Os Segredos dos Seus Braços

37 Devolva o ar aos pulmões


Notas iniciais
Olá, para as minha leitoras fiéis que sempre estão incentivando, a Catherine, a Thiely, a Anna, agora, o cap. suado é para vcs ^^ Desculpem qualquer erro. Ah, e a fic entra em reta final, pessoal :) Espero que gostem. Boa leitura

Capítulo 36

Biloxi, Mississippi

1902

Já chegava ao final daquele turbulento dia. O sol começava a ensaiar sua descida, rumo às montanhas distantes. O enorme grupo de homens sobre seus cavalos adentrava o portão da residência dos Witlock. Alguns sangravam muito, outros pouco.

Uma parte sequer sangrava. Mas mancavam como marionetes mal conduzidas.

Alice ia com Peter em Ramos, mas não conseguia desviar os olhos do cavalo de Sam, com quem Jasper ia. Assim que desceram de seus cavalos, ela aproximou-se dele, que apoiava-se em Sam.

_ Vamos entrar, vou pedir para Lilly e Consoelo ajeitarem panos limpos para fazer curativos – disse ela para o grupo de homens que amarravam as rédeas de seus cavalos. Dos poucos que havia sobrado.

Então ela se voltou para Jasper, os olhos tão angustiados que ele sentiu-se mal.

_ Não se preocupe, eu estou bem – murmurou ele, embora sentisse dor em cada membro de seu corpo costurado e dolorido.

_ Não, não está! – ela o contradisse em um murmúrio – Está sangrando... – ela tentou limpar um pouco de sangue seco da testa dele, como se aquilo a incomodasse demasiadamente – Vamos, vamos entrar – ela acomodou o outro braço dele sobre seus ombros, tentando ajudar Sam a carregar Jasper.

Embora fizesse muito pouca diferença.

Assim que entraram sala de estar a dentro, Alice deixou com que Sam o conduzisse e fora ate a cozinha.

_ Lilly? Consoelo? – chamou pelas serviçais, aproveitando para tirar um pouco da poeira que escorria junto com seu suor.

Estava imunda.

_ Oh minha Nossa Senhora! – Lilly chegou até a cozinha limpando as mãos em seu avental – A senhora e o senhor Witlock sumiram o dia todo sem deixar notícias, estávamos quase a morrer aqui, senhora – disse a mulher, enquanto a outra concordava com acenos tímidos com a cabeça – Deus, o que aconteceu? A senhora está sangrando! – o horror passou pelas expressões das pobres mulheres, enquanto ela encaravam o sangue sujo e já seco que havia no canto da boca de Alice.

_ Bem, foi uma longa história Lilly – disse, não querendo relembrar aquilo naquele momento. Haviam coisas mais importantes a serem feitas – Por hora, eu preciso que arrumem muitos panos limpos e água morna.

As mulheres assentiram em uníssimo sem nada mais comentar, pois não eram mexeriqueiras tampouco inconvenientes.

E sendo serviçais de Alice, aquilo era um ponto positivo.

_ E que tanto de panos, senhora? – indagou Consoelo.

Alice suspirou, dando alguns passos para trás até chegar ao corredor da sala. Foi seguida pelas duas serviçais e as três olharam para todos os homens maltrapilhos e maltratados, escorados em algum lugar de sua sala.

_ Eu diria que muitos – disse para si mesma.

_

Assim que as mulheres chegaram com vasilhas cheias de água morna, panos limpos, algumas ervas para fazer curativos e até mesmo chás para acalmar um pouco os ânimos de todos, Alice sentou-se ao lado de Jasper.

_ Não gostaria de subir e tomar um banho? Precisa lavar esses machucados para que não piorem – disse ela, engolindo em seco ao se lembrar do ferimento da bala que havia em sua barriga.

Jasper sorriu, acariciando os cabelos embaraçados dela.

_ Eu estou pensando é em você – disse ele, porém o sorriso esmaeceu e a seriedade voltou ao seu rosto. Ele rolou rapidamente os olhos pelos corpo dela, ainda coberto pelo casaco de Peter. Fechou os olhos ao se lembrar das mãos de Fortunato sobre ela, sua boca em seu corpo – Eu preferiria que você tomasse um banho, pois não quero que fique um só minuto mais com qualquer presença daquele homem em seu corpo– murmurou ele com hostilidade, pois lembrava-se mais uma vez, que o maldito havia fugido.

Alice assentiu, porém segurou as mãos dele entre as suas.

_ Vem comigo? Você precisa descansar um pouco, Jasper, está aos trapos – disse ela, já se levantando – Consoelo e Lilly providenciarão os banheiros de hóspedes da casa e roupas de Jasper para alguns de vocês usarem – disse ela, rolando os olhos por todos ali – E também elas prepararão uma refeição para vocês e... e colchões para que possam dormir – ela engoliu em seco. Não queria que nenhum deles se sentisse desconfortável na casa dela e de Jasper, pois sentia-se culpada como o inferno por ter causado toda aquela situação.

_ Não se preocupe, Alice – disse Peter, sentado no chão perto da porta – Vá e cuide de Jasper, ele precisa mais do que todos nós, neste momento – ele a encarou bem fundo nos olhos castanhos, que lembravam para ele grandes avelãs – Cuide de você também – emendou logo em seguida. Não conseguiu evitar ou entender o quanto havia se afeiçoado a Alice conhecendo-a em tamanha adversidade e por poucas horas. Podia entender, então, o que havia acontecido ao melhor amigo.

Alice assentiu silenciosamente, mas teve que segurar algumas lágrimas que quiseram cair. Mas os olhos arderam e ela piscou várias vezes.

_ Eu... eu sinto muito – ela murmurou, não conseguindo encarar nenhum dos homens ali presentes, abaixando, assim, seu olhar para as mãos machucadas e inquietas – Eu sinto muito tê-los colocado nesta situação, não era isso que eu pretendia, não era... não era a minha intenção – a culpa e o assombro por terem estado tão perto de um desastre maior, na verdade, latejava mais do que qualquer machucado físico que ela tivesse.

Os homens se entreolharam, estranhando a situação. Não eram muito acostumados com pedidos de desculpas.

E o que cada um conhecia da esposa do amigo, aquilo era ainda mais estranho.

Em um momento, os olhares se cruzaram com o de Jasper, que os olhava, um a um. Decidiu não falar nada, pois sabia que Alice sentia-se mal e precisaria aliviar-se de tal culpa. Interviria apenas se houvesse uma resposta mal educada de algum deles.

Não por serem mal educados, mas por estarem acostumados á lidar com homens, e não com mulheres, ainda mais sensíveis como Alice.

