O passeio pela fazenda foi muito divertido. Avan não tinha sido arrogante ou rude e nem tinha mostrado aquele excesso absurdo de confiança como de algumas vezes,que essas coisas nele me irritaram. Não fumou. O cabelo estava preso num rabo e não no coque costumeiro,usava uma camisa azul meio aberta e seus colares de contas. Quando o vento lhe soprava,podia ver claramente o peito e a tatuagem em que se lia “buy the tiket”. Eu queria mesmo “comprar aquele ingresso” e me deixar perder o fôlego,cavalgar com ele foi extremamente excitante.

Naquele momento,éramos só nós dois,sem máscaras,sem fazer papeis,sem precisar de aprovação,sem grades,sem cortinas. Duas pessoas limpas,quase nuas,é assim que se conhece alguém de verdade.

Fomos cavalgando pra longe e quando começamos a voltar ele quis parar.

— Você tem razão. Foi a melhor coisa que fizemos.

—Eu disse que era um bom exercício,e você tá um pouco enferrujado viu...

—Ah eu to sim,tem quase três meses que não faço nada,sem ensaio,sem laboratório,sem arte marcial,sem academia.

— Nossa,como é que tá vivo ainda? Não faz nada,apenas bebe,fuma e passa as noites na esbórnia.

— Esbórnia essa que a senhorita me trouxe para ficar uma semana quase.

— Você festejou três dias aqui já e só hoje resolveu fazer alguma coisa pra se exercitar. Foi a piscina? Andou a cavalo? Correu? Além do externo temos academia lá dentro sabia?

— Sabia,mas confesso que a cama desse hotel é tão boa que eu não quero sair dela.

— Na verdade eu fico feliz que esteja se divertindo. Eu não podia falar nada porque eu não sei direito o que é mas o Dexter selecionou você pro novo filme,não sei nada a respeito mas pelas coisas que pude pegar no ar,vai haver muito trabalho. Vamos começar agora quando voltarmos do feriado e é bom que você volte renovado.

— Eu acho que sei um pouco mais. Ted deixou escapar qualquer coisa como luta então vem muito ensaio por ai. E parece que é uma história de época.

—Sério? Isso eu não sei,mas Dex anda com um jarrinho de terra no bolso,já o peguei olhando pra aquilo e ele disfarça,eu ia tirar um sarro mas ele realmente ficou bravo na primeira vez.

—Terra?

—Areia,tipo areia de praia.

—Que estranho.

— Muito. Mas Avan,você não me disse que te irritou ontem. Foi ao meu quarto e ia me dizer algo,mas não disse.

—Ah,nada não Lizzy,só o lance das fotos,o Ketan me explicou depois e eu entendi,mas foi bem tensa essa parte da infância onde meu avô odiava a minha mãe e queria levar o meu irmão pra Índia e... foi péssimo. Minha avó Maya era diferente,ela tinha a mente aberta,mas meu avô é um cara doido. Os maternos sempre foram bons e acho que por isso a minha família não desmoronou.

Voltamos pro hotel cavalgando lado a lado enquanto ele contava a briga da família hindu e da inglesa,como os pais se conheceram e se separaram e todas as tristezas passadas. Essa foi a parte mais humana de Avan Jogia. Quando saímos dos estábulos o sol ainda não tinha se posto completamente mas várias pessoas já exibiam suas caveiras mexicanas pintadas nos rostos.

—Lizzy,sei que você pensa que eu sou um moleque mimado acostumado a ter tudo o que a fama pode dar mas não é bem assim. Eu gostei muito desse nosso passeio,eu gostei de falar coisas que eu nunca disse pra ninguém,gostei de ver o vento embaraçar o teu cabelo enquanto você simplesmente ria.

— Bom,pra que servem os amigos se não pra dar leveza a nossa vida.

— Na verdade,desde que eu te conheci,tenho visto um pouco de magia na minha vida. Eu posso ser sincero,bem sincero?

— É só o que espero de você.

—Eu morro de ciúmes quando o Ketan tá perto de você.

— Por que? – Eu perguntei espantada.

—Porque ele é muito melhor que eu e o que eu quero de verdade é que você goste de mim.

—Hey! Relaxa. Eu sei bem quem é cada um dos irmãos Jogia e vou amar os dois pra sempre,cada um de uma vez. Vamos ser amigos sempre Avan, Confia em mim.

Nos abraçamos fraternalmente,ele sem segundas intenções suspirou. Ninguém é tão ruim quanto parece ou tão bom que não precise de colo as vezes.

— Não sei Sophia,antes um demônio vampiresco com aquele olhar de vou te pegar,depois um fumante compulsivo ciumento e prestes a fazer merda e então,um cavaleiro com ressaca doce e cheio de feridas antigas.

— É,muito doido mesmo,esse menino precisa de tratamento.

—Ou de um bom porre.

—Mais um?

—Ah não,o de ontem já deu! – riamos enquanto nos arrumavam.

—Nunca achei que ele fosse perturbado assim,sabia que era galinha,mas... ele é meio doido Lizzy,será que isso é saudável?

— Ai Sophia,eu não sei. Só o que sei é que Dex vai me colocar na equipe desse novo filme,o Avan vai atuar e vamos conviver pelo próximo ano todinho.

