Capítulo 12

Força em Números

Dia 6 de junho.

Pode parecer estranho tanto tempo haver passado, mas há uma boa explicação para isso.

Antes de tudo, depois de ter a conversa com o Ritte, no espaço de tempo até agora, todos os outros membros da banda já souberam disso, de uma forma ou outra.

O instituto manteve um silêncio agradável também, enquanto sobre o trapaceiro...

Ele ainda não veio, pois avisei ao Nacrit, imagino, porém eu sei que ele não pode manter esse estado de vigilância absoluta para sempre.

—É, Jack, não posso te culpar, considerando ainda o quanto você está me ajudando, mas isso tudo está causando um desequilíbrio na cidade... o ideal seria a restaurar para o estado original assim que possível, na verdade, seria melhor que isso nem tivesse acontecido. Apenas posso agradecer que os danos ainda não sejam irreparáveis.

Por mais que a cidade esteja a um triz de cair em caos, por agora, ela senta na beira do abismo, tudo continuará normal, mas assim que cairmos... a mudança será rápida, abrupta e inegável.

Fora isso, pensando em outras situações que estão se desenvolvendo.

Tanto na noite que voltei para a cidade, quanto no dia seguinte, o mistério de uma silhueta dançando sobre o sino se espalhou pela cidade, contudo, a cidade não parece ter recebido mais visitas desde então.

—Ignorar um problema não o fará sumir, ele apenas vai piorar até que comece a machucar as pessoas ao seu redor. Não é verdade?

Foi uma das coisas que o Nacrit disse sem muito motivo, parece ter vindo do nada, mas ao pensar no que está acontecendo agora... acho que é exatamente isso.

“Coisas terríveis estão acontecendo enquanto eu continuo vivendo a vida de um estudante comum como se não fosse comigo, pensando que nada aconteceu porque eu estava lá, mas...”

Naquele dia em especifico, uma chuva torrencial caiu pela cidade desde a noite até a manhã, não havia questão, nenhuma loja abriu, muito menos haveria aulas no dia.

Por isso pensei em tentar me jogar de um lado para o outro do quarto e dormir, mas não consegui fechar ambos os olhos ao mesmo tempo desde as 6.

Então, me deixei só a encarar a janela e apreciar a paisagem, talvez um céu azul me desperte otimismo e me encha de vontade para só fazer coisas, agir sem pensar e viver perigosamente, que condiz mais comigo, mas ainda podia ver a beleza das nuvens escuras e do tom quase uniforme de cinza cobrindo toda a cidade, através de uma janela embaçada por água da chuva.

“Isso pode ficar chato depois de um tempo”

Porém, por mais um tempo, não fiz mais que olha através da janela...

Já era em torno de 10 e a chuva não parecia parar.

Uma música veio de longe, de outro canto do quarto. Meu telefone estava tocando, era uma ligação.

Atendi ao ver que era o Ritte.

—Ei, Ritte, o que houve para você me ligar? Esse telefone não tinha quebrado ou algo assim?

—Foi a Une quem consertou. Mas não te liguei para dar essa notícia, dessa vez fui eu que resolvi te ligar para falar sobre o que recuperamos na invasão, aqueles livros.

—Sim... achou algo legal neles?

—Non, non. Talvez o instituto pudesse ver uma conexão desses livros científicos com algo bizarro que eles possam estar inventando. As teorias dos livros são todas fora da curva demais e tem algumas formulas que nem mesmo o Louis pode explicar.

—Nem ele?... Isso é algum tipo de ciência maligna ou algo assim então? Lembro de algo assim que o instituto falou... era sobre...

—Bien sûr! Os últimos inimigos deles faziam pesquisas em segredo, coisas que poderiam de desequilibrar a ordem do nosso mundo. Mais aussi...

—Pelo o que disseram, a capitã deles não parece ter aptidão alguma com ciência, mesmo se tivesse, o interesse dela é nulo em fazer o mesmo que o último rival do instituto. Seja lá qual seja o plano, é algo bem diferente dessa vez.

—Sua memória está um pouco melhor que o normal, o que aconteceu?

—Estava focado... não acho que vou lembrar disso por mais tanto tempo, no entanto, então anote isso em algum lugar para não esquecer.

—Estava... purr* chance... lendo uma HQ então?

—Não, nada disso. Nem tenho nada assim aqui, digo, fora umas velhas que o meu pai deixa guardadas, mas me parecem tão frágeis que nem tento tocar.

—Podia chamar a Margaret para ver, ela é uma entusiasta desse tipo de coisa. Non?

—Quem?... Ritte? Que Margaret você está falando? Não conheço nenhuma garota com esse nome, mesmo se conhecesse, eu teria certeza de não olhar direto nos olhos dourados, ou no vestido azul que ela usar!

—Isso é cuidado até demais, eu falo esse nome dela só quando sei que ela não vai ouvir, não quero morrer tão cedo assim.

—Mas Ritte! E se ela estivesse aqui do meu lado?! Como você pode ter feito uma aposta dessas sem nada a ganhar!?

—E por que você está em pânico só purisso?! Só agora decidiu reclamar por quê!?

—Hum...? Não te contei, Ritte?

—Err... sobre o que...?

—Imaginei que soubesse porque nós dois estamos indo para aquela sala vazia todo dia depois da escola... isso soou ruim, alias?

—Ainda bem que você notou. Diz logo o que é de verdade antes que seja tarde demais.

—Estamos praticando luta com armas brancas, não sei se você lembra, mas a Roi na verdade sabe lutar muito bem, parece um guerreiro de algum filme, especialmente porque ela sempre usa a mesma arma.

Je comprends. Eu lembro sim, eu na verdade assisti quando vocês lutaram pela primeira vez.

Parei de andar em círculos pelo quarto, uma imagem se projetou na minha frente por um instante. Devia fazer mais de um ano que aconteceu.

—É...? Eu realmente achei que você tinha perdido essa parte, apesar que isso foi a tanto tempo, já devo estar esquecendo esses detalhes.

—Foi realmente stupéfiant aquilo, eu nunca vi você lutar daquele jeito de novo.

—Sim, agora voltamos a isso para treinar, apesar de usar armas não fazer o meu estilo, esse treino está valendo bastante...

“Ainda assim, qualquer treino pode aumentar meus reflexos e precisão, duas coisas que preciso bastante, depois de ter perdido tantas vezes contra a capitã e o trapaceiro, é fato que minha constituição apenas não vai me levar tão longe”

—Hum, acho que issé* tudo que precisamos falar, ou tem mais alguma coisa?

—Não... digo, tem. Quase esqueci de perguntar sobre a Franziska, deve está tudo certo, mas se eu não perguntasse ia perder muitos pontos.

—Pode ter certeza que eu vou deixar ela saber da sua preocupação. Era meu plano falar mesmo que você esquecesse, porém isso certamente tira um peso dos meus ombros.

—Isso é quase... ah, tanto faz. Eu não tenho que saber tanto, qualquer coisa, provavelmente vou estar no esconderijo depois que a chuva passar.

—Caso precise de ajuda então, já sei onde procurar. Au revoir.

—Pode crer, isso ai que você disse.

Eu mesmo tomei a liberdade de desligar o telefone.

“Não... agora já não quero mais ficar olhando para janela, preciso de outra ideia”

A casa estava vazia, o crime não dorme, nem a polícia.

Portanto...

Minha guitarra estava ali também, normalmente deixo no esconderijo por fazermos os ensaios por lá, mas a trouxe no dia anterior por nenhuma razão em particular, percebi que estava comigo enquanto caminhava pela floresta e decidi não voltar.

“Espera... se aquele trapaceiro realmente conheceu ela, então...”

Pois como foi concluído pelas discussões, talvez o que o trapaceiro saiba possa ser bastante útil, ao menos para o instituto. Com todo o tempo para pensar que tive, preciso dizer que ao mínimo eles são rivais dos meus inimigos. E são rivais com bem mais experiência do que nós.

