O time da Raimon o encarava, alguns de cabeça baixa. O que eles estavam fazendo ali? Só tinha uma explicação possível.

Após um longo minuto olhando para eles, envergonhado e sem saber o que dizer, Mitsuyoshi finalmente perguntou o que achava:

— Contou para eles? — perguntou baixinho, olhando com o canto dos olhos para Tsurugi, que estava ali pertinho, ao lado de Tenma.

Tsurugi acenou com a cabeça, confirmando.

— São meus amigos e não podia mais esconder — Tsurugi explicou. — A situação envolve todos nós.

— Devia ter nos contado — Tenma disse.

— Falamos coisas terríveis de você — Kurama contou, de cabeça baixa, relembrando. — Por causa dos seus colegas.

— Se Tsurugi não tivesse dito… — Hayami tomou a palavra.

— Teria continuado assim — Hamano completou.

— Sentimos muito pelo que dizemos... ou pensamos — Amagi se fez ouvir.

— Tínhamos culpado você pelo incêndio da escola — Kariya confessou, coçando a cabeça e olhando para o lado.

— Não pensamos direito — Kurumada disse.

Mitsuyoshi ficou ouvindo e os olhando de boca aberta enquanto se desculpavam. Lembrava-se dos olhares ofensivos e recriminantes de antes, quando saiu da Raimon. Mas não via mais nenhum desses olhares ali. Estavam todos com cara de criança que fez arte e pedindo desculpas à mãe. Mitsuyoshi não conseguiu evitar um sorriso divertido e sincero.

Depois de todos falarem, Tenma deu um passo à frente.

— Vamos te ajudar a procurar os outros colares. Todos eles. — ele disse, determinado.

— Ah? — Mitsuyoshi surpreendeu-se com a vontade de ajudar dele, o novo capitão da Raimon mostrava otimismo e vontade. Mas, de qualquer forma, a Raimon continuava sendo inimiga da Mannouzaka, sua escola. E Mitsuyoshi já tinha se decidido. — Não vou mais procurar os colares, desisti — revelou, para a surpresa de todos. — Coisas ruins aconteceram e podem acontecer mais. Esses colares só trazem problemas.

— Vamos ajudar — Tenma insistiu. Atrás dele, sons de motivação eram ouvidas. — São três dias, não é?

Mitsuyoshi suspirou, cansado.

— Dois e meio, agora. É impossível — Mitsuyoshi rebateu, incerto, apesar de querer muito aceitar a ajuda dos outros. O que Isozaki pensaria disso? Não que precisasse do consentimento dele, mas ainda era seu capitão.

— Que nada. Nós conseguimos, se fizermos juntos — Nishiki soltou uma gargalhada descontraída. — Nosso time não tem medo de desafios.

— Nishiki tem razão — Tenma falou. — Juntos nós podemos. E então? — Tenma estendeu a mão para Mitsuyoshi, esperando uma resposta.

Mitsuyoshi hesitou, queria aceitar, mas tinha muitos motivos para não fazê-lo. Seu time com certeza o culparia de traição. Olhou para os outros jogadores da Raimon, que o fitavam, ansiosos por sua decisão. Não soube o por que, mas aceitou o aperto de mão que Tenma lhe oferecera. Tenma abriu um grande sorriso, enquanto Mitsuyoshi ainda se encontrava um tanto retraído. Poucos segundos depois, o time inteiro se jogou em cima deles dois em um grande e apertado abraço contendo sorrisos, gemidos e gargalhadas sonoras. Mitsuyoshi gemeu em meio a tanta gente, mas se sentiu seguro. Percebeu um calor que nunca antes sentira na Mannouzaka.

Quando se separaram, Mitsuyoshi estava tonto e constrangido pela ação inesperada. Levou a mão à cabeça para se restabelecer. Se perguntou se a Raimon era sempre assim, unida.

— Agora… — Tenma tirou seu colar do pescoço e o estendeu à Mitsuyoshi. Tsurugi, Shindou, Kariya, Kirino, Kageyama, Sangoku e Aoi fizeram o mesmo. Mitsuyoshi fitou os colares por uns segundos, algumas horas atrás teria feito qualquer coisa para tê-los, mas agora…

— Esperem um pouco — disse antes de entrar na sua casa e bater a porta da varanda. Tenma e os outros se entreolharam, curiosos.

