Os Treze Guardiões
13 Luzes e Som - Parte I
Notas iniciais
Quinteto Maravilha
Gisele, Renata, Samir, Sofia, Você
Renata: A festa da Paola é hoje, gente! Quem tá pronto pra dançar a noite inteira?
Samir: Eu não sei onde coloquei meu blazer. Isso é um problema?
Gisele: O traje é semiformal, então... Sim.
Samir: Droga.
Sofia: Ainda não sei se devo ir. Eu mal conheço a menina.
Renata: Ela não conhece metade dos convidados. Você vai, sim.
Gisele: Ei, gente... Alguém viu a Lorena?
Ignorei o meu celular vibrando, estirada na cama. Eu não estava com o menor clima pra festa.
Tinha passado os últimos dias pensando naquela foto, e que ligação ela tinha com o meu sonho. Como eu podia sonhar com alguém que nem conhecia, e que, provavelmente, estava morto há duzentos anos? Parecia que, quanto mais eu buscava respostas, mais complicado ficava.
Uma batida na porta me arrancou dos meus pensamentos.
— Ei, filha – minha mãe se esgueirou por uma fresta da porta – Não é hoje o dia daquela festa? Achei que você estivesse mais animada. Você não vai pra casa da Gisele se arrumar?
— Eu vou daqui a pouco, acho – suspirei, afundando no travesseiro.
Minha mãe entrou no quarto e sentou na beirada da cama, acariciando meu cabelo.
— Aconteceu alguma coisa? Eu lembro que você estava tão ansiosa pra essa festa...
Suspirei. Há um mês, tudo o que eu conseguia pensar era nessa festa. Era incrível o quanto as coisas podiam mudar.
— Não é nada, mãe – menti – Só estou meio cansada.
— Bom, você anda estudando bastante ultimamente – disse ela – Não que eu não esteja feliz com isso, mas você também precisa descansar um pouco.
Fiz uma careta. Eu odiava estar mentindo pra minha mãe sobre o “grupo de estudos”, mas que escolha eu tinha? Contar a verdade não era uma opção.
— Quem está nesse grupo de estudos, afinal? – minha mãe perguntou – Você não me disse.
— Ah... O pessoal de sempre. Renata, Gisele, Samir. Eu uma amiga nova nossa, a Sofia.
— Vocês não estão se reunindo só pra ficar conversando, estão? – minha mãe repreendeu – Sabe que essa história de estudar com os amigos nem sempre dá certo.
Ela nem fazia ideia.
— Estamos estudando mesmo, mãe – garanti – A Sofia é bem inteligente – pelo menos, era o que eu achava. Ela estava sempre com um livro na mão. – E você sabe que a Gisele e o Samir só tiram boas notas. E a Renata, bom... Ela dá um ótimo apoio moral.
— Bom, fico feliz – minha mãe acariciou meu rosto – Mas hoje é dia de você se divertir um pouco. Acho melhor você sair logo, antes que fique muito tarde pra pegar o ônibus.
Concordei, e logo que minha mãe saiu, abri o armário pra pegar o vestido e minha bolsa de maquiagem. Eu havia ficado horas rodando no shopping com a Gisele, procurando o vestido perfeito. Aquilo parecia a maior bobagem agora... Era incrível como ganhar uns poderes mágicos e descobrir que você era alvo de perseguição de várias criaturas do mal tirava a graça das coisas.
Mas aquela festa ainda poderia ser divertida. Afinal, eu estaria lá com os meus amigos, fazendo algo de adolescentes normais, pra variar.
E o Ricardo também estaria lá. Meu coração palpitou só de pensar. Será que eu finalmente ia conseguir ficar com ele? Eu torcia pra que sim.
Um pouco mais animada, peguei minhas coisas e fui me dirigindo assobiando até a porta.
— Tchau, mãe – acenei, abrindo a porta – Eu vou dormir na Gisele, então a gente se vê amanhã! Beijo!
— Divirta-se! – minha mãe gritou da cozinha – E lembra, nada de álcool! Não aceita nenhuma bebida que te oferecerem!
— Pode deixar! – falei, fechando a porta atrás de mim.
Estava atravessando o gramado quando reparei em Eric, recostado no muro, a jaqueta preta habitual totalmente fechada, apesar do calor.
— Ei – cumprimentei, me aproximando – Não esperava te ver aqui fora.
Minha voz morreu quando me aproximei, porém. O rosto de Eric estava pálido, e seus olhos estavam vermelhos, como se ele tivesse chorado.
