?
—Enquanto ligar-me a um humano...
“Talvez essa ligação tenha sido além de corpo e... almas? Talvez como os instintos dela me afetem... os meus podem fazer o mesmo?”
—Mas não. Só quero ajudar os meus amigos a se livrarem dos corsários, porque eles vão acabar vindo atrás de nós eventualmente, o susto ao derrotar aqueles loucos não vai durar para sempre...
—Está se aproveitando daqueles em busca de justiça para realizar seus próprios fins? É assim que vosmecê colocaria?
—...não. Afinal, aprecio as intenções deles, irei ajudar qualquer um que aja em nome da justiça, apenas me falta vocação para a fazer por mim mesmo.
—Com os poderes que posso dar-lhe... não haverá nada impossível à ti...
Alice subiu no sofá, atravessou o braço em volta do meu pescoço e falou aquilo, era como quando a ouvia em minha mente as vezes, assim que ela virava minha sombra.
—Não é sobre poder apenas. Claro, sem poder, mesmo ter boas intenções não é nada, porém além do desejo de fazer o bem e o poder, há mais um requisito... convicção. É por isso que perdi contra a capitã, até contra aquele trapaceiro. Minha convicção no que fazia não foi suficiente, não superou a deles... e convicção, diferente desses poderes os quais você quer me prover, eles não são vendidos em loja alguma.
—Tu és realmente... um exemplo da tua raça...
—Vindo de uma vampira, o que isso significaria?
—...
Alice silenciosamente se fundiu a mim, tornando-se minha sombra mais uma vez.
“Está tarde, servo, volte a tua residência e descanse, o teu tempo é curto, o que carregas em vosso pulso é a prova disso”
Claro, a vampira se referiu ao meu relógio prateado. Ele marcava pouco antes das 11 da noite.
—Para quem viveu mais de cinco séculos... a forma como os vivos veem o tempo já deve ser alienígena para você...
Falei isso em voz alta, porém sem esperar uma resposta.
Com a bicicleta eu atravessei a floresta e antes que percebesse...
Dia 11 de junho.
Logo depois das aulas terminarem, eu pedi ajuda a Roi e a Une, informei por onde seriam as buscas e fizemos uma rota para aquele dia.
As duas foram como uma dupla, eu cuidei de ir “sozinho” para minha parte. A Franziska disse que seria mais útil que ela investigasse com papéis em vez de ir lá, porém disse para telefonarmos caso precisássemos de ajuda.
O Ritte parecia cansado, com olheiras e tudo, por isso pedi que ele só viesse comigo em outro dia, pelo dia 11 o deixei ajudando a Franziska.
Agora, chegamos na minha parte...
Foi uma caminhada mais longa que o habitual até o ostium, pelo relógio, foi meia-hora. Porém ao chegar na primeira parada, Miami...
—Odeio essa troca de fuso horário...
Ainda está no fim da manhã por lá, o que me ajudava, tinha muitas pessoas que haviam ido trabalhar, claro, não passaria uma rua sem ver meia-dúzia de pessoas, diferente da minha cidade natal, o sol parecia estranhamente forte também, o que me irritou.
“Tu podias caçar a noite, não? Serias mais efetivo”
—Sim, mas perderia muito tempo, acho que os corsários iriam ter uma vantagem também, não sabe como criminosos ficam mais ousados quando anoitece?
“Pensas com clareza...”
—De qualquer forma, por favor, fique atenta aos arredores por mim, minha visão fica um pouco ruim de dia também. Cubra meu ponto fraco.
“O quanto estou atenta aos meus arredores é bastante limitado enquanto estou nessa forma, se saísse sequer por um segundo, no momento, viraria pó, portanto não dependa do meu suporte”
—Realmente...
Tinha dezenas de mapas comigo, todos eles com algumas marcações que o Ritte e a Queen disseram ser “uteis” ainda iria os estudar melhor, porém pelo momento me contentei em pegar o das proximidades que estava, enfim...
—Hora de explorar...
Passaram 5 horas. Por cada uma delas caminhei seguindo qualquer instinto meu que apontasse para cantos suspeitos, galpões fechados, prédios aparentemente abandonados.
Fiz ligações para a outra dupla, da Roi e Une, para o Ritte e a Queen, os ainda no quartel general, invadi casas e questionei locais, tudo em vão.
Havia parado dentro de um shopping, o sol havia começado a ficar demais para mim, por isso me escondi lá por um tempo.
“Lembres que a fraqueza ao sol é apenas minha, servo, tu não tens não és mais sensível que os humanos os quais lhe cercam”
—Desde criança ele foi meu inimigo... não é bem como o seu vampirismo... só parece que minha pele queima demais, eu devia ter pego um protetor solar...
Isso havia sido um erro, porém parar a busca por mais tempo seria outro erro. Pensando nisso:
Me levantei e comecei a refazer meu caminho, de volta a saída.
Contudo...
Uma livraria me chamou atenção, não sabia por que, livros estrangeiros nunca foram um apelo especial para mim, aquela arquitetura com vários tons me lembrando algum plástico não fazia meu estilo também, ainda assim...
Havia parado em frente a porta, quase entrando, porém, hesitando, ou melhor, hesitando em hesitar, já que sequer havia motivo para ir, ou para não ir.
Meu palpite foi estranho, nunca fui do tipo que podia ler uma situação estranha e fazer sentido dela, o que via era tudo, suposições não entravam nisso, ainda assim, quando pensei por um segundo a resposta me saltou:
—Alice... você quer entrar aqui...? Parece não haver luz solar direta, essas lâmpadas e fontes artificiais não devem afetar um vampiro, imagino.
“Creio que esteja certo... não importa, volte a sua busca! Agora!”
Minha perna se jogou para o lado, aquele comando foi como uma ordem absoluta, não houve chance de questionar.
—Calma...! Nós podemos olhar isso um pouco, só não demorar muito...!
“Ah... já vi como você escolheu isso seria ademais trabalho lhe convencer, certo... faça como quiser. Ir ou não é tua escolha, afinal”
—Você quem manda, vou passear até você achar algo de seu interesse, só não posso demorar tanto. Ok?
“Vosmecê és quem pode tomar tais decisões”
Me adentrei pela livraria, confirmei se realmente não havia nenhuma fonte de luz natural por perto, por sorte, esse era o caso, então relaxei e comecei a andar, prateleira por prateleira.
—Ficção cientifica, acho que você nem chegou a ver esse gênero.
“Não fales como se soubesse mais, pois saiba que eu vi as primeiras histórias a serem chamadas assim, porém não houve tanto tempo restante para as assistir evoluir...”
Na próxima prateleira.
—Romances ainda tem graça para você? Digo... vampiros podem...?
“...”
Eu não posso dizer exatamente que me arrependo da pergunta feita, mas se soubesse que essa seria a reação... certamente faria diferente, isso é claro demais até.
—Hum... terror deve ser realmente sem graça, você chegou a ler histórias de vampiro?
“Claro, fiquei abismada com algumas maneiras das quais os vivos interpretaram vossos poderes, é caótico, quase nenhum autor nos faz da mesma maneira”
—Mistérios, o que você acha desses?
“ ”
—Hum...?
“Como...?”
Havia suspeitado de algo, olhei para baixo e confirmei, minha sombra havia sumido novamente, quando olhei para frente.