—Como o Nacrit disse, não posso esperar que os corsários nos ignorem, eles precisam ser derrotados, precisam entender que não adianta vir até essa cidade a menos que seja para encontrarem com uma chance de vitória nula.

O que não foi o caso, até agora eu tive uma vitória, mas por muitíssimo pouco e apenas consegui com a ajuda do instituto, enquanto com o trapaceiro, parece justo deixar aquilo só como um empate. É fato que o ideal para mim seria chutar aquele idiota e jogá-lo numa cela, mas o objetivo dele também não foi concluído e ele sumiu sem deixar rastros.

Como exatamente nos posicionaremos sobre os enfrentar ainda não é claro, o tempo terá que dizer a formação ideal ainda.

Após encarar a guitarra vermelha por tanto tempo, resolvi fazer alguns sons com ela, acabei praticando alguns truques que nunca havia tentado, mas combinavam bastante com a próxima música que íamos fazer.

“Seria bem justo algo sobre o tempo. Presente, futuro e... o passado”

Guardei esses pensamentos para quando pudesse ter alguém a fim de ouvi-los, o passado é apenas isso, durante toda minha vida a única coisa que fazia era o ignorar, pôr-o dentre as camadas de memorias, lentamente morrendo por conta própria, mas agora... essas eram como memorias nem mortas, mas também não vivas. Exatamente como um ser sobrenatural, um morto-vivo. Algo como um zumbi, um lich ou ainda... um vampiro...

Naquele dia, naquela hora, eu nunca pensei que toda minha alma iria eventualmente ser a de um, que em três dias, eu também, assim como essas memorias, não poderia dizer estar nem vivo, nem morto.

Durante o resto do dia a chuva parecia não dar trégua, imaginei que ela só pararia a noite, depois de treinar suficiente com a guitarra, peguei uma régua que comprei para usar na escola, mas sempre esquecia em casa para treinar um pouco.

“Não é tão pesado quanto aquelas espadas, mas para mim acho que essa diferença é insignificante”

Tentei imaginar oponentes invisíveis por horas, planejei encontrar a Roi no dia seguinte e mostrar que fiquei melhor mesmo sem ela precisar me golpear 10 vezes em cada bochecha.

Eventualmente até eu me cansei daquilo, com um resto de forças, cai de joelhos com só metade do meu corpo na cama.

Acordei no dia seguinte com... um raio, então um trovão foi ouvido.

Meu corpo pulou de forma que a primeira coisa que encarei ao acordar naquela manhã, assim como no dia 6...

Dia 7 de junho.

Chuva. Ainda estava chovendo.

Pelo o que me disseram não há risco de inundação, simplesmente pela geografia da cidade que só faria a água se espalhar pelas florestas e montanhas, mas ainda assim...

Parecia até ridículo uma chuva durar tanto, mas não era o fim...

Dia 8 de junho.

A chuva ainda não havia parado, o Ritte me disse com todas as palavras que aquilo não era algo normal, não fazia nem tanto sentido uma chuva dessas naquela época do ano, deveria haver ao menos alguma pista disso antes, mas nada do tipo veio, só parecia que aquela chuva insistia em não parar.

Mais, agora havia notado o quão forte estava o vento, as gotas pareciam se direcionar na janela como balas, o barulho sequer me deixou voltar a dormir, mais que isso, até imaginei se não seria suficiente para quebrar o vidro.

“Uma coisa depois da outra, nós não temos um minuto para descansar... isso deve ser algo a mais, talvez um plano dos corsários, ou simplesmente o efeito colateral de algo que eles fizeram. Sinto a mão deles sobre isso...”

Estava claro o perigo que a cidade corria, não havia chance de que eu ficasse parado por muito mais tempo.

Me cobri com um sobretudo velho, com uma cor verde e vocação pútrida, para visitar o único homem que podia me ajudar numa situação dessas.

A água estava empurrando minha bicicleta sempre contra a direção que seguia, era como remar um barco contra a maré, só podia conseguir com enorme persistência.

O vento dobrava a chuva e ela parecia sempre cair nos meus olhos, não podia ver por várias seções do caminho, chegou a um ponto que depois de mais uma queda, o impacto na água molhando minhas costas e a força da “maré” pela rua quase me levou de volta à casa.

Mas resisti, deixei a minha bicicleta encostada na casa logo ao lado, a corrente havia se soltado, seria um problema fácil de resolver, mas não naquele dia.

O resto do caminho, a passos lentos, insignificantes, mas intermináveis, indo contra o vento e as balas d’agua, segui até a loja de fachada, lá, encontrei Imen Nacrit novamente, novamente ele estava sentado em meio ao “castelo” que ele construiu.

Contei a ele das minhas suspeitas. Sobre o tipo de ciência louca que os corsários poderiam ter conhecimento.

—A sua história é muito boa. Nem aguento esperar para ver o próximo desenvolvimento, era só isso que precisava dizer?

—Nacrit, você não vai fazer nada sobre isso?

—E o que espera que eu faça? Melhor, espera algo sequer? Não parece que você tenha entendido totalmente essa história. As vezes a ameaça é algo intangível, você não pode resolver todos os seus problemas com socos e chutes.

—Como assim? Você não faz sentido as vezes.

—Já ouviu falar de culto à carga? É um tipo de fenômeno interessante, um exemplo que sempre lembro, aconteceu a mais ou menos um século, durante a grande guerra, quando observou-se como povos de ilhas isoladas criavam cultos em torno dos aviões e outras tecnologias usadas pelos soldados. Você está aprendendo como foi, não é?

Ele estava fazendo alguns movimentos rápidos com as mãos, eu acho que ele estava desenhando no ar para ilustrar algo, mas eu não entendi o que ele quis passar...

—Não exatamente, mas lembro que alguns países pousavam em ilhas isoladas e faziam pequenas bases, acho que para poderem reabastecer os aviões de gasolina ou para que os soldados dormissem, algo assim?

—Precisamente, então depois de que eles saíram, algumas vezes foi observado como alguns cultos se formavam em torno daquele período curto de ocupação, pistas de pouso foram construídas com palha, imitações das torres de rádio com madeira também, o objetivo era que os aviões pousassem novamente. Isso não é nenhum tipo de ficção, foi algo absolutamente real, entende o que digo?

Agora sorrindo e jogando o corpo para trás, como se aquela explicação tivesse esclarecido tudo, ele deixou de gesticular.

—O que você quer fizer com tudo isso? Tem algo com o problema da chuva?

—Sem dúvidas. Nada nasce com significado, nós somos os agentes que dão significado a tudo ao nosso redor, se algo merece ou não o significado que recebe é meramente subjetivo. Siga as placas e você vai poder resolver esse problema sem a minha ajuda.

—Mas você não disse nada útil, fal...

Enquanto falava, o telefone tocou, do meu bolso vinha uma música dos anos 90 bem gótica.

—Não deixe ela esperar.

Sem dar atenção ao que Nacrit falou, eu puxei meu telefone e atendi a ligação.

—Jack?

—Sim, Une? É você, não é?

—Pois sim, senti um desbalanceamento na força, como uma fonte de energia se movendo pelos campos nevados, após dias sem...

—Ah... até esqueci que você sabe quando eu saio de casa e para onde eu vou... estou falando com o Nacrit, não planejo apresentar você a ele tão cedo, contudo... é um homem esperto, de certa forma, ele pode nos ajudar no problema dessa chuva, só tenho de convencê-lo.

—Mas não é disso que venho falar, sinto uma presença maligna próxima, nos seus arredores, na rua ao sul, um grupo misterioso, caminhando pela chuva...

“Será que realmente...? São eles?...”

—Une, eu vou atrás deles, a sua casa é perto de onde eu estou?

—A mais perto dentre os outros membros da banda, incluindo você mesmo.

—Certo. Daqui a pouco apareço por aí, se prepare para qualquer coisa, eu não faço ideia do que os corsários mais loucos são capazes.

—Em posição. Tenha cuidado.

Desliguei o telefone e fui em direção para o lado de fora da loja.