— O que aconteceu? – murmurei, preocupada. Como da última vez, me recostei do meu lado do muro, tentando olhar em seus olhos, mas ele não olhou pra mim.
Ele murmurou alguma coisa, tão baixo que não consegui entender.
— O quê?
Ele finalmente virou pra me olhar. Percebi, com um susto, que o lado direito do seu rosto estava roxo, como se tivesse levado uma pancada.
— Eu o odeio – ele murmurou de novo.
Não precisei perguntar pra saber de quem ele estava falando.
— Eric, ele é seu pai – sussurrei – Você só está falando isso porque está magoado, mas...
— Ele quebrou uma garrafa de cerveja no ombro da minha mãe – interrompeu ele – Eu o odeio.
Isso calou minha boca. Apenas o encarei, num silêncio espantado.
— Se não fosse por ela, eu iria embora – continuou ele, olhando para o chão – Minha vontade é de estar bem longe daqui.
Coloquei minha mão sobre a dele. Ele não se afastou, mas também não reagiu.
— Porque vocês não fazem uma denúncia? – perguntei – Não é justo que tenham que viver assim.
Ele balançou a cabeça.
— Ela não quer – falou – Não sei se ela tem medo, ou se ainda sente algum tipo de amor doentio por ele, só sei que ela age como se tudo estivesse bem e me pede pra fazer o mesmo.
Olhei pra baixo. Eu já tinha ouvido falar de pessoas que, mesmo sofrendo abuso e violência, ainda nutriam sentimentos pelo agressor. Mas ouvir falar era muito diferente de ver de perto.
— Ele está por aí agora, enchendo a cara – grunhiu Eric – Queria que ele ficasse por lá e não voltasse mais.
Pensei no meu pai, que sempre foi ausente. Agora me perguntava se eu não tinha tido sorte.
— Eu queria poder fazer alguma coisa – murmurei. Faria qualquer coisa, se pudesse tirar aquele olhar ferido do rosto dele. – Mas mesmo que eu não possa fazer muito, quero que saiba que eu vou sempre estar aqui pra você. A qualquer hora, pro que precisar. Tudo bem?
Uma sombra de sorriso passou pelo rosto dele. Ele finalmente reagiu, apertando minha mão que ainda repousava sobre a dele.
— Eu sei – murmurou – Obrigado.
Sorri pra ele, e por um instante fiquei meio esquecida de onde estava e do que estava fazendo. Foi um vibrar do meu celular que me lembrou do horário.
— Droga, estou atrasada – resmunguei – Eu não queria deixar você aqui assim.
— Eu vou ficar bem – assegurou ele – Nós ainda vamos nos ver hoje à noite, de qualquer forma.
Olhei pra ele, surpresa.
— Você vai pra festa da Paola?
— Ela convidou a sala inteira – ele sorriu – Eu não ia, mas agora parece uma boa desculpa pra sair de casa.
Sorri. Por alguma razão, eu estava feliz que ele fosse estar lá.
— Legal – falei – Nos vemos lá, então.
Fui me dirigindo até o portão, contendo o impulso de olhar pra trás.
— Nos vemos lá – ele murmurou, quando eu estava na calçada.
Fui andando em silêncio até a parada de ônibus, o pensamento longe. E a festa era a última coisa em que eu pensava.
* * *
— Você está linda! – exclamou Gisele, admirando sua obra de arte no espelho.
E a obra de arte em questão, claro, era eu. Toneladas de maquiagem cobriam e mascaravam meu rosto, e meu cabelo pesava com uma camada grossa de laquê. Fora tudo isso, meu vestido vermelho era curto e apertado em certos lugares, me fazendo corar a cada vez que eu o olhava.
Examinei meu reflexo no espelho. Não parecia eu. Mas talvez isso fosse uma coisa boa; ser eu não estava muito em alta ultimamente. Seria bom tirar uma folga por uma noite.
Eu ainda estava observando o contorno dos meus olhos – que fazia com que eles ficassem luminosamente verdes – quando uma lufada de perfume invadiu meu rosto, me fazendo tossir espirrar.
— Aí! Agora está perfeita! – Gisele sorriu satisfeita, sacudindo o frasco de perfume na minha cara – O Ricardo não vai resistir. Hoje o beijo de vocês sai!
Revirei os olhos para Gisele. Perfeita estava ela, parecendo uma princesa de contos de fadas, com um vestido azul sedoso que realçava seus olhos, os cabelos loiros presos em várias flores prateadas e maquiagem suave, só o bastante pra fazê-la ficar ainda mais linda.
