Notas iniciais
CAPÍTULO 5: Uma carona para Long Island e... Mais cavalos?
BELA TENTOU NÃO PENSAR MUITO enquanto corria com os estranhos pela rua afastando-se da multidão que começava a cercá-los perguntando em que circo ou show de mágica eles trabalhavam. As sirenes da polícia zumbiam ficando para trás junto com as equipes de reportagens que haviam chegado pouco tempo depois. Por sorte eles conseguiram sair dali antes de tudo isso. Ela não podia correr o risco de ter sua cara estampada na TV ou todo seu esforço para fugir daquele lugar teria sido em vão.
Ela corria ao lado de Piper e dos outros dando a volta no Central Park pelo lado de fora. Ao redor a cidade de Manhattan os cercava. Bela conhecia bem aquela cidade, morara na mais alta classe do Uper East Side com seu pai durante alguns anos de sua infância, quando o negócio de seu pai ia bem, antes das viagens e das mudanças constantes. Por tempos, Bela não soube o que era ter um lar, mas ela não se importava desde que pudesse estar com o pai. Na verdade, as viagens eram até divertidas, o pai a levava em vários pontos turísticos das cidades em que estivessem e em diversos restaurantes – Bela já provara todo o tipo de comida que se possa imaginar.
No entanto, tudo mudou quando seu pai se casou com aquela mulher. Eles passaram a morar num lindo casarão no Queens. Ela poderia ter ficado feliz por finalmente ter um lar fixo, por não precisar mais fazer o que faziam para ganhar dinheiro – longa história. Mas acontece que desde que seu pai se casou, ela não se sentia parte daquela família. Sua madrasta a tratava como um estorvo, alguém que só atrapalhava e só servia para arranjar confusão. "Coisas ruins acontecem quando ela está por perto, há algo errado com essa menina", ela dizia. A princípio seu pai se aborrecia com isso, não gostava de Carmen falando mal de sua menininha. Mas com o tempo ele parou de se importar.
Desde então os pesadelos começaram, sonhos horríveis e muito reais. Quase toda a noite Bela acordava gritando assustada. Algumas vezes seu pai ia até seu quarto e a abraçava para que ela se sentisse melhor, dizia que era só um sonho e colocava-a para dormir novamente. Então Carmen o convenceu de que ela só estava querendo chamar atenção e que se ele não fosse mais até lá de madrugada, Bela pararia com os falsos pesadelos. Mas Carmen estava errada, os pesadelos não pararam. Durante dias seguidos, Bela havia tido o mesmo pesadelo horripilante. O pesadelo em si não seria problema se de alguma forma não tivesse se tornado tão assustadoramente real.
– Vai ficar tudo bem – disse Piper ao seu lado tirando-a de seus devaneios. – Você vai se sentir melhor quando chegarmos ao Acampamento e tudo for esclarecido.
Bela piscou percebendo que seus olhos estavam lacrimejados. Pensar em seu pai a deixou triste. Fazia algumas semanas desde que tudo aconteceu. Desde que ela foi mandada para aquele lugar por sua madrasta. Ela sabia que não fora sua culpa, mas não conseguia deixar de se sentir culpada. O sonho tentara alertá-la, mas ainda assim ela não fez nada e seu pai agora estava... Ela cerrou os punhos, não queria mais pensar nisso.
Bela tentou se concentrar no que estava acontecendo naquele momento. Já passara por muitas “loucuras” em seus quinze anos de vida, já viajara praticamente pelos Estados Unidos inteiro com seu pai. Mas nunca antes ouvira falar de cavalos carnívoros ou daquele lugar chamado Acampamento Meio-Sangue, ao qual Piper e Jason se referiam.
Na verdade, ela não se importava para onde ia, ela só queria ficar o mais longe possível do Saint Eliot e de sua madrasta. De jeito nenhum voltaria para aquele lugar. E embora ainda estivesse impressionada e até assustada com o que quer que Jason tenha feito para transformar os cavalos selvagens em pó, nada a deixou mais assustada e impressionada que encontrar Sam Winchester outra vez. E bom, ele não tentou matá-la e nem exigiu nada, o que só tornou tudo aquilo ainda mais confuso.
