Os homens do futuro

1 A selva de Kupanamã


Notas iniciais
O dia em que os condenados partiram evacuados à selva de Kupanamã, Maria Constança estava com 12 anos de idade. Ela viu os jovens, as crianças e os adultos partindo para o desterro com lágrimas nos olhos. Quando os navios zarparam rumo ao mar aberto, seu peito apertou de dor, pois havia cinco colegas da sua escola partindo com seus pais. Ela ficou acenando com as mãos até que os barcos se perderam no horizonte.
Foi aquele incidente também que marcou seu destino.
Aos 18 anos, ela entrou na faculdade de medicina junto com seu irmão. Aos 23 anos Maria Constança já estava nas pesquisas de laboratório, estudando as possíveis causas da doença que trouxe tanto sofrimento para esse mundo.
Aos 27 anos, Maria Constança formou-se médica e também foi quando finalmente achara a cura para o mal. Conseguiu testar sua vacina em amostras engavetadas, e começou a dar palestras sobre seu achado. Os germens desapareciam nas lentes do microscópio. A única coisa que ela não podia fazer era colocar a vacina num doente de verdade. Nas cidades, o mal não existia mais, e na selva não havia nenhuma enfermeira e nenhum médico para realizar o tratamento. Maria Constança decidiu então fazer um apelo aos colegas num “Congresso de Infectologia”. Solicitou cinco voluntários para acompanhá-la à selva a fazer o tratamento, alegando que em dez anos os homens desterrados estariam curados e poderiam voltar para a civilização.

Num outro planeta, uma grossa névoa envolvia a selva de Kupanamã, num inverno muito frio. As árvores desse mato eram tão altas que suas copas ultrapassavam as nuvens como um manto verde florido.

Muito longe da selva, nas cidades desse mundo, as pessoas estavam enclausuradas na espera que a nevasca minguasse. Na verdade, no planeta “Tibu”, todos os anos os homens ficavam presos em casa durante o inverno. Ninguém trabalhava, nenhuma pessoa percorria as ruas cobertas pela neve e assoladas pelo vento frio. Porém na selva, longe do calor das casas e do conforto em família, a vida das pessoas era um pouco diferente.

Fazia muitos anos que os médicos desse mundo descobriram uma estranha doença. Os afetados começaram com uma coceira na pele, depois com úlceras intratáveis, e todas as pesquisas realizadas em laboratório para descobrir a cura foram em vão. Os manchados, como eram chamados, perdiam a vontade de viver e morriam um a um, no meio a febres terríveis. Em curto tempo as camas dos hospitais ficaram cheias de vítimas do contágio, pois a peste se alastrou com uma rapidez incrível.

Quando a doença alcançou todo o mundo, os governantes tomaram uma decisão drástica: isolar os contaminados num lugar abandonado, e imediatamente a selva de Kupanamã chamou a atenção de todos por causa do clima. Embora a névoa cobrisse o mato, as neves não a atingiam e podia se construir um abrigo seguro. Além do que, ninguém nunca conseguiria sair daquele lugar. Levar os doentes para lá, seria condená-los ao isolamento “para sempre”.

E a conquista dessa selva foi rápida e eficiente. Aviões carregados de material deixaram cair grandes comboios no meio de clareiras, e um exército de engenheiros levantaram, em poucos dias, um gigantesco galpão para guardar suprimentos. Estocaram materiais para levantar casas para as pessoas e currais para animais como ovelhas, cabritos, galinhas e porcos. Instalou-se água encanada, puxada com tubos desde um rio caudaloso, desenhou-se um esgoto subterrâneo cujo tanque de desintegração limpava os detritos e devolvia a água ao rio limpa e cristalina.

Para comunicação com o mundo exterior foi erguida uma estação de energia elétrica movida à energia solar que abasteceria três edifícios. No interior colocariam 60 computadores, salas de televisão, um cinema e muitos telefones. Nas ruas foram instalados postes de luz elétrica, além das luzes dentro das casas. Na verdade nada faltaria para os doentes. Infelizmente, quem cuidaria deles seriam eles mesmos.

O dia em que os condenados partiram evacuados à selva de Kupanamã, Maria Constança estava com 12 anos de idade. Ela viu os jovens, as crianças e os adultos partindo para o desterro com lágrimas nos olhos. Quando os navios zarparam rumo ao mar aberto, seu peito apertou de dor, pois havia cinco colegas da sua escola partindo com seus pais. Ela ficou acenando com as mãos até que os barcos se perderam no horizonte.

Foi aquele incidente também que marcou seu destino.

Aos 18 anos, ela entrou na faculdade de medicina junto com seu irmão. Aos 23 anos Maria Constança já estava nas pesquisas de laboratório, estudando as possíveis causas da doença que trouxe tanto sofrimento para esse mundo.