—Ei, Jack, siga as placas e pense com cuidado em quem você pode enfrentar, das últimas vezes, tentar encarar esses corsários diretamente não deu muito certo. Não posso te resgatar sempre também.

Foi a última dica que Nacrit me deu antes que encontrasse os corsários.

Consegui fazer como uma emboscada, eu tinha a vantagem de poder observá-los sem ser visto, mas logo seria pego se abusasse da minha sorte.

“Então melhor ir um pouco mais longe com ela...”

Cinco corsários no total, eles estavam todos juntos e... com roupas ridículas. Pareciam um grupo de aventureiros de uma fantasia medieval, tinha um com manto preto e chapéu pontudo, outra de uma roupa de pelo de animais e alguns adornos de metal lustroso.

Mais um parecia um cavaleiro de verdade, com uma armadura medieval, espada e escudo, porém ele não portava um elmo, ao que parecia. Mais um estava coberto por um manto negro, o último deles tinha um arco e flecha nas costas e algo como uma armadura de couro.

“Os corsários realmente estariam vestidos desse jeito? Eles são estupidos ou o que?... Espero que consiga algo com eles”

Andei até o meio da rua e interrompi o caminho deles. O grupo parou a vinte pés de se encontrar comigo.

“E normalmente iria atacar primeiro e perguntar depois, mas dessa vez... considerando como atacar foi inefetivo da última vez... acho que posso tentar conversar antes”

—Não está chovendo muito para vocês estarem andando pela rua assim? Sem nenhum guarda-chuva?

De todos eles, o cavaleiro de armadura, espada e escudo deu um passo à frente, conforme ele andava, parecia que a chuva retrocedia e o vento ficou mais forte.

“Não tenho nem chance... eu quero muito zombar dessa armadura dele, mas vai ser um problema se precisar lutar. Um soco no rosto ainda vai dar bem certo, mas nunca que meus punhos vão atravessar aquilo! É puro metal! ”

—Você!... Parece...! Alguém...!

—É um fã? Eu gostaria bastante que esse fosse o caso, mas sempre achei que o tema da nossa banda não envolvesse esse tipo de fantasia, armaduras são pesadas, sabe? Nem sei como você consegue andar numa dessas.

—O...! Demônio!... Foi...! Encontrado...!

—Demônio...? Por que vocês também precisam usar essas palavras? Na verdade, o que vocês estão fazendo?

O cavaleiro lentamente aproximou a mão da espada.

—Não acho que seja uma boa ideia. Essa é a minha cidade. Nenhum corsário chegou perto de me matar quando ataquei aquele esconderijo sozinho... se ousar sujar minha casa de sangue, garanto que nenhum dos seus colegas sairá impune.

Antes que ele alcançasse a bainha, o que usava o manto se interpôs e sussurrou algo numa língua que não fez sentido para mim, depois o cavaleiro parou.

“Parece que o Ritte estava certo... ele me disse que a minha melhor aposta contra um corsário era blefes e intimidação, parece que funcionou”

—Essa chuva é culpa de vocês? O que estão fazendo aqui?

—A chuva não é um feito de homens, mas de alguém além. Nós estamos procurando ele. A chuva interminável marca sua presença por essas terras.

Foi o que o homem de capuz falou.

—Bem, temo que vocês precisam sair daqui o mais breve que possível. São meus inimigos, mas não quero matar ninguém. Peguem suas coisas e sumam, não pretendo atrapalhar seja lá o que vocês fazem, desde que estejam a uns mil quilômetros de mim, será suficiente.

—Temo...! Que...! Seja...! Impossível...!

—Pois sim, os sinais do grande estão sobre nós, não desejamos mal a cidade, partiremos quando entramos em contato com as pistas que foram deixadas.

“Eles são mesmo corsários? Que baboseiras eles estão falando? Talvez tenham enlouquecido pela forma que são tratados... a capitã deles é apavorante mesmo...”

Foi essa a verdade que aceitei para eles. Apenas loucos, alguns corsários que tiveram seus espíritos quebrados de vez por causa da capitã deles.

—Então... parece que não há meio termo para nenhum de nós. Esse é o ultimato, peguem suas coisas, saiam e nunca mais voltem, ou sofram as consequências.

Falando isso, o vento soprou com toda sua força contra os corsários, levantando a água e cortando a visão que tinha deles por um instante.

Assim que o vento passou, a chuva ia começar a perder força, e apenas dois deles sobraram, ambos que haviam se pronunciado até agora.

“O Ritte acertou em cheio, consegui assustar alguns deles, mas... logo esse gigante não foi embora... como posso atacar alguém assim?... Talvez se...”

—Os...! Covardes!... Vão...! Os...! Fortes...! Irão...! Lhe!... Executar!...

E antes de esperar a reação do colega, o cavaleiro enfim tirou sua espada da bainha.

Por causa do treino que tive até agora, pela forma que ele portava a arma, tive um entendimento maior de como ele iria atacar.

“Essa pose é o mais próximo de puro ataque que eu já vi, ele espera que aquela armadura seja mais que o suficiente para o proteger, se tentar mirar no rosto poderia até conseguir algo, mas com aquele outro homem...”

—Antes que você comece a atacar... admito que a forma que você decidiu lutar é admirável, não tenho chance de vencer... e, portanto,...

“Usando aquela armadura... ele não vai poder correr muito! ”

Dei as costas para aqueles dois e me coordenei para correr o mais rápido que eu podia.

—Volte!...

—Ah! AH! Ah! AH!

Foi a melhor ideia que consegui, iria ter de correr contra a corrente o quão rápido podia e esperar que os dois cansassem de me perseguir.

Ainda bem que correr sem parar era minha especialidade, só aquilo nem era um incomodo, acelerava mais, quando notava que podia ir mais rápido, ia um pouco mais veloz...

Com uma das mãos, segurava e apertava teclas, mas antes disso, foi uma ligação que me veio.

—Jack?! O que houve? Você passou por um quarteirão em alguns segundos? Isso é um erro?!

—Não! Eu não consegui espantar todos eles! Conhecendo o Nacrit, os três que fugiram já devem estar numa jaula, mas tem dois que...!

Lá estava ele, ainda atrás de mim, o cavaleiro arrancava peças da sua armadura e as jogava pelo chão como lixo, de alguma forma ele ainda estava na minha cola, mesmo que tivesse imaginado já o ter despistado a tempo.

Logo ao lado, o homem de capuz também corria, os dois quase no mesmo ritmo da chuva, tinham harmonia com o clima, não lutavam contra ele, ao que parecia.

Em breve o cavaleiro só tinha suas botas de metal, elas batiam com força simétrica sobre a água, que então se dividiam para todos os lados igualmente, equilibradamente.

—Une! Eu preciso de uma ideia para capturar dois corsários, estou indo para sua rua, você precisa preparar algo, e rápido!

—O que?!

—Algo! Uma armadilha, qualquer coisa!

Realidade

Uma Guerreira Sem Armas

—Jack! Isso não faz sentido...!

Gritar não ia mudar mais nada, ele já havia desligado, mas pelo radar, ainda estava correndo em direção à minha rua.

“Até lá devo ter no máximo 3 minutos...”

No começo não tinha ideia alguma de o que faria, especialmente porque o idiota faz questão de não me dar sequer uma dica, o que tinha apenas foi um vislumbre de pessoas estranhas em meio a chuva. Mas...

Foi algo um pouco esquisito, aconteceu sem explicação, porém foi a chave para salvar a vida dele.

Um gato preto apareceu, ele atravessou a porta como se fosse da casa, mas... não havia gato algum lá, não devia.

—O que está fazendo...?

Ele fingiu não notar minha fala, continuou andando, atravessou o quarto e levou meu olhar até a janela, onde...

—Você realmente vai deixar o que lhe pertence ser perdido? Depois de roubado, talvez uma invenção possa ser refeita, um objeto, recuperado, mas quando ele morrer, não vai haver nada que possa traze-lo de volta. Nem mesmo vossa genialidade poderia fazer este milagre.