_ Oras, Alice, deixe disso – disse Mike, levantando-se do canto da sala, de onde era esmagado por Sam e Jerad – Gostamos de uma boa luta. Estamos acostumados a fazer isso – ele riu, olhando rapidamente por todos que estavam presentes ali antes de se aproximar de Alice e passar o braço por seus ombros, aproximando-a – Fazemos isso por guerras e motivos bárbaros, acha que acharíamos ruim fazê-lo por um motivo tão nobre como resgatar uma bela donzela?

Alice riu, um pouco corada, enquanto risinhos e pigarros se estenderam pelo ambiente. Ela olhou para seu marido, que fuzilava Mike com o olhar.

_ O que o palerma do Mike quer dizer – Peter interveio, puxando Mike do abraço que dava em Alice – É que jamais deixaríamos nosso irmão na mão em um momento como esse – disse ele, referindo-se a Jasper – Ele faria a mesma coisa por nos – ele sorriu afetuosamente à ela – Não há com se sentir culpada, faríamos outra vez por você.

Alice sentiu o peito doer de emoção. Era bom sentir-se querida entre aquelas pessoas. Eram todos homens de bem.

_ Na verdade, você já havia ganhado nossa empatia quando endireitou Jasper – Disse Riley, enquanto massageava um dos tornozelos – Sabíamos que daria trabalho para ele e isso nos era gratificante – ele riu com os demais, enquanto Jasper lhe deu o dedo do meio.

_ É verdade, Alice – Billy emendou, sentado ao lado de Jasper no sofá – Afinal de contas, você faz parte do grupo agora – ele riu – A parte bonita do grupo, como a Charlotte, por exemplo.

Todos ali riram, enquanto Peter assentia com a cabeça e tomava o lugar que Mike havia tomado antes de ele intervir.

_ E eu fico realmente feliz que tenha se casado com Jasper – disse, enquanto segurava os ombros dela e olhava debochado para o amigo – Agora posso ser com você o que esse mequetrefe pobre diabo é com a minha Charlotte – ele riu, provocando Jasper ao dar um estalado beijo na têmpora dela.

Jasper jogou uma das almofadas que tinha no sofá em direção à Peter com força, embora também risse.

_ Se eu pudesse andar decentemente, Peter, iria até aí quebrar esse seu nariz absurdamente grande – disse ele, apontando-lhe o dedo – Aposto que não gostaria que eu fizesse isso de novo, hãm?

Peter riu junto com os demais, enquanto Alice mudara sua expressão para confusão.

_ Como assim?

Peter soltou seus ombros, pegando a almofada, da qual havia desviado, e jogando-a de volta à Jasper.

_ Quando éramos moleques, Jasper quebrou meu nariz e eu fiz aquela cicatriz que ele tem na testa – disse ele, e quando ela arregalou levemente os olhos, ele continuou – É que não tivemos um começo muito amigável. Eu o achava um burguesinho metido à besta.

_ E eu o achava um fanfarrão pretencioso e encrenqueiro – Jasper continuou, dando de ombros – Vivíamos nos estapiando.

Alice riu.

_ E quando isso mudou?

_ Quando a gente cansou de nos bater entre si e passamos a enticar outros garotos da rua – Peter deu de ombros – Aqueles, mais especificamente – ele apontou para Jerad, Billy, Benjamim e Riley – Depois de um tempo, estávamos todos roubando frutas das fazendas juntos.

Alice começou a escutar as histórias que eles passaram a contar. Depois de um tempo de risadas descontraídas, a história perturbante que havia acontecido naquele dia era quase parte esquecida dentro daquela sala.

Junto com Consoelo e Lilly, Alice também ajudava os soldados com os machucados, limpando ferimentos e fazendo alguns poucos curativos. Mas decidiu, depois de quase duas horas, que já era momento de levar Jasper para cima e deixa-lo descansar.

_ Bem, eu levarei Jasper para cima para ajuda-lo com alguma coisa e deixa-lo dormir – anunciou ela, levantando-se do lado de Sam e indo em direção ao seu marido, cujo cansaço era evidente – Lilly e Consoelo ajeitarão uma boa refeição para vocês e colhões para que todos possam descansar.

_ Precisa de ajuda para leva-lo? – indagou Sam, ajeitando um pouco o curativo que Alice havia acabado de fazer em seu ombro.

_ Ah, não se preocupe, acho que conseguimos – disse ela, olhando para Jasper – Não conseguimos?

Jasper riu, começando a se levantar com a ajuda dela. Conseguia andar, embora um pouco devagar por conta da dor latejante. Se tomasse um banho, sabia que sentir-se-ia melhor.

_ Tenham uma boa noite.

_

Lá em cima, Alice o ajudou a livrar-se de suas roupas e preparou seu banho. Esperou que ele terminasse, enquanto preparava tudo de que precisaria para cuidar de seus ferimentos. Assim que ele voltara, ela o ordenara para que ficasse quieto na cama, enquanto era ela quem banhava-se.

Alice voltou para o quarto assim que terminara seu banho, cerca de vinte minutos depois que havia saído. Escolheu um de seus vestidos favoritos, de seda e renda salmão. O final daquele dia e o início daquela noite pedia à isso. Ela se vestiu e penteou os cabelos precisamente, sem muito deter-se em nenhumas das atividades.

Jasper a observava a todo momento, enquanto estava recostado na cabeceira da cama, já devidamente vestido para dormir. Lilly lhe traria seu jantar no quarto, para que não precisasse se mover tanto e correr o risco de abrir seus pontos.

Não havia lhe agradado muito aquela condição, mas não quisera brigar, naquela noite.

_ E ele me contou tudo isso – disse Alice, terminando de contar a ele tudo o que Fortunato havia lhe dito enquanto estava sob seu poder.

_ Aquele verme – Jasper cuspiu as palavras, seus olhos repousando rapidamente no monte de trapos que era o antigo vestido dela. Tocaria fogo naquilo assim que se recuperasse o bastante. E pensava fazer isso no dia seguinte – Acredita que ele, no alto de seu desespero, procurou meu pai algumas semanas atrás oferecendo dinheiro a ele para que ele desfizesse o acordo com seu pai e nos desquitássemos? – ele estalou a língua, tendo quase pena da ingenuidade de Fortunato, pois seu pai não faria isso de qualquer forma. Afinal, sabia que Jasper não permitiria – Ofereceu uma exorbitante quantia, receio comentar – ele deu de ombros, como se aquele fato pouco fizesse diferença.

Na verdade, não fazia mesmo, pois seu pai já tinha dinheiro o suficiente.

