Quando terminamos e voltamos ao hotel,a equipe se dissipou pelas portas do casarão e logo me vi sozinha no terraço. Ouvia musica pela propriedade e muitas velas acesas iluminavam o lugar. Caminhei pelo pátio e logo vi um rapaz sentado sozinho num banco sob a escuridão de uma janela fechada.

— Avan? – Ele se virou – Ah,desculpe Ketan.

— A gente nem se parece tanto assim.

— Ele só é mais alto.

— Centímetros. Terminou as fotos? Eu realmente queria me desculpar por termos aparecido lá daquele jeito. A Darla disse que a gente não podia atrapalhar e juro, íamos ficar bem quietinhos atrás da árvore,mas.... Eu tenho mais prudência que o meu irmão.

— Tudo bem Ket. O Adrian é chato sim,o queridinho da Vogue mundial,mas que se dane, além do mais estávamos terminando,vocês não destruíram nada.

— Ufa,é bom saber. – Ele riu.

— Quer uma bebida antes do jantar?

— Quero.

Nos pusemos a caminhar pelo pátio e logo entramos no jardim de inverno onde havia uma enorme fonte.

— Ah,ficou lindo! Sophia sempre pensa em tudo.

Fui até o altar com um mosaico de azulejos da Virgem de Guadalupe,acendi uma vela nas que já estavam acesas,a levei para o outro lado da fonte,onde um novo altar havia sido construído com caixotes e decorado com o tema da festa e coloquei a debaixo de um quadro.

— Você não é mexicana mas compartilha da crença?

— Você diz sobre o dia dos mortos?

— É,sei lá,eu não conheço bem mas estamos no México e você acaba de acender uma vela numa foto,de alguém provavelmente morto,certo?

— Certo. Todas as fotos das pessoas que você estiver vendo por ai são de pessoas mortas.

— Então você acredita que no dia 2 eles realmente vem visitar as pessoas?

— No que você – eu abri um largo sorriso – acredita?

— Fui indelicado?

— Não. Você sabe a origem dessa festa?

— Perdão. Não sei.

— Bom,é uma celebração de origem indígena que remonta as épocas pré-colombianas. Eles costumavam honrar seus ancestrais,mais antigamente,expondo os crânios como troféus. É,parece estranho,mas muitíssimas civilizações faziam coisas estranhas assim. A morte é implacável e ela virá Ketan,então hoje a festa é usada como um modo de mostrar que a morte é tão natural quanto a vida e lembrar sempre das pessoas que amamos.

—É,é realmente bem estranho.

— O que o hinduísmo crê?

—Os hindus possuem crenças distintas, mas todas são baseadas na idéia de que a vida na Terra é parte de um ciclo eterno de nascimentos, mortes e renascimentos.

—Simples assim! Mas e você,no que você acredita?

— Eu... – Ele riu. – Você não disse no que você acredita.

Suspirei.

—Você realmente é mais esperto que o seu irmão. Eu acredito em tanta coisa Ketan. Acredito em coisas que não valem nada,como diz uma música de uma banda que eu gosto do meu pais. Acredito em coisas boas e algumas ruins,que não consigo deixar de acreditar. Não me pergunte qual a minha religião porque no Brasil isso é bem bagunçado,mas parte do que você viu na floresta hoje,sou eu. Estar aqui acendendo uma vela,sou eu.

— Eu já percebi que você é bem misteriosa e...

— E?

— Completamente instigante. Ele tem razão quando diz que você é diferente.

— Ele?

Ketan titubeou.

— Dex. O Dexter diz sempre,que você é a estrelinha dele.

— É,mas ele é meio anormal,não vale. – Ketan voltou a sorrir – Você tem algum parente próximo que morreu? Algum amigo,alguém querido?

— Avós. Mas a mãe do meu pai é a que mais me dói. A família do meu pai é completamente doida.

— Arrume fotos deles,eu imprimo no escritório e a gente traz pra cá.

— Ah não,tudo bem.

— Medo dos espíritos deles mandarem você cortar o cabelo??

— Não,eu não quero dar trabalho. Achei que você gostasse do cabelo.

—Sim eu adoro!! E isso não é trabalho,me passe as fotos e eu imprimo. Afinal amanhã é halloween e... eles iam gostar de nos ver felizes.