Naquela janela, flutuando poucos centímetros além, uma mulher, mas com algo... errado, não, só algo não, a pele era num tom vagamente vermelho, dentre os cabelos de cinzas, dois chifres lentamente se erguiam, através dela, na mesma cor da pele, uma coisa esguia e de ponta afiada, ia de um lado ao outro, acompanhando a língua enorme, como a cauda daquele gato.

—O que foi? Há algo de estranho em mim? É uma visão anormal? Mesmo que esteja apenas olhando para si mesma?

Ela então ajeitou os óculos, de propósito, chamando atenção a eles descaradamente.

—Vamos, seu amigo está em perigo, sabe o quão burro ele pode ser também, sem alguém incrível como você, não há chance de ele sair vivo. Por isso... vá, use tudo que você tem. Eu sou você, você é como eu, nós duas puniremos os vilões e manteremos tudo que nos pertence.

Abri meus olhos, estava no mesmo segundo, no mesmo lugar, agora não havia mais nenhuma conclusão que precisasse tomar.

Tinha um projeto em produção na mesa próxima, nem lembro mais o que era, porém peguei todos os fios e baterias que havia lá, olhei para a janela, através dela, a chuva que já durava por dias.

Se estava certa, a chuva trouxe os corsários, então, seria também ela quem os mandaria de volta para casa.

Enquanto planejava como salvar a vida dele...:

“Une!... Por favor...! Se tem um dia que você não pode falhar, é hoje!...”

Já havia alcançado a casa dela, via no horizonte, se aproximando velozmente, mas só podia confiar, a Une era a única pessoa que podia me salvar naquele momento.

E quando tinha alcançado a casa...

“Demorou, mas acho que não é porque o dia está sem sol que podia correr para sempre”

Colapsei antes de chegar na calçada. Meu corpo bateu contra a água, minhas roupas estavam encharcadas e meu rosto havia submergido.

Entre espasmos eu consegui tirar ele da água, olhar para trás, onde aqueles dois estavam.

Tinha ganhado bastante distância, mas... não era suficiente, eles não me perderam e ainda não haviam desistido. A chuva não ia acabar tão mais cedo e nem a determinação deles.

—O...! Demônio!... Foi...! Achado...! Será...! Executado!...

Apesar de arrancar quase toda a armadura, ele não deixou a espada cair, agora ela estava apontada na minha direção.

Se podia morrer ali, pensei, ao menos iria ter esperança até o fim.

Cuspi na bota de ferro do cavaleiro, com um último esforço, apoiei as mãos na calçada, pôs então os joelhos, consegui me levantar, mesmo que estivesse prestes a cair novamente, aquela crise não tinha terminado.

Ainda assim, com o que me sobrava, lembrando do único recurso que agora podia me salvar, sorte, falei ao cavaleiro.

—Sua justiça é deturpada. Você já perdeu sua sanidade, me dá até pena de pôr fim em uma existência miserável como a sua, porém... isso já seria um tipo de piedade.

—Insolência...! Será...! Paga...! Com...! Sangue!...

Quando ele iria balançar a espada de um lado a outro para cortar minha cabeça enquanto manejava minhas forças para continuar em pé, senti algo ruir em mim.

Mas então, um segundo antes, ele havia começado o movimento.

Um guerreiro não iria errar aquele ataque apenas porque tentei desviar, qualquer lutador decente, até mesmo um delinquente como eu imaginaria como alguém tentaria desviar só de olhar, mas naquele momento, não tinha como pensar tanto, nem organizei a ideia para desviar.

Portanto, quando cai, sem minha vontade, contra minha vontade, não havia como prever isso.

A espada foi de um lado ao outro enquanto caia de costas, sem tocar em mim.

O som da água batendo nas minhas costas, junto do som de alumínio, mais algo como um pó brilhante, parecido com sal, caindo do céu. Acima de tudo, a voz mais imponente que ouvia em bastante tempo.

—Não sem minha permissão!

“Une...? O que são esses óculos?...”

Sentada num poste de luz, com um par de óculos novo, ela falou para os dois corsários a minha frente aquilo.

—Ousem pôr um dedo no meu... aliado! E vocês verão o verdadeiro inferno!

“Essa pausa?... O que ela ia dizer?...”

—Aliada...! Do...! Demônio...!

—Valete, agora estão te chamando assim? Esses dois não fazem ideia de o que mal de verdade, mas bem... se preparem!

Ela então jogou um monte de porcarias no ar, sabia que aquilo era um plano dela, mas... até o último segundo, não fazia ideia do que podia ser.

Bem, até ver os estalos de eletricidade vindo daquilo.

—Pilhas!?

Elas e vários fios pousaram na água e...

AHHHH!!!! GGGAHHHH!!! YYAAHHHHH!!!!

Uma corrente elétrica que nem pensei possível atravessou todo o meu corpo, meus nervos, todos eles queimaram, meu corpo tremeu e me jogava de um lado ao outro sem controle, a dor, aquela dor que quase fez o meu coração parar, nem mesmo o corte que a capitã fez conseguiriam replicar isso.

UNEEEEEEE!!!

Não pude entender, mas aquilo era parte do seu plano, um que envolvia queimar meus nervos e passar perto de me matar. Como uma consequência, me deixar rolando de um lado ao outro num asfalto encharcado, jogando meu corpo sem parar tentando parar o que não dependia de mim.

Assim que aquilo parou, do chão, olhei para onde antes havia meus inimigos.

Os dois estavam no chão, caídos e definitivamente inconscientes.

Me levantei e tive certeza após checar o pulso deles.

“Vivos... nem consigo acreditar, acho que eles não eram fracotes mesmo”

—Ei, Valete, o que fazemos com esses dois?

Olhei para trás, entre gotas de chuva, com o cabelo sendo jogado aos ares pelo vento e com pés sobre o muro da casa.

—Err... esse choque deve ter sido suficiente, não é?

Nem queria pensar em precisar fazer mais algo, eu havia cansado depois de correr tanto naquela chuva, minhas roupas estavam sujas, meu cabelo, encharcado e caindo no meu rosto, claro, aquele ultimo choque que me fez desejar a morte.

—Minha hipótese é que seria meramente mais fraco que o necessário para matar alguém, não achei valido arriscar os dois continuarem de pé depois do meu único truque.

—Une...? Como você fez isso? Essa bateria é tão potente assim? Mesmo sendo tão pequena?

—Não exatamente, o químico que joguei sobre vocês, quando junto da água, deixa ela extremamente inclinada a conduzir grandes voltagens, você não prestou atenção na última aula de química?

Ela também, agora tinha as roupas e os cabelos encharcados, mas não só parecia pouco incomodada, ela tinha a postura bem forte, estando em cima do muro até parecia mais alta que eu, uma aura de confiança que nunca vi vindo da Une havia surgido.

—Química...? Acho que estava conversando com outra pessoa nesse dia...

—Imaginei... entre, seu trabalho acabou, não precisa tomar mais chuva.

Após derrotar ambos corsários num único truque certeiro, um que dependia de minha constituição sobrenatural para funcionar. Acima de tudo, um dependendo de uma superação da Une, nós dois corremos para casa.

Depois de retirar meu casaco encharcado, enquanto a Une estava espremendo o vestido, não tão encharcado assim, me lembrei de uma pergunta surgida no momento que ela veio me salvar.

—Une... o que são esses óculos? Você sempre usou ou...

—Para dizer a verdade... usava lentes na maior parte do tempo, só que dessa vez, hoje... algo estranho aconteceu e senti que era hora de mudar isso, entende?

Sentamos na mesa. Para não pegar mais chuva, ela me deixou almoçar na casa dela.

—Algo estranho? Mais esquisito que aqueles corsários loucos? Aquele com a espada estava usando uma armadura medieval, não tem como o que você viu ter sido tão anormal.

—Certo... o que aconteceu foi mais ou menos assim...

“...”

—Huh?! HUH!?

—Pode ir além de interjeições? Jack?