Alice, que estava perto dos pés da cama, aproximou-se instantaneamente ao lado de Jasper, assombrada.

_ Oh Deus! Por favor, diga-me que o Sr. seu pai nem sequer pensou a respeito!

Jasper pensou em responder, mas parou, encarando-a. Foi de repente que algo veio em sua cabeça. Algo que o incomodou como um chute no estômago.

_ Responda-me uma coisa, Alice.

_ Diga – fez ela diante da indagação dele, sentando-se no colchão.

_ Apenas lhe assombra o fato de que, se nos desquitássemos, teria que se casar com Fortunato?

Alice se horrorizou diante de sua pergunta séria. Arregalou levemente os olhos, elevando uma das mãos sobre o peito.

_ Oh céus, é claro, Jasper! – respondeu ela – Que absurdo quer insinuar?

_ Se nos desquitássemos, Alice, e você tivesse que se casar com qualquer outro que não fosse ele, ainda sim ficaria assombrada? – ele voltou a lhe perguntar sem rodeio, a seriedade em querer saber aquela resposta não permitindo que ele fosse muito gentil. Precisava saber em que pés estava seu relacionamento com Alice.

De um momento ao outro, aquilo passou a ter tanta importância que ele quase gritou diante do mínimo silencio dela.

Alice apenas o encarou de volta, um pouco ofendida com sua indagação. Pensou algo consigo mesma antes de se inclinar à ele, como se fossem ter uma conversa murmurada.

_ Eu lhe entreguei algo muito valioso, Jasper – disse ela, também séria. De repente, era difícil encarar os olhos verde envelhecido dele que ela tanto se via hipnotizada por tantas vezes – Algo que eu jurei não entregar para qualquer um. Não sei como ainda pode me perguntar tal coisa.

Ela fez menção de se levantar e afastar-se dele. Porém, Jasper não podia deixar aquela conversa inacabada, quando ainda tinha coisas que precisava desesperadamente saber.

Queria ouvir a resposta certa, aquela que lhe acalmaria a boca do estomago. Embora nem soubesse qual era essa resposta.

Ele a segurou pelo braço antes que ela se afastasse dele.

_ Você está falando do que? Por que talvez tenhamos significados diferentes em mente. – ele semicerrou os olhos, analisando precisamente cada expressão dela. Viu um lampejo de excitação e ansiedade passar por ali.

_ Do... do que está falando? – sua voz saira um pouco fraca, sem muita certeza.

_ Seu corpo é meu. Tem minha marca, nele – respondeu ele sem perder muito tempo. Aquilo martelava em sua cabeça como se estivesse esculpindo seus pensamentos — Mas e o seu coração, Alice? Você o entregou a mim, também? — Afinal de contas, porque saber aquilo o agitava tanto, era o que pensava constantemente consigo mesmo.

Alice não pensou que escutaria uma indagação tão exposta como aquela. Não era algo com o qual estava preparada.

Havia lhe entregado seu coração? Havia, depois de tanta relutância?

Pela primeira vez, ela não sabia explicar. Tinha medo de pensar a respeito daquilo. Tinha medo de seus sentimentos por Jasper.

Tinha medo de... ser unilateral, se realmente existisse.

E pensar naquilo a fizera fechar-se em uma fria e calculada expressão. O encarou de volta, seus rostos a centímetros de distancia um do outro.

_ E como você espera receber algo que nem mesmo você é capaz de dar? – ela retrucou com certa aspereza na voz, uma amargura contida.

Sempre achou que amar a tornaria vulnerável e tola.

Seguiu um silencio minuto, enquanto os dois permaneciam em uma intensa guerra de olhares. A mão de Jasper ainda estava fechada no braço de Alice, mantendo-a ali, como se não quisesse deixa-la sair de perto dele tão facilmente.

E por todo aquele tempo, ele teve vontade de beijá-la, ate o momento em que ela admitiria o que ele queria escutar.

Porém, quando pensou em reagir de qualquer forma, alguém chamou o nome dela à porta, batendo em seguida.

_ Senhora Witlock, o jantar de seu marido – disse Lilly despreocupadamente do outro lado da porta. Deus sabia o que ela havia acabado de interromper.

Jasper engoliu um pouco contrariado, mas enfim soltou seu braço para que ela fosse até a porta.

_ Obrigada, Lilly – disse ela, assim que abrira a porta e pegara a bandeja das mãos da mulher.

_ A senhora precisa de ajuda com os curativos do Sr. Witlock? – perguntou ela com uma preocupação verdadeira. Ainda não haviam contado sobre o que havia acontecida naquele dia, tampouco por que havia uma dúzia de homens machucados na sala de estar, mas elas sabiam que todos precisavam de cuidados.

_ Hãm... – Alice balbuciou, pensando se aceitava a ajuda ou não. Por fim, pensou que poderia dar conta daquilo sozinha. Queria fazer por ele o que ele havia feito por ela. Minimamente, claro – Não se preocupe, Lilly, eu mesma cuido de meu marido – agradeceu ela com um curto sorriso. A mulher assentiu e então se retirou.

Alice deixou a bandeja sobre o colo de Jasper.

_ Coma tudo o que está aí – ela ordenou, imitando ele próprio quando a obrigava a comer – Vou buscar alguns curativos.

_ Sim senhora – zombou ele, sorrindo, antes de começar a comer um enorme pedaço de frango.

Alice juntou alguns panos e álcool para trocar o curativo de Jasper. Ele terminara de comer pouco tempo depois, e ambos ainda permaneciam em silêncio.

Aquela noite estava frienta, de modo que todas as janelas estavam fechados. O quarto parecia mais abafado, quente. Enquanto passava álcool sobre as costuras do ferimento de Jasper, Alice permaneceu de cabeça baixa, pois precisava de concentração.

E ela não aparecia se olhasse para ele por muito tempo.

Porém, o homem recostado na cabeceira da cama olhava para a jovem com demasiada atenção. Seguia seus movimentos delicados, suas mãos pequenas, sua boca macia enquanto ela mordia os lábios vez ou outra.

_ Estamos brigados? – Jasper cortou finalmente o silencio, olhando para ela fixamente. Embora não sorrisse, tampouco estivesse sério, sua expressão era amena.

Alice parou por instantes o que estava fazendo. Ergueu a cabeça e olhou rapidamente à ele. Mas tão logo ela o encarou, ela voltou-se ao que fazia.

_ Acha que estamos brigados? – ela indagou em resposta.

_ Nunca mais faça isso comigo novamente – ele disse simplesmente, colocando tanta dureza em sua entonação que Alice fora obrigada a olhá-lo de novo.

