Ostium: Diamond
17 Capítulo 11
Capítulo 11
Paz Perpétua
Dia 24 de maio.
—Amun, por que você se deu o trabalho de aprender uma língua tão complicada? Esses desenhos que os japoneses usam para escrever são insanos.
—Foi afim que houvesse um contato facilitado com meu colega, Otsuka, imaginando que nos encontrássemos numa situação adversa. Há várias pessoas e grupos de interesse no Japão, ter forma de comunicar-se facilmente, portanto, tornou-se crucial.
—Mas já não tinham dois nativos nesse grupo? Para que se dar o trabalho?
—...
—Estou errado?
—Decerto que não, entretanto... se enganas ao pensar que a todo estaremos juntos, todo tipo de coisa pode acontecer e... os membros precisam se fortalecer, como grupo, certamente, contudo também tento fortalecer-me individualmente.
Fazíamos essa conversa enquanto o elevador subia sem parar, os andares passavam e sentia que alcançaríamos as nuvens logo mais.
Nonagésimo quinto, nonagésimo sexto andar...
—Você tem o mesmo número da Franziska, não é...? Isso soa como algo assim, realmente.
—Entenderás assim que ver teu outro número, ele finalmente voltou para nós, ainda precisa manter-se no quarto de hospital, contudo.
—Não consigo entender ficar tanto tempo num hospital... está além de mim.
Nonagésimo nono.
—Esse andar, Jack, pode entrar sozinho, é o único quarto do andar. Espero que se entenda bem com ele.
—Não vai comigo?...
—Creio ser desnecessário, devem resolver as próprias decisões entre si, um terceiro, como eu, não se veria como útil.
—...
Não consegui acompanhar os pensamentos dele, não diziam ser amigos? De que importa o que é desnecessário? Vá vê-lo logo. Devia ter o dito, mas tinha medo de que nem entendesse minhas palavras, por isso atravessei a porta, sozinho.
O quarto era esquisito, nada perto do que tinha me levado a lá, em nada que já tinha presenciado, contudo, as paredes de nuvens, o chão que imitava o céu me fazia sentir um arrepio, estávamos alto, afinal.
“Não tenho medo de altura, mas...”
E mais a frente, usando um tipo de... quimono? Imagino que fosse, tinha duas cores, preto e branco. Em duas listras diagonais.
Um garoto muito mais baixo que eu, com olhos e cabelos negros, porém, dando um passo a mais, confirmei definitivamente, sem sombra de dúvida e espaço para imaginação, algumas, várias mechas de cabelo eram brancas como as nuvens no céu.
O rosto atento, tão calmo, chegava a ser assustador se o encarasse demais, porém ele era claramente inofensivo. Ao menos para mim, certamente.
—Esperei por um bom tempo, você é como eu, 01? Sim?
Otsuka estava no chão, ajoelhado e derramando o líquido de um bule num copo de argila.
“Socorro!... Foi ele que fundou esse grupo, não foi?! Não é à toa! Ele deve ser o pior deles!”
—Você pode fazer isso...? Aqui não é um... hospital?
—O que determina o limite das ações tomadas por... qualquer pessoa, em geral, de qualquer indivíduo?
—Ah... certo, o que você precisa saber, afinal?
—Já entendeu o que faz aqui, seu propósito, não é?
—Não...
Por um instante seu olhar caiu sobre mim, mas não mais que um, no próximo instante voltou para o copo de argila nas suas mãos.
Ele bebeu um pouco e continuou:
—Se sente. Há muito para conversarmos.
Cruzei as pernas e sentei no chão, Otsuka encheu um copo de argila para mim também.
—O que é isso?
—Oras, chá, está um pouco frio. Mas pode tomar, não há problema.
Ele apontou para o copo, o apresentou como se fosse uma obra de arte, suas mãos cobriam aquele copo com uma aura ruim, era uma aura de trevas, tinha uma má sensação sobre aquilo.
Notei o porquê, ele tinha luvas pretas em ambas as mãos, era estranho, destoante:
—Isso é estranho, isso é destoante... o que são essas luvas?
—Ah... perdão, estou sempre usando elas, porém, neste caso apenas, é realmente inadequado as usar, mas só me faça um favor, não pergunte mais que isso. Temos muito a falar e nem tanto tempo.
Com dois movimentos, um seguido do outro, ele retirou as luvas e as colocou ao seu lado.
—...!
Era pior do que pensei, tinham queimaduras terríveis, cicatrizes enormes e todo tipo de aparatos metálicos serviam para substituir partes perdidas, era uma mescla de metal e carne, desequilibrada, imperfeita. Como aquilo podia ter acontecido? Queria perguntar mais, porém.
—O que...
—Disse para não fazer mais perguntas. Peço perdão se isso lhe perturbou, entretanto, espero que essa visão o tenha servido de algo, é como uma lição, de um para um. Entende?
—Ah... melhor só irmos direto ao ponto, o que aconteceu exatamente? Você sabe?
—Claro. A minha função é essa, eu sei de tudo. Agora sei que nosso inimigo além de ter tentado nos matar durante um cruzeiro, capturou todos os passageiros, nenhum morto, mas nenhum deles foi salvo ainda.
—Imaginei... não tinha corpo algum lá...
—Porém, eles não o fizeram para receber dinheiro de um resgate ou algo patético assim, seu objetivo é de trocar a liberdade de todas essas pessoas pelo meu corpo...
—Eles são um tipo de culto? Aquele pedido soou muito mórbido.
—Sim. Não é errado, porém há mais do que crenças insanas sobre isso, tudo está em volta da capitã deles, dos “corsários” como você os chamou. Parece que alguns capangas ouviram esse nome e o grupo está lentamente o adotando como apelido, nós também o usamos, contudo, não estamos lidando com algo uno, são diversas gangues e máfias espalhadas por toda Europa, Ásia e Américas.
