Os Tigres de Westeros

11 O Sacerdote Ferreiro


O Sacerdote Ferreiro

Em suas visões, reencontrava seu amigo a noite, mas estava satisfeito por ter chegado no Monte Tigre naquela manhã do dia da Velha, até atravessar um tedioso e burocrático interrogatório nos portões do monte. Parecem estar suspeitos. O sacerdote teve que declarar o porte de todos os itens que carregava, bem como seu intuito e origem. Tampouco acreditaram nele, mas a prata pagou a entrada. Incomodava-se pouco com isso, era bom estar em casa. Uma sensação de missão cumprida e recomeço encharcava-lhe a alma e nem a chuva fria seria capaz de reduzir seus passos. Red não costumava montar em cavalos devido a sua estatura elevada. Talvez por isso, demorara alguns meses a mais para retornar. Consegui, minha dívida está paga.


Ao avistar os telhados pontiagudos das três torres da Fortaleza onde nascera, sentiu um arrepio. Tinha lembranças de acordar olhando para eles, do seu quarto na Torre Baixa. Jared Abrah ou Torre, como era conhecido ali, vivera por quinze anos dentro daquelas ameias, mas na última década esteve em Essos cumprindo seu destino a mando de Lorde Egon Belvedere, o Senhor-Listrado. No portão, a guarita estava movimentada e um cavaleiro berrava aos gritos com jovens rapazes. – ONDE ESTÁ AERON?! Denys, encontre-o agora mesmo!


Jared viu o escudeiro roliço disparar pátio a dentro. – Ow ow ow ow! O que temos aqui? Quem é você, altão? – O cavaleiro interrogou ao notar a presença de Red na guarita.

— Sou Jared Vermelho, ou Jared Abrah. – Apresentou-se ao homem atarracado. – E você?

— Sor Eddison Turnberry, o Cavaleiro das Amoras. – Respondeu a Red.

— O que faz aqui? És algum tipo de pardal? — Perguntou com os olhos em seu mangual. Jared não sabia como responder aquela segunda pergunta, não obstante, respondeu a primeira:

— Sou filho de Jack Abrah, o ferreiro. Estou a serviço de Lorde Egon, o Senhor-Listrado. – O semblante do balofo armadurado mudou completamente.

— Senhor-Listrado você diz, anh? – Indagou.


O sacerdote estava cansado de tantas perguntas e apesar de já não estar mais embaixo de chuva, desejava intensamente encontrar seus pais. – Sim, ele está aqui, eu suponho.


— Faleceu há dois anos, Jared. – Sor Eddison contou. – Nosso senhor agora é Lorde Belick, o Senhor-do-Ferro. – O herdeiro por direito. Red lembrava-se.

— Imaginei que em uma década, haveriam grandes diferenças no meu regresso. – O sacerdote disse expondo seu semblante de luto e exaustão. Sua bolsa estava pesadíssima, o mangual e o escudo nas costas também, de modo que pensou em descansá-las no chão, caso a inquirição continuasse.


— Não pedirei que deixe suas armas, mas que tome um vinho quente e junte-se a nós. Você é alto, forte e este mangual parece fatal. Só não entendi sua capa carmesim. É uma menção aos Lannisters? – O Cavaleiro retomara seu comando com os jovens e acabara por dar ordens a Red também.

— Está me alistando, sor? Preciso descansar e também estou faminto. – Jared Abrah manteve algum respeito, pois Sor Eddison parecia ser bem mais velho.

Ow ow Sim! Em breve os mercadores irão lotar este pátio para a Assembleia e a Fortaleza está vazia como um ovo podre. Blah! — Respondeu o Cavaleiro das Amoras ofendendo os jovens que manipulavam as catracas de ferro, ajustando-as.

— Por que está vazia? O que aconteceu?


— A filha do Lorde foi sequestrada e ele foi salvá-la levando consigo o mestre-de-armas, os cavaleiros, o mestre-dos-cães, os arqueiros, o herdeiro, os infantes... Enfim, restou-me esses escudeiros e cavalariços... – Disse com um claro desprezo pelas funções dos garotos.

— Tenho certeza de que não confiou em ti em vão, Lick era sábio em meu tempo. – Afirmou desculpando-se, preciso resgatar minhas energias. Red costumava dormir de dia para que a noite, pudesse fazer sua vigília ao Senhor da Luz.

— Ninguém mais o chama assim... “Lick morreu junto com o Senhor-Listrado”, agora é Lorde Belick Belvedere, o Tigre-de-Ferro.