_ Fazer o...

_ Nunca mais saia desse jeito – ele repetiu, e suas palavras continham um aviso verdadeiro. E Alice entendeu que ele se referia à ela ter saído naquele dia para encontrar Fortunato e o bando do mato – Não fuja de mim outra vez.

Alice o encarou por um tempo, vendo que não havia nenhum traço de brincadeira em suas palavras.

_ Se eu fugir, posso sempre deixar pérolas coloridas pelo caminho para que possa me encontrar de novo – disse ela com um sorriso suave, a fim de amenizar o clima. Lembrou outra vez que, se não houvesse sido aquilo, talvez ela ainda estivesse nos braços de Fortunato, em uma hora daquelas. Ela estremeceu levemente ao pensar naquilo, vendo que havia sido o certo a se fazer, embora doloroso, ter destruído seu terço tão amado.

_ Não fuja de mim outra vez! – ele repetiu suas palavras ainda com dureza. Independente dela ter deixado pistas pelo caminho para que ele pudesse encontra-la, ele não gostaria de passar por aquilo novamente, e deixava isso mais do que claro.

Mas Alice podia o entender. Ambos ficaram em silencio, então, mas quando o silencio se estendeu demais, Alice elevou sua mão até a testa dele, onde havia um dos inúmeros cortes e arranhões que ele ganhara. Não falou nada, mas pensou que seu silencio dissesse muita coisa, como o fato de que ela não pretendia afastar-se dele outra vez.

Aos poucos ela se inclinou até ele, tocando seus lábios com o mais suave toque sobre aquele ferimento. Foram poucos segundos, mas ela fechou seus olhos. Quando voltou a encará-lo, seus rostos estavam tão próximos que uniam-se suas respirações calmas, ela murmurou:

_ Quando eu era pequena, minha mãe dava um beijo em meus machucados para sarar mais depressa – foi o que disse, escorregando sua mão de sua testa para sua bochecha.

_ Tente mais em baixo – ele murmurou antes de sorrir. Ele não podia resistir. Mais do que não poder, ele não queria. Seus lábios eram perfeitos. Seus olhos eram perfeitos. Tudo nela era perfeito demais para ser resistível.

Em algum momento de suas vidas, ela havia se tornado a mulher mais bonita do mundo.

E fazendo o que ele havia pedido, ela recostou seus lábios sobre sua boca macia e quente, sentindo seu gosto em sua língua.

Era tão doce quanto uma cereja.

Quando se separaram, ela permaneceu próxima a ele, incapaz de ficar muito distante. As lembranças do que havia acontecido novamente lhe assombraram. Havia acreditado que jamais o veria outra vez.

Seu futuro, por um tempo quase infinito, tivera o sabor do inferno.

_ Venha – ele segurou seu pulso com delicadeza, sorrindo – Deite-se aqui comigo. Vamos dormir juntos outra vez — embora não deixasse explícito, ele queria garantir que ela não sairia no meio da noite de seu aperto.

Enquanto ele a puxava contra si, Alice protestou.

_ Não...dormirei na sua antiga colcha – ela falou e ele parou instantaneamente – Você está machucado, eu posso facilmente piorá-lo de tanto que me remexo a noite – ela meneou a cabeça freneticamente – Não acho que seria sensato.

Jasper a olhou estupefato. Mas seu bom humor estava voltando e ele não resistiu em sorrir.

_ Para o inferno a sensatez – disse, puxando ela abruptamente pelos pulsos até que ela caísse sobre seu peito – Eu tive muito trabalho para vir para cá e dormir com você. Você não irá desdenhar dele dessa forma.

Alice não aguentou seu exagerado drama e riu. Não havia alternativa nem questionamentos.

Eles dormiram abraçados até a lua se despedir e ceder lugar ao sol majestoso. Jasper fora o primeiro a acordar. Quando a consciência lhe chegou ele sentiu-se quase novo. O cansaço do dia anterior, tanto físico como emocional, havia desaparecido.

Ele esfregou os olhos antes de olhar para Alice, que ainda dormia profundamente. Certamente estava tao esgotada quanto ele. Dormia sobre um de seus braços, enquanto segurava seus dedos entre suas mãos.

Ao ficar observando-a dormir por um tempo, ele sorriu. Passou a mão livre por sua testa para tirar seus cabelos.

E percebeu sua febre.

Mas não era apenas a febre baixa dela. Era uma febre que fizera ele retirar sua mão rapidamente. Sua pele queimava.

Deus do céu, havia esquecido-se completamente de sua maldita doença.

_ Alice! – ele a chamou, já ajeitando-a para levantá-la no colo – Alice, vamos tomar um banho gelado.

A jovem resmungou alguma coisa, mas Jasper ignorou. O temor parecia não acabar nunca. A conversa que deveria ter com ela não podia passar naquele dia, ele determinou a si mesmo.

Contaria tudo a ela assim que todos fossem embora.

Depois de um tempo, quando a febre dela enfim dava uma trégua, eles saíram do banheiro. Alice parecia confusa naquela manhã. Talvez um pouco incoerente.

_ Consegue se trocar? – perguntou ele preocupado. Havia ajudado-a a chegar ao quarto. Ela estava, então, sentada na beira da cama, ainda de toalha.

_ Sim – disse ela com um fio de voz. Estava sentindo-se um pouco fraca, porém podia cuidar-se sozinha. Não era uma criança – Desça... faça companhia para seus amigos – continuou – Eu logo farei o mesmo.

Jasper assentiu com o semblante preocupado, porém dera um beijo rápido em seus lábios e saiu porta afora. Lembrava-se que Alice não havia tomado o último de seus remédios, pois havia fugido e tudo havia acontecido no dia anterior.

Ele se preocupava com o quanto ela poderia estar ruim, naquele dia.

Quando chegou à mesa do café, todos já estavam por ali, comendo e conversando animadamente. Haviam preenchido todo o enorme espaço que havia ali.

_ Bom dia bela adormecida – Mike o cumprimentou ironicamente assim que ele adentrou o recinto. Sua usual cadeira de ponta estava desocupada, o que era natural, pois o patriarca sempre sentava na ponta.

_ Bom dia para vocês – disse ele, sentando-se e já servindo-se do café fumegante.

_ E onde está Alice? – perguntou Peter, ao notar que ela não havia descido com ele.

_ Alice acordou um pouco indisposta. Não sei se descerá – murmurou ele sem muita vontade. O suspirou que dera em seguida fora inevitável.

_ Ah, que lástima – fez Peter – Gostaríamos de ter podido nos despedir, pois assim que terminarmos iremos partir de volta.