Toquei a foto do maior quadro do altar. Era de um homem jovem,cabelos curtos enrolados,tinha uma pinta no lábio superior esquerdo.

— Quem é ele?

— Meu pai.

— Ah Lizzy,eu sinto muito,não sabia.

—Não sinta. Por isso a foto,por isso a vela,por isso na festa. Ele sabe que hoje eu sou feliz,sabe que nunca será esquecido,eu não sei se vem me visitar na noite dos mortos mais ele sabe... e eu sei. – Ketan tinha os mesmos olhos brilhantes de Avan,mas seu jeito de olhar era doce e não traiçoeiro como o do irmão. Ele sorria e me olhava com um carinho nu,como se me conhecesse a vida toda,achando ou que eu era doida ou que estava brincando,talvez por não ter entendido nada ou... eu não sei,mas o olhar e o sorriso de Ketan Jogia eram completamente opostos aos de Avan e completamente doces. – Vem,eu já falei demais,é halloween,vamos beber.

Saímos do pátio e fomos até onde os convidados estavam jantando,ficamos numa ante sala ouvindo os Mariachis e falando sobre o que eles usariam nas festas. Sophia veio com a maquina fotográfica e abracei Ketan para um clique.

— Hey,meus dois únicos amigos nesse lugar estão bebendo sem mim? E abraçados?

Avan não foi rude mas senti tensão em sua voz,direcionada a seu irmão!

— Fotos!! Sophia,Avan chegou,tire mais uma por favor!

Avan passou para o meu lado direito,me fazendo ficar no meio dos dois e foi a posição mais desconfortável do mundo pois ele realmente estava bravo,o que foi super aparente. Os deixei o mais rápido que pude e sumi com Sophia.

— Claro que eu vi.Ele ficou com uma cara...

—Sophia vamos jantar pelo amor de Deus,você dá o braço pro Ketan porque eu acho que o Avan já acendeu uns dez cigarros e tomou uns quatro copos de whisky e isso vai dar merda já já.

— Olha eu adoraria levar o Ketan pro meu quarto se você deixar.

— Não,dançar na pista adulta,hoje não tem baladinha e nada de quarto.

— Ah,assim o Avan ia ficar tranqüilo. Deixa vai tia Lizzy?

— Engraçadinha,brincadeira a parte, eu não quero um colapso no meu esquema da festa,não quero o Avan se comportando ridiculamente como um garoto e não quero você se oferecendo.

— Eu to brincando Lizzy,já basta o Avan nervosinho,fica assim não,nada vai dar errado.

— Eu sei,desculpa,mas eu não posso nem pensar nele fazendo uma cena aqui. Tem pouca gente ainda,a maioria das pessoas chega amanhã mas não seria nada bom se ele fizesse algo assim. Também não sei porquê o Dex quer a gente em todas as fotos juntos,isso tá me cheirando marketing.

Jantamos. Foi animado e Avan pareceu mais tranqüilo embora tivesse me bombardeado com comentários inquisidores. Sophia ficou conosco na mesa a noite toda,vez ou outra Avan acendia um cigarro e aquilo me irritava mais. No fim da noite,quando nos despedimos,eu quis provocar.

— Boa noite meninos,agradecemos a companhia animadíssima e Ketan,não se esqueça do que combinamos – Avan olhou com curiosidade como quem pergunta “o que?”, abaixei a voz – eu faço questão e espero no mais tardar até o café da manhã,boa noite Avan – e dei lhe um beijo no rosto antes de sumir pelas escadas.

— O que foi isso? O que aconteceu com “não quero uma cena”?

— Sei lá,deu vontade de saber se ele realmente faria uma cena,mas já estamos distantes das pessoas,se ele fizesse alguma coisa seria algo ameno.

—Mas ele pode brigar com o irmão lá em baixo,mesmo longe de você.

— Ah Sophia,eu nem sei... e nem me importo.

— As vezes não entendo você Lizzy.

— Nem eu.

Quando amanheceu, Sophia veio trazer as fotos impressas dos avós dos Jogia. Ketan havia mandado na noite anterior mesmo e fiquei feliz por ele ter levado a sério. Passei a manhã toda praticamente no pátio e no salão onde o baile de halloween ia acontecer,verificando todos os detalhes. A tarde tive uma reunião com os verdadeiros manda-chuva da MGM e fui me arrumar para a festa.