—Você está tirando comigo Une...? É isso que parece.

—Claro que não! Isso é sério. Você acha que ia fazer uma piada agora?!

—Sem dúvidas. E um demônio na janela é muito diferente do que nós vimos até agora, aquele instituto sabem bastante sobre ciência, não é? Nada de ocultismo.

—Isso não tem nada com eles! Deve ser essa cidade. Tem algo muito esquisito por aqui, você não lembra da bailarina do sino? Você e sua sorte, tem muita coisa que nós ignoramos e poderia ser explicada por interferência sobrenatural!

—Você vai ficar nisso mesmo?... Eu não acredito em nada assim. Demônios e anjos não podem simplesmente vir para esse mundo, na terra só há espaço para humanos, sabe? Mortais. Você deve ter visto coisas, me soa plausível.

—Humpf! Eu vou provar isso também, inacreditável...

—Certo, certo, fique nisso e ocupe seu tempo, desde que você não cause um apocalipse.

—Não vou. Nem sou esse tipo de demônio.

Entendendo e não entendendo a última sentença, a ignorei e continuei comendo, não era uma refeição completa, mas depois de correr tanto e quase morrer. Fiquei sem vontade de reclamar.

—Mas como assim? Você tem algum problema de visão, Une?

—Sim, desde que me lembro tive que usar lentes corretivas, com o tempo só foi piorando também, hoje não consigo fazer nada sem lentes de contato, ou... um par de óculos, como agora.

—Por que alguém iria usar lentes alias? Essa coisa de enfiar algo no meu olho soa bem grotesca, não sou de ter medo de me machucar ou sentir dor, porém nenhuma constituição absurda pode fazer algo se eu deslizar um pouco e ficar cego.

—Costume, porque... como você acha que eles ficaram? Eu mesma modifiquei a armação.

Olhando bem... aquela cor era exatamente a mesma do cabelo dela, considerando o quão diferente era aquele tom, ia ser esquisito se fosse da loja assim.

—Eu devia ser sincero? Tenho medo da sua reação...

—Só vá logo, vou continuar usando eles agora independente do que você disser, só queria ouvir o que você achou.

—Eles te fazem parecer mais velha, digo... madura é melhor?

—...

—Tenta colocar um daqueles saltos de plataforma bem grandes e finge que vai ser a professora substituta, provavelmente vai funcionar.

—É assim que você conseguiu um encontro com a Franziska?

Ela disse isso e tomou um gole bem grande da água, eu acho que nem tinha tanta água assim naquele copo inclusive.

—Se você quer um elogio era só dizer, porque esses óculos me parecem com uma evolução, agora você tem um arquétipo de “pessoa esperta” muito bem definido, nada contra o Ritte, porém sempre espero que as pessoas desse tipo pareçam mais elegantes, maduras e... não sei outra palavra.

—Um pouco melhor, ainda não acho que esteja se esforçando.

—Por favor, não exija tanto assim de mim, meus limites são vários, incluindo esse.

—Não entendo isso, qual o seu problema?

—Ah... espera!...

Olhei em direção da janela, depois de dias consecutivos de chuva, após ela ter feito a cidade ser visitada por corsários...

“Está parando... só agora. Por que? Logo depois de tudo isso ter ocorrido, nem dá para acreditar... até parece planejado, conveniente demais”

—Une, melhor que eu vá. E não é porque estou fugindo das suas perguntas, nada disso. Tenho coisas importantes para fazer hoje, é apenas isso. Tenho que voltar para minha casa.

—Certo. Não estou te impedindo de sair, vampiros tem problemas para entrar em casas, não para sair delas.

E naquele momento... não entendi o significado que aquilo ganharia no futuro.

—Não faça essas piadas de mal gosto, minhas presas definitivamente não me tornam um vampiro, o que você viu hoje também pode não significar tanto. Até mais.

Quando pôs o pé para fora, já pensando em ir visitar a Franziska.

—Vou monitorar o seu caminho, só por precaução, tome cuidado, Jack.

“...”

O dia passou, quando cheguei em casa, vi que por algum milagre, meu telefone ainda funcionava, usei ele para avisar ao Ritte e aos outros sobre o que tinha acontecido, eles reagiram mais ou menos como esperava, após conversar um pouco, acabamos decidindo nos encontrar no esconderijo a noite, talvez até chamaríamos o instituto. Isso, claro, fui contra, contudo deixei essa negação para quando fosse hora de discutir.

Mais algumas horas passaram, até receber uma ligação.

—Pai, é você?

—Err... isso, Jack, tem comida na geladeira? Eu acho que cometi um erro de cálculo.

—Hum...?

Quando olhei pelas prateleiras, na geladeira e por toda a cozinha:

—Não tem nada, por quê?

—É, foi o que imaginei, esqueci de comprar mesmo. Jack, você pode pegar o dinheiro em cima da minha cama e ir comprar algo para o jantar, pode escolher o que quiser, outro dia eu faço compras de verdade. E pode gastar tudo também, deve ter umas duas notas de cem.

—Certo, certo. Não estava fazendo nada de qualquer forma, eu vou naquela loja de conveniência perto daqui.

—A que foi saqueada?

—Sim. Essa.

“Espera... não fomos nós que saqueamos essa loja? Então... hum...? ”

—Pode ser, mas vá e volte sem parar em lugar nenhum, acabei de interrogar alguns malucos, demos sorte de a mídia não ter pego eles antes, estavam desmaiados numa calçada qualquer com várias armas brancas e algum contrabando, apesar disso, nada do que falaram até agora fez sentido.

—Alguns... quantos?

—Cinco, mas estavam separados pela metade, além de já estarem desmaiados quando achamos, provavelmente foi alguma briga de gangues.

—Eles vão ficar na delegacia...?

—Não. Vamos transferi-los para alguma prisão de verdade, tem uma quase vazia e ela nem está tão longe assim. Por aqui na verdade nem temos como julgar eles legalmente, digo. O que fiz é mais como uma preventiva.

—Melhor eu ir, o que você ta fazendo alias para poder conversar comigo tão tranquilo?

—Ah?... Eu estava interrogando um deles, mas um amigo quis treinar o “policial mau” dele e me deixou esperando do lado de fora, vou checar agora, acabei de ouvir algo quebrando.

Logo antes dele desligar, eu também percebi o som de o que parecia vidro quebrando, alguns gritos também...

“Parece que ele sempre faz o policial bom mesmo, parece chato esse papel, mas acho que só ser o policial mau seria enjoativo também, hum...”

Enfim, já que ninguém mais poderia fazer isso, peguei minha bicicleta e pedalei até a loja.

Logo após a chuva a temperatura parecia ter caído bastante, o céu ainda estava nublado, mas talvez no caminho de volta já conseguisse ver um arco-íris, no entanto.

Na loja, logo que entrei, por alguma razão, senti minha atenção sendo pega por duas pessoas, era uma mãe e uma criança, foi o que imaginei, a mãe era bem alta, até para um homem ela seria mais alta que o normal, tinha uma pele bem escura, mas os cabelos era um loiro muito próximo de prata, ele quase alcançava os calcanhares dela.

A filha tinha talvez um metro, mas não consegui chutar a idade, a pele era bem diferente, branca como neve, reluzia um pouco e fazia as paredes da loja parecerem escuras até. E o cabelo devia ser uns centímetros mais longo que o meu apenas, eram loiros, mas parecia mais com “dourado” até mais do que o Amun, digo, Lestat.

Em resumo, aquela criança tinha uma aparência ainda rara, mas parecia certamente algo que já tinha visto antes várias vezes, algo mais mundano, a mãe... certamente não achei estranho, no momento senti até familiaridade com ela, muito vagamente, porém até o momento não posso sequer tentar chutar o motivo. Ainda assim, era menos como uma pessoa normal que a filha.