— Tomara mesmo – Renata desviou minha atenção – Depois daquele furo espetacular no cinema...
— Eu já expliquei mil vezes o que aconteceu! – reclamei, fazendo Renata rir.
— Relaxa, Loló. Só to zoando contigo – ela me mostrou a língua, o que não tirou a beleza de sua produção. O vestido verde esmeralda que ela vestia combinava com seus cabelos ruivos, presos num coque, e ela se recusara a usar qualquer maquiagem, exibindo com orgulho suas sardas de menina sapeca.
— Nós três estamos parecendo as meninas super poderosas – comentei, rindo, olhando para as cores dos nossos vestidos.
— É, mas ainda falta a Sofia – Gisele bateu à porta do banheiro, parecendo preocupada. – Sofia, tudo bem aí? Tá passando bem?
— Eu... Tô bem – a voz miúda de Sofia surgiu por detrás da porta – Na verdade, não muito. Acho que não quero mais ir pra essa festa, gente...
Nós três nos entreolhamos, estupefatas.
— Mas por quê? Vai ser divertido – insisti – E o seu vestido é tão lindo. Anda, deixa a gente te ver!
— Ah, não... – Sofia choramingou – Eu estou ridícula.
— Ah, vai, deixa de onda – Renata resmungou, impaciente como sempre – Abre aí, ou a Lorena e a Gisele vão se transformar e arrombar essa porta!
Eu e Gisele trocamos olhares divertidos. Óbvio que aquilo não ia acontecer – só a porta do banheiro de Gisele valia mais que a minha casa – mas Renata fez a ameaça soar bem real.
Devagar, a porta se abriu, e metade do rosto de Sofia apareceu.
— Prometem que não vão rir?
— Claro – me apressei em dizer.
— Prometido! – Gisele espalmou a mão num juramento de escoteira.
— Ah, que bobag... – Renata ia dizendo, quando levou um chute na canela de Gisele – Ai! Digo, claro, prometo.
Devagar, Sofia saiu detrás do esconderijo. E então todas nós prendemos a respiração.
Sofia estava linda. O vestido de cor bege poderia ficar sem graça em algumas pessoas, mas apenas favorecia sua pele clara e rosada. A saia rodada de cetim parecia feita de nuvens, e o cabelo e maquiagem estavam perfeitos. Ela parecia uma personagem diretamente saída de um livro.
— Uau, Sofia! – exclamei – Se quiser impressionar alguém, a noite é essa, porque você está maravilhosa!
Sofia corou e olhou pra baixo, constrangida. Ergui as sobrancelhas. Será que ela queria impressionar alguém?
Gisele e Renata cobriram Sofia de mais elogios. Ela parecia tímida como sempre, mas havia um pequeno sorriso no canto de sua boca.
— Bom, agora que estamos todas prontas – Renata sorriu, citando sua frase favorita de Meninas Malvadas: — Entrem no carro, vadias, vamos arrasar alguns corações.
* * *
— Pronto, meninas – sorriu seu Otávio, pai da Gisele, ao nos deixar na frente da casa de festas. – E não esqueçam: Nada de bebida, nada de cair na conversa de rapazes bobos e nada de chegar depois das duas da manhã.
— Tá, tá, pai, já sei – Gisele se apressou em dar um beijo na bochecha dele e nos puxar pra fora do carro, antes que pudéssemos fazer alguma objeção às regras. – Até mais tarde!
— Caramba, Gi, seu pai te trata que nem criança – reclamou Renata, ajeitando o vestido.
— Ah, pai é assim mesmo. Vocês sabem... – ela começou, e então parou e olhou pra mim com a expressão culpada.
Eu apenas balancei a cabeça. Não me incomodava que eu não tivesse um pai pra me encher o saco.
— Caramba, esse lugar está incrível! – falei, em parte pra mudar de assunto, em parte porque era verdade.
O tema da festa era Noite do Oscar, e o lugar estava todo decorado com holofotes, com direito a um tapete vermelho correndo até o palco – que eu julgava que seria onde a aniversariante daria sua entrada triunfal – e até uma estatueta dourada, para o que serviria, eu nem imaginava.
— Bom, os pais da Paola são donos da cadeia de restaurantes mais famosa do estado – ponderou Renata – Eles não iam poupar dinheiro nessa festa.
Pensei no meu próprio aniversário de 15 anos – Eu, mamãe, Giulia, Samir, Gisele e Renata em uma pizzaria com boliche. Não senti que havia perdido nada.