Antes dos estranhos chegarem, quando ela acordou ao lado de Sam e daquele garoto estranho, ela estava começando a achar que aquela era a vingança dos Winchesters: primeiro a sequestravam para assustá-la e depois a ameaçavam. Depois do que ela fez com eles no passado, era de se esperar que eles tentassem se vingar caso a encontrassem novamente. Mas então Sam parecia completamente desorientado e confuso, agia como se não tivesse certeza de quem ela era, e Dean não estava por ali. Isso só serviu para deixá-la apreensiva e mais confusa, pois ela poderia lidar com os Winchesters, mas se aquilo não tinha a ver com eles, então quem a levou para lá? Quem eram aquelas pessoas? E por que Sam também estava ali?
– Eu poderia ter dado um jeito naqueles cavalos, sabem? Teria ensinado aqueles pôneis a comer tofu – resmungava o homem de meia idade, Hedge, ao lado deles. Ele corria de um jeito engraçado, como se tivesse pernas tortas, talvez arcadas demais. O homem com roupa de esportista não se conformara por passar a maior parte do tempo cochilando embaixo daquela árvore no Central Park enquanto eles eram quase pisoteados por cavalos raivosos. – Perdi toda a diversão – resmungava ele mexendo o taco de beisebol para lá e para cá, Bela podia jurar que antes era um cajado semelhante a um tronco de árvore.
Eles atravessaram a rua e entraram num dos inúmeros becos de Manhattan. Jason e Piper observavam os céus como se esperassem que alguma coisa caísse de lá. Hedge, o esportista, coçava a barba por fazer queixando-se consigo mesmo.
– Onde fica esse Acampamento Meio-Sangue? – perguntou Sam em algum lugar atrás dela. Bela sentiu o coração acelerar ao ouvir a voz dele. Diabos, porque ele lhe dava tanto nervoso? Será que ela esperava que ele fosse tirar uma arma do bolso e lhe dar um tiro? Ou então começasse a gritar com ela? Não, Sam não era assim. Pelo pouco que ela conhecia dele, Bela sabia que ele poderia detestá-la, mas não acreditava que ele teria coragem de matá-la, não de verdade. Ele não era como o irmão. Dean não pensaria duas vezes.
– Em Long Island – respondeu Jason, ainda olhando o céu. – Mas não vamos andando, seria muito perigoso. Nossa carona deve estar chegando.
Long Island, ela pensou. Nunca esteve lá, mas tinha uma vaga ideia de que a maior parte de Long Island era cercada por mato. Devia haver fazendas e coisas desse tipo pelas redondezas, nada que interessasse nos negócios de seu pai.
– Você disse carona? Que carona? – perguntou o menino ruivo que acordara ao seu lado e cismara que eles o haviam sequestrado. Bela não conseguia deixar de se perguntar quem era ele e o que estava fazendo naquela lanchonete também. Mas pelo jeito que acordara, ele provavelmente também não saberia responder.
Jason apontou para o céu com um sorriso.
– Aquela é nossa carona.
Todos ergueram os olhos para o céu, para onde Jason apontava. Pontos escuros planavam no céu acima deles se aproximando rapidamente. A princípio Bela pensou que fossem pombos, mas logo os pontos escuros foram criando formas e ficando maiores. Até que ela avistou algo que a deixou completamente embasbacada.
– Santa mãe de Deus! – exclamou o menino horrorizado. – Cavalos carnívoros voadores!
Se Bela não estivesse vendo o mesmo que ele, ela diria que o menino estava louco. Mas lá estavam três cavalos descendo os céus, todos tinham asas enormes que os sustentavam e os fazia voar como pássaros gigantes – os maiores que existem, embora eles não fossem pássaros realmente.
– Eles não são carnívoros – explicou Piper. – E não são cavalos...
– São pégasos – completou Bela perplexa e encantada, seus olhos bicolores se iluminaram de incredulidade. Não podia acreditar que estava mesmo olhando para três pégasos, os mesmos da mitologia! Ela já lera sobre eles uma vez, em um dos inúmeros livros que seu pai tinha na enorme biblioteca do casarão. Mitologia em geral eram as histórias favoritas de seu pai e suas também.
– Sim – confirmou Jason e se aproximou dos pégasos, que já haviam pousado na calçada e trotavam até eles. – É melhor nos apressarmos, quanto antes chegarmos ao Acampamento, melhor.
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