Os descendentes
6 Saudades e confusões
Notas iniciais
Eu me vi caindo.
Eu sabia que havia desmaiado; mas por algum motivo eu ainda podia sentir e até ouvir um pouco. Era quase como se eu estivesse presa dentro de mim.
Eu senti quando minha cabeça bateu no chão. Eu ouvi o grito desesperado de Anna, mas principalmente, eu pude ouvir a voz dele gritando o meu nome enquanto eu caía, eu pude sentir seus braços me envolvendo e me carregando, eu senti o seu cheiro. E quando senti que estava sendo colocada em uma cama, finalmente perdi os sentidos por completo.
Ouvi algumas vozes e senti minha cabeça latejar antes de abrir os olhos. Quando eu os abri pude notar que estava em um quarto de paredes brancas, com amplas janelas, várias camas iguais a minha e um telhado feito de madeira e palha nova.
–-Sophie!!!—Anna deu um gritinho agudo e me abraçou com força.
–-Gandhtal?!—Juro que eu tinha planejado falar algo um pouco mais inteligente.
–-O que?
—Onde estamos? —Ótimo eu ainda lembro como se fala.
–-Na enfermaria—Uma voz masculina respondeu.
E assim que eu virei minha cabeça eu achei que fosse desmaiar de novo mas apenas fiquei tonta e com o coração disparado. Lá estava ele. Muito mais bonito do que eu me lembrava, com a pele levemente mais morena e muito mais musculoso, seus olhos verdes em contraste com o cabelo negro ainda eram o foco mas o resto chamava mais atenção do que antes. Ele sorriu para mim.
–-Oi Sophie—Ele disse meio sem jeito—Sentiu minha falta?
–-B-B-Bê? —Eu achei que meu coração fosse explodir. —É você mesmo?
–-Claro que sim.—Ele disse se aproximando da cama o que era um grande perigo para o meu pobre coração e frágil estômago.
–-M-Mas minha avó e a Anna disseram que eu não tinha morrido quando cheguei aqui.--Ótimo eu tinha morrido.
–-Obvio que você não morreu—Ele disse, levemente espantado—Porque? Te falaram que eu morri?
–-Como assim me falaram? —Eu estava com a voz meio grogue mas minha cabeça já estava funcionando bem—Você teve até enterro.
Ele pareceu confuso por um tempo mas logo pareceu achar algum sentido dentro de sua cabeça e sorriu novamente.
–-Bem...—Disse ele passando as mãos pelo corpo—Como pode notar eu e você estamos bem vivos, e como você parece estar consideravelmente melhor sugiro que façamos o seu tour pelo colégio agora, antes que escureça.
Eu assenti com a cabeça, ainda não havia absorvido tudo, estava muito confusa e não estava postando muito nas minhas pernas, mas eu não queria ficar deitada para sempre e algo me dizia que qualquer resposta que eu quisesse ter, não estaria ali. –Anna; você vem? —Ela devia estar mais confusa do que eu já que ela nem conhecia o Bernardo.
–-Ahn? —Ela estava distraída passando a mão nos meus cabelos e me olhando.—Ahh! Não, eu já vi o colégio com outro menino, ele foi muito gentil já que o Bernardo ficou aqui te vigiando.
Eu olhei para ele que estava ficando vermelho e sorri ainda meio descrente de que fosse ele mesmo. Ele me deu a mão para me ajudar a levantar, quando eu pus as pernas no chão elas tremeram muito, mas eu não caí. Assim que elas ficaram firmes o suficiente para andar eu me joguei em cima do Bernardo e o abracei o mais forte que pude. Ele não estranhou, nem ficou surpreso. Acho que ele também sentiu minha falta.
–-Bem eu acho que eu vou pro quarto então.—Disse Anna de modo melancólico.
Continuamos abraçados durante um bom tempo, eu estava muito confusa, mas estava tão feliz por ele estar ali. Vivo. Que nem me importei.
Mas assim que nos separamos todas as dúvidas voltaram para a minha cabeça. Eu queria bombardeá-lo com perguntas mas eu não sabia como, estava com medo de ele ter mudado muito durante esse último ano. Mas acho que só uma eu poderia arriscar. Resolvi começar com uma mais leve.
–-Qual o nome do colégio? —A minha voz ainda estava muito baixa.
–-Não é bem um colégio é mais uma instituição, a gente chama de CEDA ou CE para DA.
–-Sim mas... o que significa? –A minha voz estava melhorando aos pouquinhos, mas eu ainda estava numa mistura de choque e felicidade que prejudicava o desempenho dela.
–-É melhor deixar isso para a coordenação te responder. —Ele deu um sorriso travesso e me fez corar.
–-Onde estamos?
–-Bem...Estamos no CEDA. —Ele disse olhando para frente e rindo.
Meu coração ameaçava estourar —Não, quis dizer eu qual país.
Ele parecia calmo e feliz e ele mantinha um leve sorriso no rosto que me fazia ter vontade de pular.
–-Não estamos bem em um país, mas isso é mais uma coisa para você perguntar a coordenação. Eu posso lhe dizer apenas a sigla do lugar aonde estamos. DdE.
–-Porque estamos aqui?
