Os homens do futuro

2 Perdidas no cemitério. Autobiografia.


Notas iniciais
Esta história é verdadeira, aconteceu no Chile, quando eu tinha 15 anos. É muito engraçada.

Meu pai morreu em Santiago do Chile, num final de ano, há muito tempo. Naquele dia, alguma coisa me incomodava profundamente. Antes de ir para a escola, olhei para meu pai por longo tempo, e quando o abracei para dizer-lhe adeus, tive a impressão de que fosse a última vez. Durante toda essa manhã, eu andei estranha, com o peito apertado pensando no meu pai doente. Minhas colegas de aula perguntaram-me por que estava tão chata naquele dia e eu contei-lhes a verdade: — “Acho que meu pai está morrendo”- E como era de costume, minhas amadas amigas tentaram me consolar da melhor forma possível, contaram piadas até fazer-me rir novamente.

Assim que voltei para casa, um vizinho veio imediatamente me abraçar, sem falar nada, olhos úmidos de dor. Eu parei de respirar. Não conseguia mexer nem um músculo sequer. Era como se eu morresse junto com meu pai naquele momento de minha vida.

Mas a morte era dele, não era minha. Portanto, meus pulmões reagiram e aspirei fundo, enquanto as lágrimas corriam pelo meu rosto.

Durante à tarde, minhas amigas da escola apareceram em casa. Todas elas vestindo uniforme, com flores na mão e chorando mais do que eu. A Dalila Muga dava soluços terríveis, parecia histérica. Abraçava-me, chorava, olhava tudo ao redor, e assoava o nariz estrondosamente. Olhei para ela e sorri docemente. Ela chorava de minha pobreza, da casa humilde em que eu morava, da simplicidade da minha vida, chocada, pois com certeza ela jamais pensou que eu fosse tão pobre assim.

Um mês depois da morte de meu pai, na Escola Técnica onde eu estudava “Desenho aplicado” chegaram as terríveis provas de fim de ano.

No meu país, naqueles anos, todos os alunos tinham que fazer exame diante de comissão de cinco professores, em cada matéria. Quem tivesse como média de notas sete ou seis, passava direto, pois no Chile são essas as notas mais altas. Quem tirava cinco, podia assumir a nota ou prestar exame e subir até seis, e quem ostentava um quatro, que era a avaliação mínima de aprovação, era obrigado a fazer exame frente à comissão de mestres, muito mais era cobrado de quem estava reprovado com notas inferiores.

Lembro que eu fiz exame em história e subi minha nota de cinco para seis. Depois, fui procurar minha turma de amigas para saber das novidades de cada uma. E foi ali que tudo começou. A Nora Poblete me apareceu correndo e gritando com euforia:- “Passei, passei em inglês..”- E todas começamos a gritar em coro, pois a Nora repetia em inglês todos os anos, e depois que reprovava, ela chorava que nem Maria Madalena. Depois da euforia, ela explicou que tudo era graças ao meu pai, pois ela o havia invocado na noite anterior, rezando, e havia-lhe prometido que se fosse bem nos exames, ela iria ao cemitério fazer-lhe uma visita. Emocionada, pois eu não sabia que meu pai podia fazer um milagre, eu prometi ir junto com ela, no sábado à tarde. Imediatamente, Cristina Saavedra nos convidou para tomar café na casa dela, afinal ela morava pertinho do cemitério, e marcamos para as três da tarde na casa dela.

Nora chegou à minha casa, depois do almoço. Eu coloquei meu melhor sapato, salto alto, bico fino, pois os pais da Cristina eram gente fina. A Nora então parecia que ia para uma festa da alta sociedade de tão chique que estava. Saímos de minha casa caminhando, cruzamos a ponte de Renca sob o rio Mapocho, e depois de meia hora estávamos na casa da Cristina, batendo papo, tomando chá, é rindo de mil coisas.

Quando chegamos ao cemitério, só então percebemos que estávamos muito atrasadas, pois as portas estavam-se fechando. Corremos, nesta altura com os braços cheios de flores, e encaramos o guarda que se negava a deixar-nos entrar por causa da hora. Alegava que logo ia escurecer, que de noite havia assaltantes perigosos que matavam jovens lindas como nós. Mas eu jurei que a tumba de meu pai estava logo ali, na estradinha e não ia levar nem 15 minutos deixar as flores e sair por ali mesmo. E ele acreditou!

