Os Três Dovahkiin
2 Unbound
O mundo pareceu explodir com o grito. O carrasco derrubou o machado e caiu, por pura falta de sorte, com o peito na lâmina. Sangue escorria do corpo e da boca, espalhando-se numa poça no chão.
-Vamos, homem, mexa-se! É a nossa chance, e os Nove não vão nos da outra!
Sacudindo a cabeça, Nordock viu Ralof parado diante dele enquanto a guarda Imperial, o resto dos Stormcloaks e os moradores da vila corriam para longe dali. O imenso homem deu uma última olhada na criatura e apressou-se a seguí-lo.
Ralof corria para uma torre próxima do local de execução. Assim que chegaram, ele fechou a pesada porta de madeira, abafando um pouco a confusão que estourava ao redor. Mas os muros tremiam, e parecia que a torre poderia desabar a qualquer momento.
Nordock analisou a cena rapidamente. Dois Stormcloaks caídos, sangrando de ferimentos no peito. Uma escada subia em caracol para o topo da torre, onde outro homem tentava abrir caminho por escombros que bloqueavam a passagem. Parado perto dele estava o homem de roupas de pele caras, Ulfric, jarl de Windhelm.
-Um dragão! — Ralof falou enquanto desamarrava as mãos de Nordock — As antigas lendas... Será verdade que...
-Se fosse uma lenda, estaríamos todos em Sovngarde agora — Ulfric respondeu em sua voz grave e marcante. Nordock deu uma risada seca.
-Você é quase uma lenda em toda Skyrim, e olha só a confusão que está causando — ele disse sem se importar com a posição que o homem à sua frente ocupava. O jarl, no entanto, apenas deu de ombros.
Ralof fitou Nordock, apreensivo.
-Precisamos achar uma saída. Talvez lá no topo da escada...
Nordock já subia a escada, estendendo as mãos para ajudar o outro homem a tirar as pedras que a bloqueavam. Então, subitamente, Ralof sentiu algo. Talvez fosse um instinto adquirido após anos de batalhas dentro e fora das linhas Stormcloaks, ou apenas uma sensação estranha e inexplicável que o fez segurar o ombro do pesado escandinavo, puxando-o para trás.
O resmungo de surpresa e raiva de Nordock foi interrompido por um estrondo que jogou um grande pedaço da parede da torre para dentro, esmagando o homem que estava ali. O escandinavo arregalou os olhos, sentindo uma pedra passar raspando por seu braço. Ele ia recuar, mas a visão que teve era apavorante demais para que pudesse fazer qualquer coisa.
A cabeça que apareceu pelo buraco da torre era diferente, maior e mais assustadora do que tudo o que já haviam visto. Focinho largo, boca cheia de dentes finos e longos à mostra num sorriso sem expressão, olhos amarelos faiscando com raiva e fúria. O interior da boca era preto, como puderam ver quando a criatua abriu a boca...
Instintivamente, Nordock e Ralof pularam para trás escapando do jato de fogo que entrou pelo buraco e elevou a temperatura da torre num segundo. O dragão pareceu achar que era suficiente e levantou vôo, batendo as longas asas com facilidade no ar.
-Por Talos... — Ralof sussurrou olhando para o lado de fora — Aquela pousada! Saia por lá e nos encontramos do lado de fora. Vou tentar ajudar os outros.
Sem discutir, Nordock saltou e caiu sem muita cerimônia na mesa do segundo andar da pousada ao lado da torre, aberto pelas garras do dragão. Ele resmungou alto ao sentir o ombro direito estalar ao bater direto contra a madeira dura. A altura havia sido maior do que imaginara, e ao se levantar com esforço, sentiu dificuldade para mexer o braço. Era só o que faltava: ser atacado por um dragão sem poder usar o braço mais forte. Certo de que não seria sensato ficar dentro de uma construção frágil como aquela, desceu por um buraco no chão e fez uma careta quando a queda, mesmo de uma altura pequena, fez seu braço explodir em dor. Mas logo ele teve uma visão mais ampla de Helgen, o que o fez esquecer um pouco o braço.
A cidade estava em estado de calamidade. Casas pegavam fogo por toda parte, chão e telhado se encontravam e corpos enegrecidos eram vistos aqui e ali, alguns ainda se mexendo fracamente. Torres e pedaços das paredes de pedra que cercavam a vila estavam desabados no chão como se não fossem feitas de algo mais resistente que montes de gravetos.
Até o ar estava mudado: o céu, antes azul e com poucas nuvens, agora era uma massa cinzenta e rodopiante, por onde choviam pedras flamejantes. Se não estivesse ali agora mesmo, Nordock seria capaz de arrancar a cabeça de quem lhe dissesse ter visto tais coisas. Para começar, dragões estavam extintos havia séculos, e não havia magia capaz e criar uma tempestade como aquela. Ele hesitou alguns momentos, incapaz de acreditar no que seus olhos lhe mostravam...
