Os olhos de Sophia
1 Bela e perigosa: A Floresta da Cachoeira
Notas iniciais
Era um dia feliz para Jefrey, pois acabara de se mudar, e sua nova casa era o sonho de qualquer criança. Num lugar tranquilo, onde reverberava o canto dos pássaros, ficava uma simples casa feita de madeira, a casa em si não era o que chamava mais a atenção, e sim a natureza ao seu redor. Envolto a casa havia ipês rosas e árvores de belos frutos coloridos, pouco distante ficavam enormes carvalhos enfeitando os sopés das colinas, que eram todas salpicadas de lírios brancos e amarelos, e ainda mais além, ficava o que de onde Jefrey não havia tirado seus olhos: A Floresta da Cachoeira.
Como na sua antiga casa Jefrey não tinha espaço para brincar, ele estava ansioso por conhecer todas as maravilhas de um lugar tão belo quanto era a Floresta da Cachoeira. Sonhava em repetir os atos de todos os heróis de seus livros de fantasia. As ideias do que fazer num lugar onde sua mente se libertava eram inúmeras, mas Jefrey havia de ajudar seu pai, Arthur, na mudança.
Na varanda, Jefrey esperava junto com seu pai e sua mãe Belinda, as mudanças que viriam num caminhão. E antes que o sol estivesse alto no céu, que naquela manhã estava isento nuvens, o caminhão chegou, e junto dele a mudança e as chaves da casa. Jefrey pegou as chaves e, ao abrir a porta da entrada, viu que era uma casa simples, mas muito simpática, de uma arquitetura simples e acolhedora, feita nos mínimos detalhes e enfeitada com entalhos na madeira.
Após carregarem as malas para dentro, Jefrey subiu as escadas e foi conhecer seu quarto. Nele havia uma simplória decoração: uma cama no canto inferior, a frente uma prateleira, um guarda-roupas e ao lado da cama, havia um criado-mudo com um abajur todo desenhado em flores. Na parede do lado da cama havia uma janela arredondada que dava para a Floresta, então Jefrey tirou seus sapatos e subiu em cima da cama para ver as coisas além. Nas pontas dos pés, Jefrey tinha uma bela visão do que seria seu novo local de pratica de aventuras. Ele via por cima (já que sua casa ficava no cume da mais alta colina da região), uma imensidão de árvores que de longe pareciam faias, mas eram diversas as espécies. Seguindo a visão, dava para ver grandes clareiras na floresta, e no fim de toda a paisagem ficava o abismo de onde caia o rio da cachoeira. Uma névoa densa encobria a queda d’água, dando a ela um ar sinistro e misterioso, o que fez Jefrey pensar em ser aquele ponto o primeiro a visitar em suas expedições pela mata. Enquanto sonhava com tudo aquilo, Jefrey acabou sendo acordado pelo grito de seu pai, que o chamava para organizar a mudança.
Passaram o dia colocando as coisas nos lugares, e como havia muito para se organizar, só conseguiram parar para o almoço. E foi um belo banquete, incluíam-se nele uma suculenta rabada, pães de milho, torta de frango e de sobremesa havia as frutas colhidas do pequeno pomar da nova casa e um mousse de maracujá.
Depois de se empanturrarem com o belo banquete, dormiram um pouco nas redes da varanda, mas o dia depois do cochilo foi preenchido por trabalho, e mais trabalho, até que o sol foi encobrido pelas colinas e a noite subia, fria e bela no céu, e eles finalmente descansaram.
Como na região não havia muitos moradores, havia pouca luz, e a escuridão trazida pela noite era mais densa. Não que isso fosse negativo, pelo contrário, isso só deixava o céu mais estrelado, como nunca se podia ver na cidade. Jefrey dizia que lá o céu estrelado é como se você fechasse seus olhos e imaginasse a escuridão sendo coberta de açúcar. E era parecido com isso, só acrescenta-se ai os barulhos que viam de lugares desconhecidos da mata, o canto dos grilos, o coaxar dos sapos e sons estranhos de outros animais noturnos.
Colocaram fogo na lareira, e depois de outro belo banquete, agora no jantar, Jefrey, Arthur e Belinda sentaram-se envolta do fogo e passaram a noite falando sobre planos, sobre a nova casa e tudo o mais, enquanto observavam a dança das chamas e brasas no fogo que crepitava na lareira.
