Notas iniciais
“L'amour est enfant de bohème: Il n'a jamais jamais connu de loi...”

Avan me mostrou a foto. Realmente eu estava bonita,me senti bonita,me senti feliz. Fiquei um pouco constrangida mas logo mudamos de assunto. Enquanto ele dirigia pelas ruas animadas e iluminadas da Hollywood Boulevard,eu sentia a adrenalina se apossar de mim. Perto de onde íamos jantar havia um bando de motociclistas rockabilly ouvindo músicas que eu adorava,cantei junto e me senti mais calma.

— Hoje vamos jantar ali. E aquela,será a nossa vista.

Olhar para o letreiro de Hollywood sempre me animava. Nos sentamos no restaurante com vista para as montanhas.

— Você gosta de ópera Lizzy?

— Eu adoro Avan. – Olhei pra ele que tinha uma expressão satisfeita no rosto — Por que? Não vai me dizer que você conseguiu ingressos para Carmen?

— Mas só se você quiser ir depois do jantar.

— Avan eu... nem sei o que dizer! Há anos atrás eu cantei Habanera no grande coro de um festival,nossa,eu vou amar assistir.

O jantar foi tão rápido,porque o brilho da ideia de ir a ópera me deixou extasiada. Acho que precipitei a coisa, mas Avan não pareceu se desapontar comigo e conversamos animadamente sobre nossos gostos musicais até que chegamos ao teatro.

A apresentação foi mais do que maravilhosa. Ficamos em um camarote só pra nós dois,no intervalo bebemos champanhe da melhor qualidade. Carmen era uma prostituta e na peça haviam algumas cenas quentes que ajudaram a inflamar a vontade de me jogar nos braços dele. Foi delicioso o modo como me olhava sentado numa poltrona de veludo,as luzes do palco eram vermelhas e davam um contraste natural com a pele dele e os cabelos negros. Como eu gostaria de abrir os botões restantes daquela camisa e ir a um paraíso desconhecido que me chamava insistentemente. Era quase desafiador aquele jeito de olhar de Avan Jogia. Mais pro final da peça eu consegui me controlar e prestar atenção apenas no palco,não mais no movimento que ele fazia com a língua enquanto mordia os lábios. Ele também prestou mais atenção pois era o momento em que Carmen e Don José cantavam aquele intenso e dramático dueto,ele pedindo pra ficar com ela e ela dizendo que era livre. Eu transpirava,sei que ele percebia o movimentos dos meus seios no decote apertado com a respiração ofegante, quando na arena, soam as fanfarras e os gritos da multidão saudando o toureiro.
Carmen tenta entrar na arena, enquanto D. José, violento, não quer permitir; ela tira o anel de compromisso e o joga longe. Eu coloquei a mão no parapeito do camarote olhando com todos os meus sentidos aguçados pelo amor a cena que via lá em baixo.Avan pousou sua mão sobre a minha. D. José corre para Carmen com um grito terrível, enfiando a faca no coração da cigana, sob os acordes das frases da “Canção do Toureiro”.
Sob o olhar da multidão D. José confessa seu crime, cai no pano.

Por um momento de escuridão e música nos olhamos. Sua mão quente ainda sobre a minha fazia minha pele queimar e meu coração arder de desejo. Sei que chegamos muito perto um do outro pois eu podia sentir seus respiração. BAM!

A orquestra tocou novamente e as luzes se acenderam com o abrir da cortina. O teatro veio abaixo de aplausos acalorados e assovios finos. Nos levantamos e nos juntamos a salva de palmas. Respirei aliviada,sim,eu estava com medo de beija -lo, medo de saber que não tinha nada a ver o que eu estava sentindo. Muito medo,muito medo...

Ele tinha apenas bebido no intervalo,era responsável, estava dirigindo. Mas depois eu quase entornei mais uma garrafa. As vezes eu tremia um pouco. Quando fomos embora ele dirigiu a maioria do tempo calado,apenas concordando com o que eu dizia sobre a ópera.

— Então,chegamos.

— Chegamos.

— Estou emocionada. Seus contatos também te disseram que seria bom me levar a ópera?

— Na verdade,eu queria ir. Teria ido com meu irmão mas levar você foi bem mais divertido. Você é uma ótima companhia Lizzy. Divertida,apaixonada,linda....

— Esqueceu palhaça,estabanada,lunática.

Avan colocou o braço sobre o meu banco. Sorria como nunca e aquele maldito olhar que me deixava sem fôlego. Seus dedos encontraram meus cabelos e começaram a brincar com eles. Senti um arrepio no corpo todo.

— Eu gostaria de ouvir você cantar Habanera,você disse que já cantou uma vez.

— Sim,já,mas eu não sou cantora lírica,posso cantar um bolero qualquer dia!

— Um bolero? Você é mesmo surpreendente e tem bom gosto. Isso é delicioso em você.

— Bom,eu... acho que pegando carona na Carmen,eu quero... Avan,o que você pretende fazer no halloween?

— No halloween? – Ele se endireitou no banco do motorista – Eu,bem Lizzy,não tenho planos a não ser o básico,fazer uma abóbora e achar alguma festa pra ir.

— Você gostaria de visitar o México comigo?

— O México?

— Sim. Dia 2 acontece lá a tradicional festa do dia dos mortos e a Sony vai fazer uma premiere do novo 007. Eu vou pra lá dia 29.Você,acha que seria legal ir pra essas festas comigo?

— Se seria legal? Mas claro que sim! Eu vou adorar!

— Você pode levar seu irmão também se quiser,a Sony fechou um resort lá,é uma hacienda,uma vila antiga que virou um resort. Toda a produção do filme vai se hospedar lá e vamos comemorar o feriado todo. Topa mesmo?

— Lizzy,claro,eu vou amar passar suas festas favoritas com você.

— Que bom! Então,temos muito o que fazer,mas não se preocupe com nada,apenas faça as malas e venha nos encontrar no aeroporto.

— Ok. Vai ser divertido.

Ele sorriu e eu sorri de volta,então me virei bruscamente e peguei as rosas que ele me dera que estavam no banco de traz. Abri a porta e sai. Ele ficou sem reação e me olhou como quem pergunta por quê.

— Boa noite Avan. Agradeço o jantar e a ópera. Sempre que quiser fazer algo assim me chame. – ele saiu do carro.

— Não vai me dar um beijo de boa noite?

— Claro. – Sorri.

Ele deu a volta no carro e me abraçou,mas meu rosto permaneceu virado e quando me soltou,segurei seu rosto e lhe dei um longo beijo na bochecha. Nossos rostos tão perto,os olhos dele me fuzilando,minha boca quase encostada no canto da boca dele... o soltei e comecei a subir as escadas. Parei e olhei pra ele,acariciava as rosas vermelhas e eu quis chama — lo pra entrar,soltar seu cabelo e fazer amor a noite toda. Ao invés disso,soltei uma rosa do buque e voltando até ele,a coloquei em sua mão.

Da janela do meu quarto no 6 andar do prédio,eu o vi levar a rosa aos lábios e a acariciar ainda encostado no carro. Quando ele elevou a cabeça e viu que a luz na minha janela estava acesa,acenou. Prendeu a rosa beijada na lapela e foi embora.