Aos 27 anos, Maria Constança formou-se médica e também foi quando finalmente achara a cura para o mal. Conseguiu testar sua vacina em amostras engavetadas, e começou a dar palestras sobre seu achado. Os germens desapareciam nas lentes do microscópio. A única coisa que ela não podia fazer era colocar a vacina num doente de verdade. Nas cidades, o mal não existia mais, e na selva não havia nenhuma enfermeira e nenhum médico para realizar o tratamento. Maria Constança decidiu então fazer um apelo aos colegas num “Congresso de Infectologia”. Solicitou cinco voluntários para acompanhá-la à selva a fazer o tratamento, alegando que em dez anos os homens desterrados estariam curados e poderiam voltar para a civilização. Falou de amigos que haviam partido, com lágrimas escorregando pelo rosto, e terminou seu discurso lembrando a todos que salvar a humanidade era o primeiro princípio de um médico recém-formado. Mas, ela só recebeu elogios, aplausos, abraços e promessas que ninguém cumpriu. Ela ficou dias e dias esperando um voluntário em vão, pois a lembrança das manchas na pele ainda pairava na cabeça dos homens com pânico e terror.

Quando Maria Constança decidiu partir, não contou nada para ninguém.

Simplesmente carregou sua bateria de vacinas dentro de geladeiras portáteis, e depois as armazenou no fundo do iate de seu pai. Transportou água, comidas, e falou para sua família que daria a volta ao mundo em 30 dias, para esquecer sua derrota, e visitar seu irmão no outro lado do mundo. Depois de beijar a todos, subiu no iate, deu a partida e enfileirou rumo ao alto mar. Marcou a rota com precisão, pôs o timão no automático e desceu para comer alguma coisa. E foi ali que um colega da faculdade saiu de um esconderijo como uma assombração.

— Você queria ser heroína sozinha? Pois se enganou. Sirvo como acompanhante?

— Sílvio? Seu doido, você sabe para onde estou indo?

— Não é preciso ser muito inteligente para adivinhar. Para a selva de Kupanamã, não é? Só não achei que você conseguiria enganar sua família...

— Primeiro vou ter que visitar meu irmão, e temos que inventar uma história...

— Já sei, vamos ser namorados, prontos...

— Palhaço! E tua noiva?

— Me chutou! Na verdade, estou indo para curar uma tremenda dor de corno...

E começaram a rir e descontrair.

Depois de quinze dias, eles estavam nas ilhas de “Chabão”, onde o irmão de Maria Constança residia. Ficaram passeando durante uma semana, tempo em que o namoro deles começou. Durante um passeio, abraçados frente ao mar, Sílvio a beijou pela primeira vez. Depois foram para o hotel, onde ficaram nas delícias do amor até o dia seguinte. Rindo feliz, Maria Constança agradeceu ao alto pelo prêmio que Deus lhe enviava como pagamento ao seu sacrifício. Um homem e tanto, lindo, másculo, viril, que podia virar a noite beijando e fazendo amor sem descanso. Era a melhor maneira de se isolar no mundo. Um amigo de verdade, que também seria o primeiro amor de sua vida.

Quando chegaram à cidade de “Sulum”, que enviava os suprimentos para a selva, eles tiveram que se infiltrar nos navios com mantimentos no meio da noite. Entraram num barco carregado de comidas e roupas, e esperaram escondidos nos helicópteros de abastecimentos. Guardaram as vacinas entre as caixas de comidas e esperaram abraçados até o dia seguinte.

Os helicópteros voaram com destino à selva sem saber que eles estavam escondidos. Abriram as comportas por cima dos homens, que acenavam desde a selva, e os pilotos ficaram atônitos ao ver dois parapentes, descendo entre as árvores. Deram alerta através do rádio, e a humanidade se perguntou durante muito tempo quem é que havia descido naquele lugar. Os nomes de Maria Constança e Sílvio saíram em todas as capas de revistas e jornais, depois de um mês de buscas e quando acharam o iate ancorado no mar, totalmente desocupado.

No meio da selva, os leprosos viram duas pessoas caindo junto às caixas de comida. Todos ficaram tristes, pensando que eram doentes chegando para morrer no meio do nada. Caminharam para consolá-los e dar-lhes as boas vindas. Quando viram um casal com roupas pretas da cabeça aos pés, sorrindo com cara de anjos, ficaram parados à espera de uma explicação.

Sílvio, que era um médico legista acostumado a abrir cadáveres no hospital sem nojo, teve que conter a vontade de vomitar, pois o que via na sua frente já não eram mais homens, eram “monstros”. Muitos deles com feridas profundas na beira dos ossos. Maria Constança se abraçou nele e escondeu o rosto, pois a imagem a pegou de surpresa. Depois, girou lentamente a cabeça e viu uma amiga, que a reconhecera depois de tantos anos. E ela soltou as lágrimas de vez. As duas ficaram abraçadas por um longo tempo, enquanto Sílvio explicava para todos que estavam ali com uma vacina, para testar em todos eles. A seguir organizaram os homens para procurá-la entre os pacotes que caíram junto com as comidas e roupas.

Quando a emoção passou, caminharam através da selva junto desse exército de figuras horríveis, cuja imagem dava a impressão de serem de outro mundo. Pareciam alienígenas de um filme de ficção científica. Havia muitas crianças nascidas desses homens, todas com os primeiros sinais dessa doença. Crianças e adolescentes gordinhos, lindos, cheios de manchas e com um destino fatal pela frente.