“Talvez por isso eles conseguiram ir de um oceano a outro, de uma praia em Miami para a fronteira Bélgica-França”
Afinal, tinha sido lembrado a pouco, as máquinas de transporte-instantâneo que usamos tem várias regras, umas delas, impede pessoas de más intenções de as usarem, contudo...
—Mas a capitã apareceu na França! E no navio também! Como isso pode ter acontecido?!
Pensei naquela incongruência, a única resposta que podia pensar...
—Sim. Ela era aliada com um homem que tentou quebrar essa regra dos ostium, ele conseguiu, achou uma maneira, mas eu o impedi antes de ser tarde demais, só que... não antes dele passar o método para ela, felizmente não creio estarmos lidando com alguém capaz de fazer o mesmo que ele, mas ainda é uma ameaça, sem dúvidas.
—Quem você impediu...? Foi o...
—Ben Verrat. CEO da regenschirm. Não tenho tempo de falar dessa dança agora, o futuro está em jogo, não o passado. Precisamos resgatar aquelas pessoas, com o tempo que passou, é certamente possível que ela já tenha deduzido o que realmente aconteceu naquele dia...
—Ei, você devia ter mais certeza, ela já sabe que você está vivo, né?
—Fala disso com tanta propriedade? Ela lhe contou algo...?
—Bem, acabei falando isso a ela enquanto estava preso, pensei que era óbvio e...
A aura de escuridão ressurgiu, quando olhei no olho direito dele, o percebi totalmente escuro, não, não era apenas uma cor, era um vazio, como se estivesse olhando para o abismo, para além de algo humano.
Num outro instante, tudo voltou ao normal.
—Hee hee...
Apesar de ele a um segundo ter parecido tão irritado com aquilo, até me fazendo questionar minhas ações, no outro instante... ele riu. Um sorriso genuíno apareceu no seu rosto e...:
—Ahaha! Ahahahaha! É sério isso!? De todas as pessoas, é você quem vai ficar com esse posto!? Nem consigo acreditar que alguém possa cometer um erro tão simples assim!
—Ei! O que você disse?! Não ache que estou cooperando por ganhar algo. Só porque vocês são tão insistentes...
Depois de alguns momentos a mais, ele parou de rir, seu rosto estava sério outra vez.
—Deixarei os motivos para outro dia. Ao mínimo isso de fato mostra que você tem algo para se comparar a mim, você pode estipular o que outra pessoa poderia saber, mas, incorretamente, você estipulou o que ela realmente saberia. É o conceito de teoria da mente.
—Isso é sobre números de novo, é isso?
—Não se preocupe. Certamente foi assim que trabalhei quando enfrentei Ben Verrat, porém seu oponente é diferente, de várias maneiras ainda, diria. Os talentos e forças que ela pode controlar são totalmente diferentes, portanto, não posso elaborar como deveria tentar agir, como membro do instituto isso é, entretanto, farei o que posso.
—Isso é bem legal e tudo, mas o que você precisava falar de tão importante que me fez subir 100 andares, digo, quase 100.
—Não exagere, é verdade que gosto de altura, mas esse é apenas o nono andar. E... tanto você quanto a capitã têm algo como sorte então? Foi o que o Lestat me contou, entretanto, preciso que você mesmo diga-me isso.
Tentei ajustar um pouco meu pescoço, meu corpo parecia mais pesado naquele dia.
—É verdade, pelo o que parece.
—Hum...
Otsuka tomou outro gole do chá.
—Isso é bom. Tenho uma missão para você:
Então ele elaborou em alguma causa, uma consequência, mas no fim só entendi o que tinha de fazer exatamente.
—Há um possível contato da capitã neste endereço, tente tirar algo de útil dele. Use os meios que quiser.
Até este ponto parecia algo simples, não tinha motivos bons para ir em frente, mas... o que aconteceria se deixasse para lá agora? Meus colegas estariam em risco de novo?
Mas Otsuka não parou de falar, ele acrescentou uma clausula estranha, lógica, porém colocada de forma aterrorizantes:
—Qualquer meio... isso é, desde que não mate ninguém, nenhuma alma. Nada vivo deve ser perdido. Não importa o quão vil ou imperdoável seja o crime do seu inimigo, se não pode carregar o peso de uma segunda alma nas costas, você nunca deve matar alguém.
—Claro... nem pensei nisso...
Foi a única resposta que pude dar antes dele dizer que tinha falado tudo o que precisava e me disse para ir completar a missão.
Ia sair, mas...
—Ah, esqueci de mencionar isso, mas você agora também precisa de um codinome, é o padrão de todos os membros do instituto.
—Ei, meus colegas já têm um, cada um deles, acho que isso já...
—Não basta. Você também precisa de um, tomei a liberdade então de o nomear, Valete será o codinome.
—Hã?! Isso não soa nada como os nomes que vocês usam!
—Mas você é um “Jack” como a carta, não há o que fazer agora, isso já foi decidido.
—...!
—Bem, só mais uma coisa antes de sair, você não perguntou, imagino o porquê, mas você e seus aliados tem o direito de usar nossos nomes verdadeiros, portanto, enquanto não estivemos numa ação, me chame de Otsuka, é apenas isso, entendeu? Agora pode ir.
Fingi não ter ouvido mais e sai da sala.
—O que pensas?
Amun me perguntou enquanto o elevador descia.
—Você não podia me ajudar nisso que ele pediu? Onde há fumaça, há fogo e onde há um contato, há o outro. Não estou com vontade de me encontrar com a capitã tão cedo.
—Decerto, o Otsuka quase morreu com apenas um golpe desferido por ela, não que seja um feito particularmente complicado ou... enfim, ela é uma presença perigosa.