— Ei, é o Samir! – Gisele exclamou, me tirando dos meus pensamentos.
Samir estava elegante em todo o seu charme árabe dentro de um terno – eu podia jurar que era a primeira vez que o via em um. Ele se aproximou de nós, sorrindo.
— E aí, gente. Vocês estão... Uau... – ele congelou, os olhos parecendo duas bolas de pingue pongue gigantes.
Eu, Renata e Sofia trocamos olhares risonhos. Era óbvio que o “uau” era pra Gisele, de quem ele não tirava os olhos. E Gisele devia estar percebendo – por trás da maquiagem, eu podia jurar que ela havia ficado vermelha.
— Muito lisonjeiro da sua parte – Renata deu uma cotovelada em Samir, fazendo-o sair do transe – Mas acho melhor procurarmos um lugar pra sentar. Esses saltos estão me matando.
Olhei em volta do salão, perscrutando entre os convidados. E, sem querer admitir, procurando uma certa pessoa...
— Ah, Lorena, olha quem vem ali – anunciou Gisele, pra logo depois mudar o tom de voz: — Ah, droga...
Antes que pudesse me conter, olhei na direção que ela apontava. Primeiro, meu coração retumbou no peito – Ricardo estava vindo na nossa direção, absolutamente lindo de smoking – mas minha felicidade murchou quase no mesmo instante.
Pâmela estava com ele.
Melhor dizendo, pendurada nele. E, pra piorar, ela parecia uns cinco anos mais velha, com a maquiagem pesada que estava usando, os longos cabelos negros caindo na costa, lisos como seda, e um vestido preto que se fosse mais curto seria uma blusa. De repente parei de achar que o meu vestido fosse apertado...
— Oi, meninas! – Pâmela esganiçou com sua voz anasalada, ignorando a presença de Samir – Linda festa, não acham?
— Já esteve mais linda – Renata resmungou, arrancando risos de Sofia, Gisele e Samir.
Eu, porém, só tinha olhos pro Ricardo. Havia algo de estranho com ele. Ele parecia meio aéreo, os olhos sem foco. Quando finalmente olhou pra mim, abriu um largo sorriso:
— Lorenaaaaa! – exclamou – Que bom te ver, menina! Dá cá um ab.. abra... Abraço!!
O olhar de sono, mais a gagueira e o jeito extrovertido incomum me fez chegar à óbvia conclusão:
— Ricardo, você bebeu? – perguntei, franzindo o nariz.
— Aaahh... Só um tiquinho assim... – ele juntou os dedos pra mostrar a quantidade, o que me fez deduzir que fora muito maior.
Pâmela revirou os olhos, puxando Ricardo pra mais longe.
— Dã. Óbvio que ele bebeu. É uma festa, gente, acordem! – ela deu um tapa na própria testa, me fazendo ter a ânsia de dar um belo tapa mais embaixo. – Vem, Rique. Vamos dar uma volta por aí.
Rique? Arregalei os olhos enquanto observava Ricardo, sem nem dar um último olhar pra mim, seguir Pâmela como um cachorrinho.
— Argh – Renata estremeceu, tão logo eles foram embora – Que belo começo de festa.
— Que bom que o Leo não está com eles – disse Sofia – Ouvi falar que ele pegou gripe.
— Ah, graças a Deus! – suspirou Gisele, embora ninguém parecesse tão feliz quanto Samir.
Eu, por outro lado, não consegui me animar com essa notícia. Fiquei olhando para a direção onde Ricardo e Pâmela desapareceram, já arrependida de ter saído de casa.
— Ah, qual é, não deixa estragar sua festa por isso – falou Renata, adivinhando meus pensamentos – Daqui a pouco a bebedeira passa e ele vem falar com você.
— É – Samir concordou – Enquanto isso, a gente podia ir lá no bar pegar uns drinks sem álcool. Estão uma delícia.
— Sem álcool, por favor, gente – alertou Gisele.
— Claro, mamãe – Renata revirou os olhos, me puxando pelo braço.
Suspirei, tentando me recompor. Renata tinha razão. A festa estava só começando.
Chegamos perto do bar, onde bartenders ridiculamente bonitos serviam as bebidas. Ali perto, alguns garotos mais velhos – provavelmente do terceiro ano – bebiam drinks que com certeza não eram sem álcool.
E não era só eles que estavam por perto.
— Renata, minha gata – Paulo surgiu do nada, colocando o braço em torno do ombro da minha amiga – Você está ainda mais linda hoje. Que tal repetir aquele beijinho?
