Os escolhidos de Ho-Oh
1 Os escolhidos de Ho-Oh
Notas iniciais
Olá. O meu nome é Ethan Jimmy Heart Gold, mas normalmente me chamam de apenas Gold. Sou um aluno do ensino médio que anda numa escola exemplar e de mérito. Tenho de dizer, desde já, que eu não sou um aluno exemplar! Boas notas, bom comportamento… São coisas que não são o meu forte. Eu sou mais um daqueles alunos que se senta lá no fundão e fica falando com os colegas e apenas se importa em tirar a classificação mínima para passar… Quando se importa! Eu sei, não é a melhor atitude a se ter, mas eu acho que tem de haver um equilíbrio… Afinal, que seria da escola sem pessoas como eu? Há aqueles que têm jeito para ser bons alunos e outros que não! Ponto final! Mas, contudo, eu não sou um simples aluno do fundão. Eu sou o aluno mais desejado de toda à escola! É como um certo cabeça de tomate costuma dizer, o que me falta em inteligência, tenho em beleza, hehe… E esta é a história, pequena e simples, de como eu conheci esse cabeça de tomate…
– Oh! Não olhe agora, Crystal! O Gold vem aí e está olhando para você! – Lyra, uma das alunas, dizia meio histérica para a amiga de cabelos azuis.
– Oh, não pode! – Crystal ria tentando se acalmar.
Provavelmente, estavam pensando que eu não as escutava, mas eu sempre escutava as garotas quando elas me viam entrar, afinal, elas falavam tão alto que era impossível não ouvir! Eu me aproximei delas e ao passar, balancei aa minha cabeça para o lado ajeitando a franja e pisquei para o meio das duas, as deixando completamente deslumbradas enquanto eu continuava o meu caminho até à sala do castigo… Sim, eu me tinha metido em problemas de novo…
– Ora se não é o menino Gold. – Red, um aluno uns anos à minha frente, riu de lado ao me ver passar.
– Oi, Red… — Revirei os olhos sem paciência para os seus zoamentos.
– Você por aqui? Me deixe adivinhar. Está de castigo de novo? – Ele perguntou num tom de sarcasmo.
– Hum… — Dei-lhe desprezo cruzando os braços e me virando.
– O que foi desta vez? Bombinhas de mau cheiro? Gritar palavrão? Pioneses na cadeira do professor? – Red tentava adivinhar sem nem ligar para o meu desprezo.
– Eu… Zoei do representante… — Respondi um pouco envergonhado.
– Sério?! Você desceu tão baixo assim? O meu Moltres, está aqui por causa do Silver? – Red ria gargalhando segurando os joelhos.
– O que tem você a ver com isso? – Eu tentei não discutir com ele.
– Você foi de castigo por causa daquele… — Red ia para continuar, mas uma voz autoritária se fez ouvir no corredor.
– Red, deixe os alunos mais novos, temos coisas para fazer. – Green, um aluno do ano de Red, o chamou à razão com a sua voz autoritária.
– Estou indo, Green! – Red respondeu animado se retirando e ignorando-me.
Eu nem me importei com o desprezo que o outro me dava, na verdade, até ficava aliviado por não ter mais de o ouvir. Então sentei-me naqueles bancos almofadados que ficavam ali na entrada da sala de castigo e me busquei pensando… Afinal, porque tinha zoado do representante? Vá, tá legal fazer isso uma vez, mas… Eu sempre zoava dele! O nosso representante era um garoto ruivo com os olhos prateados, ele era muito aplicado e tudo tinha de ser feito do jeito dele! O seu nome era Silver, ele nem era muito popular, mas o facto de ser representante de turma o fazia ter um alto estatuto e ser reconhecido por muita gente.
– Oh, Ho-Oh… Diz-me o porquê de ele mexer tanto comigo… — Perguntei ao meu lendário protetor, a quem eu sempre pedia concelhos.