“Hum... ela deve ter puxado mais ao pai do que o contrário, não sei se isso é cientificamente correto, mas ouvi que as filhas puxam mais aos pais e os filhos... eles puxam mais as mães... talvez seja isso? Então... vou perguntar ao Louis depois, espero que ele me diga que não é assim. Mais do que espero uma resposta correta”

E apesar delas terem chamado atenção, não vi motivo para puxar assunto na hora, se elas moravam pela cidade, iria vê-las novamente. Passei direto por elas e fui ao fundo da loja para pegar algumas carnes diferentes.

“Talvez algo instantâneo fosse melhor até, para que fazer tanto esforço e esperar quando tenho dinheiro de sobra assim? ”

Lembrei de como essa linha de pensamento me condenou quando meu pai viu a minha conta no banco, pensei que ele ia achar bom eu ter dado sorte e feito sucesso, mas no fim foi só para reclamar de eu ter gasto tanto dinheiro em besteira em vez de deixar guardado.

—Blá-blá o dinheiro vai perder o valor, coisa-coisa, poupança... besteira.

Felizmente ele só me proibiu de tirar mais de 50.000 todo mês, o que não importa, ainda não consigo pensar no que usar todo esse dinheiro, é possível que ele vá ficar lá até que eu morra.

“Por que dinheiro é tão difícil de usar? Passei a vida inteira sofrendo para conseguir as coisas bonitas da loja e agora não consigo pensar em mais nada? Dinheiro só serve para conseguir coisas bonitas...?”

Cansei de pensar enquanto caminhava para o caixa. Na verdade, nem devo ter pensado por mais de um minuto, escolhi tudo e peguei o que precisava, simples e rápido.

E... foi rápido demais, foi por isso que notei, ao me virar.

“Tem algo faltando”

A sensação me consumiu por completo, olhei para frente, para cima, nas luzes da loja, nas prateleiras também, até neste ponto não havia notado nada fora de lugar.

Olhando na minha frente, achei uma resposta que me satisfez, mas não uma que não levasse a outras questões.

“Onde as duas estão? ”

A silhueta delas por um instante se projetou onde elas estavam um momento atrás, então percebi que não havia pista alguma, não ouvi passos além dos meus, nem conversa, nada. Algo não parecia certo.

Cheguei no caixa, ele passou em um instante tudo que ia comprar, pensei em perguntar, porém atrás dele achei uma coisa que podia ser bem mais claro do que palavras.

“Depois daquele incidente, a loja tem câmeras, há telas ao lado do caixa e vejo um teclado ali... consigo me ver nessa câmera também, portanto...”

Obviamente não queria pedir para o caixista rebobinar a gravação, não ia com a cara dele e, acima de tudo, não precisava, assim pensei.

“Mais cedo eu não fui decepado por pura sorte, vamos ver o quão longe ela pode me levar”

Joguei uma bolinha de gude para cima, vagamente na direção do teclado.

E como se fosse guiada por uma corda invisível, ela pulou diversas vezes pelas teclas até finalmente cair no chão.

Quando o atendente percebeu isso, a gravação já estava voltando, ela voltou para antes de que eu entrasse na cena, além disso, até que...

“Esse sou eu... entrando...? E o resto?”

Mais que nunca, senti que havia algo faltando, ainda que aquelas duas sumindo e não sendo vistas pelas câmeras fosse extraordinário, havia mais alguma coisa me perturbando, mesmo que não pudesse apontar ainda.

Peguei as compras e corri para casa, o céu ainda estava nublado, o arco-íris não aparecia, não podia esperar, além disso tudo, sentia pressa para chegar logo em casa, antes do sol aparecer.

“Eu nunca gostei daquela estrela, mas isso é demais até para mim”

—...

Corri para o meu quarto, fechei as cortinas, todas as portas e liguei a luz.

Agora só havia minha cama, armário e a guitarra naquele quarto de paredes vagamente verdes e fracamente azuis e com o chão cinza.

E a única fonte de luz estava logo acima de mim.

Verdadeiramente solitário, porém era exatamente aquilo que meu instinto me dizia para fazer, nada mais, precisava me isolar, fugir, especialmente da estrela no céu, principalmente do sol.

Sentei na cama e olhei ao redor, o quarto parecia maior, ao mesmo tempo, não me sentia exatamente confortável, na verdade...

—É essa cama... acho que ela ficou velha, não quero dormir assim.

Por quanto tentava decifrar tudo que acontecia ao meu redor...

...

O telefone tocou.

Mas não senti minha respiração mudar, muito menos meu coração bater, aquilo não me assustou, de jeito nenhum, esse estoicismo foi o terror para mim.

“Estoicismo... de onde eu tirei essa palavra? ”

Antes de ser tarde, atendi o telefone.

—Queen? É você? Algo aconteceu?

—Você sempre pergunta isso quando alguém liga para você?

—Err... acho que sim, melhor ir logo ao ponto... as ligações que recebo sempre podem ser de um problema, mesmo se não for...

—Oh... sim, esqueça isso, mas sim, você precisa saber disso, o instituto soube do que houve, eles querem nos encontrar, deveríamos dizer onde nosso esconderijo está?

—Não... é uma boa, isso é um segredo nosso e... outras pessoas... ninguém mais soube, mesmo eles sendo bons em guardar segredos... não queria comprometer esse esconderijo.

“Já não tenho problemas demais...? Pior que eles só aparecem depois de já ter derrotado os cinco, se ao menos tivessem cuidado deles por nós”

—Você tem certeza?

—Queen, eu não confio neles, nenhum deles. Sei que vocês os viram de outra forma, porém a única coisa que espero deles é distância, o quanto for possível. Ainda assim... não vou impedir o grupo de se aliar, se todos acham que nossos objetivos se alinham, que assim seja.

—Err... foi algo comisso* digo, digo... como isso que a Mary disse.

“Une? Logo ela? Será que foi por causa do que houve mais cedo? ”

—Franziska, o que exatamente ela falou?

—Não faz tantos minutos, foi “O Jack não acha que nós devemos fazer uma aliança com aquele instituto, portanto eu não irei apoiar isso”

—Sério? Nem falei sobre isso com ela antes... talvez fosse óbvio demais?

—Então? O que você acha? A Roy falou que não se importava, com ou sem, então, considerando tudo isso... você pode decidir, Jack?

Até o momento o instituto era ainda um tipo de inimigo, menos direto que os corsários e sua capitã, algo como o Nacrit, alguém amigável, mas não 100% confiável e nem alguém que necessariamente estaria do nosso lado.

O que mais importa num grupo é confiança, isso é tudo que a banda tem, agora mais que nunca, porém ficou claro para mim, só isso pode não me levar tão longe. Os corsários podem eventualmente conseguir passar pelas defesas da cidade, essa derrota deles pode ou não os afastar, esse é o problema.

Caso tenhamos uma força como eles, conhecendo nosso inimigo em comum, eles podem ter mais soluções do que problemas, realmente.

Foi essa a linha de raciocínio para mim, aliados e inimigos, alguns são óbvios, meus amigos da banda sempre serão aliados. Os corsários sempre serão inimigos, contudo com o instituto, posso fazer um esforço a mais, se isso no fim for o melhor para quem realmente devo proteger.

“Por meus amigos, por essa cidade”

—Diga a eles que venham, mas com uma condição, a de que todos os membros estejam presentes, não exijo associados que eles podem ter, porém os cinco que vimos no navio devem vir.

Essa foi minha decisão.

Depois de uma despedida, ela desligou.

Me levantei da cama e dei voltas ao redor da lâmpada, como se fosse um satélite dela.

—Não consegui pedir para irmos sair esse fim de semana... usei toda minha capacidade de pensar para decidir chamar aqueles idiotas do instituto e esqueci da coisa mais importante...! Até nisso eles são uma dor de cabeça!...

“Vosmecê parece um guapo rapaz humano”

—...!

Havia me vindo aquele pensamento, num instante a memória de uma voz que não era a minha me veio, mas aquele a escolha de palavras arcaicas, aquela voz... a primeira vez que as ouvi foi naquele dia, naquele momento.