—Então me ajude! Isso é muito perigoso! E por que eu preciso fazer?! Logo eu!?
—Como vês, Otsuka está no hospital, assim, nossa força total foi cortada consideravelmente, é certo de que alguns de nós poderiam se manter sozinhos numa ação, porém não vale o risco. Mais efetivo foi o que decidimos, enquanto ele se recupera nós iremos focar em análise das pistas que coletamos até agora, contudo, você não parece nada mal. E me asseguro, você chegou perto da morte mais vezes do que contaria em meus dedos.
—Vão continuar nos usando como escudos... não que importe, se querem derrotar a capitã, o façam logo, o mais rápido possível.
—...Quem a derrotaria. Não imagino ser esse o nosso papel.
—O que? Vocês esperam que nós derrotemos ela? Isso sim é pedir demais, eu acho que vocês ainda estão nos devendo muito para pedir algo assim em.
—Quando pediste, o fizemos vossa parte.
—Vocês também só ganharam com aquilo. E não é o dever de vocês salvar as pessoas?! Por que vocês precisavam que eu fosse lá?!
—...Não possuíamos força para aquela ação. Estávamos tentando chamar outros contatos para que nos ajudassem, foi quando você apareceu, então decidimos que os reforços seriam vocês.
—Só consigo ver vocês falando, por que não fazem algo? O que esses rumores realmente dizem sobre vocês?
O elevador parou, finalmente voltamos para o solo.
E antes dele responder, eu tomei a dianteira e sai do hospital, segui o caminho de volta, pelo ostium, até de volta a minha cidade.
Dia 25 de maio.
—Ritte, Roi, ainda bem que vocês aceitaram essa ideia de vir procurar esse cara, o hotel dele é esse. O de três andares, ele está no quarto 205.
—Pas de problème. E mais importante, ele é forte igual àquela sombra que nós vimos depois do seu encontro?
—Parece que não, mas segundo o que me disseram, ele é “marginalmente mais fraco” ou seja...
—...
—Ritte... ou seja...?
—Ah! Significa que se encontrarmos com ele, vamos correr o mais rápido possível.
—É assim então... obrigado por ser direto, contudo, ainda temos que entrar... Roi, como está? Esse micro-drone que a Une fez de última hora ainda não pifou?
—Não. Já fiz o reconhecimento, a barra tá limpa, vamos entrar.
—Gostei! Vamos nessa, nada pode nos parar!
No dia anterior chamei atenção de todos para a missão que o instituto havia passado a nós, ainda bem que a maioria deles tem uma opinião boa sobre eles, portanto logo os cabeças fizeram um plano, a Une preparou alguns aparatos, incluindo um drone do tamanho de uma mosca e que funciona com um controle de videogame, não entendi como ela fez essa adaptação, mas conhecendo a Une... é até possível tudo ter sido uma escolha de estética.
Ao menos isso não era uma missão intensa de forma alguma, só tínhamos que entrar no quarto de hotel dele e torcer para haver algo útil, se não tivesse, era só dar o fora e dizer para o Otsuka que a jornada foi uma perda de tempo.
Por passos largos e pulos velozes, nós avançamos até o nosso destino.
As ruas estavam vazias, como se um furacão estivesse prestes a atingir a cidade e todos tivessem corrido a um refúgio.
O hotel também, não havia ninguém fora quem trabalhava lá, se comportando como estatuas, em um único lugar, sem respirar, sem emanar nada mais que uma “presença” mínima.
Ainda assim, sentia como se tantos olhos nos cercassem, talvez dos inimigos, talvez não fosse nada, poderíamos ter chamado atenção demais, digo, era um grupo um tanto esquisito para estar lá.
Chegamos no quarto.
205.
Foi o que vimos.
—Ritte, como iriamos entrar mesmo?
O corredor de lá era genuinamente vazio, não víamos ninguém desde que subimos as escadas para o segundo andar.
—Pensei em quebrar a tranca, mas... pensando bem, não poderia ter alguma armadilha nisso?
“É verdade. Essas pessoas que vimos... definitivamente parecem o tipo que armariam algo assim. Sem sentir culpa alguma também”
—É verdade, Ritte, porém então... Deixe-me ver.
A porta... olhei e não senti nada de especial, sempre tive a impressão que coisas perigosas, as coisas ruins que existem no mundo emanam uma aura que denuncia sua natureza, como uma espécie de aviso para os outros.
E de lá, nada assim havia, por isso tentei mexer na maçaneta sem medo, quando a segurei, vi a porta se mexer um pouco.
“Destrancada?”
Girei ela e tentei empurrar, não foi de primeira, foi como se houvesse algo a prendendo, mas a porta tinha ido um tanto para frente, por isso devia ser algo além da tranca que a prendesse.
—Jack, deixe comigo.
Dei espaço para a Roi, que imediatamente tomou o meu posto e examinou cada parte do quebra-cabeça.
Logo, quem estava atrás dela, Ritte apontou para algo no chão, no próximo instante...
—Pronto.
Foi o que Roi falou depois de empurrar metade do corpo com bastante força contra a porta, fazendo abrir com um único estalo da madeira sobre o chão.
Algo naquela porta indicava uma má escolha durante a construção, não sou quem poderia apontar exatamente o que, mas sei o resultado, enfim, foi isso que nos deu a chance, apesar de emperrada, era impossível trancar aquela porta e com isso, nós entramos.
Claro, tínhamos checado pela janela e através de nossos contatos do instituto que naquele exato horário ninguém estaria presente no quarto.
—Isso com certeza ia deixar meu pai irritado. Como eu seria preso se descobrissem? Seria algo como... uma...
—Já, le plan, não esqueça. Procure nas outras salas, eu procuro pelos armários e gavetas, Roy, você está com essa bolsa para jogar qualquer item que pareça fora de lugar. Entendido?