Eu sei que é meio estranho, mas eu tenho como hábito pedir concelhos a este lendário… Não é que haja uma grande razão para isso, mas eu sempre me sinto protegido quando falo com ele… Sinto que ele me ajuda… E também foi Ho-Oh que me ajudou a perceber que sentimentos eu realmente tinha em relação ao representante. O facto de eu sempre o zoar, sempre o rebaixar e sempre armar confusão quando ele estava por perto… Tudo era para receber a tão desejada atenção do garoto de cabelos vermelhos que parecia nem sequer me olhar. Enquanto eu me perdia em meus pensamentos, a porta da sala de castigo se abriu, saindo de lá a criatura mais bela de sempre. Eu fiquei espantado.
– Silver! Vai ser você dando o castigo?! Cadê professor Elm?! – Eu perguntei meio atrapalhado, estava à espera de ver uma figura gorda e velha, não uma figura jovem e bela…
– Gold? – Parou um pouco, observando – O professor Elm tinha coisas importantes para fazer, então ele me mandou vir tratar do castigo. Entre, temos duas longas horas pela frente.
Silver entrou na minha frente, permitiu-me a passagem e logo em seguida fechou a porta por trás de nós. Naquele dia a sala de castigo estava vazia, estando só eu e Silver na sala, eu era o único castigado.
– Ena… Parece que o pessoal até se anda comportando ultimamente, né? – Tentei meter conversa simpático.
– Gold, você veio de castigo, não tomar chá. Por favor, sente-se e permaneça em silêncio. – Silver pediu se sentando na secretária e abrindo um livro com uma enorme lombada, ficando a lê-lo atentamente.
Eu respirei fundo para não responder à reprimenda que tinha levado, escolhi uma mesa no canto da sala e me sentei, iniciando duas horas de puro silêncio e tédio numa sala vazia com apenas Silver na minha frente… E não é que isso fosse assim tão mau… Na verdade, aquilo estava sendo perfeito demais! Ele sempre pedir para Ho-Oh um momento a sós com Silver! Aquele era o momento perfeito para estar com ele, o poder ver…
– Ah, Silver, eu estava pensando… — Ia começar uma conversa, mas fui de imediato cortado.
– Xiu, já disse! Você está no castigo! – Silver me reprendeu.
Um curto, curtíssimo momento de silêncio se formou na sala. Ho-Oh, você finalmente me junta com Silver, mas escolhe um momento em que eu não poço falar com ele?! Isso é injusto! Muito injusto! Então eu me levantei e dei início a uma nova discussão.
– Porque você é assim comigo?! – Perguntei enervado.
– Gold, sente-se, eu já disse… — Cortei o seu diálogo.
– Hey, não vai nessa de “está no castigo”! Não está aqui mais ninguém! Só cá estou eu! – Eu berrei sem paciência.
– E dai só estar você? Você é um delinquente! Tem de ser castigado! – Silver me respondeu num tom já mais chateado também.
– Mas o que você tem contra mim?! Porque sempre me reprime?! – Eu estava um pouco cansado de sempre ouvir algo ruim a meu respeito da boca dele.
– Eu contra você? Nada! Eu é que devia perguntar o que você tem contra mim. – Silver devolveu, indiretamente, a pergunta.
– Porque diz isso? – Eu fiquei um pouco espantado.
– Porquê? Você passa a vida me zoando! – Silver disse bastante enervado.
– E dai? Todo o mundo faz isso! Afinal, você é um chato que só sabe corrigir os outros! Sabe, ninguém gosta de mimadinho como você! – Eu cuspi as palavras na sua face, mas logo me arrependi disso.
Um momento de silêncio se formou entre nós dois, pude notar que Silver ficara magoada com aquelas palavras. Oh, Ho-Oh, o que é que eu fiz? Eu não queria magoar o menino dos meus olhos…
– E você ainda diz que não tem nada contra mim… Você passa o tempo me zoando e dizendo mal de mim… Você é um lixo! – Ele me insultou com uma voz triste.
Achei estranho ele ficar tão afetado com o que eu disse. Ele era representante de turma, certo? Devia estar acostumado a receber inúmeros insultos… Porque ele ficaria assim?
– Mas porque raio ficou tão afetado pelo que eu disse? Você não diz que sou um idiota? Então porque liga para as coisas que eu digo?! – Fingi-me indignado como se não estivesse preocupado com o que ele pensava.
– Exato! É por isso mesmo que eu fico mal! Eu não sei porque ligo tanto para um idiota como você! – Vi que Silver estava em desespero, quase chorando, então fui ndando, devagar, na sua direção.