Entramos pela avenida principal, caminhamos rapidinho até o final dessa estrada, dobramos para a esquerda, depois para direita, e chegamos à tumba, cansadas, suadas e apressadas, pois o Sol estava começando a se pôr no horizonte. Eu chorei uma lágrima, rezei e começamos a percorrer o caminho de volta.

Foi ali que lembrei que a segunda entrada do cemitério estava a menos de duas ruas. E fomos até lá. Mas, quando chegamos nela, as portas estavam com cadeados, não havia nenhum guarda sequer, e encaramos a triste verdade. Teríamos que desfazer todo o percurso. Mas depois de três ruas já estávamos perdidas.

Eu achava que havia que virar para a direita, a Nora achava que era para esquerda e como o Sol estava quase no fim, corremos para qualquer lugar, pois afinal meu pai não iria permitir que nada nos acontecesse.

Quando estava escuro, com todas as luzes internas acesas, sem poder achar a rua principal por onde havíamos entrado, dando voltas em círculo, a Nora me disse:

— Não aguento mais estes sapatos. Chega. Dói-me tudo.

E eu achei ótima a ideia de tirar os sapatos, pois meus pés estavam inchados e eu estava cansadíssima. Olhamos para o chão, todo asfaltado, bonitinho, e até começamos a achar divertida nossa aventura.

De repente, uma sombra cruzou a nossa frente. Depois, um barulho no meio de uma tumba nos chamou a atenção. Assim que vimos um vulto se mover pelo chão, aliás, nunca soubemos se era rato, ou gato, o que fosse, a Nora se abraçou a mim, gritando:

— Os mortos estão começando a sair, estamos perdidas!

Eu, valente como nunca, fiquei brava e disse-lhe que eram bichinhos e que nada iria nos acontecer. Mas, assim que um rato enorme cruzou pela nossa frente pulamos dentro dos sapatos e começamos a correr.

Cansadas, suadas, no meio da escuridão, abraçadas o tempo todo e olhando para os lados com cuidado, vimos outra vez o vulto lá na frente. A Nora, quase chorando me disse:

— Falei-te que era um morto. Olha bem, é todo escuro e tem um capuz por cima.

— Será? O porteiro falou que estava cheio de bandidos aqui dentro!

— Eu prefiro um bandido a um fantasma!

— Eu não. Vamos a ficar quietas e olhar de longe...

E começamos a espionar a sombra que caminhava entre as tumbas. Quando estávamos bem perto, vimos que não passava de uma pobre mulher, cuidando das tumbas, colocando água nas flores com um balde. Aliviadas, acercamo-nos e falamos:

— Boa noite!

E foi ali que a Nora novamente se abraçou a mim e escondeu a cara no meu pescoço. A mulher era tão feia, aliás, eu nunca mais vi uma mulher tão feia e com um bigode tão grande na minha frente, e entendi na hora que a Nora achava que estava na frente de uma alma penada. Mas, ela falou conosco demonstrando que estava bem viva:

— O que estão fazendo aqui dentro? Não sabem que está cheio de ladrões roubando à noite? Podem até ser mortas e estupradas aqui dentro!

— Estamos buscando a entrada principal!

— Nossa! Mas isso está longe!

— Mas a senhora poderia dizer-nos aonde ir, por favor?

— Claro! Eu vou mostrar por onde fica...

E foi graças a aquela boa mulher que encontramos a rua grande, enorme, cheia de mausoléus de gente famosa, com a Nora alegando, o tempo todo, que havíamos falado com um morto vivo.

Assim que chegamos aos portões, apareceu o guarda correndo com os braços para cima:

— Graças a Deus que estão vivas! Já ia chamar a polícia!

— Por quê? Demoramos muito?

— Sabem que horas são?

— Não!

— Quase 10 da noite, faz 4 horas que entraram por esta porta, suas malucas!

E foi ali que eu comecei a rir.

Primeiro como rio sempre. Depois foi um ataque de gargalhadas, que tivemos que sentar na rua, lembrando-nos do morto-vivo, das baratas, dos ratos, e com a Nora falando sempre:

— Me belisca, para saber se estou viva!

Notas finais
A lembrança de minha juventude é algo que mexe com minhas emoções, pois foi o tempo mais belo de minha vida.