_ Teríamos esperado vocês mais um pouco para comermos, mas o cheiro desse café delicioso nos tirou da cama antes e não pudemos resistir – disse Billy, levantando sua xícara para Consoelo, que estava por ali – Esse café divino feitos pelas mãos divinas dessa fada! – disse ele romanticamente, fazendo a mulher corar como um tomate passado do ponto e começar a rir nervosamente, como uma pobre hiena.

Todos na mesa riram, enquanto Mike empurrava Billy pelo braços.

_ Pare de galantear minha serviçal, seu maldito – Jasper riu junto com eles, olhando Consoelo sair da sala de jantar tão rápido como uma flecha – É uma senhora de respeito – ele tentou dizer, mas as risadas o impediam.

O café da manha seguiu-se desta maneira e, seguindo o que Jasper pensara, Alice realmente não desceu. Por sorte, seus companheiros não demoraram para irem embora. Embora gostasse de seus amigos do fundo de seu coração, preferia focar sua atenção em Alice, que havia acordado mal.

Mas, assim que ele fechara a porta principal depois de tê-los levado até o portão, ele a viu descer as escadas.

_ Onde estão todos? – indagou com uma voz murcha.

_ Acabaram de ir – disse ele – Tinham alguns compromissos no campo de concentração – ele deu de ombros, indo de encontro a ela – Mas mandaram cumprimentos à você.

Alice sorriu, enquanto ele pegava suas mãos.

_ Sente-me melhor? – indagou, soltando suas mãos e subindo-as para segurar seus rosto pálido. Reparou que a pouca cor que ainda havia em seus lábios havia sumido de vez.

_ Bem, eu...

_ Seu verme imundo! Volte aqui!

Ambos pararam ao escutar gritos vindo da rua.

_ Pare de correr! Vire homem!

_ Mas o que diabos está acontecendo lá fora?

Eles saíram até a rua, assim como centenas de outras pessoas já faziam. Imediatamente Alice reconheceu Alec, enquanto este tentava desviar das mãos de um rapaz alto e magricela, que o estapeava incansavelmente.

_ Oh meu Deus, o que está havendo? – ela tapou a boca com a mão, horrorizada, assim como a Sra. Vascondes Bráz e outras pessoas que haviam reconhecido Alec. Certamente se perguntavam por que o filho do dono do Banco apanhava daquela maneira.

_ Desminta que você fez isso, seu miserável! – gritava o rapazote de bigode engraçado – Seu pouca merda! – gritava ele.

Um pouco atrás, havia uma moça de longos cabelos castanhos que segurava uma criança pequena nos braços. As feições da pobre criança lembrava Alec quase como uma xérox.

_ Pare de bater no pobre moço! – alguém interveio, compadecendo-se de Alec, que já estava com o rosto todo vermelho dos tapas que havia levado. Seu chapéu, sempre impecável, estava amassado e torno.

_ Ah, pare nada! Sabe o que esse maldito covarde e miserável fez? – o rapaz apontou o dedo comprido para o homem que havia intervido – Pois ele iludiu minha irmã com os papos de moço rico da capital e a engravidou! – neste momento, o rapaz estapiara Alec outra vez com um cinto, que pendia em uma das mãos – Engravidou ela e fugiu de lá! Eu estou procurando esse traste há muito tempo, nem faço idéia. Pois por fim o encontrei! – outro tapa – Agora terá que se casar com ela!

Alice tapou a boca, em choque. Na verdade, todas as pessoas ali naquela praça pareciam em choque.

Quer dizer, menos uma.

Jasper ria tanto ao seu lado eu quase perdia o fôlego. Alice lhe deu um tapa no braço, a fim de aquietá-lo.

_ Disfarce ao menos, Jasper! – murmurou ela, embora não pode segurar o riso também.

_ Seu traste almofadinha, charlatão e mentiroso! – o rapaz voltara a bater em Alec, perseguindo-o pela rua enquanto este tentava fugir.

_ Pare de me bater! – gritou ele, tentando desviar do cinto, também – Eu assume a criança, eu assumo! Au! – ele quase começou a chorar de tanto que os tapas ardiam sob o sol.

_ Oh Deus, que escândalo! – dizia muitas das pessoas, horrorizadas.

_ Quantos modos, Santo Deus! Então era isso que fazia enquanto estudava na Capital? Que lástima! – um senhor disse, recolocando seu chapéu e meneando a cabeça enquanto comentava com outro senhor ao seu lado.

_ Pare de me bater, Laurent! – Alec ainda protestava em gritos.

_ Que patife! – Jasper ainda ria tanto que quase chorava – E era disso que eu tinha ciúmes – disse ele despreocupadamente, meneando a cabeça consigo mesmo.

Alice escutou sua afirmação, porém apenas sorriu silenciosamente, deleitando-se em saber daquilo. Porém, não o provocou nem fizera brincadeiras a esse respeito. Apenas guardaria aquilo como uma boa constatação.

Assim, ele não podia fingir que estava fingindo.

Ela apenas riu da tamanha satisfação de seu marido. Quando a viu rindo, Jasper circulou sua cintura com o braço.

_ Viu só? – disse ele, como se dissesse “eu avisei” – Conhecer ou não conhecer a pessoa não pode mais ser seu motivo para detestar esse casamento. Parece que nunca conhecemos os outros, não? – enquanto conversavam, a caravana que assistia ao espetáculo da praça ia caminhando para o final da rua, para onde Alec havia corrido. Aos poucos, a circulação da praça ficara praticamente normal — Pense só se tivesse se casado com Alec, que conhecia desde a infância? Iria criar diversos filhos de outras mulheres perdidas por ai.

Alice riu alto, meneando a cabeça.

_ Que horror! – disse ela – Alec sempre foi cheio de lábia e mentirinhas – ela relembrou aquele fato. Ele era desta maneira desde quando eram crianças – É quase cômico que suas mentiras da Capital tenham voltado para cá.

_ Pois é – Jasper deu de ombros — Os segredos sujos de Biloxi ultrapassam as próprias barreiras de Biloxi, minha cara. Todos temos alguns.

_ Bem, eu acho que...

_ Com licença – um garoto de cerca de 10 anos interrompeu os dois em sua conversa.

_ Sim?

_ Não sei se já foram avisados, mas o Sr. prefeitos mandou relembrar á todos – disse ele, entregando um dos inúmeros papéis rosa decorado que tinha em suas mãos – Que estão todos convidados para a festa de aniversário de sua filha hoje, no salão da prefeitura.

_ Oh, uma festa! – Alice pegou o papel com toda a empolgação que sua dor no peito e sua fraqueza permitia.