Avançou Fortaleza a dentro, realmente estava deserta, mas permanecia como nas lembranças de Red. Tirando a chuva. O cheiro de mocotó, um sopão de carne de boi cozida, logo adentrou seus pulmões, fazendo o estômago roncar. Red acostumou-se a longos períodos sem alimento, tanto pelo treinamento de sacerdócio em Selhorys quanto pela quantidade de recursos que teve a disposição ao longo da última década. Entretanto, a chance de roer um pé de boi cozido como fazia quando moleque, encheu sua boca de saliva. Desceu a rampa até os estábulos, atravessou as hortaliças e entrou na Torre Baixa pela cozinha. Tudo estava no seu devido lugar.

— Bom dia, senhoras! – Jared saudou as cozinheiras. Haviam pelo menos doze mulheres e Carellen, a mais velha, que logo reconheceu o Torre.

— Menino! Venha cá! Que benção dos Sete! Olhe como está alto! – A exaltação foi tamanha que Red teve que deixar seus pertences no canto, enquanto saciava-se de pão com presunto e mel, vinho fervido com canela, tortas e bolachas doces de maçã, além do paparico daquelas mulheres. Isara, Tenebra, Jamera, Nova, Honera, Harmonia, Rowana, uma a uma fora apresentada por Carellen. Algumas fizeram elogios ao porto do Sacerdote, mas não havia uma exaltação exacerbada e Red sabia o porquê. A filha do Lorde fora sequestrada. De repente, sua mãe entrou na cozinha.

— Olhe quem está aqui, Sammy! – Carellen brincou enquanto aproximava-se dela, como que para dar-lhe apoio, caso desmaiasse.

— Mãe! – Torre saudou com seu maior sorriso e de peito aberto, foi até ela. – Que bom te ver! – Após quase onze anos, seu abraço continuava o mais profundo e aconchegante do mundo. Red sentiu-se seguro como em terra firme naquele instante.

— Filho! Meu filho! Meu filhão... – Ela desatou em lágrimas. O Sacerdote quase não se conteve, mas ansiava por outro abraço ainda, então perguntou:

— Onde está o pai? Preciso vê-lo!


— E-está n-na for-jaja! On-nde mais es-estaria Jack Abrah? – Sammy disse soluçando e rindo. Red deu um segundo abraço forte na mãe, cobriu ela de beijos. Por vezes, pensei que nunca mais sentiria este amor. Refletiu enquanto carregava seus equipamentos até a forja, de barriga cheia e face ruborizada pelo calor humano daquelas senhoras. Sentia-se criança novamente, apesar de tudo ter diminuído um pouco, em virtude de seu crescimento. Obrigado R'hllor, por gratificar-me com tanta luz. Agradecia em oração no caminho. Teria pego um pouco de chuva, não fosse por um telhado novo, até chegar na Torre Armada.


Ali encontrou tudo diferente. Os escudos pendurados nos corredores não eram os mesmos da época de Torre, novos brasões preenchiam a cavalaria dos tigres e Jared reconheceu poucos além da manticora de Lorch e furão dos Ferren de Vale Negro. Ninguém o interrompeu rumo as escadas e Red ouviu as marteladas de seu pai muito antes de encontrá-lo no calor da forja, trinta metros abaixo. O velho já estava um pouco corcunda e surdo, não o ouviu abrir a portinhola de ferro. Jared não queria atrapalhar o pai, nem assustá-lo, então esperou até que notasse sua presença. Ainda assim, Jack quase queimou-se em um enorme susto ao vê-lo.

— Eu sabia! – Disse tirando a máscara protetora e largando o martelo. – Meu filho voltou!


— Missão cumprida, Jack Abrah. – Disse solenemente.

— Que bom meu garoto, deixe eu tirar isto aqui. – Removeu o avental de forja sujo e abraçou-lhe. – Está tão alto, filhão. – Jack reparou. No fundo, no fundo, Red sentia que Jack não era seu pai verdadeiro, seu avô Gerome por parte de mãe sempre confessara isto quando moleque. Entretanto, o sentimento mais próximo de pai e filho que podia alcançar, era com aquele ferreiro tacanho.


— Vem comigo. – Jack pediu e Red o seguiu até a sala de armas, onde uma mesa com quatro cadeiras estava disposta, além de um barril de cerveja quente que seu pai abriu para encher duas canecas para os dois. – Conte-me tudo. Tenho o dia inteiro para terminar aquela peça.