– Ligar para mim? – Estranhei enquanto chegava do lado dele.
– Sim, ligar para você! Você sempre me faz mal, me zoa, é idiota! Mas, por algum motivo, eu não consigo ignorar você como ignoro os outros… — Ele dizia, agora com o choro um pouco mais calmo.
Aquilo era algo inesperado vindo dele. Ele me estava chamando de idiota, mas ao mesmo tempo estava dizendo que não me conseguia ignorar… O que ele estava a querer dizer? Eu estava confuso…
– Gold, porque você me odeia? Eu não quero que você me odeie! – Ele meio que desabafou, parecia nem se importar em eu estar ali.
Graças a esse desabafo comecei a pensar: Ele partilha o mesmo pensamento que eu? Eu pensava que era eu que o odiava! Não ao contrário!
– Mas, Silver, eu não odeio você. Eu julgava que era você que me odiava. – Eu respondi colocando a minha mão no seu ombro.
– Porque raio achou isso? Eu não odeio você! – Ele ficou surpreso com o que eu lhe dizia.
– Mas… Você sempre me reprimiu… Sempre disse que eu era um lixo, me julgava, corrigia… Eu pensei que você me odiasse. – Eu disse num teio meio doce meio espantado.
– Eu… Você nunca ouviu dizer… “Quem ama corrige”? – Silver ficou envergonhado ao dizer essa frase.
– Ah… Ouvi sim… — Eu respondi um pouco sem jeito.
Mas um silêncio ficou entre nós dois. Silver tinha sua face muito rosada, estava envergonhado… Era tão fofo… Então, pedi a Ho-Oh que nos desse forças para continuar e nos protegesse para o que pudesse vir.
– Sabe, eu também tenho uma razão para todos os distúrbios que lhe causei… — Interrompi o silêncio com um tom doce e tocando seus cabelos.
– Ai tem? – O ruivo perguntou curioso.
– Sim… Eu fazia aquelas coisas para… Ter sua atenção… Pensei que seria a única maneira de me aproximar de você. – Eu expliquei um pouco envergonhado.
– Porque você apenas não veio falar comigo? – Ele ficou espantado por eu ter complicado as coisas.
– Porque Ho-Oh não me disse para o fazer. – Eu pisquei para ele com um ar brincalhão.
– Ai sim? E tu fazes tudo o que ele te diz? – Ele sorriu para mim, algo que nunca tinha acontecido, mas era bom, agradável, doce.
– Sim, ele nunca me falhou, por isso, na boa! – Sorri descontraído para disfarçar o nervoso que me sentia.
– Então… O que é que ele te diz para fazeres agora? – Ele perguntou desafiador olhando para minhas orbes douradas provocante.
Hesitei um pouco, sua face parecia alegre e realizada, suas orbes prateadas pareciam devorar-me e seus lábios estavam demasiado sozinhos e carentes… Demasiado… Respirei fundo e decidi acabar com isso!
– Ele diz-me para fazer isto. – Sorri de lado antes de selar um beijo nos seus lábios que logo me receberam.
Ao contrário do que eu sempre imaginava, ele não se afastou, antes nos aproximou mais! Enrolou seus braços em torno do meu pescoço e deixou que eu guiasse o beijo com o meu ritmo. Algo lento e doce, algo que durasse e durasse, um toque de lábios seguido de umas pequenas trincas nos mesmos, algo único que apenas duas pessoas apaixonadas podem entender e saborear.
– Hum, sabes que mais, gosto desse Ho-Oh, tem boas ideias. – Silver riu para mim depois de nos separarmos.
– Tem não tem? Mas os atos são cem por cento da minha autoria! – Respondi também num tom de brincadeira.
E as duas horas de castigo se passaram naquela brincadeira entre casal. Tenho de agradecer a Ho-Oh por isto. Muitos podem não acreditar, mas eu sei que Ho-Oh me escolheu para cuidar de Silver! Eu sei que sim, aquele ser frágil, doce e tímido precisa de alguém que lhe dê amor, e enquanto for eu a fazê-lo, eu estarei muito feliz! Com certeza isto é obra de Ho-Oh! E que nós somos os seus escolhidos!
“Pois todo o casal, tem seu lendário guardião.”
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