Foi claramente direcionado a mim, uma imagem mental vaga me veio, a de uma mulher, assim como... a “mãe” que vi na loja.

A voz era de uma mulher adulta, sem dúvidas, só podia ser aquilo.

Entretanto os fenômenos bizarros ainda sequer haviam começado, teria de passar por bem mais antes de entender o que realmente havia ocorrendo.

“Deve ser... um corsário!”

Assim pensei, mas ao meu redor não havia evidência nenhuma de que poderia estar recebendo algum ataque estranho, além do mais, mesmo para eles, aquilo não podia simplesmente acontecer. Mesmo para mim, com tudo que vi e levando em conta as façanhas deles, até isso era estranho.

Encarei o chão, meus pés, meus sapatos.

Finalmente, um sentimento de vazio novamente, mais que nunca, parecia estar olhando diretamente para a causa, muito, muito perto.

Devia ser suficiente para me devorar e terminar minha existência naquele mundo, de corpo e alma, foi esse poder absurdo o qual atribui ao vazio.

—Estou me sentindo mais leve... tem algo nisso...

A luz estava estranha, tudo era muito claro, ouvi que onde há luz, deve haver sombras, claro. É apenas como o mundo funciona, porém, naquele exato momento, a metáfora parecia falhar de uma maneira ou outra.

—O chão... porque ele está claro? Parece longe também, como se estivesse flutuando e...

Talvez, pensei...

“Será que há algo debaixo do chão? Uma luz própria...? ”

E sem pensar, joguei minha mão a frente, sobre o chão, projetando uma sombra para que identificasse a possível fonte de luz anormal.

Assim tentei.

—...!

Para cima, havia uma lâmpada sobre minha cabeça. Para baixo, um chão. E se interpondo entre ambos, era onde estava. Pela lógica que observei toda a minha vida, uma sombra devia se projetar no chão, foi o que tentei fazer, sequer pensei se podia ou não funcionar.

Até aquele dia.

Já que, desde o dia 9 de junho, eu nunca mais consegui projetar uma sombra.

—E só existe uma criatura que conheço assim... uma na forma de um humano que não pode projetar uma sombra, isso é...

—Uma de falsa vitalidade, um ser entre o plano da vida e o plano da morte.

Vampiros...

—Assim você será chamado, a partir de hoje.

Foi naquele instante que notei, não estava falando sozinho. O som da minha voz não devia ser daquele jeito, por causa da música, posso reconhecer minha voz num instante, mesmo vindo de um eco ou gravação, aquela segunda voz não era nada como isso.

Pelo contrário. Era como... uma mulher, mas... não com a voz de uma... era o tom infantil, talvez a forma do ar vibrando.

Ainda assim, as palavras e como as ouvi, era de um adulto.

“Como...? Não estou ouvindo mais nada, não ouvi passos de uma criança, nem de um adulto, não ouço sinal de vida algum, nem uma respiração, nem um coração batendo”

Imaginando o pior, lentamente girei o meu corpo, ajustando a minha visão e tentando achar a fonte da segunda voz.

—Não posso demonstra o quão grande é meu apreço por vossa precaução, entretanto a pessoa a seu lado não se trata de um rival.

O cabelo curto, brilhando como ouro, a pele branca como a cera de uma vela, os olhos de cor vibrante, uma garota pelo menos cinco anos mais nova que eu estava ali. Assim a vampira se apresentou.

—Você é...?

—Como vosmecê és, pelo o que vejo, diz que somos “vampiros” sim? Ouvi a palavra, porém não posso me lembrar quando, sequer onde.

Ela girava ao meu redor, como se fosse meu satélite.

—Eu não sou um vampiro. Nada disso, isso tudo... isso tudo é só... porque...

—Bem, sim, o que enxergo à minha frente não é um vampiro verdadeiro, estranho, misterioso. Vosmecê chegou a morrer? Não... um tipo particular, entre mortos e vivos, mas praticamente vivo, entre um monstro e um humano, mas praticamente um humano.

“Que sonho é esse...? Por que estou sonhando com isso? Isso não é real. Não é real. Isso não passa de um sonho”

—Poderia ouvir o que lhe vos falo? Há muito a que ouvir, nada é um sonho aqui, a realidade é só uma, para mim e para você.

Deitei em minha cama, então ela parou de girar e sentou ao meu lado, havia espaço mais que o suficiente...

“Mesmo se não tivesse... isso é um sonho, as regras de um sonho não são normais. Sim, sim, faz sentido, aquela história da Une e aqueles corsários, até a chuva sem fim, era tão óbvio! Tão claro! Nada disso pode ser real. Tudo isso deve ser um sonho bem, bem longo”

—Sim!... Isso é um sonho... continue falando, não há problema.

—Se encontras em negação... lhe diria para sair desse estado o quão cedo possível, humano.

—Isso não é um sonho... a Franziska não está aqui... então o que está acontecendo?...

—Compreendo vagamente o que ocorre. Esclarecei quantas dúvidas tiveres, assim que estejam em meu alcance de responde-las.

—Você é... uma vampira? Digo... sendo mais especifico, você é mesmo uma criança? Isso é alguma ilusão? Poderia então deixar de aparecer assim para mim?

—Criança? Só porque és um homem pouco alto achas ter direito de chamar-me assim?! Não apenas tenho o corpo de eternos vinte e seis verões, já passei por mais séculos do que um recém-nascido como tu jamais imaginaria!

—Vinte e seis o que? Verões...? Nunca tentou olhar para um espelho, nesse caso... talvez pedir para alguém fazer uma pintura sua?...

—Sabes sobre como meu reflexo desapareceu... ainda assim, o que dizes sobre ser uma criança? Peça perdão de imediato, ou terei de lança-lo aos mortos definitivamente!

—Olhe para si mesma... não entendo nada disso, mas...

Ela desviou o olhar, no instante que ele caiu, a expressão dela se tornou de desespero em um instante:

—Pelo inferno! De que isso se trata?! Minha pele... minhas mãos...

Joguei meu torso para cima e tentei olhar direto no rosto daquela “vampira”

—Algo errado?

—Decerto que sim! Se trata da maior vergonha que já passei em séculos. Como podes ser que minha forma se tornou a de uma infanta!?

—Você não faz ideia...?

—Há uma... pensando bem, consigo imaginar sim uma explicação. Deveria ter desaparecido, sim, me vi de volta a esse plano repentinamente, ligado a tu, um humano. Isso pode ter me retornado a minha aparência original, compreende, humano?

Assim que a explicação ficou um pouco mais complicada, me movi um pouco, me sentei no chão enquanto pensava.

“Se isso for de verdade, não tenho escolha senão tentar entender o que está acontecendo, não deve ser tão ruim assim”

—Ligados?...

Perguntei a ela enquanto tentava cerrar os olhos e tirar mais detalhes daquela “pessoa” em minha frente, uma que se declarou como uma vampira.

—Sim. Arriscaria dizer desta forma, por todo o tempo que vivi, jamais observei por meus próprios olhos, contudo mitos e lendas de eventos semelhantes são um constante em todo o mundo.

—Bem... isso é ruim?

—Apenas tu podes determinar essa questão, não só minha forma retornou a uma quase-humana, vosmecê tornastes num... digamos um pseudo-vampiro.

Olhei para o chão, duas vezes para ele, quando notei:

—Espera! Vampira, é por isso que minha sombra sumiu? Então por que a sua...

—Pois sim, acredito que desde o fim de minha vida, nunca projetei uma sombra novamente. Vosmecê jamais seria diferente.

—Sim, mas olha para você! Isso é uma sombra.

Os olhos passaram por toda a silhueta que ela projetou em um instante, quando ela continuou.

—Além de forma, há traços que aparento ter perdido, melhor, traços dos vivos que ganhei.

—É como se eu tivesse pego esse traço de você? Já que estamos... ligados, algo assim.

—Assim aparenta, vós somos como as duas partes do mesmo quebra-cabeça. Um morto completo e um vivo, sorte tua que parece não ter perdido sua resistência ao sol.