Maria Constança separou os doentes, conforme o grau de desenvolvimento da doença, e começou a repartir número para atendimento. Riu com ela mesma, lembrando-se de seu trabalho na Saúde Pública, onde fazia o mesmo dia após dia. Os gravíssimos, ou doentes terminais, em primeiro lugar.

Sílvio e os homens mais fortes, por sua vez, ergueram uma enfermaria sobre uma colina, depois levantaram uma cerca de madeira para evitar que os animais selvagens a invadissem. Ao redor dela, as mulheres plantaram flores trazidas da selva, para embelezar o ambiente e também ajudaram a pintar as paredes de branco. Perto dali, Sílvio levantou mais uma casinha com varanda e um jardim de rosas vermelhas.

Dias depois, os doentes entraram nessa enfermaria, conforme a gravidade de cada um. Além da vacina eles receberam um sabão desinfetante. Embora o frio da selva atingisse 8° Celsius, todos obedeceram como robôs e entraram no lago para tomar banho. Afinal, se os anjos existiam, para aquelas pessoas haviam chegado em a forma de médicos.

Depois da vacinação e desinfecção geral, que durou muitos dias a fio, Maria Constança iniciou a segunda etapa do tratamento, com ajuda de Sílvio e seis adolescentes que trouxeram ervas da selva para fazer um chá medicinal. Também ela incentivou as meninas a fazer a horta para iniciar uma dieta com muitos legumes frescos e diminuiu a quantidade de carne por jantar.

Como o pão chegava somente nos dias de abastecimento, Maria Constança assava pão para Sílvio dentro de casa, quando os doentes lhes davam folga. Inclusive ela fez um desafio, a primeira pessoa que ficasse sem as manchas nas mãos, ela ensinaria a amassar pão como prêmio.

E a vida começou a rolar, numa doce rotina. Sílvio ajudava os homens no dia a dia, enquanto Maria Constança examinava a todos.

Ela inaugurou seu laboratório de pesquisas frente a uma câmara, enviada pela civilização, que desejava se informar de tudo que se passava na selva. Silvio filmou sua mulher, os doentes, as crianças manchadas, os velhos agonizando, para o mundo sentir vergonha por tê-los abandonado. Depois foi para a selva filmar animais, flores exóticas, lagoas e cachoeiras, pois estavam em pleno verão com uma névoa fraca que permitia a passagem da luz do Sol.

Após cinco anos de trabalho assíduo, eles finalmente derrotaram a peste.

Jovens de pele limpa corriam por toda parte, sempre rindo, fazendo a alegria dos mais velhos. Os adultos ficaram com marcas causadas pela deformação, como, cicatrizes profundas, peles enrugadas, mas livres de germes. Passaram a trabalhar limpando as ruas, fazendo a colheita, com o sorriso na boca, felizes pela ressurreição de tanta gente. Os que morreram estavam velhos demais e os remédios chegaram tarde para todos eles. Mas o saldo de sobreviventes marcava o sucesso do sacrifício de Maria Constança e Sílvio que lutaram sem descanso contra o germe assassino.

O que não estava nos planos de Maria Constança, e de ninguém, foi que a humanidade não abriu as portas em nenhum lugar do mundo para fazer uma evacuação. O medo, principal culpado das falhas humanas, condenou-os para sempre à solidão na selva de Kupanamã. Os “Congressos de Medicina” não confiavam nas imagens transmitidas através da Internet e ninguém se ofereceu para fazer uma vistoria no meio da selva, com medo da contaminação.

Abraçado à sua mulher e com lágrimas nos olhos, Sílvio sentiu com toda crueldade o peso do castigo. Construir uma família ficava agora fora de questão. Teriam que se conformar em cuidar dos filhos dos outros, muito mais corajosos do que eles, pois nunca tiveram medo da reprodução. Poderiam construir uma Escola para ensinar a esses meninos o que eles sabiam e, um dia, quem sabe, outro “Congresso de Medicina” acreditasse neles e os viesse buscar.

Maria Constança, abraçada ao seu marido, pediu perdão.

— Perdão do quê?

— Por tê-lo contaminado com meu sonho de heroína... Por tê-lo contagiado com a minha aventura...

— Na verdade, não me arrependo de nada. E se quiser, vamos a ter filhos. Mas, só se você quiser...

— Bem, eles seriam índios... O que acha?

— Quem sabe nossa vida aqui na selva não seja tão ruim assim... Vamos cobrar da civilização. Vamos pedir de tudo o que quisermos. Tijolos para construir uma mansão ecológica no meio da selva, com uma piscina de fibra de banana, escorregadores para os meninos, balanços, o que mais quer?

— Hum... Vamos pedir um micro-ondas, uma geladeira, uma lavadora automática, e uma cama de casal enorme...

E mais calmos, eles se beijaram na beira do lago, ao entardecer. Depois rolaram por cima da areia macia, iniciando mais uma maratona de sexo e amor, que terminaria quando a noite chegasse e a Lua iluminasse a selva de Kupanamã.

Notas finais
A história transcorre um planeta fictício, mas, porém, poderia acontecer na Terra.