Tinha uma garota com pouco mais de metade da minha altura passando os olhos por vários livros, Alice, a vampira, saiu da minha sombra sem que percebesse e já estava folheando algo.
—Ei... isso não foi um pouco arriscado? Alguém pode ter visto...
Nem precisei olhar ao redor para ter certeza que no momento ninguém nos observava. Só não tinha certeza de como isso estaria alguns segundos atrás...
—Confie em mim, vivi me escondendo por séculos. Não seria vista a menos que desejasse, vosmecê sabes disso, sequer duvidar é uma demonstração da tua estupidez.
“Não consigo ficar com raiva, mesmo com esse tom de voz, ainda me sinto como se observasse uma criança normal...”
A acompanhei de perto enquanto ela via os livros, afirmei que poderia levar quantos quisesse, minha carteira estava cheia e ouvi que livros estavam cada vez mais baratos nos últimos anos.
—Tu devias ter mais livros, li todos aqueles durante a noite, cheguei a passar pelas questões deles também, espero não ter sido um problema.
—Não... sem problema... eu posso resolver isso com... borrachas, ou... algo assim.
“Isso é tão injusto, mas não consigo deixar de estar agradecido pela ajuda”
A vampira pulou de prateleira em prateleira, lentamente empilhando livros de mistério com capas negras em uma mão, pedi que ela deixasse o maior peso comigo por consideração, contudo só deixou alguns comigo, ela se referiu a eles como “menos interessantes” se lembro bem.
—Você lia tanto assim antes...?
—Se com tempo tão limitado, os vivos ainda buscam formas de ocupar todas as horas de seus dias, imagine quando tua vida pudesse ser estendida indefinidamente.
—É... sim...
—Pois nesses mundos escapamos da nossa não-vida, vendo esses focos de emoção, lembramos do que nos movia quando vivos e me deixava enganar, fingia ainda ter humanidade. Houve vezes as quais quase morri por não consumir sangue suficiente, apenas lendo pilhas desses livros através de noites e dias...
—Você queria voltar a... ser uma humana...?
Até o momento a vampira continuava pondo o que lhe interessava sobre a pilha na sua mão esquerda, de costas para mim, porém, assim que perguntei, ela pôs o rosto sobre o ombro e se virou para me encarar:
—Se houvesse chance, certamente aceitaria. A eternidade que ganhei veio a um preço muito caro, a maior infelicidade é teu caso, ainda assim.
—Meu...?
—Não há como um vivo torna-se um semi-morto, semi-vivo contra a própria vontade. Assim pensei... a maioria dos que conheci desejavam a juventude eterna ou o poder, entretanto isso os fez perderem aqueles aspectos os quais já possuíam e recusavam-se a dar valor. Podemos ter ganho algo cobiçado, apenas para perder o que negligenciávamos.
—...
—Vosmecê teve o infortúnio de ser tornar uma espécie de não-vivo sem escolha, tu nunca cobiçaste os poderes da escuridão, ainda assim eles vieram a ti. Não me surpreende vosso desejo de recuperar toda a vitalidade a quão lhe foi roubada.
—Obrigado... acho, pode continuar procurando esses livros.
Ela jogou mais um na pilha e virou todo o corpo a mim, segurando tudo como uma bandeja, porém a forma já era quase de uma torre negra a qual passava da altura da vampira.
Nas minhas mãos já conseguia pôr meu queixo sobre os livros.
“Espero que não tenha uma regra contra isso”
Nós dois carregamos aquela pilha para o outro lado da loja e jogamos as duas sobre o caixa, ele parecia um pouco espantado até, ficou alternando olhares entre nós dois, acabei me incomodando um pouco.
—Quanto vai ser?
—Aqui...
No passado teria entrado em desespero ao ver o número, porém apenas no passado.
Abri minha carteira e paguei com várias notas altas, o atendente já parecia está questionando o que via, mas continuou o processo quase como se fosse parte do instinto dele.
—Gostariam de ajuda para levar isso tudo?...
—Espera... Alice, como vou continuar a investigação com tantos livros no braço?! Isso vai chamar muita atenção!
—Oh... perdão, não havia considerado tuas necessidades...
Ela havia posto os dedos a frente da boca, um gesto meio esquisito que ignorei, devia ser normal a... alguns séculos.
—Vocês podem guardar esses livros aqui? Então levamos mais tarde?
—Certo... podem demorar o quanto quiserem...
Para não pesar tanto minha consciência, ainda carreguei alguns livros comigo, numa sacola de papel, esses foram de “prioridade” para a Alice.
Antes de sair, tivemos que correr um pouco pela loja até acharmos uma chance de restaurar minha sombra, enfim, a nossa visita acabou.
—Depois que terminar de investigar irei voltar para levar os livros para casa, ok? Pode me lembrar disso por favor?
“Claro, pareces ter gasto muito para os comprar...”
—Bem, eu não me importo, ter muito dinheiro não é tão bom quanto parece, depois de certo ponto são só números que nunca se movem.
“Hum... entendo isso”
Não havia entendido o que a vampira havia me contado com isso, não naquele dia.
Então, com livros pendurados em meu braço e uma sombra que não era minha nos pés, voltei a investigar onde deveria haver o esconderijo dos corsários.
Aquele era o plano, porém não o que aconteceu, os dois são bem diferentes.
Enquanto saia da loja, resolvi fazer uma ligação a Une, já estávamos a horas procurando, imaginei se as duas não haviam conseguido algo:
—Alô?
—Jack?
—Roi... acho que liguei para o telefone errado...
Aquela voz não era da Une, mas na verdade eu havia demorado para entender que era da Roi.
—Não. A Une está ocupada.
—Com...?
—Um momento.
Abafado, ouvi os sons e vozes até o telefone ser passado para a Une.
—Rápido! O que foi?!
—No que se meteram? Se for uma pista eu podia ir atrás...
—É que... entramos numa estação de metrô abandonada, estou cooperando com a... err... Firewall para nós termos controle de alguns trens.
—Por que exatamente...?
—Você não entenderia! Isso são relíquias! Eu não posso perder essa chance, preciso voltar ao trabalho agora mesmo!...
Do outro lado, o som de estalos elétricos e metal rangendo havia se tornado notável.
—Bem... só não demore muito, lembre também de...
E antes de terminar minha frase, enquanto caminhava por entre as lojas, no meio de uma multidão.
Uma sombra que não lembrava.
Uma sombra que se escondia nos cantos da minha alma, uma que já havia visto mais vezes do que desejava, a silhueta de uma mulher vestida num sobretudo vermelho e chapéu.
—Hum...? Alice, você viu algo?
“Aquela silhueta está em tuas memorias, não pareces nutrir bons sentimentos a ela...”
—Jack? Com quem você falou?
Ainda estava na linha, mas não por tanto mais tempo.
—Encontrei a capitã, vou segui-la. Ligo mais tarde.
Fechei o telefone e o guardei, tive um vislumbre da minha própria sombra, a qual me respondeu num sussurro apenas audível a mim.
“Vá atrás dela. Irei ajudar”
Acelerei o passo, a capitã se movia rápido demais, quando desviava o olho sentia que a perderia de vista, porém estava com o foco, o maior o qual já consegui.
