Os homens do futuro
6 Cap. 6. Herói
Notas iniciais
Numa grande cidade da América do Sul havia um general do exército que vivera uma vida cheia de glórias. No seu peito, brilhavam cinquenta medalhas como testemunho de sua coragem e sua bravura. Ele participara valentemente dos bombardeios à “Casa de Governo” de sua pátria, onde todos os dirigentes políticos morreram. Em seguida, transformou-se no assessor principal do novo Presidente e um membro importante da DIDA, uma organização de espionagem de seu país.
Com o passar dos anos, converteu-se numa figura internacional. Foi chamado para dirigir outros “Golpes de Estado” em países vizinhos, perseguiu homens revolucionários e colocou nos presídios rebeldes contrários à ordem, ao respeito à família e aos bons costumes da sociedade.
Enquanto o General era requisitado por figuras importantes de vários regimes diferentes, a imprensa dava-lhe o máximo de destaque. Sua foto era motivo de muitas reportagens e sua fama atraía as mulheres mais lindas de todos os cantos. Seu perfil másculo e seu porte atlético derretiam o coração das donzelas onde quer que ele fosse.
E assim como o nosso herói era amado pelas damas, ele era também o orgulho da família. Seu pai só falava dele em reuniões com amigos. Sua mãe adorava-o. Seus irmãos caçulas, todos eles, tentaram imitá-lo e entraram no exército para fazer carreira militar.
Mas, infelizmente, um terrorista acabou com sua vida.
E ele morreu baleado no meio da rua.
O general herói foi enterrado com honras, a bandeira nacional foi colocada sobre seu caixão e os militares dispararam tiros para o ar, em sua homenagem, enquanto todos seus amigos choravam de dor.
O espírito do general saiu de seu corpo lentamente, enquanto outras pessoas morriam estendidas na rua, por outros motivos. Depois, meio sonso, acompanhou seu velório, seu enterro, e, quando ficou a sós no cemitério, sentou por cima de uma coroa de flores a espera de um anjo que viesse procurá-lo. Enquanto isso, olhava sua família dirigir-se à saída do campo santo, abraçados e chorando sem consolo pela desgraça de sua morte.
E o general esperou e esperou, mas ninguém apareceu para buscá-lo.
Ao anoitecer, ele viu uma luz cor de rosa no fim do cemitério, para onde uma mulher caminhava acompanhada de vários homens. E ele também foi nessa direção, para saber de alguma informação. Depois daquela luz, a uns cem metros adiante, apareceu-lhe um longo corredor iluminado por estrelas maravilhosas. Ele olhou para cima, para os lados e caminhou em frente com firmeza, pois isso só podia ser o caminho para o céu. De repente, no meio da estrada, o espírito de um homem jovem chegou ao seu lado, cambaleando, com a cara arrebentada a socos, o estômago esmagado a pontapés, olhos inchados de tanto chorar, que a seguir caiu estendido ao lado do caminho, gemendo de dor. Depois, encontrou uma mulher espancada até a morte, ainda chorando e berrando, logo mais chegaram cinquenta soldados da guerrilha que ele tanto combatera, desfigurados como monstros, pois eles haviam sido queimados vivos pela milícia com armas incendiárias.
E a rua lotou de espíritos sofredores.
Chegaram os cidadãos das favelas que morreram embaixo das bombas aéreas e depois apareceram milhares de mártires, assassinados através de torturas, gemendo, olhando para ele e assinalando-o como o culpado de tudo isso. Havia aqueles que morreram afogados no meio do mar, amarrados com pedras, os que foram lançados nas crateras dos vulcões, enfim, havia milhares de mártires diferentes. Os espíritos mais fortes avançaram por cima dele para surrá-lo, mas como ele fosse em vida campeão de luta, conseguiu safar-se de todos eles. Além do mais, um desvio por um outro caminho de cor verde e iluminado de estrelas azuis apareceu na sua frente e ele correu até lá. As outras almas não conseguiram entrar nesse desvio nem agarrá-lo, pois um grosso vidro fechou-lhes o caminho. Esses espíritos sofredores ficaram trancados por fora, gritando-lhe palavrões, acenando-lhe e chamando-o com nomes horríveis.
Quando o general chegou ao fim da avenida verde esmeralda, ele viu uma fileira de homens elegantemente vestidos de preto, de terno e gravata, impecáveis, bonitos, fazendo uma fileira dupla para recepcioná-lo com honras e glórias. Alguns daqueles homens ele reconheceu imediatamente. Eram colegas do Décimo Batalhão, militares que nem ele. Os outros eram amigos íntimos, que foram em vida muito conhecidos. A maioria homens da política, como Deputados e Senadores, acompanhados de alguns Juízes de direito, banqueiros famosos, e alguns penetras indesejáveis, como, traficantes de drogas e cafetões profissionais.
Finalmente, depois de apertar muitas mãos e receber muitos abraços, apareceu Satã, o chefe daquele lugar, que abriu os braços acolhedores com orgulho. Afinal, Satã era um homem sorridente vestido como um príncipe, com uma capa preta até os pés, que o abraçou com carinho, olhos úmidos de emoção, recebendo-o como um grande “Herói”.
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