Os amantes que nunca foram.

1 O fim do que nunca começou.


Os amantes que nunca foram, na verdade chegaram a ser, mas apenas até um certo ponto.

Parece confuso, mas eu explico: Houve um momento em que o nosso habilidoso caçador, de fato, capturou a mais selvagem das borboletas. Nesta mesma época, uma tirana com fama de usurpadora também conquistou um trono que já tinha sido habitado por muitas, mas nenhuma como ela.

Quando o 7º filho e a garota com medo de sótãos se conheceram, ambos estavam quebrados. Quebrados de maneiras tão profundas que foi justamente entre essas rachaduras que enxergaram um no outro uma identificação profunda.

As coisas eram tão complicadas com o restante do mundo, que entre eles havia uma espécie de trato não verbal: Aqui, entre nós, ninguém está tentando provar nada para ninguém.

As outras pessoas viam ambos como desajustados, mas cada um carregava um tipo diferente de estigma. Ele era taxado como um babaca de primeira, desses caras tão radioativos que só falta incandescer em verde e nascer um terceiro braço.

Já ela, uma dramática de primeira, colecionava uma legião de desafetos simplesmente pela sua maneira exacerbada de viver e sentir tudo com tanto afinco — era canceriana, sabe?

No início, era só corpo. Suor e sêmen, pele colada com pele, fantasias e fetiches, palavras sujas e gemidos sussurrados em salas secretas, no meio da madrugada. E então, como já é clichê, aqueles amantes desafortunados cometeram o pior dos crimes: Ultrapassaram o corpo e alcançaram a alma um do outro.

Assim, começaram as conversas. As confidências. Os medos. As desilusões. Aquele tipo de vulnerabilidade que, quando compartilhada, une duas pessoas miseravelmente e de maneira irreversível.

Afinal, não é possível simplesmente esquecer quando alguém te conta que apanhou do pai aos cinco anos de idade quando pediu colo e por isso nunca mais foi capaz de abraçar alguém na vida. Você logo se vê retribuindo a confissão contando que já ouviu a sua mãe rezar baixinho para que Deus fizesse você mais parecida com a sua irmã mais nova.

E, mesmo assim, eles nunca se apaixonaram. Ou será que sim, mas isso apenas nunca foi cogitado para além da inconsciência?

Existia uma espécie de pacto silencioso entre eles, como já foi dito aqui, em que um prometia que jamais destruiria o outro a este ponto. "Amar é destruir, e ser amado é ser destruído", dizia um dos muitos livros de fantasia juvenil que a garota leu na adolescência. Era um pouco brega, ela sabia agora, mas continuava sendo verdade.

A usurpadora jamais reclamaria aquele trono, mesmo que este fosse seu, de uma forma tão profunda que beirava a irracionalidade. Até porque ela amava outra pessoa. E ele, oras, também amava!

Mas será então que poderia existir algo para além do amor romântico que conecte tão intrinsicamente um homem e uma mulher? Essa era só mais uma das muitas perguntas que não seriam feitas pelos amantes que nunca foram. Algumas respostas simplesmente não foram feitas para serem ditas em voz alta, tanto quanto algumas pessoas foram feitas para nunca ficarem juntas.

Claro que sendo os idiotas que eram, algumas coisas simplesmente escapavam do controle: A demonstração de um ciúmes que não deveria existir; a troca de olhares que pertencem apenas às almas gêmeas; uma música cheia de subtextos; os presentes demasiadamente caprichados, entregues sob o pretexto da amizade, mas que carregavam uma infinidade de significados internos que apenas ambos eram capazes de decodificar... Algumas declarações de amor só são compreendidas por aqueles capazes de lê-las nas entrelinhas.

Quantos crimes favoritos os amantes não cometeram em prol um do outro, sem que nada além das estrelas os testemunhassem? Ele a amava. Ela o amava. E, mesmo que tentassem desviar os olhos, seus respectivos amores também sabiam disso.

Mas, no fim — e no começo deste texto — tudo é uma questão do que você, de fato, escolhe para si. Eles não se escolheram, e isso bastou.

Os amantes que nunca foram amaram arrebatadoramente seus companheiros, e entraram para a história, cada um da sua forma e com a sua própria cota de contribuição, longe um do outro. Tiveram filhos, netos, bisnetos. E, em algum momento, morreram.

Ela antes dele, pelo que o caçador soube, quando já não era mais um caçador, e sim um príncipe legítimo e um pouco menos babaca. Sua borboleta, que deixara para trás as asas fracas da juventude, assumira seu papel de soberania em um trono exclusivamente seu, sem precisar realmente usurpá-lo em sua curta, mas feliz, vida.

Já no leito de morte, ela se distraía em mais um de seus muitos e constantes devaneios, quando lembrou dele e de todas as coisas nunca ditas, e seu coração se encheu de gratidão.

Ela o agradecia por nunca tê-las dito, e permitido assim que ela pudesse viver a vida de rainha que teve, ao lado de um amor brilhante como o sol e que seria eternizado em versos e risadas que atravessariam a história na boca de seus amados descendentes.

Seu marido e a família que construíram foram seu último pensamento antes daquele suspiro final e maldito. Mas, o penúltimo, quando ainda lhe sobrava um pouquinho de tempo nesta vida e ar nos seus pulmões, ela dedicou a lembrar do seu calçador e como levaria consigo para o túmulo o fim daquilo que nunca começou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.