Os homens do futuro
4 O grupo de teatro. Autobiografia
Notas iniciais
Durante longos anos, eu fui membro das Juventudes Católicas na cidade onde eu nasci, Santiago do Chile. Éramos um grupo de uns vinte jovens que cantávamos no coro, recolhíamos a oferenda dos fiéis, e também, fazíamos variadas atividades para juntar dinheiro e manter a nossa Capela “São Francisco de Assis” no bairro onde eu vivia. A idéia de formar um “Grupo de teatro” surgiu durante uma conversa, depois que contei para todos meus amigos católicos que havia aprendido a atuar na minha escola, num outro grupo de teatro estudantil, formado pela Escola “Técnica Feminina Nº 2” e a “Escola Industrial de Quinta Normal”.
E como a ideia pegou “fogo”, pois, a maioria queria ser ator, marquei uma reunião na minha casa para continuar conversando sobre o tema.
O Jano, um moreno muito sexy, era gamado pelos teatros Burlesque, Picaresque e Bim Bam Bum de Santiago, onde se encenavam peças picantes, próprias para quem curte o gênero erótico, com bastante palavrão e grosserias. O Jano achava que tirando os palavrões dessas obras, elas seriam peças engraçadas apropriadas para todas as idades, era só buscar uma maneira de mudar os textos. E por unanimidade a turma me escolheu para escrever os scripts.
Dali para frente o Jano ia à minha casa aos domingos e sentava a me contar histórias que havia visto durante a semana em todos os teatros cômicos da cidade. Eu ria às gargalhadas, pois ele era divertidíssimo. Depois, eu pegava a caneta na mão e começava a escrever, ler para ele, corrigir e passar a limpo, tudo a mão, porque naquela época o computador ainda não havia sido inventado, e máquina de escrever nunca foi meu forte. E, pouco a pouco, as histórias foram empilhando, até formar um total apropriado para montar um espetáculo.
Como nossa Capela dependia da Igreja da Rua Carrascal de Quinta Normal, tivemos que ir falar com os padres para que nos autorizassem a ocupar o Teatro Paroquial para os ensaios e para os espetáculos que daríamos. Afinal, o dinheiro que isso renderia seria para nossa Capela. E eles nos abraçaram, deram os parabéns, e até nos chamaram de exemplos para a comunidade.
Depois, veio à parte financeira. A mais difícil. Organizamos grupos de três e nos espalhamos pelo bairro batendo de porta em porta pedindo doações de valores, roupas, e até comidas, pois, pensávamos vender coisas durante a matinê. E o povão nos deu de tudo, pois todos nos conheciam, por causa do Coral da Capela. Fim de noite, pés inchados, juntamos as doações. Dava para tudo, comprar algumas coisas, fazer o vestuário e cozinhar bolos para vender durante as apresentações. A Lucia Schaffino, que não queria nada com o palco, ficou encarregada de fazer os bolos. Ricardo, que também não gostava de atuar, ficou como gerente de produção, encarregado das finanças. Ele teria que fazer a publicidade, vender ingressos, fechar o caixa e prestar contas. O resto do pessoal, inclusive eu, marcou os ensaios com emoção.
E foi ali, também, que Miguel entrou definitivamente na minha vida. Eu conheci Miguel num dia de teatro, na “Escola Industrial de Quinta Normal”, no dia em que o grupo de minha escola apresentava uma peça infantil. O diretor desse outro grupo era Carlos Quintanilla que estudava teatro na Universidade de Chile. E nossa apresentação, naquele dia foi maravilhosa. O público nos aplaudiu por muito tempo, e depois fomos para o camarim a nos abraçar e dar os parabéns para todos nós. Meu namorado Pedro, que estava conosco me abraçou orgulhoso e me beijou ainda toda maquiada. E foi ali que eu descobri o Miguel, olhando para mim, diretamente, com ar descarado. Levantou a mão e me disse “oi” de longe, sorrindo. Pedro, que era ciumento me tirou do camarim imediatamente.
Depois, no meio do público, vimos Miguel e seu amigo Nicolas fazendo uma peça tão engraçada, mas tão hilariante, que rimos do começo ao fim.