Porém, Jasper não recebeu aquela notícia tão bem assim. Definitivamente, eles não podia mais perder tempo com festas. Dr. Swan o mataria se adiasse outro dia em iniciar o tratamento em Alice.

_ Obrigado – disse ele, dispensando o rapazote. Quando este se distanciou, ele voltou-se para Alice.

_ Tânia, a filha mais nova, fará uma grandiosa festa de aniversário para toda a cidade – disse Alice, enquanto lia o papel – Essas pessoas gostam de estar em evidencia, não? A cidade toda! – ela riu consigo mesma, já pensando no vestido que vestiria.

_ Alice, acho que não...

_ Oh Deus, eu preciso escolher um vestido! Talvez eu pudesse comprar um novo! – ela sorriu largamente, enquanto toda a palidez que havia em seu rosto ganhava uma leve e quase imperceptível cor.

Alice era uma das pessoas mais animada para festas que Jasper já havia conhecido.

_ Alice, esqueça essa ide...

_ Ah, Jasper, quem sabe eu não possa ir ate a casa de minhas irmãs para combinarmos vestidos! Oh, será tão divertido! — ela o abraçou rapidamente – Talvez seja até bom, afinal de contas, para esquecermos toda aquela história de Fortunato.

Jasper suspirou, derrotado. Como desapontar alguém como Alice? Deus sabe quando ela poderia participar de uma festa novamente.

Mas seu senso de responsabilidade não podia pensar daquela maneira.

_ Alice, acho que não é uma boa idéia – disse ele seriamente – Preciso lhe contar uma coisa.

Alice viu seu sorriso desvanecer-se. Ela sabia que ele tinha algo para lhe contar. Já havia imaginado coisas tao absurdas que havia parado de pensar a respeito daquilo. Eu queria tanto poder distrair-se antes de receber mais uma dose de preocupação.

Ela emoldurou seu rosto rígido entre as mãos brancas e uma pouco frias, olhando nos belos olhos dele.

_ Por favor, Jazz – murmurou – Eu preciso muito me distrair de tudo o que aconteceu. Porque essa conversa não pode esperar até depois da festa, hãm? – ela sorriu fracamente – Afinal, se você não me contou ainda o que é, é porque não é algo tão grave assim.

Jasper até abriu a boca para protestar, mas não sabia o que dizer e calou-se novamente. A partir daquele momento, as coisas haviam se complicado um pouco mais.

Ele sabia que a lógica dela fazia sentido. Então, ela entenderia a sua ao esconder aquilo?

_ Mas...

_ Por favor? – ela insistiu, dando um rápido beijo no canto de sua boca – Só essa noite.

_

Por todo aquele dia, Jasper torturou-se. Alice havia passado um tempo na casa de suas irmãs, e o tempo em que estava ali animara-se escolhendo um vestido e um sapato.

Escolhendo até mesmo as roupas dele.

Por todo esse tempo, ele precisou se segurar muito para não contar toda a verdade de uma vez. Mas a vontade de não estragar seu dia e sua empolgação arderam em seu coração.

Seria uma decepção tão grande para ela.

Podia ver que ela estava fraca. Ele precisava muito conversar com Dr. Swan para que ele lhe dissesse como estava o desenvolvimento daquela maldita doença, e como estava o corpo de Alice àquilo.

Alice não quis provoca-lo, instigando-o a falar qualquer coisa, pois ele ficara o dia todo na biblioteca pensativo. Havia até mesmo o escutado falar ao telefone com alguém, mas não quis pensar à respeito daquilo.

Havia distraído-se ocupando dos detalhes. Estava escolhendo um sapato que combinasse com seu vestido cinza prateado, com belas pedrarias e uma seda belíssima, de cetim e cambraia. Escolhera um arquinho de pedrarias brilhantes, que sempre moldava-se ao seu cabelo e lhe dava um toque delicado e brincos pequenos de pérola. Não sabia por que estava escolhendo tudo com tanta precisão. O que aquela noite lhe estava guardando?

Enquanto pensava, distraída, em coisas como essa, Alice sentiu uma dor no peito e uma ardência repentina na garganta. Quando viu, começara a tossir descontroladamente. A enxurrada de tosses fora tão intensa que ela quase perdeu o ar. Sentiu o momento em que suas pernas amolecera e cederam, e ela se ajoelhou ao chão.

Tapou a boca, enquanto tentava controlar o acesso que se abatera sobre ela. Depois de um tempo, ela conseguiu parar de tossir, mas o peito doía tanto que ela começou a respirar devagar.

Pigarreou, tentando desfazer o nó de sua garganta, que lhe dóia.

_ Jasper... – ela tentou chamar, mas sua voz estava rouca demais. Ela tentou desfazer tal rouquidão, mas este parecia que não desapareceria tão facilmente. E quando ela tirou a mão da boca, notou o sangue que havia em sua palma – Oh Deus – ela gemeu, fechando os olhos.

Seus pensamentos tornaram-se frenéticos, e ela desesperou-se não sabendo o que aquilo poderia significar.

Foi nesse momento que escutou os passos de alguém subindo as escadas de madeira. Ficou estática, amedrontada em poder ser vista daquela forma por Jasper. Levantou-se o mais rapidamente que conseguia, limpando o sangue de sua mão em um de seus lenços de cabeceira. Depois, escondeu-o no cesto de roupas sujas, no mesmo segundo que a porta de seu quarto se abriu.

_ Olá – disse ele, enquanto ela lhe sorria incerta.

_ Olá – ela respondeu apressadamente – Ali está sua roupa – disse, apontando para a roupa dele que ela deixara sobre a cama – Acho melhor começarmos a nos vestir.

Ele tentou falar algo, sentindo o nervosismo dela, mas ela saira do quarto como uma bala, não dando chance a ele de fazer isso.

_

Biloxi, Mississippi

1902

Horário da festa

Jasper esperava na sala de estar, sentado na poltrona de canto. A casa estava silenciosa, enquanto Alice estava no andar de cima, terminando de se arrumar. Jasper pensou consigo, em um fugaz momento, que ela não precisava se arrumar tanto para ficar bonita.

Ela já era naturalmente linda o suficiente sem precisar de tantos artifícios.

Ele riu no escuro e na solidão da sala, enquanto passava a mão pelo rosto.

_ Estou pronta – ele se virou para o topo da escada quando escutou sua voz. Levantou-se de sua poltrona enquanto ela descia as escadas – Podemos ir.