—Sim.
Como não podia ser diferente, após olhar por um instante pelo quarto, ele nos lembrou do plano que havíamos formado, assim, nós agimos.
—Bom trabalho, Ritte, depois eu vou pensar em algo para comemoramos isso.
—Sem essa, ainda devo una* para você.
—Nem venha com essa! Você sempre me salva dessas enrascadas, não tinha como te deixar na mão... e agora, também não vou falhar no que você mandou.
Então corri para vasculhar os outros cômodos.
Claro, era um quarto minúsculo, então não havia tanto.
Os outros dois já estavam com o quarto em si, a cama, armário e tudo, porém havia outras duas salas.
Primeira delas era o banheiro, ele era bem... extravagante até, ainda mais o quarto sendo tão pequeno, aquele cômodo devia ocupar algo como... talvez metade do quarto inteiro? Era maior que o quarto?
Mas apesar de tão grande, era espaçoso também, portanto, vazio, vasculhei cada canto e não achei nada de útil, foram uma muda de roupas limpas, dentro dos bolsos... algumas notas de dinheiro, cheguei a considerar levar elas como uma ofensa, mas logo retrocedi e as guardei de volta.
Ao menos vi o que eram aquelas roupas, um terno completo, calça e paletó.
“Nosso inimigo parece ser um homem então... esses ternos pretos e tudo, também parece ter um senso de moda esquisito, tantas cores escuras faz parecer que ele vai para algum funeral...”
No outro cômodo, era uma espécie de escritório muito comprimido, tinha uma mesa e cadeira, até estantes, mas não tinha um computador, em vez disso, vários livros repousavam lá, além de...
“Um baralho?”
Um baralho francês, com uma carta a mais para cada naipe. Fora isso, vários livros que não eram em japonês, muitos deles eram até em línguas conhecidas minhas, notei como muitos deles tinham capas com até que bastante cor, ilustrações completas e mais.
Através dos livros que reconheci e que pude ler o título, determinei que grande parte não eram tomos de magia negra ou de segredos obscuros.
—São vários livros de ficção...
Claro, numa proporção de 9 para 1, havia livros com capas de uma única cor e um título no meio, abrindo esses, havia coisas que reconhecia vagamente como algum tipo de matemática, não podia eu mesmo determinar de que tipo, portanto guardei um desses comigo e pensei em entregar ao Ritte ou a Franziska na próxima chance, eles certamente poderiam entender o que todos os números e símbolos estranhos queriam dizer.
“Não deve ser só isso”
Nas estantes, notei mais livros de ficção se amontoando, alguns deles parecendo um pouco velhos, com páginas que pareciam ter sido rasgadas, algumas sujeiras pelas páginas, gotas de café e suco de uva em algumas dessas.
Porém, não era só isso, em um dos livros, um em especifico, um que parecia ter o tema de espaço, quando o joguei da prateleira, algo a mais caiu.
Parecendo uma página, mas uma que falava muito mais, mais de 1000 palavras.
Era uma foto, a segurei antes que caísse no chão e a cena dela se revelou para mim lentamente, conforme o sol se ajustava, ao fim da tarde, ele iria se pôr logo.
Na foto... algumas pessoas que não conhecia de forma alguma. 5 delas, não tão mais velhas ou mais novas do que eu, havia uma bela paisagem de montanha ao fundo e os cinco estavam sorrindo, como um grupo de amigos realmente, era isso que via na foto.
—Mas quem são esses...?
Também guardei a foto, alguém do instituto podia reconhecer algum desses como um inimigo deles ou outro contato.
Então, a porta abriu, alguém entrou no escritório, me virei, pensando que algo podia ter dado errado, que seria o Ritte ou a Roi me dando um aviso importante.
Mas, em vez disso, era um homem, um inimigo, reconheci imediatamente, nos olhos dele que era uma ameaça.
Pior... não era essa a primeira vez que o via... não, nem de longe.
A mesma pele sem cor, as olheiras próximas do roxo, indicando que ele não dormia a dias, os mesmos olhos desalmados, o terno deprimente, fúnebre, assim como o mesmo adereço perto da garganta, agora com certeza digo que era o símbolo do naipe de paus.
“Onde...? Foi...?”
—Boa noite.
—Quem é você?!
Me preparei para lutar, entretanto, pelo o que ouvi, um conflito direto era tudo que queria evitar, mas ele já havia se interposto sobre a porta, era impossível passar.
—A um tempo sempre achei que fosse a norma que os mais jovens se apresentassem primeiro... isso só mostra o quanto o tempo me passou. Imagino que os jovens tenham outras formas de demonstrar respeito agora.
—Do que você está falando? E também...
—Boa noite, primeiro digo isso.
“Boa noite? Não é como se fosse dormir agora. Não, mais que isso...”
—O que você fez?! Cadê os outros?
Falei colocando realmente algo a mais nas minhas palavras, mas pareciam fracas, como se não saíssem da minha garante.
—Jack Delsteen... você acabou se apresentando antes de qualquer maneira. Meu nome é Kyoise Luge.
“O que? Como ele sabe o meu nome? Mais... esse nome também...”
Lembrei de ter visto brevemente em um dos documentos que o instituto nos enviou, eles se referiram uma vez a esse homem como “Edward Ford”
Mas, como me disseram mais tarde, o nome que ele usou para se registrar no hotel foi realmente o mesmo usado para se apresentar a mim.
“Qual desses é o verdadeiro...?”
—O que você está fazendo aqui...?
—Esse é o meu quarto, as vezes vou para outros países e passo alguns dias em hotéis sem motivo algum, creio não ser um problema, porém, Jack, o que você fez é um grande problema. Mesmo que a porta esteja destrancada, não é certo entrar no quarto de outra pessoa.