Passamos por multidões, várias delas, saímos ao ar livre e a segui pelas ruas, até muito longe de onde deveria estar, foi quase 1 hora andando sem descanso, minhas pernas doíam um pouco e mentalmente estava exausto, mas a missão... foi um sucesso.
Quando aquela mulher entrou numa lanchonete no meio do nada, uma sem nada ao redor, uma que sequer parecia suspeita, na verdade, parecia tão inocente a ponto de ser suspeito.
Espionar do lado de fora não ia funcionar, entrar e ser visto também não.
—Só tem um jeito de entrar sem ser percebido...
Por sorte, naquele dia eu havia trazido um par de óculos especiais.
Um par que quando colocado simulava um nariz, bigode e sobrancelhas.
“Servo, o que pensas que estás fazendo?”
—Confie em mim, isso nunca falhou.
Também nunca o havia tentado.
Fiz a minha entrada sem mais hesitar, olhei para cada lado, na direita...
Nada.
Pela esquerda... o meu maior pesadelo.
Mesmo através do par de óculos, podia-se perceber o que havia sentido. Não apenas a capitã, mas também o trapaceiro estava lá, com um outro terno negro de quem havia saído de um funeral e as olheiras ainda piores do que da última vez.
Ainda assim, pude continuar meu movimento, sentei numa cadeira ao lado deles, talvez fosse uma má ideia estar em plena vista, contudo se precisasse fugir, assim seria mais fácil.
—Meu... a quanto tempo você não dorme?...
A capitã disse aquilo, num tom totalmente diferente dos que já havia a visto dizer, o rosto dela havia sumido da minha mente, porém a voz continuava intacta.
—Preciso lhe corrigir na suposição de que não durmo. Esse não é o caso... é apenas porque aqueles remédios estão fazendo menos efeito... não consigo dormir por mais de duas horas ultimamente...
“Isso nem tu poderias cometer, não me admira ele está tão perto da morte.
—Ei, Alice... você pode sair agora?
Sussurrei levemente, escondendo meus lábios.
“Há muitas aberturas para o sol, poderia virar pó caso fizesse o menor dos deslizes”
—Imagino...
Enquanto ouvia a conversa deles, fingia ler aquele cardápio, por mais de que daquele ângulo a luz não o deixasse legível.
—De qualquer maneira, precisamos discutir sobre negócios. Meus planos estão pertos de serem cumpridos. A sua ideia foi boa, eles acham que tem até o fim do mês para agir, mas...
—Claro, isso é uma farsa, quem seria estupido assim? Não posso acreditar como eles derrotaram o... Verrat.
Já havia pego um pouco da ideia, mas aquilo não pararia de piorar...
—O Ben nunca teve jeito para lidar com crianças, deve ter hesitado em algum momento, não posso acreditar que ele estava sério. Hahaha...
—Ainda assim, onde ele está agora?
—Se afogando no poço do próprio desespero como se tivesse perdido tudo que tinha... ridículo! Deveria ir até lá e o executar...!
Não precisava da minha visão para perceber que num impulso, a capitã havia passado perto de quebrar aquela mesa em duas ao descer seu punho sobre ela.
—Não perca a paciência, tudo vira em seu tempo, como você decidiu agir exatamente, no fim?
—Disse que poderia os perdoa e libertar os prisioneiros se dessem pelo menos 2 membros do instituto, caso recusem, tentarem os resgatar, fiz a melhor armadilha que pude para os matar quando tentarem, caso realmente aceitem... apenas matarei os dois! E os prisioneiros! Hahaha...
“Nem mesmo dentre os meus haveria alguém tão cruel, ao menos não dessa forma...”
—Fez um plano especialmente diabólico... como é do seu estilo.
—Está tentando implicar algo? Tome cuidado com o que fala, nunca estou em lugar algum sem minha sourukatta.
—Não tenho dúvidas, assim como sei como o que falo aqui não mudara minha chance ou não de viver, na verdade, diria que me matar agora seria pior para você, caso o tivesse feito quando chegou aqui, trair alguém dessa maneira seria absolutamente maligno, agora... nem tanto.
—Está me testando...?!
—Não. Ainda mais pois não acredito em nada como sorte, nem que cometer atos malignos aumente o seu suposto poder, claro, me falta a boa intenção de lhe impedir. Desde que não seja eu, mate quem quiser.
—Pois assim será...
Vi então, na mesa minha atenção foi imediatamente atraída para as mãos dela, dessa vez sem luvas.
Ela estava com um ritmo infrequente, as unhas dela eram grandes e pareciam com a ponta de uma lâmina, ao mesmo tempo eram pintadas de cores diferentes, com padrões e até alguns desenhos os quais não tive tempo para discernir.
Pelos próximos segundos apenas o ritmo frenético e não-ritmado deles contra a mesa, o pequeno barulho feito pela madeira era tudo o que ouvia.
Até...
—Senhores, o que voc...
O som, aquela batida frenética na mesa parou. O homem parou sua sentença no meio e nunca mais pronunciou outra palavra.
Sem hesitação, sem piedade e sem motivo, o ar se partiu, a capitã havia se levantado enquanto pisquei, no próximo momento ela puxou sua espada brilhante, sourukatta.
Quando ela encostou no cabo da lâmina, gotas de sangue caíram no chão, um pouco se espalhou pela mesa onde ela sentava, um pouco chegou a pousar no meu rosto.
Assim que a vi com a lâmina em punho. Ela já estava em pé, de frente ao corpo do que a instantes era um homem vivo e saudável.
Nem pude ver quando ele caiu, talvez nem mesmo ele tenha percebido quando morreu, ou por que aquele destino recaiu sobre ele, afinal, o único sinal daquilo foi a abrupta interrupção daquelas batidas sobre a mesa.
—Oras, você realmente precisa de algum outro passatempo, quando qualquer coisa sai dos seus planos, algo assim acontece. Não é uma atitude saudável, sabia?
O homem na mesa, o trapaceiro sequer mudou sua expressão, havia sangue sobre a mesa que ele repousava os braços, porém ele nem pensou em levantar, sua conversa continuou tal qual já tivesse visto aquilo se repetir centenas de vezes.
—É sua culpa. Hahaha... talvez devesse o pôr na prisão por isso, nem pensou em impedir, isso é...
—Não tente blefar. A pessoa mais familiarizada com a constituição desse país sou eu. Irei apenas ficar aqui catatônico enquanto espero a polícia, apesar de que... talvez pudesse aproveitar e ver o que ele guardava nos bolsos, poderia ver para mim?
A cada palavra dele, um pouco da minha visão se obscurecia, via apenas como meus dedos tencionavam, eles se dobraram até formarem garras, ouvi novamente, o som de carne cortada com meu dente perfurando um dos lábios.
Ele pode não ter o matado, mas se houvesse alguém que tivesse de culpar, alguém para sofrer a maior punição...
—Sangue é pago com sangue... vocês...
Aquilo saiu levemente, um mantra para mim mesmo, antes de definir o que fazer.
—Hum, parece que houve uma testemunha..., entretanto ele não deve ser um problema para você. Se matar outro a atenção desnecessária que você chamou só vai aumentar exponencialmente.
—Já sei disso, podemos nos encontrar mais tarde.
A capitã me olhou, porém naquele instante, quando sua atenção se voltou apenas a mim.
O disfarce caiu.