Ela brilhava como um raio de sol. O vestido era perfeito em seu corpo. O tecido, o qual ele não fazia ideia de qual era, esvoaçava conforme ela andava, enquanto as pedrarias que havia em todo seu tronco lhe iluminava o rosto. Este, por sinal, estava com uma leve maquiagem. Os lábios ganharam uma cor rósea perfeitamente em harmonia com as bochechas rosadas.

_ Você está... está linda, Alice – disse ele, momentaneamente pasmo.

Ela apenas sorriu, sem jeito, antes de dar o braço para ele e ambos seguirem até o salão de festa.

~•~•#•~•~

A sede da prefeitura estava tão bela que Alice quase duvidou que fosse realmente ela. Haviam faixas e luminárias por todos os lados, e casais entrando por todas as portarias.

Assim que desceram da carruagem, havia um caminho de luzes que levava até uma das entradas. Lá dentro, o salão estava repleto de lustres e flores para todos os lados. O piso estava tão lustroso que refletia o teto, como um espelho. Alice sorriu ao ver tantas pessoas bem vestidas. Havia mesas de comidas por todos os lados, e uma no centro do salão, com um enorme bolo decorado.

Ela reconheceu diversos rostos ali, mas procurava apenas os de suas irmãs.

_ Alice! – a voz de Rosalie saiu detrás de diversas outras, ela encontrando a jovem primeiro do que qualquer um.

Alice lhe sorriu quando esta chegou até si. Embora Rose ficasse bela em qualquer vestido, naquela noite ela havia conseguido se superar dentro de cetim vermelho reluzente.

Emmett e Jasper se cumprimentaram com um forte aperto de mão e um sorriso cúmplice.

_ Oh, mas está tão linda – disse Rose, rodando Alice rapidamente – Precisa me emprestar esse vestido algum dia!

_ Oh, certamente – Alice lhe dera uma piscadela – E Bella, a viu em algum lugar?

_ Não, não a vi – disse Rose – Mas não acho que ela virá esta noite. Sabe como ela se cansa rápido por conta de Nessie, não?

Alice lamentou um pouco a ausência de sua irma, mas assentiu.

_ Tem bastante gente esta noite, não?

_ Oh sim, já encontrei todos os meus vizinhos aqui – disse Rose, sorrindo largamente – Inclusive Jane Volture, com aquela típica cara de animal ruminante – murmurou ela, enquanto ambas caiam em gargalhadas.

Enquanto as duas conversavam, Alice percebeu hora ou outra Jasper olhar para os lados, como se procurasse por alguém.

_ Oh, Jesus Cristo, Emmett, não!

Ela se voltou para a irma, que gritava quase chorosa.

_ O que houve? – Alice indagou, acompanhando seu olhar. Viu Emmett em uma das mesas de comida, recheando um pequeno pratinhos com todos os salgadinhos que havia por ali.

_ Você não imagina minha irmã, mas o Sr. meu marido está ficando barrigudo! – ela exclamou, indignada – E insiste em comer salgadinhos e bolinhos de carne e pães de mel como se nunca mais fosse fazê-lo!

Alice riu, juntamente com Jasper atrás de si, enquanto Rose meneava a cabeça.

_ Bem, então acho melhor você ir pará-lo, Rosalie – disse Jasper indiferentemente.

Rose suspirou sofregamente antes de assentir e fazer uma referencia para os dois, dando as costas em seguida e indo em direção ao seu marido.

Jasper mantinha as mãos em seu ombros, enquanto ela olhava a irmã se afastar.

_ Bem, que bom que você não é um viciado em salgadinhos, não – disse ela, virando-se para trás para ve-lo. Mas quando virou-se, viu que ele ainda procurava por alguém – Jasper, por quem está procurando? – ela indagou, irritada por sua falta de atenção.

_ Ah, desculpe, Alice – disse ele apressadamente – Mas preciso conversar com uma pessoa. Se importa de ficar aqui por um momento? – ele não esperou pela resposta, realmente, dando um rápido beijo nos lábios dela, para sua surpresa, e saindo em seguida, sumindo por entre as pessoas.

_ Tudo bem, então – disse ela para si mesma, bufando.

~•~•#•~•~

Alice procurou seu marido entre as pessoas. Ele havia saído há mais de 20 minutos e Alice sentiu-se só, sem sua presença. Ela sentia-se assim, com um vazio irritante, quando ele não estava com ela.

Rolou os olhos por todas as pessoas daquele salão. Reconheceu diversos rostos, como os de Jane e Lucy Volture, com suas expressões de nojo crônico; uma das irmãs Stanley – Lauren. Viu fugazmente os rostos de Ângela, uma antiga amiga de aulas de etiqueta, e Eleazar, seu gracioso marido. Havia alguns condes e dignitários dos negócios, a maioria vinda da capital para o comércio lucrativo do Mississippi. Alguns ela podia reconhecer das reuniões que havia na fazenda. Pessoas que pareciam superficiais, tendo conversas vazias.

Quando tentou procurar suas irmãs novamente com os olhos atentos, vira Alec, olhando-a sem reserva, perto das mesas de doces. Lhe dera um aceno de cabeça, cumprimentando-a. Alice podia perceber em seu rosto algumas marcas da surra que havia levado mais cedo, em praça pública. Porém, admirava sua coragem em aarecer em público tão facilmente. Embora sua relação jamais houvesse sido a mesma, ela não podia deixar de utilizar os resquícios escassos de sua boa educação e cortesia.

Mas logo desviou o rosto novamente, girando os calcanhares a fim de encontrar Jasper. Depois de olhar cada rosto e não ver os de seu marido, ela bufou. Onde diabos estaria? Ela perguntou para ela mesma em sua mente. Teria ido embora e a deixado ali?

_ Procurando alguém? – a voz monótona de Alec indagara bem perto de seu ouvido, fazendo Alice assustar-se.

_ Não agradará muito à Jasper vê-lo me dirigindo a palavra, ainda mais tão próximo como está, caro Sr. Black – disse ela, em emoção na voz. Se limitou a olhar fugazmente para ele.

Alec deu de ombros, como se não se importasse.

_ Quem se importa com Jasper? – disse ele com deboche na voz. Porém, silenciosamente, ele deu um passo para o lado, distanciando um pouco de Alice. Esta fingira não notar, mas esboçou um sorriso de escárnio – De qualquer forma, ele me parece bem ocupado, neste momento.

Apenas neste momento Alice deu atenção ao que Alec dizia. O olhou para ver do que ele falava e seguiu seu olhar. Em um canto um pouco afastado, onde não haviam muitas pessoas. Não as animadas, pelo menos. Estavam sob as colunas marmorizadas que sustentavam as escadas em formato de caracol.

