Os homens do futuro

10 A carta. Autobiografia


Notas iniciais
E era assim, quando chegava o domingo eu colocava o vestido de domingo, guardado para esse dia junto aos sapatos de domingo, tomava a mão de minha irmã e nos encaminhávamos para a Capela. Meus olhos começavam a rastrear esse garoto. Inclusive, ele me surpreendeu olhando, e sorriu para mim com essa cara de anjo.

Dias atrás meu neto Ítalo me perguntou: — Se fosse possível voltar no tempo, o que é que tu mudarias?

Hoje eu sei! Leria aquela carta!

C.....o foi um homem que amei muito. Afinal, eu me apaixonei perdidamente por ele aos 8 anos. Minha família mudara de casa, estávamos num bairro novo, e minha irmã Olivia me levou à missa dominical na Capela São Francisco de Assis. Assim que a missa foi encerrada pelo vigário, eu vi saindo entre a multidão “um anjo”. Um rapaz loiro, olhos verdes, pele branquíssima, que num país descendente de índio araucano é raridade. A marioria dos chilenos é morena de cabelo preto. E fiquei paralisada! Estatua! Esse guri era o rapaz mais lindo do planeta!

E era assim, quando chegava o domingo eu colocava o vestido de domingo, guardado para esse dia junto aos sapatos de domingo, tomava a mão de minha irmã e nos encaminhávamos para a Capela. Meus olhos começavam a rastrear esse garoto. Inclusive, ele me surpreendeu olhando, e sorriu para mim com essa cara de anjo.

A desgraça de minha vida aconteceu no dia que minha mãe brigou com uma vizinha e tivemos que sair dessa casa e mudar de bairro. Chorei e chorei. Fiquei com dor aguda no peito durante muito tempo. Dei um abraço nas minhas amigas e, fui a última a sair dessa casa.

Nos anos seguintes eu tentava encontrar C.....o na matinê da Paróquia de Carrascal. Mas, ele era filho de família rígida. Só podia sair acompanhado pelo irmão mais velho. Também eu visitava minha amiga de infância Patrícia quando mamãe deixava, pois, ela me contava tudo sobre C.....o. Já outras vezes, chegava cedo à casa de minha madrinha Rosa, para ir à Capela São Francisco junto com ela. E ele sempre estava lá. Desta vez, ele já me cumprimentava com um “bom dia” ao passar junto de mim.

Num dia afortunado, ele me perguntou: — Já não moras mais por aqui? E eu, meio balbuciando lhe respondi: — Não, moro perto do Teatro Lo Franco de Carrascal!

O Teatro Lo Franco da rua Carrascal era por aquele tempo o lugar onde velhos, jovens e crianças se divertiam nesse bairro. Passava dois filmes por sessão. E eu ia com meu pai ver filmes de faroeste toda semana. Mas, aos domingos eu ia com minhas primas na matinê onde a gurizada fazia a festa. Muitas amigas da Escola básica 183 marcavam encontros, pois, ao lado do teatro havia um café onde se podia comprar bolo, sorvete ou, sentar para tomar uma xícara de chã.

Teve uma vez que eu vi o irmão mais velho de C.....o no cinema. Depois, a caminho de casa vi o próprio C.....o caminhando atrás, seguindo-me. Entrei em casa com coração pulando. Foi naquele dia que eu tive certeza que um dia poderíamos chegar a ter um romance. E, quem sabe, casar! Sentia-me a Cinderela dos contos infantis, pois C.....o era também um príncipe. Impecável na roupa, camisa branca, terno, gravata. Ele era simplesmente perfeito.

E minha felicidade foi completa no dia que minha mãe brigou com meu tio Luiz e tivemos que sair dessa casa também. Nossa! Minha mãe gostava de uma bronca. Finalmente regressamos ao lugar do qual nunca deveríamos ter saído. A um quarteirão da Capela São Francisco de Assis.

Desta vez, eu já não era mais uma menina, pois, estava para entrar na Escola Técnica Nº2, para estudar desenho industrial. Então, eu corria para missa sozinha e entrei imediatamente para a “Juventude Católica”. Comecei a cantar no coro e, depois da missa jogávamos pingue pongue na sala adjunta da Capela. Éramos C.....o, eu e mais uns 20 amigos com os quais fazíamos festas, eleição de rainha e teatro.