Um minuto depois Mitsuyoshi voltou com sua bolsa de pano.

— Se vamos mesmo fazer isso... — começou a dizer, tirando alguma coisa da bolsa. — Vamos precisar do poder dos colares — Mitsuyoshi levou à Amagi a mão que segurava o colar. — Desculpa, fui eu que peguei de você, hoje de manhã.

Amagi pegou o colar, surpreso, e o olhou por algum tempo, em seguida, colocou-o em volta da cabeça.

— Tudo bem — Amagi riu, agora já sabia o por que do sumiço do colar e não se importava.

— Os jogadores das outras escolas estão com o restante dos colares — lembrou Tsurugi.

— E não são todos que vão dar de bom grado — Mitsuyoshi completou. — Pode ser perigoso, eles vão…

— Usar os colares para nos atacar — deduziu Tenma.

— Isso — Mitsuyoshi confirmou.

— Então vamos atacá-los de volta — Tsurugi disse.

Em volta da casa de Mitsuyoshi havia um grande quintal gramado e, no centro dele, um imenso carvalho que sombreava uma mesa redonda de pedra. Sentaram-se em volta dela, enquanto os outros ficaram de pé, observando de cima. Mitsuyoshi colocou na mesa o velho pergaminho, que dizia quem era a pessoa que possuía a pedra e qual era o elemento. Todos olhavam curiosos para o papel. E Tenma gostou muito de ver seu nome ali.

— Os colares estão espalhados em todas as escolas — Shindou observou. — Vamos ter que ir em grupos, senão vamos perder tempo.

— E precisamos conciliar os elementos — Tsurugi acrescentou.

— Como assim? — Kageyama perguntou.

— Por exemplo, não podemos mandar Kirino, que tem a pedra de fogo, contra esses dois jogadores do Colégio Kaiou — apontou para um ponto do pergaminho -, que tem as pedras de água e água fervente. Água apaga o fogo.

— Sim, sim — Aoi entrou na conversa. — Eu li em um livro que falava da fraqueza dos elementos. Nos quatro elementos principais, o elemento fogo é mais forte que o ar, mas fraco contra a água; o elemento terra é mais forte que a água, mas fraco contra o ar; o elemento ar é mais forte que a terra, mas fraco contra a fogo e o elemento água é mais forte que o fogo, mas fraco contra a terra — ela disse. — E tem uma frase legal: “A terra absorve a água que apaga o fogo que consome o ar que corrói a terra”.

— Mas e os outros elementos? — perguntou Kirino. — Tem fraquezas?

— Os outros são chamados subelementos — Aoi continuou. — São a junção de dois ou três dos seis elementos principais, contando com luz e trevas. Como: ar + água= gelo, luz + terra= cristal.

— Legal — Tenma exclamou.

— E quando um desses dois elementos possui resistência e o outro possui fraqueza, a fraqueza predomina por que desequilibra a união — Aoi disse.

— Não entendi — Kariya fungou.

— Como o elemento lava, que é terra + fogo. O elemento seria mais fraco do que a água por causa do fogo — Aoi explicou.

— Podemos dividir os grupos agora — Shindou falou.

Enquanto Tenma, Tsurugi, Shindou, Aoi e Mitsuyoshi começaram a formar os grupos para buscar os colares, o resto da equipe foi jogar futebol no grande quintal da casa. Tenma disse que Fey e Taiyou ajudariam, o que contariam treze colares no lado deles.

— O treinador Endou vai viajar amanhã cedo — disse Shindou. — Vou passar na casa dele para pegar o colar. Outra pessoa pode usá-lo?

— Não — respondeu Mitsuyoshi, sabia por que tinha testado com a pedra de Amagi. — Só as pessoas que as pedras escolhem podem controlá-las.

— Então temos treze colares, mas só doze controladores — Shindou concluiu.

Demoraram para formar os grupos. Shindou era muito minucioso. via todos os detalhes. Aoi aconselhava bastante sobre os elementos. Tenma juntava nos grupos aqueles não tinham colares e Tsurugi ficava vendo os problemas que surgiam em certas junções. Mitsuyoshi ficava até com pouco a dizer, eles pensavam em tudo.

— Mitsuyoshi, o que seu poder faz? — Aoi perguntou, curiosa, quando leu ‘cores e brilhos’.