Alice os observou por um tempo, enquanto eles pareciam em uma conversa íntima e acalorada. Se inclinavam um para o outro, parecendo ter o cuidado de não deixar que as outras pessoas os escutassem. Jasper tinha uma expressão atenta e concentrada, enquanto balançava a cabeça em concordância com alguma coisa que o homem falava. Parecia uma conversa em que Jasper não falava muito.

Em que tipo de conversava Jasper não falava muito?,essa questão acendeu em sua mente.

Depois de um tempo os observando, ela arregalou os olhos pelo que acontecera. Jasper retirou de dentro do bolso do casaco um pacote. Ela não teve certeza, mas reconhecia aquele pacote como sendo os que ganhavam as pessoas que sacavam dinheiro. O que tiravam era guardado em envelopes – envelopes para notas e pacotes quando se tinham os dois, além de jóias. Porque...porque Jasper daria dinheiro à um desconhecido? Alice franziu a testa.

Se aquilo fosse dinheiro, na melhor das hipóteses.

_ Não acha, Alice? – Alec perguntou para ela, mas ela nem mesmo fazia noção de sua presença ali. Não mais. Estava absorta na cena. Não parecia ser o primeiro encontro, tampouco a primeira conversa.

E ele não havia dito o que estava armando, ultimamente.

Ela tentou pensar racionalmente e deduzir que era alguma surpresa para ela. Talvez lhe tivesse comprado um presente.

Talvez fosse apenas sobre isso que ele estivesse tentando falar para ela, nos últimos dias.

Mas, embora quisesse sorrir com aquela constatação, algo no sexto sentido doentio de Alice não a deixou acreditar naquilo. Algo no fundo de sua consciência lhe gritava que havia alguma coisa acontecendo.

_ Alice! – Alec exclamara, dessa vez, a fim de ter a atenção de Alice, que parecia não tê-lo escutado em nenhuma de suas tentativas de conversar.

_ O que disse? – ela virou-se para ele, porém ele ainda não tinha totalmente sua atenção.

_ Oh, lhe disse que estou indo para a Capital, esta noite – sorriu ele, passando as mãos pela colarinho de seu terno azul – Recebi...bem, importantes ligações hoje pela manhã me pedindo exaustivamente que eu vá para lá resolver alguns problemas, acho que por conta da ausência de meu pai. Sabe como sou um importante banqueiro inglês que... Alice?

Alice já havia dado as costas à Alec e suas divagações inúteis e caminhou devagar entre as pessoas, seus olhos jamais abandonando à Jasper e ao homem desconhecido com quem conversava. E, finalmente, Jasper e ele cumprimentaram-se com um aperto de mão firme e seu marido dera as costas, voltando a misturar-se às pessoas animadas. Neste momento, tinha absoluta certeza de que ele a procurava.

Porém, Alice tinha outros planos. Embora estivesse determinada em sabe do que tratavam em uma conversa tão calorosa, ela sentiu-se um pouco receosa. Mas continuou com seus passos em direção ao homem, que ainda continuava parado em seu lugar, remexendo no pacote que havia ganho de Jasper.

Se ela parasse de andar, não teria coragem de voltar ali.

_ Olá – disse ela timidamente quando chegou perto dele. Sabia quem era aquele homem, tinha certeza disso.

_ Ah, olá Alice – disse o homem, dando um discreto passo para trás quando a reconheceu. Ele parecia distraído antes de sua chegada, mas Alice notou a mudança repentina em sua expressão. Parecia de apreensão – Como se sente? – indagou ele, e Alice reconheceu as irritantes palavras de Jasper imediatamente.

_ Bem, na verdade eu não saberia lhe responder isso – disse ela, não tendo mais noção de absolutamente nada – O vi conversando com meu marido à pouco...

_ Ah sim, Jasper – ele assentiu remexendo um pouco no pacote que havia ganho – Estávamos acertando os últimos detalhes da viajem.

Alice franziu a testa. A música começou a tocar um pouco mais alta, enquanto alguns casais se encaminhavam para o meio do salão, dançando.

_ Ah claro.... a viajem – ela sorriu, incerta, umedecendo os lábios rapidamente – Ele... ele me disse sobre a viajem.

O home pareceu ficar surpreso.

_ Diz seriamente? –indagou ele, ajeitando os óculos sobre o nariz afinado – Há alguns dias ele disseste que não sabia como contar-lhe isso, estava esperando o momento adequado.

_ Hãm... bem, pois ele me contou – ela insistiu em sua mentira, tentando descobrir do que se tratava a conversa, de fato – Então...estou ciente.

_ Oh, que bom então – o homem soltou o ar do peito, como se estivesse muito aliviado em saber que Jasper havia contado tudo para Alice – Fico feliz que você esteja calma quanto a isso Alice, estar calma é muito importante. Sei que é uma doença terrível, mas nós podemos reverter essa situação, estou certo disso.

Alice sentiu o coração parar dentro do peito. Então, de fato, havia uma doença. Ela pensava que estava escondendo isso de Jasper quando, na verdade, ele já sabia que ela estava doente, e não havia lhe dito absolutamente nada.

Ela engoliu em seco, sentindo as mãos ficarem geladas de repente.

_ Essa doença.... – ela murmurou, afetada – Não acho que seja tão ruim assim...

O homem arregalou levemente os olhos, como se discordasse daquela constatação veementemente.

_ Não é tão ruim? – ele repetiu suas palavras – Sinto em dizer-lhe, Alice minha cara, mas Tuberculose não a melhor das mazelas. Você corre risco se não iniciar o tratamento logo na Capital. Eu disse isso à Jasper e digo à você, agora.

Alice sentiu o chão sumir sob seus pés. O que aquele homem havia acabado de dizer?

_ Eu estou com Tu-Tuberculose? – ela repetiu com um sussurro sôfrego. De repente, as pessoas começaram a rodar à sua volta. O ar lhe faltou e ela já não reconhecida mais ninguém – Eu não... eu...

Apenas nesse momento foi que o Dr. Swan percebeu que, na realidade, Alice não sabia de nada. Havia mentido ao dizer que Jasper havia lhe dito sobre aquilo.

_ Oh Deus... – foi o que ele murmurou, indo em sua direção para apoiá-la – Eu sinto muito ter que lhe dizer isso mas... sim, você está doente, Alice – murmurou ele, enquanto os olhos dela enchiam-se de água – Você está com Tuberculose.

Alice soluçou, os olhos rolando para todos os rostos que haviam ali, como se estivessem em câmera lenta. Olhava sem realmente encontrar o que queria.

O único nome que gritava em sua cabeça era Jasper Witlock.

Notas finais
E então? Espero que tenham gostado Até o proximo