— Nem sei por onde começar, meu velho... – Desabafou, muita coisa havia ocorrido em sua jornada, não sei até onde devo falar, já que Egon está morto. Refletiu, mesmo não escondendo nenhum segredo de seu pai.

— Comece pelo metal, que é o que importa, depois pode me explicar esta capa vermelha. – Jack sugeriu ao sentar-se diante dele na mesa.


— Este metal é raríssimo no mundo conhecido. Em Yi'Ti, terras essianas, dissolveram ele em pó para criar explosões como fogo-vivo. – Revelou o filho do ferreiro.

— Dissolver um metal em pó? Como se faz isso? – Jack perguntou interessado.

— Eu aprendi o método, pai. Posso lhe ensinar, mas é um tanto quanto perigoso. Pense bem. – O sacerdote alertou ao ferreiro.

— Como está o nosso estoque? – Ainda perguntou.


— Imenso, Torre. Imenso. – Seu pai confessou-lhe com um sádico sorriso no rosto. – Isto nos trará um poder formidável. – Demonstrou suas intenções.

Exatamente o que eu temia. Em Yi'Ti o medo e o sangue correm nas vielas devido a esta descoberta. Jared sabia através de suas pesquisas quando em Selhorys. – Vamos agir com cautela. Belick sabe do metal? – Indagou.


— Claro que sabe, é o filho do homem! – Jack exclamou. – Avahan também está por aqui... Ele não sabe de nada... – Avisou ao filho.

— Eu sabia. Está dormindo? – Red perguntou sem conseguir esconder a ansiedade na voz.

— Não, está em missão. – O ferreiro contou. – Todos estão fora por que...

Jared completou a frase: – A filha de Belick foi sequestrada. Me conte mais sobre essa história, pai? Quando foi isso? Quem foram os sequestradores?


— Não importa agora, filho. Responda-me você, que capa é essa? – Seu pai sempre direcionava a prosa para onde queria, Red havia se esquecido.

— Tornei-me um Sacerdote de R'hllor, pai. Formado em Selhorys. – Jared Vermelho divulgou e com o aspecto de pasmo de seu pai, continuou a narrativa:


— Primeiro, aportamos em Braavos. Por lá ficamos cerca de dois anos, eu e Avahan. Não juntos, pois Egon foi claro quando disse-me para não revelar a missão do metal a ele. Depositei o ouro do exílio e a amostra do metal no Banco de Braavos, mas quase todos os dias, Avahan solicitava moedas para suas bebedeiras. Discutimos bastante nessa época, até que em uma briga onde quase morremos contra espadachins, um sacerdote nos salvou. “Aproveite a última noite ao lado de seu amigo, encontre-me no Ondas de Luz” ele dissera. Eu não dei-lhe tanta atenção e naquela noite, levei Avahan ferido para meus aposentos. Quando acordei, ele havia levado as chaves do cofre no Banco, e com elas, todo o ouro remanescente. Por sorte, não dera valor à barra do metal embrulhada. – Contava calmamente enquanto as lembranças lhe vinham a memória.

— Maldito! Ele fez isso? – O pai perguntou.


— Sim, pai. Fez. Desde então, viajei bastante mesmo sem nenhum vintém, graças ao sacerdócio do Senhor da Luz. Destaquei-me em Pentos e fui alistado na Escola de Selhorys. Lá pude estudar tomôs antigos, repletos de conhecimentos milenares. – Hiperbolizou um pouco o templo, para que seu pai não o condenasse de forma alguma pelo destino que escolhera. Já que sua fé no Ferreiro permanecerá inabalável. – Quase fui à Valyria, pai! Mas antes disso, descobri sobre as semelhanças do nosso metal com o utilizado em Yi'Ti, o que me fez retornar, com tal aprendizado. – Completou.

— Missão cumprida, filho! – Disse o pai.


— Pela luz de R'hllor. – Agradeceu ao seu Deus.

— Que seja, mostre-me como faz. – Seu pai retrucou curioso.


(...)

Então o primeiro experimento ocorreu naquela forja. Uma leve explosão devido a pouco quantidade de metal utilizado. – Seremos temidos por todos os Sete Reinos – Seu pai brindou ao contemplar a destruição. Esqueceu do acontecido com Lorde Elder III Belvedere.

Notas finais
Espero que gostem! A noite é escura e cheia de terrores!