— Um pouco de fogo e luz — respondeu, incerto, lembrando do poder inútil. — E fogos de artifício, também.

— Fogo + luz= cores e brilhos — ela disse, anotando.

Quando estava quase anoitecendo, finalmente tinham terminado os grupos. Shindou disse que revelaria amanhã e que era para estarem ali às oito horas. O time da Raimon foi saindo, acenando e dizendo ‘Até amanhã’.

Antes de sair, Kurumada bateu nas costas de Mitsuyoshi, num cumprimento. Mitsuyoshi assustou-se, mas depois sorriu. Sangoku, ao passar, colocou a mão no seu ombro, sorrindo.

— Como sabiam onde eu morava? — Mitsuyoshi perguntou depois, para os que tinham ficado.

— Seu treinador sabia, pedimos para o Kido contatar ele. — Shindou respondeu.

— O treinador…? — Mitsuyoshi suspirou. Claro que sim, precisou colocar seu endereço no papel para entrar no time. Voltou seu olhar para Tsurugi, carrancudo. — Eu não disse para você não contar para ninguém?

Tsurugi deu de ombros.

— Disse, mas não ia conseguir segurar por muito tempo.

— Ainda bem que ele contou — Tenma falou. — Queríamos muito saber a origem dos colares. Mas… por que seus colegas estavam te procurando? — lembrou, recordando-se de Gamaishi e Oosawada.

— Isozaki colocou o time todo atrás de mim — Mitsuyoshi confessou, olhando para o lado. — Não sei por quê.

— Acha que ele sabe dos colares? — Shindou perguntou.

— Talvez... talvez desconfie, ele também tem um colar. — respondeu.

— Então temos uma nova missão — Tenma exclamou. — Não podemos deixar seu time te achar.

— Missão impossível — Mitsuyoshi rebateu.

— Nada é impossível — Tenma interveio.

Mitsuyoshi sorriu, era difícil discutir com Tenma.

— Aoi vai mesmo junto? — Mitsuyoshi ainda estava incerto sobre isso.

— Sim — Tenma disse. — Hoje o Kariya machucou a perna por causa de uma árvore que caiu, se não fosse Aoi e o colar da cura, ainda estaria ferido.

— O que é isso? — Aoi se aproximou e pegou a mão de Mitsuyoshi, vendo o roxo que ainda estava ali.

Mitsuyoshi abafou um gemido, ainda doía, tinha evitado usar a mão direita desde ontem. Aoi envolveu suas mãos em volta do pulso do garoto e fechou os olhos. Um brilho verde apareceu. Quando Aoi soltou a mão de Mitsuyoshi, o hematoma de antes havia sumido e, com ele, a dor do ferimento.

— Obrigado — só conseguiu dizer.

Aoi sorriu com olhos grandes.

— Vamos precisar dela — Tsurugi disse.

— Tem razão — Mitsuyoshi concordou, depois se virou de frente para eles. — Preciso agradecer vocês… por me ajudarem.

— É o que amigos fazem — Tenma disse.

— Amigos? — Olhou em volta. Tsurugi, Shindou, Aoi… e todos eles, estavam sorrindo. Mal se conheciam, mas já o consideravam um companheiro. — Mesmo com tudo o que fiz?

— Você se arrependeu — Tsurugi disse. — É o que importa. Eu também fui seed, mas esse tempo acabou.

— O importante é o presente — Tenma continuou. — E o passado… deixa pra lá.

Mitsuyoshi colocou as braços atrás da cabeça com um riso agradável. De certa forma, já tinha se acostumado com eles. Os conduziu até o portão.

Quando eles foram embora, Mitsuyoshi sentiu como que um peso saísse de seus ombros. O problema não era mais só seu, era isso que chamavam de dividir a responsabilidade? Foi a primeira vez que sentiu como se tivesse um time de verdade, era assim que companheiros deviam ser: uma equipe. Comparou-os à Mannouzaka, eram em todos os aspectos diferentes.

Naquela noite dormiu bem, ciente que na manhã seguinte eles voltariam para começar a busca. Antes de todos saírem, Tenma havia dito, brincando:

— Amanhã vamos à luta — como se estivessem para travar uma batalha.

Sabiam que muitos dos portadores dos colares não os iriam querer entregar. Segundo o que Shindou disse: ‘Primeiro vamos pedir, depois, lutar.