Ele viu movimento a alguns metros de onde estava e correu até um destacamento da guarda Imperial, que lutava inutilmente contra o dragão. "Porcos idiotas", pensou com desdém. Nordock era, como a maioria dos nascidos em Skyrim, um lutador corajoso que não recuaria diante da perspectiva de uma luta. Como poderiam, no entanto, enfrentar uma criatura que podia voar e cuspir fogo das alturas? Era praticamente impossível atingí-lo com magias, muito menos lâminas como espadas ou machados. A escolha mais razoável seriam flechas, embora o estrago que uma ponta de metal pudesse fazer naquela pele dura e espinhosa não levantasse muito os ânimos.
Mesmo assim, os Imperiais não desistiam, e Nordock teve que admitir que eles eram corajosos. Poderiam ter tentado fugir, em vez disso, esforçavam-se para atacar o dragão e proteger a vila — embora, ele pensou com uma risada seca, não houvesse muito o que proteger naquela confusão.
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Frustrado, Halten fechou a gaveta com força. Era uma casa, ele pensou. Por que as pessoas não guardariam as coisas de valor ali?
Pelo que sabia, Helgen podia ser uma vila pequena, mas era próspera e com habitantes em boas condições. Era uma das coisas que a rede de ladrões sempre sabia, mesmo em Cyrodill, e que ele podia se aproveitar de vez em quando.
Em circunstâncias normais, ele não assaltaria a casa de alguém que acabara de perder tudo — inclusive a própria casa, agora apenas metade de uma parede com algumas gavetas ao lado de móveis esmagados por uma enorme pedra que caíra do céu — para procurar dinheiro e jóias para si. Mas ele viu os corpos queimados de um casal e uma criança retalhada, morta ainda na cama por pedras que caíram do teto. Houve um tempo em que ele hesitaria em respeito aos mortos. Agora, ele sabia que a família não se importaria se ele pegasse algumas coisinhas.
Não que houvesse algo para pegar, é claro. Além de algumas moedas de ouro e uma bolsa de dinheiro, a família não parecia ter muitas posses. Mas sua percepção astuta lhe dizia que, se esse fosse o caso, seria difícil morarem numa casa como aquela, no centro do vilarejo. Certamente haveria mais dinheiro nos bolsos dos dois adultos, porém Halten não se sentia inclinado a procurar.
Ele resolveu deixar a casa para trás e pisou em alguma coisa dura. Era uma pequena adaga de ferro coberta de pó das casas, mas a lâmina afiada ainda reluzia à luz do sol. Halten a pegou, satisfeito. Não teria chance contra o dragão, mas ele ainda era um prisioneiro condenado à morte. Seria bom ter como se defender no caso de o dragão voar para longe — e qualquer coisa era melhor do que andar completamente desarmado.
A adaga lhe trouxe uma lembrança fugaz. Em Cyrodill, ele costumava usá-las como alternativa para o arco longo de madeira que sempre carregava consigo. Ele ainda se lembrava de estar segurando-o quando fora capturado na fronteira com Skyrim, por um assalto malsucedido. E então, sem mais delongas, fora jogado na carroça com os outros prisioneiros.
Fora fácil afrouxar as grossas cordas com um movimento hábil dos pulsos antes mesmo de chegarem a Helgen. Esperava escapar sem ser notado, no entanto, a tentativa fracassada de Lokir o fizera esperar por um momento mais oportuno — e não poderia ter havia um melhor do que um barulho desconhecido no céu, que desviou a atenção de todos.
Agora, esse mesmo dragão poderia representar sua morte, como fizera há apenas alguns momentos com uma família inteira.
Ele ouviu um grito mais ao sul e viu um menino correndo por uma rua, tropeçando nos próprios pés, assustado e desesperado. Atrás dele, o dragão o olhava fixamente, sem pressa para atacar.
-Continue, Torolf! Só mais um pouco! Não olhe pra trás!
Atrás de uma casa em chamas estavam três Imperiais, e Halten reconheceu Hadvar como o homem que falara. Um deles entrou na linha de visão do dragão e começou a disparar bolas de fogo contra ele. O monstro rugiu em desafio, incentivando o garoto correr ainda mais rápido. Quando chegou à esquina onde eles estavam, Hadvar o agarrou e o puxou para a relativa segurança das paredes da casa em ruínas.
-Bom garoto. Excelente — Hadvar o encorajou, segundos antes do dragão cuspir outra baforada de fogo.