—Isso muda um pouco a situação, ele é um inimigo seu, não? Nesse caso talvez haja motivos para não o deixar ir...
—Você... como me achou?! Quer morrer!?
Apesar de meus olhos e minhas presas estarem tentando alcançar o trapaceiro, havia um obstáculo imbatível entre nós.
E sem poder sequer dar um passo, a lâmina já estava vindo em minha direção.
—...!
Mas, como um milagre, o golpe foi interceptado.
Quando lancei a mesa entre nós e recuei, apesar da espada ter atravessado a madeira, aqueles centímetros a menos foram o que me salvaram, com a ponta tão perto, eu até sentia o quão quente era a lâmina. Parecia haver um pedaço do sol em seu fio.
“Você não pode vencer! Aproveite a chance!”
Apesar de ter prendido a lâmina entre madeira, ela não tentou a retirar, mas sim pressionar com mais força, querendo ainda conectar aquele golpe, não entendia como isso poderia ser efetivo, a espada parecia vir até mim lentamente, mas nem queria arriscar.
Conectando os pés a superfície, pude me aproveitar também da força que ela estava fazendo para o golpe, queria apenas cair perto da vitrine, mas parece ter ocorrido algum erro...
Pois em vez disso, voei por alguns instantes, ouvi o vidro quebrar enquanto estilhaços se prendiam e rasgavam partes do meu corpo. Cai do lado de fora da loja, sobre dezenas de fragmentos do que era a vitrine.
—Sem chance...
Apesar de não querer admitir, naquele dia e na situação a qual me encontrei, se havia chance de sair vivo, seria fugindo.
Como havia me acostumado a cair por causa de cortes de espada com o treino da Roi, me encontrei em pé num instante, então corri na direção para qual cambaleei primeiro e não pensei em olhar para trás.
“Direita! Vá pela esquerda! Entre ali! Mais rápido! MAIS RÁPIDO AINDA!”
As ordens eram diretas, simples e as podia seguir sem pensar, aquelas ordens pareciam mais fortes do que minhas próprias decisões, difícil seria acreditar de que poderia correr tão rápido normalmente.
Mas a perseguidora era como um predador em busca de presa, não foi tão fácil.
Enquanto corria, eu estava prestes a passar direto por um beco, não tinha motivo para prestar atenção a ele, aquilo era só um caminho que não usaria, precisava fugir e fugir, não olhar para nenhum lado.
Contudo... quando me vi em frente ao beco... o tempo havia parado.
—...?
Não pensava em falar, sabia que não poderia, meu corpo havia se congelado em meio à corrida, porém todos os meus sentidos, eles estavam lá, todos eles gritavam sobre o perigo.
E quando meus olhos foram ao beco, assim vi uma sombra que surgia dele, portando uma espada brilhante, já em meio a um golpe que poderia me matar.
Foi quando o tempo voltou a correr.
Chutei o chão, eu tinha certeza que naquele trajeto só a morte esperava, com tudo em mim, chutei o chão e me lancei para longe.
—...!
Um arranhão.
Pensei ter saído ileso, mas assim que olhei, haviam gotas de sangues escorrendo pelo meu braço. Havia escapado por muito, muito pouco. E agora, quem havia me perseguido até ali, responsável pelo sangue escorrendo do meu braço, gotejando pelo chão...
Ela estava em minha frente, saindo das sombras, ainda empunhando a espada que... sequer tinha sangue por seu fio.
—Como, como você fez isso...?
Devia estar a frente dela, eu estava sendo perseguido até agora, então como ela havia aparecido bem ali? Olhava ao redor, tentando achar uma resposta, com passos para trás advindos do instinto, eu mal podia conversar.
—...?
Não houve uma resposta, a capitã encarou sua arma, ela mesma parecia impressionada com o corte que havia feito.
—Continue em silêncio. Morra. Hahaha...
Essa havia sido a resposta. Mais uma vez, só havia uma escolha, a de correr.
Pensei em fugir, pensava apenas em fugir. E ainda assim... o que veio foi morte.
Com uma investida em minha direção, pondo a espada a frente, sua lâmina cortando a distância até mim antes de dar meu primeiro passo, conectando a ponta com meu peito, o fio atravessando pelo meu coração...
“...”
Minha força esvaindo, o sangue perdido, um corpo sem alma, uma marionete com as cordas cortadas...
Quando a espada veio em minha direção, pensei que esse seria o meu destino, no entanto...
—...!?
Até mesmo a vilã parecia surpreendida com o resultado.
Porque... a espada havia passado direto por mim, de alguma forma, passado pelo lado e atravessado sob o meu braço...
Ainda assim, uma dor, do outro lado do meu peito parecia que algo queimava...
O rosto da vilã em minha frente havia mudado, uma expressão intensa, uma a qual ainda assim não conseguia ler. Além disso... um pequeno buraco no seu ombro... uma cor diferente do vermelho, na verdade, o tom quase igual, porém unicamente distintos entre si...
Foi quando entendi, quando senti aquele cheiro único, um que era instantaneamente reconhecível para mim. O cheiro de sangue.
A dor era minha, então...
—Por que...?
Minha mente finalmente entendeu, quando então o som finalmente chegou aos meus ouvidos. Junto do cheiro de pólvora...
Um disparo, quando percebi que uma bala havia atravessado meu corpo daquela forma... eu...
A verdade era, eu havia desistido.
Deixei a força que me segurava esvair e cai ao chão.
Porém, mesmo sem mim, havia uma história a ser contada, assim quando a capitã foi em frente, além do meu corpo estatelado ao chão, em direção a dois homens que logo, logo reconheci...:
—Corsários...
Eles já pareciam prestes a comemorar sua missão ter sido cumprida, eles haviam me encontrado por sorte e usado essa oportunidade para me matar, era simples assim...
A arma arcaica apontada aonde eu estava, toda aquela fumaça ao redor deles, eu nunca deixaria de reconhecer aquilo. O sorriso que havia se formado neles quando viram meu rosto...
Ele sumiria no mesmo instante que encontrassem a outra pessoa naquela cena.
Não demorou um segundo para aquele corsário que havia disparado jogar sua arma ao chão e tentar se aproximar:
—...! Mil perdões! Nós precisamos fechar o sangramento! Por favor, capitã...
—Silêncio.
Foi a mesma coisa que vi quando ela matou outro corsário, o que havia desrespeitado sua regra, subido até o ultimo andar para a ajudar... sem mais do que uma palavra, ele havia congelado...
—Isso não é nada. Você acha que isso é o suficiente para me matar? Está dizendo que alguém do seu tipo poderia me derrotar?
—...
Não pude mais ver sua expressão, ele havia percebido um dos erros que havia cometido, imediatamente então, o corsário pôs um joelho no chão e abaixou seu rosto.
O outro havia feito o mesmo um instante atrás, ele não havia errado, até...
—Perdoe meu colega, ele estava agindo assim por lealdade, nós eliminamos o al...
—Você não tem minha permissão para falar. Silêncio.
Aquele foi o primeiro erro dele. O de tentar falar cedo demais.
E agora, estando a frente de seus subalternos, enquanto observava o fio de sua pesada, ela disse exatamente todos os erros deles até o momento:
—Aquele não era um alvo qualquer. Era a minha presa. Eu iria mata-lo agora mesmo. Seu sangue deveria estar em minha lâmina, porém...