“Isso... foi o plano dele...?”
Avancei um pouco, quando o fiz, ele imediatamente deu alguns passos de lado e abriu caminho.
—Onde estão os outros?
—Hum, então eles eram mesmos seus aliados, tinha certeza que só eram ladrões se aproveitado de quando você entrou aqui, não que importe.
—Me responda...!
—Não fiz absolutamente nada, você só pode ser ferido se deixar que outra pessoa o faça. Agora acho que você pode ir embora, não imaginei que o inimigo da capitã estaria aqui, realmente inesperado. Por favor vá embora, creio que esse lugar está perigoso demais para você agora.
Me movia de lado, esperando que achasse uma chance de atacar.
E era estranho, ele não parecia pronto para lutar, a pose não indicava algo como preparação de defesa, era...
“Será que ele tem alguma forma de lutar estranha também...? Se for isso, melhor nem tentar, não vou ter chance”
Apenas disparei pela porta e virei o corredor, a Roi e o Ritte estavam estatelados pelo chão, como fantoches sem cordas, eles não tinham ferimentos visíveis, mas definitivamente não pareciam acordados.
“Com certeza...! Ele fez isso sem barulho, sem rastros, sem que... melhor fugir logo”
Conseguir levantar ambos, um em cada braço e então...
Sirenes, alguns gritos vindos através do hotel.
“Policiais... não tenho dúvida”
E naquela situação, definitivamente eles só podiam estar atrás de nós.
—Ele deixou muito fácil, foi para a polícia nos prender então?... Droga!
Havia só uma maneira de fugir, minhas escolhas tinham acabado. Só podia seguir em frente e pular pela janela enquanto carregava os dois, um em cada braço.
“Que tudo dê certo...”
Corri com tudo, uma disparada naquela direção, naquele ponto, pular por janelas já parecia ser algum tipo de especialidade minha, ou apenas algo que deveria ocorrer mais vezes no futuro.
O hotel não era alto ao menos, podia pousar sem me machucar tanto, mesmo tendo duas pessoas nos meus braços, o importante era que eles não se machucassem.
Foi o que fiz, pulei no último instante, com os pés, arrebentei a janela e nós três conseguimos passar, após essa confirmação, olhei para baixo, bem a tempo de ver quando a gravidade começou a fazer efeito e me puxar.
No ar ainda, já em queda livre, percebi onde iria pousar. Um beco sem saída, se saísse dele, podia ver o que era sem dúvidas um policial, talvez até pudesse passar por ele com algum papo furado, mas explicar as duas pessoas desmaiadas em cada um de meus braços era fora de questão.
Pensei que iria ser tudo ou nada, só podia pensar em como deveria tentar socar ele e fugir o quão rápido pudesse com os dois.
Mas, novamente, por sorte...
Diretamente abaixo da janela e exatamente onde iria pousar, havia uma caixa de papelão enorme, parecia estar a anos naquele beco sem se mover.
Quando pousei, a velocidade e o peso de 3 pessoas foi mais que suficiente para torcer alguns nervos e provavelmente mais que isso.
Mas, nesse impacto, a caixa balançou e fechou, de alguma forma ela foi meramente suficiente para nós 3 ficarmos escondidos.
Em poucos segundos eles acordaram e só falei que agora estávamos escondidos numa caixa de papelão.
“Não acredito que isso realmente está acontecendo...”
Pelas frestas eu vi o policial passando próximo de nós por causa do barulho da queda, cheguei a me preparar para lutar contra ele.
Contudo, o Ritte apenas fez um gesto de silêncio, confiando nele, fiquei atento para caso ele tentasse abrir a caixa.
Quando vi, o policial foi em nossa direção, pôs as mãos na caixa e...
O rádio dele fez um som de estática, como se fosse um pouco defeituoso, ele se afastou de nós e começou a mexer até uma voz sair de lá.
Sim, obviamente não posso nem chutar o que eles estavam falando sobre, não sei mais que duas palavras em japonês e aprender não faz parte dos meus planos. Só informarei que ambos pareciam ter muito ânimo enquanto falavam, pelo tom, chutaria que ele foi chamado para lidar com algo bem mais urgente.
Assim, o policial saiu do beco correndo, perdendo a chance de nos achar.
Então chutamos a caixa e nos esgueiramos para longe. Após andar por uma hora, evitando qualquer pessoa suspeita, conseguimos voltar para casa.
Dia 26 de maio.
—Fale com o Otsuka novamente, imagino que ainda precisam conversar.
Foi o que Amun disse.
“Maldição, parece que a minha vida gira em torno disso agora... quando vou poder me livrar dessa sina de me envolver com o instituto?”
Novamente, estava no hospital, não por mim, ter torcido o pé realmente me fez querer não ir, porém... eu não tinha bem uma escolha.
Também novamente, Otsuka estava de joelhos servindo chá, o quimono dele era diferente, mas apenas isso parecia ter mudado.
—Já contaram, enquanto você vasculhava o escritório, os outros dois foram derrotados sem sequer perceber, sem ver o inimigo e sem receber um golpe real, foi isso?
—Parece que sim. Foi o que vi.
—É muito bom ter se encontrado com ambos inimigos, o que você pode concluir sobre eles? A capitã por exemplo, fora proficiência com uma lâmina e o poder de manipular o destino...
—Já contei tudo que sei, falei sobre a espada dela ser esquisita também, o que mais posso dizer?
—Viu o rosto dela, não foi?
Os olhos negros dele se colavam nos meus, não deixavam que escapasse, em poucos intervalos ele se virava para o chá e tomava outro gole, mas, era apenas isso.
—Foi, lembrei disso, mas já esqueci como ela era, está tudo escuro e... isso é estranho...