Um dia, fiz amizade com uma guria que morava em frente à casa de meu amado. Comecei a visitá-la para estudar, conversar, enquanto bisbilhotava pelas janelas para a casa de C.....o, sempre na esperança de vê-lo. Mas, num dia cinzento, Patrícia me contou que C.....o e essa guria já namoravam fazia tempo. Eu estava perdendo meu tempo. Era melhor sair com seu primo Mario, que era caidinho por mim. A desilusão me tomou por completo. De repente meu príncipe virou sapo. E comecei a sofrer. Para completar, essa guria apareceu na minha casa para me contar sobre esse namoro, acrescentando que ela o tinha dispensado. E despediu-se me falando: — Deixo-o para ti!

Nunca me senti tão humilhada. Perdi completamente a felicidade de viver. E para me consolar aceitei sair com o Mario, meu primeiro namorado, o primeiro beijo. E ele era bem legal, divertido, sempre rindo, e não parava de me dizer que eu era a “luz de seus olhos”.

Mas, uma tarde que nunca vou esquecer, encontrei C.....o no ônibus. Quando descemos, caminhando pela rua, ele tomou minha mão e me pediu para namorar com ele. Tarde demais! Fora de tempo! Eu não podia trocar Mário por ele, assim, como quem troca sapato. C.....o chegou a me propor algo que não poderia fazer. E me dei ao luxo de dizer “não”. Um não que para mim marcou o início de vários romances mal sucedidos porque eu nunca conseguia amar ninguém. Não de verdade. Não daquela maneira.

E deve ser por isso que eu me apaixonei por outras coisas, a pintura, o teatro, a cerâmica, o canto e a música, deixando o amor guardado num cofre eterno. Depois, entrei na Federação de Estudantes, na política, e me tornei uma revolucionária das causas justas.

Mas, C.....o era vizinho do bairro! Sempre estava por perto me olhando com esses olhos verdes cor da uva madura. Via-o na missa dominical, ficou comigo no velório de meu pai e me consolou com doçura quando perdi uma eleição de rainha e me desabei a chorar. BUAAAA! Também, eu o vi rindo até sair lágrimas em público na primeira fila com nossas palhaçadas teatrais. Só senti desilusão novamente quando ele começou a desfilar com uma namorada que tinha o mesmo nome que eu: — Rosita!. E ele não parava de elogiar a Rosita, dizia que ela era uma moça muito especial.

E quase com meus 20 anos, C.....o me emprestou um livro para fazer um trabalho da universidade. Chegando em casa abri o livro e vi dentro dele uma carta. Abri a carta e li: — Rosita..... E eu, furiosa, indignada e estúpida, com a mente enevoada pelo ciúme, fechei o livro e me neguei a ler essa carta. Nunca soube se era para mim, ou, seria uma carta descuidada e esquecida pelo tempo, destinada para essa outra Rosita.

Um ano depois desse incidente, eu estava me casando com Juan, (que conhecera numa viagem ao Sul) abandonando Santiago.

Oito anos depois eu saia do Chile, deixando para trás todos meus momentos felizes e aqueles de extrema amargura. Eram os terríveis dias do golpe de estado quando a maioria de meus amigos e colegas de escola foi torturada nas prisões chilenas.

Dizem que o primeiro amor nunca se esquece. Para mim isso é verdade. Sobre tudo um amor que não deixou ofensas, feridas nem cicatrizes. Somente olhares de ternura, um pedido de namoro, e uma carta que eu nunca li!

Nunca, mas nunca mais, eu encontrei C.....o em lugar nenhum.

Notas finais
Um ano depois desse incidente, eu estava me casando com Juan, (que conhecera numa viagem ao Sul) abandonando Santiago. Oito anos depois eu saia do Chile, deixando para trás todos meus momentos felizes e aqueles de extrema amargura. Eram os terríveis dias do golpe de estado quando a maioria de meus amigos e colegas de escola foi torturada nas prisões chilenas.