— Argh. Sai pra lá — Renata se afastou, mas não pude deixar de notar que ela estava sorrindo. – Não faz eu me arrepender de ter te dado um beijo.
Gisele piscou, espantada.
— Vocês se beijaram? Quando?
Daniel surgiu por trás do irmão, um sorriso travesso no rosto.
— Ei mano, o que rolou na floresta, fica na floresta. – falou – Vamos respeitar a privacidade da Renatinha.
— Tem razão, tem razão – Paulo concordou, a aparência solene, fazendo uma reverência para Renata – Nossas aventuras românticas devem ficar só entre nós dois.
Renata fez cara de quem ia vomitar. Eu estava me divertindo observando o gato-e-rato dos dois, quando uma sombra imensa me cobriu. Olhei pra trás e vi Bernardo, que estava com o olhar fixo em um ponto ao meu lado.
Olhei pro lado e vi Sofia, que também encarava Bernardo com as bochechas rosadas e uma expressão doce no rosto.
— Oi – murmurou.
Bernardo parecia ter perdido a fala. Ao meu ver, ele parecia um daqueles seguranças bombados com aquele smoking, mas Sofia o olhava como se ele fosse o próprio príncipe encantado.
— Vo... Você está... Está muito bonita – Bernardo finalmente desengasgou, ficando cada vez mais vermelho ao olhar pra Sofia.
Sofia também não ficava atrás. Seu rosto parecia um tomate.
— Obrigada – ela sorriu.
Bernardo pigarreou, parecendo tomar uma decisão.
— Estou sentado bem ali – disse, apontando para uma mesa vazia no canto do salão – Quer... Sentar um pouco comigo?
Não era bem um convite pra dançar, mas, para ser justa, a pista de dança ainda nem havia sido acendida. Sofia me lançou um olhar indeciso, e eu sorri para ela, encorajando-a.
Os dois se afastaram enquanto eu observava, e percebi que não era a única a reparar nos dois.
— Quem diria! – Renata assoviou do meu lado – Taí um casal que eu nunca imaginaria.
— Grande Bernardo! – Paulo balançou a cabeça respeitosamente – Hoje ele vai tirar o burrinho do cercado.
Renata imediatamente lhe deu um tapa na cabeça, fazendo-o gemer.
— Vê se não fala assim da minha amiga! – exclamou.
Eu dei risada. Olhei para onde Gisele e Samir estavam. Os dois estavam imersos em uma conversa, e Samir parecia estar no céu. Achei melhor não atrapalhar.
Renata também estava entretida em uma conversa animada com os gêmeos, e Sofia... Bom... Achei melhor dar privacidade a ela.
Suspirei. Aparentemente, estava sozinha.
Saí de perto do bar e fui andando a esmo pelo salão, observando os grupos de estudantes que passavam por ali, todos muito animados e bem vestidos. Alguns casais já começavam a se formar, o que me desanimou totalmente.
De repente, em meio à confusão de cheiros e vozes, senti um cheiro familiar... Meio doce. Mas misturado a outro mais enjoativo, um pouco amargo.
O primeiro cheiro eu reconheci: Ricardo. Mas o segundo...
Andei alguns passos e parei. Quem dera eu pudesse voltar aquele momento e retirar aquela cena da memória...
Ricardo e Pâmela estavam encostado num canto perto do banheiro, se beijando. Intensamente.
Ricardo estava de costas e não me viu, mas Pâmela entreabriu um dos olhos e deu um sorrisinho.
Com ânsia de vômito, dei meia volta imediatamente e corri de volta pro bar. Renata me viu passando e me dirigiu um olhar preocupado.
— Amiga? Você tá bem?
Mas eu não queria conversa. Fui direto pro balcão do bar, atraindo a atenção do barman mais próximo.
— Escuta, eu quero dois... Não, três. Três daqueles drinks que aqueles caras estão tomando. – falei, apontando para os garotos do terceiro ano.
— É pra já, mocinha – falou o barman, já misturando as frutas. Simples assim. Sem perguntar idade, nada. A Paola tinha mesmo feito um bom trabalho.
Renata se aproximou de mim com o semblante preocupado.
— Lorena... – falou – Que droga você tá fazendo?
O barman pôs as três taças na minha frente. Peguei uma e virei de uma vez. As frutas e o leite condensado disfarçavam bem o sabor amargo do álcool.
— Estou começando a festa, ora – falei, limpando a boca.
Agora a diversão ia começar.
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