Não demorou muito e Jefrey pegara no sono, coitado, estava muito cansado. Arthur então pegou o nos braços e o colocou na cama. Jefrey estava num sono pesado, e com um leve sorriso no rosto, talvez fosse os sonhos com suas futuras
E o dia começou cumprindo com as expectativas, pois muito bela era aquela manhã, o céu estava num tom azul abrasador, as folhas das árvores farfalhavam compondo uma melodia sincronizada com o canto dos pássaros. O vento trazia uma brisa suave e refrescante e assobiava num tom agudo, formando assim uma bela canção, sendo a natureza a compositora.
Jefrey levantou-se da cama num pulo, tomou o café-da-manhã e começou a aprontar-se para ir explorar a região da nova morada. Pegou sua mochila escolar, tirou todos os cadernos e a encheu de coisas que usaria na expedição. Depois de pronto, Jefrey só avisou aos pais que iria sair e partiu.
Pegou a trilha que seguia para entrada da floresta, passando por entre os carvalhos e aqui e ali algum freixo. Tudo era muito novo para Jefrey, respirar aquele ar o deixara muito empolgado, e passara a amar profundamente a natureza, e a natureza parecia retribuir-lhe, pois acontecia de os pássaros pousarem no seu ombro e cantarem belas canções no seu ouvido. A caminhada estava muito agradável, Jefrey ansiava muito para chegar à cachoeira, mas não se incomodaria com o tempo que estava gastando.
Numa curva da trilha, Jefrey se depara com uma bifurcação, e onde a estrada se dividia, havia uma placa apontando nas duas direções. A estrada da direita seguia rumo a Floresta da Cachoeira, e a estrada do lado esquerdo seguia rumo ao rancho da família Jones, os vizinhos de Jefrey. Olhou a frente no lado esquerdo da estrada e viu ao longe uma casa sob um alto ipê amarelo, e na arvore havia um balanço onde balançava alguém que de cabeça baixa, e parecia estar triste. Jefrey pouco se importou e logo seguiu para a floresta.
A trilha que seguia para a mata era plana e limpa, na borda da estrada havia uma cerca-viva que aparentava não ser cuidada há anos, mas isso só até certo ponto, pois logo depois a estrada era rodeada de faias, até que a vegetação fica mais densa e enfim chegava-se entrada da floresta, onde havia um alto arco de madeira, e no topo dele um placa onde estava escrito “Seja bem vindo a Floresta da Cachoeira”.
Jefrey entendeu bem a mensagem, tanto que logo entrou na floresta. Ficou maravilhado com a visão que tinha ali. Havia árvores em abundância, freixos, carvalhos, nogueiras e salgueiros. O chão estava forrado com as folhas amareladas que tinham caído no outono anterior. Havia muitas clareiras, de onde os raios de sol penetravam no verde da mata. As folhas dançavam e o vento brincava correndo de um lado para o outro. Naquela parte o ar era leve e agradável.
Depois de fitar tudo aquilo por algum tempo, Jefrey respirou fundo e adentrou mais fundo pela trilha, que às vezes virava para outras direções em trilhas originárias da trilha principal, mas Jefrey sempre seguia pela estrada que havia escolhido desde antes das colinas dos lírios, pois sabia que por ela ele chegaria à cachoeira.
A trilha ia contra o vento, o que deixava a caminhada mais agradável, porém, depois de percorrer cerca de uma milha, Jefrey decidiu parar para descansar. Sentou-se sob uma nogueira em uma das clareiras da mata, onde corria uma fluente que ia, provavelmente, rumo ao lago onde desaguava a cachoeira. Bebeu um pouco d’água e encheu sua garrafa, comeu algumas frutas e se aconchegou nos entremeios das raízes da árvore por algum tempo. Jefrey deitou-se virado para a correnteza, e depois de muito mirar a fluente, acabou sendo tomado por uma dúvida: sua estrada fazia muitas curvas, o que prolongaria sua caminhada, não devia ele seguir a fluente?