—...
Eles não pronunciaram uma palavra sequer, como estatuas, eles esperavam.
—As suas ações levaram a isso, o que podem dizer agora?
—...
Aquele corsário, o mesmo que a pouco havia me matado, ele sabia como o próximo erro dele significaria sua morte. Eu chutaria... mesmo se ele quisesse, não conseguiria dizer sequer uma palavra.
—Nós não a vimos. Ouvimos o quão elusivo o garoto podia ser, agimos de imediato para não perder a chance de o matar.
Ele não fez mais uma palavra do que era preciso, tudo dito por ele foi pensado previamente, qualquer adição poderia destruir o fruto de seus esforços.
—Perfeito. Nenhum de vocês precisa morrer. Hahaha...
Depois disso, ela logo iria vir até o meu corpo e dar o golpe final, imaginando que eu só estaria a alguns momentos de morrer, não posso dizer ter sido um mal-julgamento dela, eu havia a pouco pensado a mesma coisa... contudo...
Enquanto olhava para o céu, me via prestes a ser puxado para fora do meu corpo... foi quando uma voz disse a mim.
“Você não vai morrer. Você não vai morrer...”
E a verdade finalmente veio. Sorte? Que sorte faria os corsários aparecerem num momento como aquele? Quando eu já estava prestes a ser executado. Isso não era a sorte deles. Só havia uma pessoa a qual essa sorte pertencia:
—Sou eu...!
Percebendo a oportunidade que eu ganhei, a distração perfeita que impediu a vilã de acabar de vez comigo, eu usei qualquer força, mesmo se não fossem minhas, as usaria para continuar, assim...
Eu me arrastei, cambeleei para longe, através daquele beco. Corri, corri e corri, mas ainda podia ouvir...
—Vocês deixaram ele fugir!
—Gaahhhhhhhh!...
Pois eu havia usado aquela oportunidade, a pessoa a receber a ira da capitã não havia sido eu... ele teve de morrer, era a única maneira para que eu vivesse.
A verdade era, o primeiro erro daqueles corsários, esse já havia sido feito a muito tempo... eles haviam aceitado serem subalternos de alguém que... que... um dia, foi o maior vilão do mundo, um epitomo de maldade e poder, uma força imparável...
Com isso, minhas memorias ficam um pouco borradas, por muito mais tempo, eu corri e corri sem conseguir realmente pensar.
Quando minhas memorias voltam, estava jogado contra a parede em um beco do outro lado da cidade, não fazia ideia de como parei lá.
—Despistei ela... finalmente...
Já estava cansado, não apenas de correr, parecia ter feito mais que isso, ainda assim...
“Servo, tu não estás a salvo. Uma vez fui caçada por um homem incessantemente por três dias e três noites inteiras. Ela deve possuir tanta ou mais convicção que aquele caçador, nem pense em descansar ainda”
Ela estava certa. Parecia fácil demais já ter fugido.
—Mas onde fui parar afinal...?
Olhando bem, aquilo não era nada como um beco, porém um canto igualmente escuro, onde apenas observava tons de cinza.
Para o lado, na esquerda tinha uma longa escadaria, podia observar fontes de luz natural muito ao longe, devia estar no subsolo. Algumas gotas de sangue seguiam por toda a escadaria, devia ter descido por ali.
E do outro lado, parecia uma ruina, placas que não podiam ser lidas naquela escuridão e algo como um túnel a muito abandonado. Chegava a me lembrar da caverna a qual fazia de esconderijo.
Voltar certamente não era opção, então me levantei e corri na única direção que podia me servir. Até notar um declínio nada suave, se pulasse cairia um ou dois metros e estaria no túnel.
O qual parecia se estender ao infinito em ambos os lados, não havia luz no fim do túnel...
—Luz... entendi! Isso é igual uma das estações de metrô abandonadas que a Une havia achado! Dei sorte... não tem como ela me perseguir por um desses, posso me esconder aqui até anoitecer então...
Quando havia imaginado ter recebido uma benção, pensei ter minha sorte surtido efeito mais uma vez, ouvi claramente, atrás de mim o som de um coração batendo, respiração pesada e toques no chão, como de passos, mais contundente que normal, logo entendi vir de um salto-alto.
—Você pensa demais em viver. Por isso lhe falta a convicção para vencer, para matar.
Aquela voz apenas significava uma coisa, até agora, todos os esforços que fiz para fugir haviam sido em vão. Mal havia criado uma distância e já havia sido achado.
—O sangue, essas poucas gotas de sangue que você deixou para trás. Pensei ter sido terrível, uma maldição que não me deixou o eliminar imediatamente. Mas não! Agora você não tem para onde fugir! Garoto-demônio, você está exatamente aonde eu quero!
Mesmo na escuridão, onde meus olhos com muito esforço só enxergavam tons de cinza. As unhas dela, na forma de garras ainda tinham cor, era de tudo, o mais fácil de se enxergar, esforço algum foi necessário.
E a lâmina, banhada de sangue, ainda brilhava como sempre, em meio a escuridão, eu lembrava do calor sentido em seu fio...
Parecia encurralado, mas ainda podia pular no túnel, então disparar novamente, correria até não haver mais para onde ir, ou até não ter mais como andar.
“Servo, neste local poderia sair e luta contigo, talvez se servir de distração eu possa a atacar pelas costas”
—Não... queria tentar, porém já aprendi a lição. Ela está totalmente além de mim, não há tática ou treino que me permitiria vencer uma luta de verdade.
“Para um homem, vosmecê parece não sentir vergonha alguma de correr e se esconder de uma mulher humana, não tem orgulho algum em ti?”
Orgulho, o oposto disso seria...
—Com quem está falando?! Olhe para mim!
Virei todo meu corpo, ela já havia terminado de descer a escadaria, dezenas de metros ainda nos dividiam, porém, sua voz ainda aparentava vir por cada uma das sombras as quais estava cercado.
—Não está ouvindo?! Capitã! Estou falando com você!
Havia declarado guerra aos corsários, ao trapaceiro, mas não a líder dele, nosso maior inimigo e a vilã que devíamos enfrentar.
Pois parecia loucura o fazer, por tantas vezes presenciei a técnica infalível dela, fui derrotado em todos os sentidos que podia imaginar.
—Queria dizer...! Lembrar como a sua convicção, a sua força, sua técnica, seu instinto! Tudo isso que você tem é superior! A ponto de alguém como eu não haver esperança alguma de te alcançar!
Se minha constituição natural era impressionante, a dela era comparável, a técnica chula que ganhei por anos não valia de nada numa luta de verdade, também a sorte onde parecemos intercalar, a dela é claramente superior, vendo como chegamos a essa situação, pois...
—Elogios não te levaram a lugar algum! Você está morto!
Por isso, antes, não declarei guerra a ela, pois não queria ser derrotado novamente, por causa disso sequer comecei a tentar.
Essa era a maneira errada de agir.
—Já sei disso! Nem pense que gostaria de ser poupado novamente! Se tentar me aprisionar irei engolir cianeto sem hesitar!
Nossa distância se encurtava.
Quando entendi de vez...
Orgulho, o oposto disso seria... humildade!