O jato era imenso, quente e destruidor, ocupando quase a rua inteira. Quando finalmente cessou, só restava o corpo carbonizado do mago que tentara enfrentá-lo. Hadvar desviou o olhar da figura e encarou o segundo Imperial.
-Cuide dele. Preciso me juntar aos outros... Temos que proteger o General Tulius.
O homem segurou o menino delicadamente pelo braço e assentiu.
-Que os deuses o guiem, Hadvar — desejou. O outro virou-se e notou o homem que o observava, reconhecendo-o.
-Ainda vivo, hein? Fique perto de mim se quiser continuar desse jeito.
-Da última vez que fiz isso, quase arrancaram minha cabeça — ele retrucou. Mas seguiu o homem por um corredor de madeira do que sobrara de uma casa.
Foram para o sul, com Hadvar guiando o prisioneiro pelos ladrilhos de pedra entre as construções que ameaçavam desabar a cada segundo. À toda volta, pessoas gritavam, pedras caíam do céu e construções, antes tão sólidas e resistentes que pareciam capazes de resistir a tudo, caíam como blocos de madeira derrubados por uma criança. E o tempo todo havia os gritos e rugidos do dragão negro, que parecia tomado por um desejo insasiável de destruir.
-Na parede! — Hadvar gritou, e ambos se colaram ao muro de pedra quando uma sombra escureceu o caminho. Então ouviram um barulho: o dragão estava em cima do muro.
Pedaços de pedra cederam sob os pés pesados do animal, mas o muro resistiu. O pescoço da criatura era grosso e terminava numa cabeça espinhosa e cheia de dobras e pontas escamosas. Os dois viram o queixo dele se esticar e a borda de alguns dentes longos e afiados como agulhas, quando ele gritou algo que chegava mesmo a lembrar palavras. Em seguida, o calor saiu de sua boca, tomando conta da rua e acabando com um trio de arqueiros que se encontrava no caminho.
Hadvar tinha a respiração presa, sem ousar fazer qualquer movimento que pudesse chamasse a atenção do dragão. Halten estava um pouco mais calmo, embora dizer que estava completamente tranquilo fosse exagero. O legionário estava exatamente abaixo de um dos pés enormes com garras, e as enormes asas abertas cobriam-lhes como uma tenda. A ponta dura como um pedaço de lona seca roçava o ombro do prisioneiro.
Durante um tempo que pareceu dolorosamente longo, os dois ficaram parados observando o dragão queimar e matar as pessoas que via ao seu alcance. Sentiram o vento provocado pelo bater das asas empurrando-lhes para baixo quando o dragão alçou vôo novamente, subitamente devolvendo a claridade àquele pedaço do muro destruído.
Voltaram a correr imediatamente, passando por uma rua até onde alguns magos corriam e atiravam bolas de fogo contra o dragão. Armado com uma espada grossa de aço, Hadvar seria inútil contra o dragão — mas se pudesse escapar, avisar o destacamento principal... De repente, ele se lembrou que não sabia o que havia acontecido com o general.
-Ralof! — seus pensamentos foram interrompidos por uma figura alta vestida num traje metálico azul que chegava por uma rua, armada com um machado. O escandinavo o viu e fez uma careta — Seu traidor. Saia do meu caminho!
-Estamos escapando, Hadvar — anunciou o outro — Se quer me impedir, tente agora e pouparei o dragão do trabalho de matá-lo!
O rosto de Hadvar adquiriu uma expressão estranha — novamente, Halten notou aquela sensação de desapontamento, como se a idéia de Ralof não o deixasse furioso, mas triste. Ele então estreitou os olhos e sua expressão endureceu.
-Não vou precisar fazer isso — gritou, e correu para outro lado, deixando Ralof para trás.
Eles foram para o norte, para o canto onde o muro daquele lado se encontrava com o muro leste, numa parte onde as casas estavam relativamente em melhores condições. Uma rua lateral levava para onde estava o maior grupo de Imperiais até aquele momento, com o dragão voando em círculos acima deles.
-Vamos... Esquece — Hadvar se interrompeu quando uma torre perto do muro norte caiu como uma árvore derrubada, seu topo atingindo uma casa do outro lado da rua e bloqueando-a completamente.
-Ali — Halten apontou para os portões de madeira do muro à esquerda deles. Ao cair, um pedaço maior da torre tombara para o lado e forçara o portões duplos do muro norte para fora, criando uma fresta larga o bastante para que passassem por ela. Hadvar assentiu e eles se espremeram pela abertura.
-Continue correndo — Hadvar instruiu sem necessidade — Há um destacamento Imperial por aqui. Essa estrada leva direto a Riverwood, onde...
Sua voz foi interrompida por um estrondo alto: uma pedra caíra do céu bem à frente e ao lado deles, desintegrando-se ao tocar o chão. Hadvar recebeu a maior parte dos fragmentos, sendo jogado contra Halten.