—Isso é misterioso. Isso é assustador. Você provavelmente foi afetado por algum outro recurso dela, o de lentamente, mas certamente, se apagar das memórias de outras pessoas, ao menos sua real identidade.
—...?!
—Inicialmente descartei a possibilidade como um mito apenas, porém, considerando as conexões que ela mantinha com Ben Verrat, mais outras capacidades bizarras dela, mudo esse julgamento. Habilidade, comprovada. Fonte, desconhecida.
Fez sua declaração, então começou a encher o copo de argila outra vez, lentamente, com tanto cuidado quanto lhe era permitido com aquelas mãos muchacadas...
—Ei, Otsuka, deixe que eu sirva o chá, não parece ser fácil para você.
—...?
Ele soltou o chá e me encarou bem... intensamente, diria, com uma intenção que não podia ler, quando uma resposta não veio, segurei a jarra e terminei de derramar o chá naquele copo, enquanto fazia a pergunta que devia seguir:
—Não consigo entender, como assim ela se apaga de memórias? Isso é possível?
—Queria acreditar que não, contudo vi mais que uma vez como em ocasiões muito especiais, memórias sendo alteradas e perdidas é algo possível, e esse, temo ser seu poder. Absurdo. Nunca em toda minha vida imaginei que alguém daquele tipo com um poder desses.
—Acho que entendi... do que você estava falando mesmo?
—E sobre o outro? Este homem que encontrou ontem.
—Não sei... apesar de o que ele fez, além de ser muito esquisito e tudo, considerei lutar contra ele e percebi o quão fácil parecia ser, não tinha defesa nenhuma, fugi porque você informou que ele era quase tão bom quanto a capitã.
—Algo mais?...
—Bem... não, mais nada.
—Até outro dia, agradeço pela cooperação.
Isso, também, foi uma mentira.
Havia mais uma coisa sobre aquele homem que sabia, apenas eu sabia.
Foi o mesmo homem que vi na clínica da doutora Kutt a alguns dias, ele também parecia ter um problema de visão e ter ido falar sobre algo nada bom, por isso, iria deixar o instituto fora disso e só com os meus amigos, avisei a eles dessa informação e fui sozinho a clínica, uma consulta normal, mas além disso, precisava descobrir algo antes deles. Não ia deixá-los botarem os pés na cidade outra vez.
Olhando no caderno, esse item maldito finalmente me serviu de algo, já que minha memória não é boa, mas pude notar algo terrível sobre aquele homem.
“Hoje! Ele falou que iria para a clínica hoje!”
—Ah... boa noite Jack, era isso? A quanto tempo nos virmos mesmo? Duas semanas?
Já era perto do pôr do sol, mas bem longe da hora de dormir de qualquer pessoa naquela cidade.
Eu havia partido para a clínica, nem precisei entrar para encontrar aquele homem, ele parecia ter acabado de chegar também...
“Duas semanas? Esse homem... ele é o mesmo que vi no hotel? Ele é o mesmo...? É um vilão também?...”
A aparência de ambos era indistinguível, porém... sendo tão genuíno, isso também encaixava na linha do tempo, apesar de não lembrar de sequer ter conversado, ou sido visto pelo homem, podia ter sido uma falha na minha memória e...
—Ei! Qual o seu nome?! O que você veio fazer nessa cidade?!
—Meu nome é Nise Yamada. Vim fazer uma consulta com a doutora Kutt, assim como o faço desde sempre.
“Sempre? Nunca vi ele por aqui também...”
Tentei discernir com a minha visão algo dele, mas não adiantava, os dois eram a mesma pessoa, ainda assim, ouvi o contrário de mim mesmo, como se houvessem sinais invisíveis.
“Preciso determinar, e fazer isso agora mesmo!”
—Tenha cuidado, o que você está pensando agora mesmo é uma péssima ideia. Não questione o que está vendo, não pense tanto assim. Não faz o seu estilo e pessoas que tentam fugir do seu papel é o que mais me irrita.
—Papel?
Ele interrompeu meus pensamentos, falando algo que não entendi, enquanto ignorava que eu estava me preparando para lutar...
—Oras, sim, você não é um cérebro, você é o coração... apesar que isso o faria ser como eu, então na verdade, diria que você é o torso inteiro.
—Desculpe dizer, mas você não parece ter nada para ser o “coração” seus olhos não têm alma e tenho dúvidas se você sequer está respirando ainda.
—Não, por favor, os adultos não se importam com a falta de educação de uma criança, ainda mais quando é uma verdade, por isso não pense antes de falar. Diga exatamente o que precisa falar, é assim que você tem de viver.
—Por que você fala desse jeito? Já está me irritando, talvez devesse realmente avançar e bater em você e deixar as perguntas para depois, você é o mesmo homem do hotel, não é?!
—Hum, demorou exatamente o tempo que eu precisava. Você não é nem um pouco mais esperto do que esperava, claro, também não é nem um pouco mais burro;
—Quem é você?! Por que não para de falar?!
—Creio que não é bem isso que você queira saber. Se falasse exatamente o que desejava eu responderia melhor.
—Está falando como se me conhecesse, isso me irrita.
—Agora sim, agora assim, é exatamente isso o que você queria saber, também é a única coisa que estou disposto a falar, minha identidade não importa, nem meus hobbies e nem o meu passado, imagino que muito menos o meu futuro.
“É isso! Vou atacar!”
Disparei depois de construir uma posição de ataque enquanto ele falava coisas sem sentido.
—Para responder sua pergunta, é porque eu realmente te conheço. Afinal, eu me encontrei com sua mãe, 20 anos atrás.
—...!
Bati meu pé no chão e parei de imediato, olhei para o homem de vários nomes na minha frente.
—Imagino que realmente seja uma surpresa ouvir isso, a quanto tempo você não a vê? Alguns meses? Talvez meio ano?