—Saiba disso! Aqui declaro guerra a você, aceito plenamente não poder vencer diretamente, essa é a declaração de que acharei outra forma de vencer. Capitã, você tem uma fraqueza e eu prometo acha-la! Reconheço o quanto terei de me esforçar por isso, pois você é genuinamente além de qualquer pessoa a qual já conheci. Respeito isso mais que tudo e garanto usar tudo a minha disposição contra você. Ouviu?!
—Isso é dito por um humano.
Um vento rugiu e quase me fez levantar do chão, o chapéu que ela tinha voou para muito longe, aquele sobretudo voou também como se a tivesse atravessado, tal qual um objeto físico tentando interagir com uma sombra.
O vestido que ela portava parecia ser da mesma cor, a cor de sangue, apesar de poder ver a silhueta dela claramente agora, isso não me daria vantagem alguma para atacar, talvez o contrário.
—Sua humanidade te limita. Rejeitar tudo o que já aprendeu é a única forma de me vencer, creio ter encontrado outro como eu, um com mesmo dom e sermos inimigos é um inconveniente para mim, entretanto mata-lo não, o faria sem pensar, só pode haver um de nós neste mundo, quando o fizer, ninguém terá chance de se opor.
—Com certeza, mas você ouviu, já entendi o quão inferior eu sou, por isso sei exatamente o quanto terei de me esforçar para vencer, sua força me deixara crescer! Com isso, mostrarei uma convicção que até você terá de respeitar! Seu próprio orgulho terá de cair!
Ela parou, já estava a uma distância a qual poderia ser cortada em instantes, com os pés fixados, ela fincou a lâmina no chão, talvez para fazer um corte do chão até meu rosto.
—Portanto, você só pode morrer! Mocinho!
Abri minhas mãos e tornei-as em garras e cerrei minhas presas.
—E você só pode ser derrotada por mim! Vilã!
“Saia daí!”
No instante que ela começou o golpe, em um surto de ação, consegui pular para o lado.
E em minha mente não havia bem o que fazer depois disso.
Iria cair de costas no chão e talvez me jogar para o túnel para desviar um segundo ataque, iria lutar pelo tempo que pudesse, mesmo sem ninguém podendo mais me salvar.
Bem, não foi como ocorreu.
O golpe dela continuou, ainda no ar vi a lâmina atravessando o vazio, onde um instante atrás meu coração estaria, em menos de um segundo a mais eu cairia no chão, ainda naquele instante tentaria fazer outro golpe, contudo, naquele instante, não foi nada como imaginei.
Um som de metal solto se arrastando por centenas de metro, uma máquina de enorme proporção sendo movida por energias a muito esquecidas.
Como uma bala, aquilo atravessou o túnel por onde a capitã fincou sua lâmina, ela a tirou de lá, por instinto ainda, voltou-se a mim.
Estava no chão ainda, ela iria atacar apesar da maquinação que apareceu a surpreender, me eliminar não era algo o qual ela precisava pensar, matar era uma natureza, foi isso que presenciei. Para ela isso era tão natural quanto respirar, uma convicção insana, porém, isso a tornava uma rival formidável, por isso fiz meu voto de rivalidade, para nunca esquecer do meu último objetivo em tudo isso...
Vi a lâmina descer, ela pôs ambas as mãos sobre o cabo, mirou novamente no meu coração e desceu, como se já estivesse morto, preparei meu último golpe.
O que não vi foi uma mão se estendendo do túnel e agarrando minha camisa.
“Se segure!”
Respondi assim como as ordens me diziam e fui lançado para outro lado.
Fui jogado para um chão que não existia um segundo atrás, a tempo de ver novamente quando a capitã golpeou o chão vazio.
—O chão, o som, isso...
Estava num trem, sim, com certeza era isso, o cheiro de metal era fortíssimo, como se ferro estivesse espalhado na mesma proporção do oxigênio, como se cobre e ferrugem composse mais da metade daquele maquinário.
—Já!
A voz da Une veio de outro canto, então o trem que já parecia instável ao balançar de um lado ao outro tremeu ainda mais, quase lembrando um terremoto.
O que vi por ultimo, antes dela sumir, foi o olhar da vilã, como de um predador para sua caça, ela não podia aceitar estar prestes a perder, contudo aceitar ou não já deixou de fazer diferença.
Assim, o trem partiu em alta velocidade, enquanto a capitã deixou de tentar, ela não levantou mais sua arma para mim, sequer falou algo, deixou que fossemos dessa vez, por aquela vez a minha vitória foi aceita.
Em mais um instante, tudo do outro lado eram as paredes do túnel.
—Ah... obrigado...
Roi estava lá, no mesmo vagão, ela devia ter me puxado mais cedo, novamente, me ajudou a levantar, tinha cansado suficiente para não poder levantar sozinho.
—É bom ver um rosto familiar depois de... quase morrer algumas vezes...
—Aquela era a capitã?
—Sim, você não tinha visto ainda, mas sim. Por alguma razão ela usa uma espada para matar pessoas em vez de armas de fogo, é um pouco antiquado, mas funciona bem até demais...
A Roi andou para mais ao fundo do trem, eu segui sem pensar tanto.
E lá estava, como se estivesse pilotando uma nave espacial, na cabine do piloto, Une estava lá.
—Desculpa ter precisado de um resgate desses... fui perseguido por metade da cidade, pelo que parece pelo menos.
—Notei.
Foi o que ela respondeu.
—...?
—Imaginei que tinha esquecido disso...
—Não entendi, mas isso está fazendo dois resgates seus já?... Depois preciso arrumar um jeito de compensar por tudo.
—Diga, o que conseguiu seguindo ela? Eu posso te perdoar e não quebrar uns dedos seu se for algo bom.
—Ah...! Sim! Não foi apenas ela, aquele trapaceiro que visitou a cidade também estava lá, consegui espionar a conversa deles e... depois conto, eles disseram muita coisa importante.
—Foi, é? Ótimo, então vir aqui te resgatar não foi um desperdício.
“Está aceitando esse tratamento? Como podes?”
Me senti mal, porém tinha de ignorar ela por enquanto, conversar sozinho tendo duas pessoas do meu lado não era uma boa.
—De qualquer forma, como adivinhou onde estava? E como conseguiu esse... trem...?
—Sorte, não lembra que estava consertando essa belezinha? Até falei disso no telefone antes de você sumir, sobre como te achamos...
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Algo me fez temer receber uma afirmação dessas, já foi incrível o interesse súbito que ela desenvolveu pelos trens na hora perfeita, mais isso seria...
—O rastreador... estupido...
—...!
Claro, havia um desses preso no meu abdômen, naquele ponto remover só aconteceria com uma cirurgia, ou caso me ferisse daquela forma novamente, ambos medianamente possíveis de ocorrer num futuro próximo, assim imaginei.
—Rastreador...?
A Roi, claro, não tinha como saber disso, nós só tentamos mudar de assunto, ia soar estranho se contasse como aquilo realmente aconteceu.
—De qualquer maneira... obrigado as duas, não sei se deu para perceber, mas eu não tenho chance alguma contra aquela vilã, ela matou um inocente e... ainda assim... não podia fazer nada além de correr.
—Eles vão ter o que merecem.
A Roi estava um pouco inquieta depois de que contei aquilo, batendo os pés no chão como se em uma marcha.
—Você disse que não devemos poder usar o ostium daqui, Jack, por isso vou nos levar para bem longe, usaremos outro ostium antes deles terem tempo de nos alcançar.