O ex-prisioneiro afastou o corpo ensanguentado da frente, deitando-o no chão com delicadeza. O guarda respirava com dificuldade e cuspia sangue. Halten sentou-se perto dele e arrancou a armadura de couro destroçada do corpo dele. Mal era possível ver a pele por trás dos ferimentos.
-Tente se acalmar — pediu — Respire fundo. Faça pressão aqui — eram tantos os ferimentos que não havia um em particular onde ele poderia se concentrar.
O homem olhou em volta, procurando algo que pudesse ajudá-los naquela situação. À direita da estrada havia uma cadeia de montanhas, pedras e penhascos. À esquerda, o chão descia numa colina suave e coberta de neve, dando para uma floresta de pinheiros mais ao longe.
Não. Helgen era um vilarejo localizado no meio das montanhas, a quilômetros de qualquer outro. Não havia lugar onde pudesse procurar suprimentos médicos, além da própria Helgen. Talvez, ele pensou, os Imperiais tivessem algum, já que deveriam esperar receberem feridos já que aquela era a captura do líder rebelde e...
Os Imperiais! Hadvar havia dito que havia mais deles naquela direção. Sem perder tempo, Halten fez uma bandagem improvisada com a camisa rasgada para estancar o sangue, e usou um pedaço de pano que encontrou no bolso do guarda. Afastou-o para fora da estrada, deixando o corpo na neve. Acima dele, o dragão continuava a rugir, concentrado em atacar a cidade.
O homem correu como o vento pela estrada que ia a noroeste, sempre descendo. Os minutos voavam, ele ciente de que não poderia demorar mais e que a subida seria mais longa que a descida. Encontrou a carroça numa esquina onde a estrada ia para oeste. Felizmente, os Imperiais deveriam ter ido ajudar Helgen, pois não havia ninguém.
Ele levou apenas alguns segundos para juntar o que precisava e estava prestes a voltar quando teve uma idéia. A carroça era puxada por dois cavalos, um preto e um malhado. Seria mais rápido se usasse um — cada segundo contava para a vida de Hadvar.
Escolheu o malhado e chegou de volta a Helgen rapidamente. Os gritos ainda estavam lá, embora fossem menos frequentes. O homem ferido ainda estava deitado na neve no mesmo lugar onde Halten o deixara e não se movia.
Certificando-se de que ele estava vivo, tirou a bandagem improvisada e a trocou por ataduras limpas com pomadas que encontrara na carroça. Despejou o conteúdo de uma poção de frasco vermelho nos lábios do homem. Ele não sabia pra quê servia, mas ela estava lá com o rótulo "Para perda de sangue".
-Aguente firme — disse para o homem, vendo que ele fizera uma careta, embora ainda não parecesse ter acordado.
Para onde iriam agora? Poderiam ir para Riverwood, mas Halten não conhecia o terreno, nem sabia quanto tempo poderia levar para chegar. Ele foi para a esquerda da estrada — talvez pudessem ficar na base dos pinheiros. E eis que, milagrosamente, surge uma forma mais lisa e uniforme perto da floresta, os contornos de uma pequena casa de madeira. O homem voltou-se para Hadvar, satisfeito. O lugar, se não estava abandonado, certamente estaria com o ataque do dragão. Ainda era muito perto de Helgen, mas de qualquer maneira, não poderiam ir muito longe com Hadvar naquele estado.
E assim, ele o levou para a pequena casa, abandonada como previra, e o deitou numa pequena cama de palha embolorada. Não havia esperanças de encontrar equipamentos úteis de primeiros socorros, mas pelo menos o homem poderia descansar. Seguro de que fazia o melhor que podia, recostou-se numa parede. Também estava cansado, depois de tudo. Sabia que precisava ir para longe dali, afinal, além do perigo iminente que era o dragão, havia o risco de os Imperiais irem procurar naquela cabana, que seria o esconderijo mais provável para um fugitivo. Mas Halten achou isso improvável — quem pensaria em procurar prisioneiros com aquela criatura voando pelos ares? Além disso, o pensamento de abandonar o guarda que não fizera nada para impedir sua execução nunca lhe ocorreu.
Passaram-se horas até o som morrer em Helgen, quando já estava escuro. De onde estavam, só podiam ver o brilho do fogo contrastando com a noite escura e ouvir os ruídos ocasionais de uma construção cedendo às chamas. Suspirando, Halten recostou a cabeça contra uma parede, pensando que poderia dormir ali mesmo, embora soubesse que seria estupidez baixar a guarda.
E estava certo. Não muito tempo depois, ouviu o ruído dos passos se aproximando sorrateiramente pela grama baixa.
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