A magia no mundo de Torael é algo incomum, mas não raro, devido ao fato de ser uma energia extremamente perigosa para iniciantes, quem ousa usá-la de maneira inexperiente corre grandes riscos de ser corrompido por ela, e para aqueles que desejam usá-la com cautela, podem praticá-la com seres que a entendem melhor e que a usam mais comumente.

Sabendo disso, hoje lhes contarei a história de Miza, uma garota fissurada por algo que não é muito comum em seu mundo, a magia.

Miza vivia em uma vila acima das montanhas, o frio daquele lugar era algo sobrenatural, nessa vila, haviam várias pessoas que compareciam a escola de magia, e eram todas guiadas por um professor, preferencialmente um ancião. Todos seguiam um mesmo "protocolo", começavam sempre por magia básica, como levitação e ocultação, e, talvez algum dia, caso se empenhassem muito, chegariam a usá-la como um instrumento de trabalho.

A jovem Miza sempre vivia cercada de livros, não negava seu amor pelo desconhecido, um dia, quando estava lendo em um banco, alguns anciãos notaram isso, e decidiram colocá-la na escola de magia. Ela aprendeu o básico de mágica e, com o passar do tempo, adquiriu uma maestria impressionante para esse tipo de prática.

Os anciãos eram seres muito evoluídos magicamente, e sabiam o peso que tinham que carregar em seus corpos por levar essa prática adiante, eles usavam livros e pergaminhos para aumentar seus instintos mágicos, mas tudo com um preço que era sua sanidade e integridade física.

Desconhecendo esse preço, Miza se deixou levar por suas vontades, e usou desses livros proibidos para aprender mais e mais e, com o passar do tempo, veio o preço de usá-la. O ancião começou a perceber que os livros sumiam, e avisou a ela que não continuasse, pois esse tipo de magia era proibido para iniciantes como ela. Ela o ignorava, então vozes começaram a tomar conta da cabeça da menina, que agonizava todas as noites por conta disso, e quanto mais usava esse tipo de magia, mais as vozes pareciam tomar conta de sua mente, e mais as sombras marcavam seu corpo. Percebendo isso, um dos anciãos resolveu ajudá-la.

— Bom, garota, você mexeu com o que não devia, ignorou todas as nossas leis. – Sua voz era rouca e cansada, devido a idade. – Eu hei de avisá-la, você não é a primeira que quebra uma dessas regras, e provavelmente não há de ser a última, por isso, aviso que pare antes que piore.

A garota ouviu o que o ancião lhe disse, mas não parecia se importar. O tempo passou enquanto ela continuava a ler os livros, já estava começando a se isolar, e o ancião não queria permitir isso, a seguiu e explicou sobre os pergaminhos, que são objetos capazes de armazenar a magia do corpo de alguém e expurgar as sombras, mas o custo para isso é caro, o usuário é impedido de usá-la novamente.

Ele então a explicou como funcionaria isso. Ao anoitecer, exatamente às dezoito horas, quando as duas luas se alinham, o brilho de uma delas se intensifica, aumentando as energias mágicas contidas no pergaminho, e permitem que, apenas uma vez, a energia mágica do corpo de alguém seja transferida para o pergaminho, destruindo-o e permitindo que a pessoa se livre, sendo proibida de usar magia.

Sabendo ser esses os últimos momentos usando magia, a garota resolveu ignorar uma última vez o aviso do ancião, e abriu novamente o livro, fez de tudo que podia com a magia, e isso só aumentou seus problemas, as vozes se intensificaram e as sombras começaram a tomá-la por completo. O pergaminho então virou sua única chance de expurgar as sombras contidas em si, e ela esperou pela noite.

Por fim, lá estava o ancião, na parte de fora da escola, esperando a divina luz, que seria a ultima chance da bruxa de se livrar de toda parte ruim. Na frente de onde estavam, havia duas pedras, e acima delas, estava a tão esperada luz.

— Aqui está, jovem, e olhe só o seu estado, parece que seu corpo não é mais seu, e você não é mais você. Não foi por falta de aviso, espero que de agora em diante você aprenda sua lição.

Ele estendeu o pergaminho para a menina, que o olhava esperançosa. Ela pegou o papel de suas mãos e fez um gesto de gratidão, indo até o local onde o brilho se mostrava. Sua mente era um turbilhão de coisas, seus olhos eram negros como a noite, e, com um pequeno sorriso de esperança, ela estendeu o pergaminho enquanto a lua iluminava seu corpo, coberto em um tecido negro. Ela abriu o pergaminho, que brilhou com a luz da lua, mas se resumiu somente a isso. O laço do pergaminho caiu ao chão, se perdendo na neve, e o tempo pareceu parar, de nada serviu o pergaminho, que estava em branco. Quanto a jovem, permanecia ali, estupefata, esperando algum milagre acontecer.

Já o ancião permanecia ali, vendo o resto de humanidade da menina se tornar uma sombra negra domada pela magia. E com um olhar de lamentação, ele finalizou:

— Tua curiosidade é o que tem te trazido aqui, enquanto lhe dei todos os conselhos possíveis de que não o fizesse, tu fizeste. Ignoraste meus conselhos e continuaste a ler o livro, agora a mesma parte de ti que te deu sabedoria, a sua curiosidade, é o que vai te dar também tua lição. Não posso permitir que alguém que quebra nossas regras e esquece de nossos conselhos continue aqui, impune, então esse é o preço que te dou.

E assim se dissipou a jovem bruxa, que não sabe qual foi seu maior erro, se foi se deixar levar pela própria curiosidade ou pela confiança naquele ancião. E o ancião, voltou à escola, lamentando o destino daquela jovem garota.

Notas finais
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