—Não...? Desde que perdi minha sombra nem cheguei perto da luz do sol.

—Assim imaginas, pois agora mesmo estás se banhando sobre o brilho do pôr do sol.

Notando a brecha de luz da cortina, a luz sobre meu braço, cheguei a me afastar dela por algum instinto, parecia ser realmente um perigo.

—Alguns de meus medos e instintos devem estar sobre você, consequência de fugir do sol por séculos, contudo certamente és imune ao fogo.

—Se não fosse...?

—Imagino que saibas, tu virarias pó no mesmo instante, sequer haveria tempo de arrepender-se por teus pecados, infelizmente isso conclui que o mesmo a mim não se aplicaria.

—Esse o padrão, uma fraqueza minha, não se aplica a você e vice-versa? Parece conveniente, agora... você ainda tem presas? Pode parecer estranho, mas... é importante.

Quando a vampira passou a língua pelos dentes, notei sem dúvidas que ainda haviam duas presas entre os dentes dela.

—Creio que sim, se tu tens presas também, creio não haver relação alguma com minha influência, tu não tens ninguém senão a ti mesmo para culpar.

—É o que parece... um momento.

Olhei para meu relógio, talvez também pelos sentidos de vampiro, notei que ele era feito de prata, mais importante que isso, notei já estar perto da hora de partir.

—Não sei se cortar essa conversa seria adequado, mas tenho um compromisso e... não é como se estivesse realmente entendendo nada disso, já vi coisas estranhas demais nos últimos dias, porém isso é um pouco pior.

Me levantei do chão, os olhos da “vampira” me seguiam ainda, eu não tinha motivo para reclamar, mas aquele olhar intenso... mesmo se parecesse uma criança, me lembrava os olhos de um predador, a imaginar tirando sangue de humanos era... assustadoramente fácil.

—Após tudo ainda podes deixar sua nova vida ao lado e focaste em outra cousa, assim? Vosmecê vives duma maneira rica.

—Eu me sinto mal fazendo isso, mas pode me encontrar depois em outro lugar? Talvez no cemitério ao sul?

Não tive uma resposta, sem ela esperei ter admissão para trocar de roupas e sair, ia mexer um pouco no meu cabelo e...

—AH!...

“Claro... não tenho um reflexo também... será que posso usar isso de desculpa para a Franziska vir me visitar todos os dias e pentear o meu cabelo...?”

—Humano, posso ouvir teus pensamentos, vagamente, apreciaria se não falaste da tua nova forma a um qualquer, por toda a minha não-vida, a segunda cousa que minha espécie mais temeu foram caçadores, os quais portavam símbolos sagrados e vos chamavam de demônios.

—Certo... se acha melhor.

Até que sai da minha casa, ela não parecia ter intenção de ir ao cemitério que havia lhe apontado, a garotinha continuava sentada em minha cama e com os olhos pulando para todos os lado, enfim, quando vi o sol sumir por definitivo, andei até minha bicicleta.

Estava uma noite de lua cheia, o chão era azulado como o mar e os muros e arvores ganharam traços etéreos, como manifestações de si mesmos em vez de algo real.

Lá estava sozinho, sem sinal de qualquer loja ainda aberta, ou pessoa na rua, exceto...

—Você está me seguindo?

—Estamos ligados, não ouviste? Tu não podes se afastar de mim!

—Não podemos é... o quão longe podemos ir um do outro então...?

Quando ouvi aquilo apenas me virei a ela lentamente, não devia ser algo tão ruim, eu imaginei.

—Dirias que sessenta pés possas ser vosso limite.

—Quanto!?

“Isso é muito pouco...! Mal conseguiríamos estar em dois cantos opostos da minha casa”

—Então também preciso além de esconder minha sombra e reflexo, também preciso te esconder das outras pessoas... ai meu...

Agora havia enterrado o rosto na minha bicicleta, eram problemas demais, eu queria encarar tudo com o rosto mais confiante, porém tudo só piorava cada vez mais, eu nem queria acreditar.

Com alguns momentos a mais, eu me virei de volta para vampira, agora caído ao chão outra vez e a perguntei:

—Você pode resolver isso? Eu não faço ideia do que vou fazer sobre isso...

—Pois sim. Dê-me um momento... feche teus olhos também.

De alguma forma, podia ver o intento por trás das ações da vampira. Segui suas ordens sem dar espaço à hesitação.

Mesmo com os olhos fechados, talvez por agora minha atenção estar se focando não em passos, respiração ou batidas de coração, coisas que são inexistentes para um vampiro, apenas com um sexto sentido, observando a luz que a alma da vampira emitia, podia vê-la, se aproximando de mim, passo por passo, lentamente e então...

Ela sumiu.

Abri meus olhos, ela não estava mais lá.

—Huh...? Isso tudo... eu estava sonhando?... Aquela conversa da Une deve ter me afetado, talvez atiçado demais minha imaginação, perdi um pouco do controle e...

Olhando para baixo, graças ao poste de luz acima de mim, notei claramente a minha sombra ao lado da bicicleta, ela estava lá, não tinha sumido como me lembrava.

“Humano, temo que este não seja o caso, vós agora somos de mesma alma e de mesma carne, foi assim que pude aparecer em seu quarto sem que pudeste notar”

—O que...?

“Preste atenção, estou ecoando minha voz por vossa mente, pois agora tomei teu corpo como meu aposento, com isso, também posso lhe ajudar a manter vossa aparente humanidade, é um truque poderoso e quase nunca usado, humano”

—Não foi um sonho... você então virou a minha sombra? É isso?

“Vejo que não és dos mais espertos, portanto podes interpretar dessa maneira”

—Espera...! Não só esse xingamento... a sombra...!

Olhando bem, o cabelo estava alguns centímetros mais logos, a estatura não batia de forma alguma, os ombros estavam curtos, os membros finos demais e...

—Isso é a sua sombra! Como isso vai me ajudar?! Agora estou com a sombra de uma pessoa totalmente diferente, vão me chamar de bruxo e me queimar se virem isso!...

“Esse é o meu melhor, vosmecê perdeu sua sombra, isso é fato, não creio haver como recupera-la em um futuro próximo, contente-se com isso, não deixe outros perceberem”

—Certo...

Subi na bicicleta e comecei a pedalar, agora sabendo que...

—Duas pessoas sabendo exatamente onde estou... parece uma piada.

“Está que chamas de Mary, sim? Ver o que pensas nesta forma és deveras mais fácil”

—Não olhe tanto, é só me perguntar... que nisso, imaginando um mundo onde você ignorou meu pedido, pode me responder umas perguntas sobre outras fraquezas...? Sabe, cruzes, estacas, água corrente e...

“Estou impressionada, conforme vejo suas memorias, tu pareces se referir a vossa espécie como vampiros, é isso? Tudo que sabes és de grande precisão, caso veja que tomou algum equívoco, o alertarei, mesmo caso esqueça de alguma fraqueza, contudo não creio haver necessidade disso tão cedo”

—Obrigado... vou focar em chegar logo, aliás, quando estiver numa conversa, não fale muito, pode me confundir.

“Assim o farei, não venho a este plano para ser um empecilho a vosmecê, humano”

No momento sequer me lembro como minha própria sombra se parecia, sequer tenho como descrever a sensação de ser um humano completo, pois do dia nove, daquela noite em diante, absoluta humanidade, de corpo e alma, tornou-se impossível.

E claro, no fim do caminho, isso seria revelado como só metade dos meus problemas, o instituto havia voltado, pelas minhas ordens ainda, não importava o que fosse, teria de os ouvir, todos nós teríamos.

O acaso de me tornar um pseudo-vampiro, a escolha de deixar o instituto nos visitar, foi isso que moldou a minha história para o que ela se tornou, uma de caos e ordem, idealismo e cinismo, humanidade e monstruosidade, todos sendo dois lados de uma mesma moeda, a mesma coisa interpretada de maneiras diferentes.

“Se algo ocorrer, qualquer desastre que recair sobre a cidade e meus amigos...”