O tempo passou, meu namoro com Pedro terminou, e Miguel me escreveu uma carta, pedindo para nos encontrar, justo na época em que nossos ensaios no Teatro Paroquial davam zebra em cima de zebra, pois era um fracasso completo a atuação de todos nós. Faltava mesmo um diretor que nos orientasse.
Nos ensaios, el Guatón não conseguia falar como caipira, el Jano marcava para ele as falas, palavra por palavra e dava tudo errado. El Guatón era um cantor genial, voz de tenor, que cantava para nós em dia de festas, mas como ator era um fracasso completo. El Mosca só fazia cagadas. Aliás, foi ali que nasceu seu apelido. Ele caía no chão, olhava para onde não devia, quebrava coisas, de preferência cadeiras, era um desastre terrível o malandro. A Isabela e a Katia não conseguiam mexer os quadris de forma sensual, a Maria não conseguia decorar as falas. Nossa! O Miguel apareceu como a salvação para nosso drama. Com ele na direção finalmente tudo começou a dar certo.
Miguel foi também o namorado mais maravilhoso que conheci em minha vida. Engraçado, amigo, companheiro, ele foi uma pessoa muito importante para mim, e ainda hoje, não sei porque motivo não me casei com ele.
Enquanto nosso namoro acontecia, a estréia de nossa primeira atuação no Teatro Paroquial iniciou! Nossa! O público riu, aplaudiu, teatro lotado, a Lúcia nunca vendeu tanto bolo como naquele dia e o Caixa do Ricardo foi recorde de lucro. Prestamos conta aos padres do sucesso e dali para frente nosso grupo fez muitas apresentações, sempre na linha comédia, que era nosso forte.
Mas, durante esses dois anos de atuação, aconteceram coisas muito hilariantes que vale a pena de se relembrar.
Nunca me esquecerei daquela vez em que a Isabela ficou doente uma noite antes da apresentação no Teatro. O Jano, que namorava com ela, chegou ao Teatro com a notícia, uma hora antes de todos nós entrarmos no palco.
“A peça principal daquele dia era a história de um homem milionário que procurava uma mulher casta e virgem para casar. Para encontrá-la, ele havia comprado um assento erótico que apitava se a mulher que sentasse nele não fosse virgem. Dessa maneira, o milionário levava sempre para casa uma mulher diferente, e depois chorava as magoa ao lado de seu mordomo Matias, pois, nenhuma mulher era virgem”. Eu era a última mulher a entrar em cena, disfarçada de horrorosa, gorda, velha, mas mesmo assim o milionário me pedia em casamento. Depois, eu o traía com o mordomo Matias. Eu sentava no assento que apitava escandalosamente”.
Quando o Jano nos contou que a Isabela não vinha, a discussão começou. O Jano dizia que sem a Isabela a peça ia ficar apensa mais curta, que não haveria problema nenhum. Eu achava que tínhamos que colocar alguém, pois as falas eram duas linhas que qualquer um memorizava na hora. Miguel também queria colocar alguém, mas todos nós estávamos com personagens prontos. O que fazer? Não havia ninguém sobrando para isso.
E foi no meio dessa bagunça que el Lucho chegou e perguntou:
—Oi, pessoal, algum problema?
Imediatamente, alguém gritou:
—É ele!
E el Lucho, foi despido, vestido de mulher, maquiado, penteado, sem escutar que ele gritava:
— Eu não vou sair, eu não vou...
“El Lucho era um jovem atlético, caminhava como um campeão, e não tinha nada, mais nada de feminino. Ele era também o único do grupo que tinha condução própria. Ele era dono de um caminhão do tipo ogro-móvel da Malhação, sem capô, sem a porta direita, e prestava-se para tudo com seu caminhão. Também ele gostava de tocar bateria, que era mais barulhenta do que o caminhão. Chegava às casas das amigas, com a turma de machos, a fazer serenatas na rua, com a bateria na frente da porta. Era engraçado demais”. E el Lucho, naquele dia, foi sensacional. O pessoal riu tanto, mas tanto, que minha apresentação de velha horrível nem foi tão boa assim.