— Mas você,gosta dele mesmo,como homem?

— Você pergunta se eu to apaixonada?

—É,apaixonada ou afim,com vontade ou... sei lá... o que você tá sentindo?

—Antes eu achei que estava me apaixonando porque ele começou a mandar flores e fazer tudo aquilo,estávamos em Hollywood e o por do sol daquele lugar me faz cometer loucuras. Eu tive que esperar por ele então percebi que não era paixão. Mais ai quando ele chegou aqui eu comecei a me sentir... eu não sei,eu gostei de ver o ciúme nos olhos dele e te disse que ele me confessou que estava mesmo,ontem durante aquela dança eu me senti lasciva,eu acho que tudo não passa de desejo,então hoje,conhecendo esse lado novo e doce...

—Ixi...

—O que,tá muito ruim?

— Olha amiga,pela minha experiência furada na vida,isso tá bem confuso.

—E o que acha que eu devo fazer?

— Dançar com ele e beijá-lo a noite toda.

— Não,sério. Você sabe que eu também tenho esperado por um beijo que não seja arranjado,algo no estilo conto de fadas. Acho que não sei gostar de ninguém,as ultimas experiências não foram boas.

— Mas você beija qualquer um em cena,qual é a dificuldade de beijar o Avan?

— Sim,em cena é diferente. Beijar um ator é diferente.

—Ele é ator.

—Mas eu não queria atuar com ele. – suspirei.

—Olha Lizzyta,acho que isso tá pior do que imaginamos...

Saímos do quarto e fomos ao espaço reservado para a exibição do filme. Assistimos o novo 007 Conta Spectre em primeira mão. Achei que tinha visto os irmãos numa fileira próxima onde eu havia me sentado,mas assistimos separados. O final do filme foi absurdamente aguardado para que eu pudesse sair de lá. Quando acabou corri para o salão interno onde musica eletrônica fazia uns gatos pingados dançar. No pátio lá fora,música mexicana da orquestra de mariachis.

Aquela rotina interminável de apertar mãos de figurões de Hollywood havia começado. Dexter fazia questão,afinal,como ele dizia,minha estrela está aqui pra brilhar. Eu trajava um vestido vermelho nos moldes do final do século XIX,com o colo muito aparente,uma fita no pescoço com uma pedra,os cabelos presos precariamente com rosas frescas,depois de sair da sessão do filme eu coloquei o chapéu de dama da corte como manda o figurino da La Catrina,com direito a véu e tudo! Estava quente então em punho eu tinha um leque,estava de luvas de renda também,o que era um charme a mais. A maquiagem de caveira mexicana tão tradicional naquela noite era feita de uma tinta que não ia escorrer se passasse o dedo sem querer,só saia com removedor especial e água e sabão,nos lábios para completar,batom vermelho. Desfilei pelo salão que começava a encher e o cantor Sam Smith subiu ao palco,cantando a música tema do filme, Writing's On The Wall. A festa então teve inicio.

—Onde eles estão?

—Eu não faço idéia Lizzy.

—Não sabe mesmo ou tá preparando outra gracinha Sophia?

—Sério,dessa vez eu não sei.O Calvin tá te procurando. Você vai cantar?

—Ah,eu vou sim,ótima maneira de achar esses meninos. Aprende mais essa gatinha!

O DJ Calvin Harris estava lá pra animar a festa. Tínhamos combinado de cantar mas não havia nada ensaiado. Subi ao palco do lado dos equipamentos dele,peguei um arcano vintage e a luz fez o resto. Cantei Outside mixada com How deep is your love. Joguei o chapéu. Eu sabia pra quem estava cantando então meu medo havia sumido. Medo,eu morria de medo de cantar ou fazer qualquer coisa ao vivo. A luz ajudou pois me cegava,quando olhava pro Calvin mal podia vê –lo então cantei a plenos pulmões. Quando sai do palco a pista estava pegando fogo.

—Lizzy,eu acertei em você.

—Eu sei Dex! Curta a festa!

—Espero que faça o mesmo!

Eu vou fazer... ah se vou... sorte que o Calvin não podia vir conversar agora pois eu sei que era o que teria feito,Dex me deixou bem a vontade por um tempo,então me acabei na pista.

— Você é demais! Não imaginava que cantava assim! – Ketan me encontrou finalmente.

—Ketan! Onde esteve? Achei que você e Avan se sentariam conosco na exibição do filme. A propósito,você ficou perfeito!

— Agradeça a Sophia,a maquiagem é dela, o figurino também,ela fez tudo! Nós vimos o filme bem lá atrás,chegamos tarde.

—Sophia sempre na maracutáia.

—Como?

—Nada não,uma expressão boba no meu país. Vamos dançar?

— Bom,tem outra pessoa querendo dançar com você.

Me virei lentamente e vislumbrei Avan de cabelos soltos,numa túnica negra,o peito aberto carregava não os costumeiros colares de contas mas uma corrente egípcia em ouro velho. Ele havia se arrumado com primor,os olhos bem marcados de preto davam o ar mais vampiresco que eu já tinha visto nele.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.