Após ela mencionar, percebi o quanto aquele trem parecia instável, as placas de metal balançavam por dentro, como se não tivessem se encaixando corretamente, as viradas que vinham chegavam a levantar um pouco um dos lados do trem, raspando uma ponta pela parede. Efeito o qual não parecia nada intencional.
—Apesar de que tudo que sei sobre trens é por causa de alguns filmes...
Parece que ainda há alguns lugares que os usavam, para transporte entre pontos não tão distantes, mas claro, numa cidade pequena e isolada como a onde moro não havia necessidade alguma disso.
Une nos fez passar bons minutos no trem até estarmos a uma distância que deixaria praticamente impossível de sermos alcançados.
Tivemos de abandonar o trem, a Une parecia insatisfeita com isso de alguma maneira, ainda assim, não desacelerou quando vimos a necessidade de correr o mais rápido possível.
Enfim, sem dar importância a atenção que podíamos chamar, corremos o mais rápido possível, assim despistamos os corsários e logo... sãos e salvos, de volta ao nosso lar.
Já estava no fim da tarde, o que era aproximadamente a hora a qual queríamos voltar de início, chegamos um tanto mais cedo, contudo não sentimos que foi injustificado.
Devia favores demais as duas, então pedi para elas irem aonde quisessem e eu mesmo cuidaria de contar o que houve aos dois que ficaram no quartel-general. Elas não fizeram nenhuma questão de recusar, então partiram juntas para...
Naquele dia, também não tinha ideia da resposta para onde elas foram. Mesmo entre amigos, há algo como segredos, não que eles durem tanto nessas ocasiões, ainda assim...
Apesar da minha promessa, antes da visita, resolvi parar em casa, queria deixar os livros que milagrosamente não caíram da minha mão em casa.
—Há livros para pegarmos, lembre-se.
Podia a ouvir, estava olhando para o teto e a vampira do outro lado do quarto, ainda assim, soava como se ainda estivesse falando na minha mente.
—Eles são um presente já, você estava me ajudando a fugir, não foi? Notei algo estranho acontecendo e... obrigado. Mesmo sem entender exatamente o que fez, obrigado.
“Estou sendo salvo demais, apesar de realmente não poder fazer muito para compensar...”
—Humpf! Típico, tomarei teu tributo então para não acumular mais dívida, agora, para que possa o salvar novamente... cuide-se bem...
Levantei, algo me fez olhar para ela, notei então:
—...!
“O que... o que... o que... está acontecendo? ”
—Um momento.
Pulei até o outro lado da sala, parecia ter feito isso com menos esforço do que devia, me senti mais leve, mais forte talvez.
—Demorastes a ver, servo. Tu fizeste um dos passos, estás mais próximo de realizar vosso desejo.
Foi o que ela disse.
Dessa vez não era a mesma vampira, estava diferente, por mais que sutilmente apenas.
O cabelo antes dourado como ouro, agora tinha perdido um pouco o tom, havia vários fios soltos com o tom como prata, também tinha crescido muito além do esperado, quase na altura dos meus ombros. Ela também tinha envelhecido visivelmente, o rosto estava menos redondo, parecia um pouco mais alta e forte também.
—Tu passaste em uma das etapas, para poderes ter vosso desejo realizado, precisarei de todo meu poder, para o obter... terás de passar por vários desafios.
—Você está com esse rosto diferente... por isso?
—Estou? Acredito ter parte da minha forma verdadeira se restaurando, o que vês ainda, no entanto, não passa duma projeção, uma sombra do que era.
—Qual era o objetivo alias? E o próximo? Você chegou a me contar isso?
—O que deves saber, vosmecê saberás na hora certa.
Ela dizia enquanto movia o corpo, olhava para si mesma e fazia movimentos leves ao meu redor, como se testando novas capacidades.
—Tenha paciência, nesse ritmo não terás de esperar quase nada e tudo acabara antes que note. Como um sonho, entendes?
—Um sonho... é?...
Ela foi ao espelho, a segui para ligar a luz enquanto Alice foi ver o próprio reflexo.
—Não havia necessidade disso, já vi como essas lâmpadas funcionam. Vi instrumentos semelhantes em meu tempo.
—Bem... desculpa.
Ela se virou novamente, continuou indo de um canto ao outro do meu quarto, já me deixando tonto.
“Queria ter mais detalhes do que ela precisa, mas posso enxergar e... seria inútil, ela não vai falar mais do que já disse. Só posso esperar”
Olhei por uma pequena brecha na cortina...
—Vou sair logo que o sol se pôr e falar com o Ritte. Aproveite até lá, eu vou...
Estava destrancando a porta enquanto falava.
—Não estarei tão longe, caso precise.
—Tu não tens escolha sobre isto, és preso a mim, eu sou presa a vosmecê. É assim que o destino decidiu.
Alice dizia em meio a uma dança, me lembrava... balé?...
Passei pela porta, desci as escadas...
Escadas abaixo, estava guardando um item precioso, ainda sem uso, mas não por muito mais tempo.
Uma hora passou, então o sol se foi, dando espaço para a lua, novamente descemos juntos até minha bicicleta, mas...
—Fique no bagageiro dessa vez, a cesta não deve ser suficiente mais... imagino.
—Bem pensado, pareces ademais atento. Admirável.
—Não... nada disso...
A vampira sentou depois de mim, depois de tentar ouvir os arredores, não senti ninguém tão próximo, eu parti.
—Quando avisar, volte para a minha sombra, pode ser abrupto, porém vai ser mais fácil para mim. Vou compensar como puder depois.
—Pois sim... o farei.
Juntos, assim como atravessamos os caminhos de fogo na luta contra os corsários, também atravessamos as ruas quase vazias que a noite naquela cidade proporcionava.
“A humildade que aprendi, significa usar todo recurso possível para tentar vencer a capitã, a vampira na minha sombra e os poderes que ela poder me propor, assim como o instituto, os heróis que derrotaram um vilão tão poderoso quanto a capitã. Irei aceitar a ajuda de todos eles”
Essa conclusão à qual decidi tirar durante a viagem, quando cheguei na casa do Ritte e da Franziska.
Bati na porta algumas vezes, quem me respondeu foi a Franziska, ela tinha um olhar pouco mais pesado que o normal naquele dia, o que assumi ser apenas por não ter dormido direito.
Pedi para ir até o Ritte e contar do que houve, falar tudo na rua parecia uma má ideia, não bem porque algum inimigo fosse ouvir, isso era impossível praticamente, só porque alguém podia achar estarmos planejando algo ruim.
Enquanto subíamos as escadas, no entanto, não foi apenas silencio, me lembrei de algo que ocorreu a pouco e perguntei a Franziska:
—Queen, você sabe sobre alguma... “Grande Guerra”?
—Você assistiu algum filme de época esses dias?
—Sim... era um sobre o fronte ocidental ou... esqueci o nome...
Por alguma razão, essa foi a primeira mentira que me veio, tinha me sentido mal, porém temia que a hora de explicar sobre a vampira na minha sombra não havia chegado ainda.
—Imaginei... a Grande Guerra era o nome da Primeira Guerra Mundial antes da segunda ter começado. Não é como se eles esperassem que fosse haver um segundo conflito naquela escala...