—Não brinque comigo! O que você sabe?!
—Sem tanto, sem tanto, você já perdeu a calma por isso. Eu só a conheço suficiente para notar a semelhança num instante, depois que você tentou me atacar no meio dessa conversa, não tive mais dúvidas.
—...isso me irrita ainda mais... agora você me disse que pareço com uma pessoa que nunca conheci, agora quando estiver te socando, cada golpe vai me deixar ainda mais irritado, eu vou te levar de volta para a cova!
Parti para o golpear novamente.
—Sua atitude é muito boa, realmente é o legado dela. Por isso que sei exatamente como lidar com você.
Uma onda de letargia me cobriu quando estava a um segundo de conectar o meu punho no rosto dele.
—O que você pode tirar disso é claro, não fique próximo demais de um inimigo, isso deixa muito fácil de você ser atacado sem perceber.
Meu corpo perdeu todo o suporte e cai no chão, plenamente consciente, meus sentidos todos estavam como antes, mas meu corpo não respondia de jeito nenhum ao que dizia para o fazer.
O trapaceiro se afastou de mim e atravessou a porta da clínica, como se minha presença deixasse de importar só porque tinha caído, desde o começo, ele não me encarou sequer como um inimigo.
“Se fosse alguém do instituto... é isso que ele quer dizer? Eles continuam falando como se não fossemos inimigos, mas isso está errado! A única coisa que tenho em comum com os idiotas do instituto!... Nossos inimigos são os mesmos!”
Concentrei em mover meus pés, antes de tudo.
Minhas mãos tremeram um pouco, em vez disso, então percebi que meu movimento estava sendo respondido, não da forma desejada, mas ainda assim.
Pensei apenas em me mover, ir em frente e comecei a me arrastar, subitamente, jogando meus braços a frente e arrastando minhas pernas com o corpo.
“Não sei o que ele fez comigo, mas parece bastante com o que fez no Ritte e na Roi, deve ser algum veneno ou coisa assim... maldito covarde...”
Consegui me reerguer só suficiente para a clínica se abrir para mim, corri em direção à sala de consultas.
—Nem pense...! Em me ignorar!!
—...!
A doutora se virou na mesma hora, mas o trapaceiro não fez o mesmo, foi um momento para que ele parecesse me ouvir, mais um até ele começar a se virar lentamente e...
—Perdão, doutora, mas acho que esse paciente é um tanto mais urgente... estou impressionado. Realmente acreditei que o veneno seria o suficiente para o imobilizar por pelo menos mais 10 minutos. Vou lembrar de me preparar de acordo na próxima chance, essa é uma lição importante. Não é porque você se preparou especificamente para algo que você realmente vai ter sucesso naquilo.
Apesar de tudo dito, ele não expressou mais surpresa alguma, como se isso já tivesse acontecido mil vezes, ele se levantou, tentei o socar quando passou por mim, mas parecia que aquele era o limite.
—Ah sim, sim. Doutora, esse é um veneno particularmente perigoso, não foi feito para matar, no entanto, deixe ele descansar e o mantenha bem hidratado, o efeito vai passar sozinho em mais duas horas, mas sendo um jovem tão forte, é possível que seja menos de uma. Irei voltar outro dia, talvez amanhã, talvez em algum outro dia...
Da mesma forma que veio de lugar nenhum, ele saiu e não importava o que eu tentasse fazer... não pude impedir que ele fugisse.
—Oh... Jack, que problema, que problema...
Foi o que a doutora falou, antes de que eu fosse arrastado para o consultório...
Naquela clínica abafada e fria, o tempo passou, de tempos em tempos eu podia beber a água por um canudo, tinha que erguer um pouco minha cabeça para alcançar ele, mas nem posso reclamar.
E assim...
Pouco a pouco, meus músculos pareciam serem soltos, as travas neles sumiam por minuto até que conseguisse os mover novamente, diferente do que imaginei, como ele disse, nenhum antidoto ou remédio foi necessário, ele só sumiu por conta própria.
Finalmente me ergui novamente, o efeito sumiu, mas só sobrava uma pessoa na clínica:
—Doutora! Realmente, quem era aquele homem?
—Certamente não é muito simpático, imagino que ao menos isso você notou na primeira vista.
—...?
—Não imagine que sei muito mais que você, ele parece ter algumas motivações que não planejo em colaborar e foi meu paciente quando trabalhava em outro hospital, um tanto longe daqui, na Inglaterra, sendo especifica.
—E o que você tem de tão importante? Eu encontrei algumas pessoas ligadas e ele e... não queria ter as encontrado...
—Técnico demais, poderia, poderia explicar, mas você não entenderia.
—Oh, sobre...
Contudo, antes da minha frase terminar, ela girou um pouco a cadeira, acabou batendo a prancheta com força na mesa para a parar, então, pondo uma perna sobre a outra, ela falou:
—Agora... recomendo que ao menos pense antes de enfrentar um desses criminosos, não consigo me importar de você ter interrompido a consulta, nem tenho intenção de pedir para uma criança me proteger, faça como quiser, só tenha cuidado, cuidado, da mesma forma que não permito o uso daqueles remédios sem cuidado, gostaria de prescrever mais cuidado seu, não que possa lhe forçar, sendo isso fora da minha especialidade, talvez seja só o conselho de um adulto... o que acaba não combinando comigo...
—Ok...
—Deixarei por isso, talvez avisar ao Nacrit o que houve funcione para você, ele sabe bastante coisa, talvez, talvez... ele reconheça esse Yamada.
“Não acho que um nome falso vai me levar tão longe, mas... vou pensar em outra coisa”
—Obrigado pela ajuda, doutora, você não precisa de mais nada?