Mas o dia mais hilariante foi quando decidimos fazer um show com música, pois no bairro havia um conjunto muito bom, que já fazia sucesso nas paradas de rádio. Eles se chamavam “Allan e seus Beates”, eram amigos conhecidos, e membros da Juventude Católica da Igreja de Carrascal, igual a todos nós. Numa tarde, formamos uma comitiva e convidamos Allan para cantar para o povo do bairro, de graça, pois a grana ia ser para a Igreja. E como bom católico, o irmão Allan disse que sim, com o maior agrado. Eles juraram que iriam, e começamos a preparar tudo eufóricos.
No dia do nosso show, o teatro lotou! Nossa! Havia gente até sentada no chão do corredor. A Lúcia vendeu os bolos rapidinhos, o Ricardo no caixa sorria feliz. E nós em clima de festa iniciamos nossa apresentação. Eram histórias curtas e engraçadas, que se sucediam uma atrás da outra com o público rindo sem parar. Só que o nosso repertório terminou, e “Allan e seus Beates” sumiram de Santiago durante o dia, sem sequer falar para nós. Eles simplesmente não chegaram ao Teatro a dar explicação. Enquanto isso, o público começou a gritar:
— ALLAN... QUEREMOS ALLAN...
O que é que podíamos fazer?
Miguel com suas idéias geniais em momentos de crise me convidou a fazer o show do “Barman e o Freguês”. E eu topei na hora. Corremos a colocar uma mesa, uma cadeira, e Jano saiu a anunciar o número pedindo calma, pois Allan estava um pouquinho atrasado. O público acalmou e lá fomos nós:
— GARÇOM... Quero a conta...
— Sim, senhor, são cinquenta pesos...
— Mas, como? Eu só comi um pastel, um refresco, uma empada, um ovo! São quarenta pesos!
— Ah, é? E o bife?
— É o que eu disse, o bife, o ovo, o refresco e o pastel.
— E a empada?
— Foi o que falei! A empada, o pastel, o bife, e o ovo...
— E o re...fres...co?
Foi nesse momento que a primeira “laranja voadora” cruzou o espaço até nós, caindo na cabeça do Miguel. Depois foi de TUDO! Desde bolo até sapato. Miguel, depois de esquivar com a cabeça uma dúzia de vezes, virou a mesa no chão e se agachou atrás me chamando, pois eu estava no meio do vendaval de porcaria. Corri para me esconder ao lado dele enquanto o Jano corria as cortinas para nos proteger. Enquanto isso, Isabela, Kátia e Maria recolheram tudo nos camarins e correram para o caminhão del Lucho, que já estava ligado. Por sua vez, Ricardo fechou o caixa e levou a grana antes de sermos assaltados, o Mosca saiu voando, enquanto el Guatón gritava:
— Vamos embora, pessoal...
E foi dessa forma que todos nós fugimos!
Depois tivemos que aguentar a bronca dos padres, pois quem evitou que o público queimasse o teatro foram eles. Proibiram-nos fazer apresentações e ficamos tristes por algum tempo.
Quando tudo acalmou, num domingo memorável, limpamos a Capela São Francisco de Assis, tiramos as imagens dos Santos, desmontamos o altar e fizemos a nossa apresentação naquele lugar, para um público hilariante. Foi demais! Eu estive fenomenal no meu papel de velha ladra e sem-vergonha, tipo Catifunda, que roubava de meu amigo Jano a bilheteira, mas ele ao fim da história também me roubava às calcinhas. As calcinhas eram de minha mãe, bem grande, na qual eu havia feito costuras, buracos, deixando-a bem feia. O povo riu conosco até engasgar.
E toda essa alegria de viver de todos nós acabou depois que começamos a casar, um a um, e a nos separar.
Hoje, depois de tantos anos, sinceramente eu afirmo que foi no teatro que eu vivi os momentos mais lindos de minha vida. Os mais felizes. Com meus amigos de infância de meu bairro com os quais eu cresci e aprendi a amar. Amigos que estarão eternamente guardados no peito. Deve ser porque eles foram mais do que amigos, eles foram meus irmãos, minha família querida onde Miguel possui um lugar privilegiado, bem no centro do coração.
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