—Ninguém esperaria... é... ainda assim, obrigado. Nunca ia adivinhar isso sozinho.
—Só fazendo o meu papel, só isso e nada mais...
Ela começou a falar um pouco arrastado, o olhar parecia bem menos brilhante que o normal.
—Durma mais...
Cheguei no quarto dos dois, ele era normalmente bem arrumado, tudo estava em seu devido lugar e dava a impressão de ser bem mais espaçoso do que era de verdade.
Naquele dia, esse não era bem o caso, pelo menos ao redor das mesas dos dois havia livros e papeis jogados, impressões de jornais e pastas parcialmente rasgadas, até tigelas de comida já seca, provavelmente atraindo insetos.
Ainda assim, sentei com os três em um círculo e contei exatamente o que houve, especialmente do que ouvi dos dois vilões.
—Meu... então isso no seu ombro...! Ahhhhhhhh! Da última vez foi igual! Você voltou e... daquele jeito e... zut! Foi um trabalho cuidar de tantos cortes!
—Franziska, eu fugi, ela certamente foi insistente e me perseguiu até o fim, porém ela definitivamente não é tão boa em correr quanto é em lutar. Se fosse o caso...
—Então espera, Zack, você está dizendo que a vilã acha que fazer coisas ruins vai “aumentar” a sorte dela...?
—Zack...?
—Jack, responde a minha pergunta.
Pelo jeito dele ter tentado atacar o ar, ele não tinha gostado daquela correção.
—Bem... foi o que entendi também, Ritte, vocês não sabem se tem alguma explicação lógica para essa “sorte” ou algo assim? Ainda está difícil de aceitar algo assim existir, ainda mais auxiliando uma pessoa má como ela.
—Não tem como explicar, nós já vimos antes e agora... esse jeito dela ter te achado e...
—Apesar que aquilo não foi bem sorte... eu atravessei uma janela daquele jeito e cai em cima de vidro, depois...
Minha mão subiu para o meu ombro, a dor voltou na mesma hora, eu havia me recuperado bem mais rápido do que deveria, provavelmente graças as influências da vampira, ainda assim...
—Franziska, você pode me ajudar?... Não foi tão ruim, mas eu consegui um machucado no meu ombro também.
—...oui! Isso é terrível! Eu preciso resolver isso agora mesmo!
Foi só por sua reação que eu percebi... ela não havia prestado tanta atenção assim na conversa... somente havia percebido todos os meus machucados depois de eu chamar atenção para eles...
O Ritte ficou calado por um tempo, com os olhos fechados e rosto abaixado, parecia estar meio-dormindo enquanto esperava, tanto que ele acordou no instante em que a Franziska pôs os pés de volta naquele quarto:
—Eai? Ritte, você tem alguma ideia de o que é essa “sorte” pelo menos?
Enquanto dizia isso, sem falar muito, a Franziska tirou minha camisa e começo a analisar e tratar o machucado que eu havia mencionado.
—Non. Pas do tout. Não tem como explicar isso com ciência normal, porém... a Fran teve uma ideia...
O Ritte olhou para ela, por aquele olhar, um que subitamente não tinha um sinal de cansaço, não tive dúvida de que os dois haviam tido uma boa ideia enquanto estava fora.
—A ciência estranha deles pode ter alguma resposta... já sabemos como tem algumas áreas ainda sequer reconhecidas oficialmente as quais o instituto tem acesso. À cause de, não... por isso, se queremos entender do que isso se trata...
Ela parou momentaneamente de me tratar para dizer aquilo, essa havia sido sua brilhante ideia, assim...
—Hum... talvez...
Foi quando lembrei de uma pessoa a qual havia explicitamente mencionado saber algo mais sobre essa “sorte” ela estava não tão longe de mim, perto suficiente para apenas pensar na questão ser suficiente para receber uma resposta:
“Perdão, servo, como disse, não há nada que eu mesma saiba de útil para vosmecê, ou teus aliados. Entretanto meu próprio conhecimento é falho, daria ao menos a chance para vossos amigos, talvez haja um pedaço do quebra-cabeça o qual eles possam decifrar”
—Sim! Entrem em contato com eles o mais rápido possível quanto a isso, temos ainda de procurar onde estão os reféns, eles ainda estão em algum lugar...
—E seu encontro com os dois confirma você ter acertado a localização... pode ter sido sua sorte agindo... foi o que apostei fazendo que escolhesse o próximo ponto. Bon, non?
O Ritte sorriu um pouco, com aquela frase notei como havia subestimado o quão longe ele poderia ir em um plano as vezes.
Esperamos alguns segundos, e em sincronia terminamos a reunião com a mesma frase:
—Agora temos um plano!
E tudo aquilo foi suficiente para um dia, depois de ser enfaixado no ombro e pelas costas, o Ritte me acompanhou para a saída da casa e foi também quem falou.
—Na próxima investigação, iremos em um grupo só, vai ser bem mais seguro assim.
—Por favor...
Desci até minha bicicleta e comecei a pedalar, não exatamente em direção a minha casa.
Quando senti algo sendo tirado de mim, notei a minha sombra se movendo um pouco, a bicicleta tendo o centro de gravidade movimentado um tanto.
—Onde vais, servo? Tua casa não se encontra nessa direção, também não ouvi uma intenção clara nesta decisão.
—Não há uma... é só porque as vezes fazia isso, pedalava pela noite e olhava para cima, a lua é bem bonita as vezes, o pico dela foi no dia 9, mas ainda está cheia, olhe.
Como se visto no canto do olho, num feixe apenas, vi como a grande lua flutuava pelo céu, se levantando sobre uma das montanhas, tal qual tudo tivesse sido planejado para ser assim, bela como uma pintura, ainda assim, absolutamente real, nos iluminando junto as estrelas por todo o céu.
—Bom que goste da lua, assim como o sol é capaz de transformar um quase-vivo, quase-morto em pó com um único instante, a lua nos dá forças. A noite é vosso reino, onde somos absolutamente incontestados.
—Hum... isso é bom de saber, eu queria ver algo agora, seus poderes estão mais fortes agora, mais que antes, certo?
—É como imaginas.
—Da última vez tinha a força de um adulto normal, agora o quanto você acha que poderia exercer? Isso teria aumentado, certo?
—Hum... diria ter havido uma evolução substancial.
—Você poderia lutar também? Imaginando se conseguíssemos outro local subterrâneo, fechado ou só durante a noite?
—Está pensando de forma diferente agora, uma evolução aceita... em hipótese, não seria problema algum, entretanto, ainda poderia lhe ajudar enquanto finjo ser sua sombra, há uma maneira.
—Como...?
“Quando ela é minha sombra... ela é mais que minha sombra talvez...”
—Posso projetar a maior parte do meu vampirismo sob você, não é difícil, estamos com uma mesma alma, efetivamente mesmo corpo, devo avisar que isso não seria tão efetivo se estiver sob a luz direta do sol, entretanto.
“Deve ser isso o que me salvou de morrer por aquela bala... com certeza”
—Vou levar isso em conta, obrigado, Alice, por favor me ajude enquanto estiver comigo, me ajude a vencer essa batalha a qual estou travando.
—Tu tens minha lealdade e cada um de meus poderes, servo.
Eventualmente voltei para casa, como nas ultimas noites, eu descansei até o amanhecer.
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