—É muito bom perguntar, porém não precisa me ajudar em nada, nada. Só fiz o que precisava, segundo meu juramento, já expliquei a você sobre ele, poderia o fazer outra vez, posso?
—Na verdade... realmente queria perguntar, qual era aquela última parte do juramento? A sobre o que acontece se você quebrar ele...
—O que foi, Jack? Não vai me dizer que vai me seguir e virar um médico, não posso te impedir também e... não que seja bem uma ideia ruim, mas você, você mesmo não diz que esse tipo de trabalho é demais para você?
—Ah... é que... é para ajudar num trabalho... da escola...
“Foi a melhor coisa que eu consegui pensar? Isso não soou convincente”
—Tem certeza?... Não gosto da ideia de você estar mentindo logo, logo agora...
“Não! A pose dela mudou, ela deixou de cruzar as pernas e está com os olhos cerrados”
—É, não, não deve ser algo da escola, você não pensaria nisso logo agora e... se não foi... deixa eu adivinhar, você queria realmente então... foi por causa...
—Perdão, doutora!
—É algo com aquela garota! Sei que ela vai estudar para isso. Você está pensando em segui-la ou o que? Ou só pensou nela agora e não quis admiti? Não diria que é algo que vai lhe levar a lugar algum, mas pelo o que ouvi, ouvi... também... será que posso o criticar assim?
“O que... ela fez essa conexão? Fantástico! Escapei dessa”
—Ah... não, não. Já estava prestes a tentar dar outro conselho, isso está acontecendo demais, por que tantas vezes? Não é como se tivesse algum talento para isso. E você não precisa, seja por habilidade ou por sorte... parece estar se virando com tudo que acontece sem aperreios...
Enquanto ela estava distraída...
—Doutora, lembrei de ter prometido ir me encontrar com a banda hoje, esse veneno me fez perder muito tempo e não posso me atrasar...
Enquanto ela resmungava, eu passei pelos cantos da sala e atravessei as portas. Por sorte, daquela vez, consegui evitar de criar um possível conflito.
“Preciso falar disso com os outros o mais rápido possível”
No mesmo dia, fomos todos juntos para o esconderijo, já era em torno das sete, dessa vez, o grupo inteiro se reuniu.
—E é isso que sei daquele homem até agora, o que vocês acham?
Terminei minha explicação e como de costume, pela ordem numérica, as opiniões foram dadas.
—Pour sûr é um inimigo bem perigoso, talvez possamos fazer algo se conseguirmos manter distância, mas isso soa tão óbvio...
—Ele não tem escrúpulos, odeio persoas* digo, pessoas que administram venenos mais que tudo.
—Devemos nos preparar.
—Hara! Hara! Hara! É hora de preparar uma emboscada! Vamos derrotar o vilão!
—Une... esse personagem é... essa interjeição... não importa. Vamos voltar ao assunto, o ponto é, agora vocês têm ao menos uma ideia de como ele parece e o que ele faz, se o encontrarem... acho que é melhor fugir, mesmo você, Roi.
—Da última vez foi um ataque pelas costas. Foi uma emboscada
—Não consigo imaginar outra maneira que você possa ter sido derrotada tão rápido, mas ainda assim. Disseram que ele podia ser quase tão perigoso quanto a capitã, eu a enfrentei um a um e não quero o fazer nunca mais, é insano, ainda mais se ela estiver com a...
—Sourukatta.
“O que...? Quem falou isso?”
—Jack? Sourukatta, foi o nome que você inventou? Ela deu um nome para a espada?
Olhei ao meu redor.
Fora meus amigos, não tinha mais ninguém.
—Tem mais alguém aqui...?
—...?
—Espere...! Meu radar pode ver isso!
A Une puxou um outro dispositivo do bolso, dessa vez parecia uma tomada colada num copo de asa, vermelho, de plástico.
Ouvi um barulho soar algumas vezes, então ela entregou o que aquilo significava.
—Não! De jeito nenhum, ninguém além de nós entrou nesse esconderijo desde que instalei esse radar.
—Deve ter sido minha imaginação... então, de qualquer forma, eu vou avisar a um cara que conheço sobre o trapaceiro poder visitar a cidade, ele deve tomar providências e depois disso duvido que iremos continuar em perigo. Ao menos nessa cidade.
—Aquele homem?... O...
—Sim, aquele cara suspeito de cabelo espetado.
Acabei cortando a frase da Roi ao meio, não era normal que ela fosse além de uma sentença...
—Cheque*, o que o instituto está dizendo? Você foi visitar aquele membro deles, o 01, non? O que ele disse?
—Por enquanto nada, eles não pediram mais nada, eu prefiro deixar assim por um tempo, vamos tentar respirar...
—Hara, hara... a reunião já vai acabar?
—Sim... se quiserem, podem ir, mas não precisam, eu sempre durmo aqui nos domingos, então vou fazer isso hoje, Ritte, você também?
—...! Sim, claro. Franziska, você pode voltar sozinha para casa?
—Posso ir com ela.
Roi se ofereceu então, escoltaria a Queen e a Une de volta para casa, as três se despediram e nos deixaram sozinhos na caverna.
—Jack... esse seu sinal de apontar para as presas quando tem algo para conversar não é meio esquisito? Parece mais uma ameaça...
—Se você consegue lembrar, é bom. E agora vai ser importante, eu preciso falar de mais uma coisa, algo que não cheguei a contar para os outros sobre aquele homem... é temporário, vou contar tudo ainda nessa semana, mas preferi que você ouvisse primeiro.
—Hein... o que é?
—A minha mãe... ele sabe alguma coisa. Não posso sequer especular o que, por que, nem como, porém, não vi um sinal sequer de uma mentira vindo das palavras dele, não naquele momento e apenas naquele instante...
Prometi que não haveria mais segredos, assim o fiz.
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