“Seguindo pela estrada eu posso me perder, posso precisar de água e pela fluente é certo que chegarei à cachoeira”. Pensava Jefrey consigo mesmo. “Tentar ser melhor que o óbvio é uma escolha dos corajosos”. Decidiu então, depois de tanto indagar, que iria pela fluente, e logo foi se arrumando para a segunda fase de sua exploração, apertando a bolsa, calçando os sapatos e tomando coragem.
Seguiu a fluente, que agora era sua guia, e mesmo sendo rápida, ela não saia do mesmo lugar — com isso Jefrey ditava o ritmo. A vegetação da margem da corrente era rasteira, tendo aqui e ali uma ou outra planta de pequeno porte. Era um pouco escorregadio, pois devido à umidade, em partes do caminho havia lodo.
A caminhada ia ficando mais animada, agora os animais começavam a sair de suas tocas, olhos brilhavam nas sombras das copas das árvores, veados matavam a sede, e borboletas multicoloridas ensaiavam coreografias no ar. Diversos eram os sons, o farfalhar das folhas, a água correndo, o canto dos bichos, enfim, uma bela sinfonia.
Em um momento da caminhada, Jefrey nota que num alto galho está um pássaro diferente, o qual ele nunca havia visto antes. Era grande como uma águia, mas era de um tom amarelo fluorescente, e tinha a crista de penas vermelhas e o bico marrom. O garoto acabou se distraindo ao olhar pra cima e sem querer pisou em falso numa parte traiçoeira do chão, e de consequência escorregou e caiu batendo a cabeça em uma das pedras no caminho. Ficou zonzo por uns instantes, mas logo se recuperou e, ao olhar pra cima viu que o estranho pássaro havia desaparecido do galho. Levantou-se e se recompôs, andou um pouco e teve outro susto: algo parecia rastejar no seu rosto. Passou a mão em sua face num vulto, e ao verificar o que era, percebeu que no seu tombo havia cortado a testa e sua mão estava suja de sangue. Parou bem em frente uma poça onde a água estava parada, e de tão cristalina, nela podia se ver tudo que se refletia em detalhes.
Encheu sua mão d’água — o que fez a água deixar o reflexo abstrato—, limpou seu ferimento e ao voltar-se para o espelho d’água, viu que algo se erguia atrás dele, e no momento em que a água parou de se mexer, o que estava abstrato se tornava claro: um urso estava bem nos calcanhares de Jefrey! Vendo que o urso estava prestes a atacar, o garoto deu um salto para o lado, desviando do primeiro ataque. Não havia tempo para nem mesmo respirar. Jefrey logo se virou e saiu correndo e seguindo a correnteza com o urso em sua espreita. Era grande e feroz, e soltava sons guturais. Parecia estar realmente faminto.
Quando Jefrey finalmente conseguia despistar o urso, eis que o que estava ruim acabava de piorar: a correnteza chegava a um muro de pedras intransponível, a correnteza corria por baixo das pedras por uma fresta seguindo seu caminho. Pensou em correr em outra direção, mas lá estava o monstro, se erguendo alto e imponente, indo rumo a Jefrey, que agora estava encurralado.
Sem saber o que fazer, o garoto saiu correndo rumo a fluente, que agora tinha certa profundidade e talvez tornasse possível sua passagem pela fresta do alto muro. Caiu na água e se espichou todo, tentando ocupar o menor espaço possível, mas ao chegar à fresta, suas pernas passaram, mas ficou preso pela mochila. Vendo isso, o urso correu rumo a Jefrey, que desprendeu sua mochila e deixou-a para trás e enfim conseguiu se livrar do carrasco.
A aventura não acabava aí. Ainda restava saber onde a correnteza o levaria. Foi escorregando no escuro onde nada se via, e só se conseguia sentir a água gelada, até que foi surpreendido por uma repentina descida íngreme que o deixara a toda velocidade.
Conforme ia descendo, uma luz começava a surgir no fim do caminho, e cada vez mais aumentava, finalmente quando Jefrey chegou perto do fim no túnel, a luz ofuscou seus olhos. Só sentiu que havia caído em algo macio, parecia grama.
Jefrey caiu quase que desacordado, só conseguiu escutar alguns passos e gritos ao longe dizendo “Hey! Você está bem?” e enfim desmaiou, sem ao menos ter visto onde estava.
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