–-Porque somos DA.—Ele disse rindo. —Desculpe eu não posso falar muito.
Porque ele não podia falar? Isso me irritou um pouco eu não queria que ele tivesse parado de confiar em mim.Mas resolvi não pressionar, minha cabeça não estava em um estado bom para isso.
–-Bem...então...por quanto tempo eu fiquei desmaiada? —Eu não sabia o que eu podia perguntar.
–-Não muito. Umas duas ou três horas. —Ele ficou um pouco mais sério. Meu Deus ele era meu melhor amigo porque eu ficava notando o tempo todo como ele estava lindo? —Eu fiquei preocupado. Fazia tempo que eu não te via; estava com muita saudade. –Ele olhou para mim. Ele estava bem corado. —E quando te vi você desmaiou. Eu sabia que era feio mas nem tanto--Ele riu um pouco e eu sorri.
Mas depois enrubesci. —Admito que não foi o reencontro que eu esperava também. Mas...pelo menos ele aconteceu. —Meus olhos estavam marejados. —Eu achei que você tivesse morrido. —Era uma mistura de tristeza, felicidade, confusão. –Eu estava com tanta saudade dentro de mim; e eu nem percebia, mas quando eu te vi, bem... acho que a saudade explodiu dentro de mim e... —Eu senti as lagrimas descerem pelo meu rosto. Eu não sabia o motivo de eu estar chorando mas eu não conseguia parar.
Eu não olhei para ele, foquei meu olhar na floresta na esperança de que as lagrimas parassem de cair; o que funcionou bem. Até ele entrar na minha frente com o rosto sério e preocupado. Ele colocou as mãos no meu rosto e usou os polegares para secar minhas lágrimas e ficou me olhando. Os olhos dele estavam marejados também.
–-Momento sentimentalismo? —Ele deu um sorrisinho triste.
–-Momento sentimentalismo. –Eu sorri por entre as lágrimas.
–-Okay vamos lá então, o tour pode esperar. —Ele soltou o meu rosto e se sentou na estradinha. —Quando eu tive que ir embora a primeira coisa na qual eu pensei foi você. Eu queria te ver, me despedir e te falar uma coisa. Mas meus pais ficaram estranhos disseram para eu não sair de casa cortaram celular e computador, e eu acabei vindo para cá sem poder falar nada com você. E me culpava muito por isso.
Bem... a chegada aqui foi muito ruim.
Você foi a minha melhor amiga desde sempre, e um mundo sem você era estranho e vazio. Fiquei os dois primeiros meses meio perdido, mas eu não queria perder a minha vida então empurrei a saudade para dentro e continuei seguindo a vida até hoje. —Parecia que ele queria desabafar a um tempo pois ele falava de modo desesperado. —E aí você chegou; quando eu te vi eu fiquei tão feliz que precisei passar o tempo que você estava de cama me controlando para não abraçar uma pessoa desmaiada.
Eu parava para pensar em como estaria a sua vida. Se você estava namorando, se havia adotado mais algum animal.
O engraçado é que sempre que e te imaginava era uma pessoa muito diferente, eu achava que você teria mudado muito e que eu teria perdido você e quem você era para sempre. Mas quando eu te vi e era apenas a minha Sophie; eu fiquei tão feliz que achei que fosse morrer.
Pronto estou vazio agora.
–-Bem...Obrigada. —Eu estava confusa e parecia parecer a única coisa certa a ser dita.
–-Porque...?
–-Por continuar confiando em mim mesmo depois de um ano, deu para perceber que você esteve segurando isso por muito tempo. Fico feliz que ainda confie em mim a ponto de me contar...E...Desculpe, eu estou muito confusa. Ainda não sei porque eu estou aqui, nem porque você está aqui e você aparecendo é meio demais para minha cabeça. Podemos não andar pelo colégio hoje? Eu realmente preciso deitar e endireitar as ideias.
–-Okay—Ele passou o meu cabelo e deu um sorrisinho—Claro pode sim. Eu vou ficar aqui e endireitar as ideias também. —Ele pensou por uns três segundos e continuou—Ou você quer que eu te acompanhe?
–-Não, não. Pode ficar tranquilo acho que eu sei chegar.
Ele se levantou e me olhou.
–-Bem, eu vou fazer uma coisa que eu queria muito fazer a um tempo. Podemos continuar amigos depois disso?
O que ele estava falando? —Bem...Acho que podemos, sim claro que podemos.
Então ele passou a mão pela minha nuca, me puxou para perto dele e me beijou. Eu não estava nem um pouco preparada para isso então demorei um pouco para corresponder. Acho que eu também queria beija-lo. Não era um beijo que faria ele virar meu namorado. Era mais como um beijo de saudade.
Ele me soltou.
–-Bem...Desculpe é que eu queria fazer isso a um tempo.
–-Tudo bem. Eu acho. —E eu achando que ia conseguir ajeitar as ideias.
–-Amigos? —Disse ele estendendo a mão.
–-Amigos! –Eu disse e apertei a sua mão. Minha voz soou meio rouca.
Quando eu me virei e minhas pernas tremeram ficou muito claro para mim que eu ia demorar muito para lembrar onde ficava o quarto.
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